Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.

Avaí no embalo dos alas

23 de agosto de 2009 13

No Avaí, Silas utiliza a diagonal do ala oposto como uma das principais armas ofensivas

Hoje assisti à vitória do Avaí sobre o Flamengo por 3 a 0. Infelizmente, foi o primeiro jogo que pude ver do fantástico time de Silas, e ainda assim com algumas outras atribuições aqui na redação do clicEsportes. Por isso, a análise tática do Avaí que estou devendo há muitos dias aos leitores do blog Preleção está totalmente aberta a apontamentos, complementos e correções de todos que acompanham o Avaí há mais tempo. E restrita, claro, à minha observação de hoje.

Hoje (reitero), Silas amparou seu 3-5-2 na tática individual de seus alas. E pude perceber por diversas vezes um movimento muito utilizado por Celso Roth este ano, no Grêmio – movimento este que levou o então ala gremista Ruy a marcar muitos gols: a diagonal do ala oposto.

Essa diagonal do ala oposto é uma das prerrogativas mais fundamentais do 3-5-2 à brasileira. Afinal, se o sistema privilegia a articulação pelos lados do campo – na prática, resumindo o meio-campo à presença de três jogadores – estes alas precisam dar grande contribuição ofensiva. A lateralização dupla compensa a descentralização.

Funciona da seguinte forma: os alas precisam apoiar simultaneamente. Têm que ser assim. Um sobe com a bola, o outro sem ela. Quando um prepara o cruzamento pelo lado, o outro fecha na segunda trave, como um terceiro atacante, às costas da defesa – esta é a diagonal do ala oposto. No Grêmio, geralmente era Fábio Santos quem cruzava, e Ruy quem chegava no segundo pau – confiram aqui a análise deste movimento, que postei em 22 de fevereiro.

No Avaí, pelo que pude perceber, Silas prefere que Eltinho avance com a bola, e Luís Ricardo seja o responsável pela diagonal do ala oposto. Até porque Luís Ricardo é atacante. Silas “achou” ele como ala, descobriu no jogador características que poderiam se encaixar nas exigências da função. Esta é a famosa “mão do treinador”, por isso que tanto mérito se atribui a Silas no sucesso do Avaí neste Brasileirão.

Mas o Avaí não tem só a diagonal do ala oposto. No meio-campo, Léo Gago faz muito bem o vai-vem. Ele é peça rara no futebol brasileiro: volante canhoto. O volante canhoto é quase um artigo de luxo. No 3-5-2, com apenas três jogadores no setor, ele preenche melhor os espaços, auxilia na cobertura de ala ou zagueiro do lado, e sai para o jogo. Equilibra a equipe. O time não fica “capenga” para um lado.

Marquinhos é o organizador. Centraliza a distribuição das jogadas. Com quatro alternativas principais: ou os dois alas, ou os dois atacantes. Na frente, por sinal, o Avaí se diferencia dos 3-5-2`s brasileiros mais recentes – como o São Paulo de Muricy e o Grêmio de Roth. A equipe tem dois atacantes de velocidade. Hoje, foram Muriqui na esquerda e William na direita. Grêmio e São Paulo apostavam na combinação entre centroavante de referência, e jogador de movimentação.

Sem o “grandalhão”, o Avaí joga mais com a bola no chão. No outro desenho, o 3-5-2 corre o risco de resumir sua articulação à ligação direta pelo alto. Como fazia o Grêmio com Marcel, por exemplo. Zagueiros ligam direto, grandalhão disputa pelo alto, atacante de movimentação pega a segunda bola. O time se torna previsível, burocrático, e sem nenhuma criatividade.

Com dois atacantes de velocidade, Silas força Marquinhos a distribuir o jogo pelo chão. Muriqui e William gostam de se infiltrar. Abrir pelos lados. Levando a marcação e tornando possível ao ala oposto entrar livre na área, ou ao volante Léo Gago aparecer desmarcado de surpresa, ou até mesmo a Marquinhos ingressar para a conclusão.

Isso é sincronia de movimentos. O sistema, a estratégia e a escalação parecem ter encaixado. Não sou fã do 3-5-2 brasileiro, mas sou obrigado a reconhecer que no Avaí a equipe vai muito bem se utilizando desta tática.

Postado por Eduardo Cecconi

Comentários (13)

  • Medeiros diz: 24 de agosto de 2009

    Avashow rumo á Tókio, ninguém segura esse time, tá uma máquina. Massacramos o Flamengo e ainda seguramos o jogo, porque se o Avaí fosse pra cima de verdade era mais de 6… Coisa linda esse meu time…E o nosso rival cada vez pior, o fase boa, parece um sonho… Dá-lhe torcida , demos um show pra todo o BRASIL VER.Avaí sempre, maior e melhor torcida de Santa Catarina.

  • Ana Rosa diz: 24 de agosto de 2009

    oi, Cecconi! Grande post! O que acho que vale a pena ressaltar é que o William joga mais na área do que o Muriqui, que busca mais a ligação com o meio-campo. Também valeria analisar a mudança clássica que o Silas vem promovendo no ataque do Avaí no segundo tempo, com a saída de William para a entrada de Roberto, um atacante mais leve e veloz na minha opinião.
    Abs
    Ana

  • Caio diz: 24 de agosto de 2009

    Impressionante esse Fabinho Capixaba. Aqui no Palmeiras não jogava nada e era o jogador de quem a torcida mais reclamava. Agora, emprestado ao Avaí, vem jogando bem e já marcou um gol. Graças a esse esquema do Silas e o ambiente com pouca pressão que é um clube menor, como o Avaí.

