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Espanhóis debatem sistema tático da Fúria

13 de agosto de 2009 6

A Espanha variou do 4-4-2 para o 4-5-1, venceu, e deflagrou um debate tático na imprensa esportiva local

Depois de conquistar a Eurocopa, fazer bela campanha nas Eliminatórias, mas frustrar as boas perspectivas na Copa das Confederações, os espanhóis democratizam o debate sobre o sistema tático da seleção nacional. Hoje, diversos jornais da Espanha apresentam a discussão sobre as variações da Fúria, após a emocionante virada de 3 a 2 sobre a Macedônia em partida amistosa.

No El País, o artigo se intitula Dr. Jekyll y Mr. Hyde”, comparando a transformação notada na passagem do 4-4-2 para o 4-5-1 na Espanha de Vicente del Bosque. Outros grandes jornais, especificamente esportivos, como o As, o Marca e o Mundo Deportivo, apimentam a discussão. Um adendo, antes de participar da discussão: como é bom ver um país onde a imprensa esportiva lida com o debate tático com naturalidade. Parece-me que lá os jornalistas realmente sabem do que estão falando, e incentivam o “povão” a participar. Nota 10.

A Espanha iniciou o amistoso no 4-4-2, e terminou o 1º tempo levando 2 a 0. Vicente del Bosque manteve seu sistema tático predileto, com desenho em duas linhas, e estratégia voltada às jogadas pelos lados. Na direita, em combinações do lateral Arbeloa com o extremo Cazorla; e na esquerda, setor mais forte, sincronizando o lateral Capdevila e o winger Silva.

Xavi e Xabi Alonso formaram uma dupla de meio-campistas centrais típicos do 4-4-2 britânico. São dois “box-to-box”, nunca volantes, dois meias que marcam e armam, que defendem e protegem os zagueiros sem a bola, e avançam, articulam, apresentam-se à segunda bola, lançam, passam e concluem de média distância, com a posse. Na frente, uma dupla ambidestra de matadores: Villa pela esquerda, Torres pela direita.

No 2º tempo, Vicente del Bosque mudou para o 4-5-1 (ou 4-2-3-1, como queiram). Xabi Alonso deu lugar a Busquets (Marcos Sena segue de fora), Fábregas substituiu Cazorla e Riera entrou na vaga de Villa – esta, a troca que proporcionou a variação tática. Conforme o diagrama tático que ilustra o post, na prática houve duas mudanças de posicionamento: Silva passou da esquerda para o centro, e Torres também centralizou, como atacante singular. Fábregas pela direita e Riera pela esquerda mantiveram a função de wingers desempenhadas respectivamente por Cazorla e Silva na etapa inicial.

No 4-5-1, a Espanha virou o jogo. Conseguiu um quase inimaginável 3 a 2. A mudança suscitou um retorno ao debate tático que é bastante comum aos espanhóis: qual o sistema que mais valoriza o meio-campo? O futebol espanhol é vocacionado ao agrupamento do setor. Como Paulo Autuori definiu, na Espanha fala-se sempre nas “pequenas sociedades”, ou seja, na formação de triângulos (tática de grupo) que mantenham sempre três jogadores – pelo menos – próximos o suficiente para a troca de passes.

Os articulistas da imprensa esportiva espanhola defendem que no 4-5-1 esta valorização do meio-campo é mais consistente. A equipe deixa de jogar “pelas bandas”, e consegue se articular melhor. Não li, entretanto, nenhuma análise se o crescimento se deu realmente pela variação tática, ou pelas trocas de nomes. Afinal, saíram Villa e Xabi Alonso! E entrou Fábregas (que seria titular em, estimo, 99% das seleções mundiais). Até que ponto a vitória se deu pelo sistema, e até que ponto influíram as mudanças de nomes?

