Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros

Maradona escolheu uma tática, mas sem estratégia

15 de outubro de 2009 21

Diagrama tático da Argentina contra o Uruguai

Tenho assistido e lido a muitos comentários quase ofensivos ao trabalho de Maradona na seleção argentina. Palavras como “maçaroca” e “bagunça” foram utilizadas para descrever uma suposta ausência de organização. Respeitosamente me permito discordar desta análise. Esta divergência permite voltar a um assunto sempre relevante: a diferença entre tática e estratégia.

O sistema tático é a famosa tríade de números (4-4-2, 3-5-2, etc…). Ele define a disposição dos jogadores, o preenchimento dos espaços, a organização dos setores. Lida diretamente com o posicionamento inicial, o ponto de partida de cada atleta. Vulgarmente, é observado quando a equipe está sem a bola.

A estratégia leva em consideração um conjunto de ações vinculados ao sistema tático. As funções (táticas individuais) de cada jogador, as sincronias de movimentos (táticas de grupo), o sistema de marcação (zona, pressão por zona, pressão – alta, média, baixa - individual, individual por função, misto…), a proposta ofensiva (posse de bola, contra-ataque em velocidade, ligação direta…), a característica defensiva (linhas recuadas, linhas adiantadas).

A Argentina de Maradona sempre teve sistema tático. Mas não teve estratégia definida. Portanto, não foi uma equipe desorganizada, esteve longe de ser uma maçaroca, e ainda mais distante de ser uma bagunça. Em contrapartida, apesar da organização, prescindiu de planejamento, de sincronia de movimentos, não apresentou jogadas, variações durante jogos.

Maradona estreou no 4-4-2 em duas linhas. Bem britânico. Dois laterais-base, dois wingers, dois zagueiros, um volante marcador, um box-to-box, e dois atacantes de movimentação. Depois, na tentativa de acomodar os três atacantes – Messi, Agüero e Tevez – passou para o 3-4-3, ainda com meio-campo alinhad. Não deu certo. Tentou ainda um 4-3-3, mas não resistiu e retornou ao seu original, e predileto, 4-4-2 em duas linhas – e foi assim, conforme o diagrama tático que ilustra o post, que venceu o Uruguai fora de casa.

Faltou estratégia. Combinação entre jogadores – táticas de grupo. Maradona me passou a impressão que, definido o posicionamento inicial de cada jogador, caberia a eles jogar. O famoso “virem-se”. Confiando no talendo dos comandados, o técnico escolhia o sistema, escalava os jogadores, mas não planejava os movimentos. E na base do virem-se, os talentos naufragaram – mais significativamente Messi.

Faltou, portanto, a “mão do treinador”. Aquela capacidade de perceber as circunstâncias de cada jogo, os espaços vagos – e a melhor maneira de ocupá-los – e as virtudes a ser combatidas nos adversários. Faltou saber que o Brasil joga no contra-ataque, e é forte na bola aérea ofensiva. Faltou perceber que faltava à Argentina a figura do camisa 9 – que ele encontrou apenas na penúltima convocação, com Palermo e Higuaín. Faltaram muitas coisas. Faltou estratégia.

Faltou mecânica de jogo. Mas sistema tático e organização, isso a Argentina teve.

Postado por Eduardo Cecconi

Comentários (21)

  • Leonardo da Rocha Botega diz: 16 de outubro de 2009

    Maradona teve como tarefa reorganizar a seleção argentina após a saída de alguns eternos titulares (Zanetti, Cambiasso, etc.) que buscavam ser donos do time e dar oportunidades para novos, isso em uma eliminatória é bastante complicado, porém não tinha outra coisa a ser feita, isso explica um pouco a falta de mecânica de jogo.

  • Rafael Gelatti diz: 15 de outubro de 2009

    Faltou a famosa “mão do treinador” e olha que o treinador tem a mão mais famosa de todas!

  • Rafinha diz: 16 de outubro de 2009

    Na ultima linha tu definiu tudo,falta mecânica de jogo,isso é o que faz a diferença entre um treinador de verdade e um curioso,não basta definir um sitema e largar os jogadores em campo,é necessário ensaiar movimentos,tanto ofensivos como defensivos,belo texto.

  • Roberticus diz: 16 de outubro de 2009

    Cecconi, aquilo dos `wingers` apresenta uma curiosidade (me disculpe se ja sabia-lo) De origem, os wingers eram `outside-forwards` (extremos en espanhol; pontas em port.). Os britânicos erroneamente seguiam falando de wingers quando ja ultrapassaram os sistema W-M, 4-2-4 e 4-3-3 para o 4-4-2. Dai, deveriamos lhes denominar de wide midfielders, os quais, paradoxamente os espanhois chamam de `interiores abertos` para assim manter a distinção do winger/extremo (atacante aberto).