  • pacato diz: 24 de agosto de 2009

    Cecconi, esse “findi” consegui acompanhar jogo da Inter, finalmente. 442losango: JC, Maicon, Lucio, Materazzi, Zanetti (humilhado); Viera centralizado, T.Motta pela esquerda, Muntari armando pela direita e Stankovic; Etoo na movimentação e Milito centralizado (perna-de-pau). Esse time não tem como ser campeão! Talvez com Cambiasso e Mancini voltando e coisa melhore. Ainda assim vi a genialidade de Mourinho. Não fosse a ruindade do Milito talvez tivesse tido um resultado positivo.

  • Fernando Avaiano diz: 24 de agosto de 2009

    Muito bom comentário e análise tática é perfeita. Talvez poderia comentar também sofre o sistema defensivo já que anteriormente o time tomava muitos gols e com 3 zagueiros e 1 volante de contensão deu muito mais proteção para a zaga. Com um melhor sistema de marcação possibilitou ao time como um todo evoluir todo seu jogo. Começo a concordar com o Menoti, ex-treinador Argentino, o melhor ataque é ter uma boa defesa (inverso). he he he.

  • Gabriel Santos Rodrigues diz: 24 de agosto de 2009

    No inicio do campeonato eu tinha comentado em um recado, pedindo a análise do Avaí, pq estava intrigado(pelos 5 empates iniciais seguidos) naquela época eles jogavam em um 4-4-2 semelhante ao do Grêmio do Paulo, só que bem como Rodrigo Silva falou, o Silas pede e o grupo faz, era isso de “diferente” que eu notava e não sabia o que era, muito bom posicionamento e comprometimento de TODOS com o grupo! E encontrando o Luís Ricardo na direita assim encaixando o time, as vitórias estão aparecendo…

  • Rafael Manfro diz: 25 de agosto de 2009

    Caro Eduardo
    Sou um dos que pediu uma análise do meu Avaí. Acho sua análise correta pelo jogo mas quando o Avaí joga fora de casa Willian passa a ser a referência como Aloísio fazia no SP e Muriqui volta mais pra buscar o jogo. Concordo que Léo Gago é diferenciado, mas no acesso a série B Silas também tinha um volante canhoto Batista que está no Botafogo e era o fator surpresa daquele time.
    saudações avaianas

  • Fabio Henrique diz: 24 de agosto de 2009

    Não entendo porque um time com três zagueiros precisa de dois volantes. Basta um. Se o adversário marcar os alas, ou colocar jogadores rápidos que caiam entre os alas e os zagueiros, acabou o time. Nesse caso, com dois meias articulando e um ligando-se com rapidez ao ataque, compensaria a anulação dos alas. E o volante daria o suporte a zaga. Tô errado, Cecconi?

    Resposta do Cecconi: olá Fábio. Acredito que o Silas opte pelos dois volantes porque tem esse apoio simultâneo muito forte dos alas, o que lhe proporciona cobertura também simultânea. Não acompanho os treinos do Avaí, mas acho que esta é a explicação. Abraços.

  • Eduardo diz: 23 de agosto de 2009

    O Gago era lateral no catarinense.

  • Lucas Trindade diz: 24 de agosto de 2009

    Bah cara, simplesmente perfeito.
    Pra atestar a tua tese te dou mais dois exemplos ainda de 2008: No Grêmio x Cruzeiro um gol do Paulo Sérgio exatamente nessa infiltração, depois ainda o gol do Anderson Pico contra o Palmeiras, ambos entrando na grande área pra concluir.
    Parabéns pelo blog.

    Ah, quanto a seleção do 1º turno que tu fizeste, entendi bem os critérios que tu usaste, mas o ala esquerdo do Goiás e um dos 3 zagueiros, o Hernando tinha uma vaguinha na tua equipe. Abraço

  • Francisco diz: 23 de agosto de 2009

    Excelente o comentário. Melhor análise tática feita até agora do Avaí. Acredito que o Luis Ricardo é peça fundamental no esquema do Avaí, assim como o Léo Gago.

  • Daniel diz: 24 de agosto de 2009

    Cecconi, uma boa questão: se o 3-5-2 está ultrapassado na Europa e o Autuori já o classificou como muito “previsível”, como explicar que tantos times o utilizem – com sucesso – ainda? O São Paulo foi campeão assim tantos anos, o Avaí está fazendo chover… como um esquema tão criticado por estes pagos pode ser tão “previsível”, “limitador” … eu não consigo entender.

    (E não sou fã do esquema. Ainda prefiro o 4-5-1 do Mano Meneses ou o 4-3-1-2 argemtino com o famoso “enganche”)

  • Rodrigo Silva diz: 23 de agosto de 2009

    Sou torcedor do Avaí e sempre acompanho teu blog. Muito legal ver as análises táticas de vários times, tanto do exterior quanto do Brasil. A gente que é torcedor a vezes não se foca muito nas questões táticas e estratégias de jogo mais modernas. O teu blog nos faz despertar esse lado treinador. Já faz tempo que estava pra mandar um comentário pedindo análise do time do Avaí. Realmente o Silas é um treinador novo e que tem muitas idéias bem diferentes. Já é um ídolo aqui. Ele pensa e o grupo faz.

Envie seu Comentário