O debate vai permanecer, principalmente porque se aproxima a rodada das Eliminatórias Europeias. O sistema do 1º tempo foi utilizado também ontem, por exemplo, por Argentina e Inglaterra – a Argentina venceu a Rússia, e a Inglaterra buscou um grande empate com a Holanda, ambas fora de casa. Definitivamente, o 4-4-2 em duas linhas está longe de ser um sistema desprezível.

Outro aspecto interessante é a vocação tática de um país. A Espanha tenta se adequar a uma característica histórica sua. Tenta reafirmar a sua identidade tática. É como o próprio 4-4-2 britânico da Inglaterra (óbvio), ou o 4-3-3 da Holanda. Qualquer que seja o treinador, os ingleses sempre vão de duas linhas, e os holandeses não abdicam dos três atacantes. Qual a identidade da Espanha? O 4-4-2 “por las bandas” ou o 4-5-1 centralizado? Belo debate.

Postado por Eduardo Cecconi

Comentários (6)

  • Leonardo diz: 13 de agosto de 2009

    Equipes que triunfaram privilegiando a defesa com bons homens na frente: Grêmio 95, Milan 2007,Boca (2003-2007). Antes que citem Barcelona de 2006 e 2009: craques fora do comum reunidos (destoando das demais equipes, mesmo as grandes europeias) e defensores (nas duas equipes), sempre um volante, dois zagueiros, e um lateral preso que marcam muito. Porque toda regra tem exceção.

  • Leonardo sander diz: 13 de agosto de 2009

    Pra mim a seleção da espanha deveria jogar em um 4-4-2 com: Casillas
    Piqué Puyol
    Sergio Ramos Capdevilla
    Xabi alonso
    Xavi Iniesta

    Fabregás

    David villa
    Fernando torres

  • Leonardo diz: 13 de agosto de 2009

    “É a melhor do mundo” E perdeu para os EUA, vão perder a copa do mundo, assim como a seleção de 82 perdeu e o grêmio sequer classificará para a libertadores com Autuori. São times muito bonitos de se ver jogar, mas não para competir.Bom esquema é o que privilegia a defesa e que conta com bons jogadores do meio campo pra frente. Exs: seleções de 94 e 2002 do brasil, seleções alemãs que ganharam as copas, França 98. Não acredito em sucesso com futebol “faceiro”.

  • Fabio Henrique diz: 13 de agosto de 2009

    Excelente post. A ESpanha é para mim a melhor equipe do mundo hoje (melhor que o Real Madri), tendo diversos jogadores capazes de serem titulares. Senão vejamos: faltou Iniesta, Marcos Senna, Bojan, Sergio Ramos, Dani Guiza…e olhe que o lateral direito era o Arbeloa, kkkk!

  • Paz diz: 13 de agosto de 2009

    Primeiro, gostaria de dizer que julgo este blog claro e instrutivo – muita gente que se julga entendedor de futebol deveria dar uma passada por aqui.
    Segundo, aqui no Brasil ainda estamos muito presos à nomenclatura do esquema e não à função dos jogadores e à ocupação dos espaços dentro de campo, que é o que leva ao volume de jogo e, na maioria dos casos do inexato futebol, à vitória.
    Seguindo o exemplo da Fúria,4-5-1 aqui seria julgado um esquema retrancado e, no entanto, fez 3 gols em 45´.

  • Claudio Sacramento diz: 26 de maio de 2010

    Acho que pelo fato de termos dúvidas de qual a identidade tática histórica da Espanha e pela enorme qualidade (em quantidade) dos jogadores dessa geração é que esta é a grande oportunidade de se criar esta identidade. Nesta Copa do Mundo! E mesmo que a Espanha não consiga o título. Basta apresentar futebol semelhante ao que exibiu na Eurocopa de 2008. O 4-4-2 era a formação tática da seleção espanhola no torneio. Provavelmente o da Copa. E se tudo der certo pode ser a tal identidade espanhola demonstrada numa exibição de encher os olhos de quem gosta de futebol!

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