    Resposta do Cecconi: excelente esclarecimento. Boa contribuição. Abraços.

  • bruno diz: 16 de outubro de 2009

    maradona não é treinador…

    o que é um volante box-to-box??
    abraço

  • Ronei diz: 15 de outubro de 2009

    Olás, Eduardo. Sempre contente com tuas explicações, penso que o estilo do jogador Maradona era exatamente o faça por si mesmo. Foi um jogadoraço que resolvia, sem precisar se ater a estratégias pré-determinadas. E isso se reflete no time. Talvez por ser um cara fora-de-série, ele nem tenha dado tanta importância às estratégias dos seus treinadores. Já o Dunga, limitado tecnicamente, parece que assimilou melhor as experiências de jogador. PS: A seleção canarinha de 2006 afundou no “virem-se”.

  • Luís Carlos Zenatti diz: 15 de outubro de 2009

    Concordo plenamente com sua avaliação, a esquematização Argentina existe, é real. Todos sabem que hoje os argentinos possuem em seu elenco o melhor jogador, e na minha opinião esse é o principal erro do Maradona, pensando que Messi seria capaz de fazer o mesmo que ele fez nas copas de 86 e 90, chamar a responsabilidade. Com essa ideia, Maradona montou uma equipe pragmática confiando muito no talento de Messi, mas este sentiu a carga sobre ele e não conseguiu render o esperado pelo técnico.

  • GraxaimGaúcho diz: 16 de outubro de 2009

    Tchê, gosto muito desse teu blog; aprendo muito aqui. Fico curioso com nosso INTER, que ninguém sabe (há tempos) o que é tática e o que estratégia (se é que existem) nesse time. Prá mim, parece o `samba do crioulo doido`, como diriam os mais antigos… O que você acha disso, Cecconi? Há tática e/ou estratégia no INTERNACIONAL? Compare Tite e M. Sérgio, por favor.

    Resposta do Cecconi: amigão, esta comparação teria de ser feita com bastante critério, em um post amplo. Não sei se este assunto não mexeria com ânimos exasperados, fugindo à política de debates mais consistentes do blog. Ambos têm sistema tático e estratégia bem definidos, se posso fazer essa análise superficial. O do Tite era o sistema 4-4-2 em losango, com estratégia de posse de bola e organização pelo chão; já o Mário Sérgio tem sistema tático em 3-6-1, com estratégia de ligações diretas e cruzamentos pelos lados para a área, por cima. Abraços.

  • Vinícius diz: 16 de outubro de 2009

    Eu vi a maioria dos jogos da Argentina desde que o Maradona assumiu, e o 4-4-2 foi o sistema que melhor funcionou. As vitórias nos amistosos contra Escócia, França e Rússia, e, nas Eliminatórias contra o Uruguai, além do bom desempenho no primeiro tempo contra o Equador (todos jogos fora) confirmam a tese. As dificuldades em geral se deram, ao meu ver, em função das constantes mudanças de jogadores e sistema tático a cada partida, o que impediu a consolidação de uma lógica de `equipe`.

  • Cristiano diz: 15 de outubro de 2009

    Na boa que com esses jogadores, o técnico não precisa ser taticamente genial. O Maradona é ou será aquele tipo de técnico de coração, no estilo zagalo, apesar que o velho lobo teve muitos anos de cadeira. Isso traz uma vantagem para eles. Inegável que o Maradona, apesar de não ter estratégias geniais, acertou em cheio na escalação e na convocação, até de forma surpreendente. A razão não permitiria convocar palermo, schiavi e, até mesmo, o verón.E isso não deixa de ser estratégico.

  • Samuel Ritter diz: 16 de outubro de 2009

    Maradona é péssimo como técnico. Não digo que ele não entenda de futebol, mas talvez falte liderança e um pouco mais de humildade (se é que Argentino sabe o que é isso). Como treinador ele tem uma cabeça um pouco ultrapassada, como é o caso do Parreira. Não creio que a Argentina vai conseguir ir longe nessa copa.

  • Andrei Belmonte Haigert diz: 15 de outubro de 2009

    Cara teu blog é mto legal!!!
    ta de parabens!!!!!!!!

  • pacato diz: 16 de outubro de 2009

    SE o Messi fosse tão bom quanto se fala, a estratégia de Maradona funcionaria. Está provado que é um jogador acima da média, mas muito menos do que se ouve a seu respeito. Vejam Kaká que sempre resolve em qualquer estratégia (milan, real, brasil). Já o argentino só joga bem ao lado de outros geniais como xavi e daniel alves. ps: sim, devemos usar estratégia e tática como se usa no futebol.

  • Gabriel Marangon diz: 15 de outubro de 2009

    Discordo um pouco da leitura tática que fizeste. Pelo que percebi a Argentina estava mais em um 5-4-1 pois o Otamendi e o Heinze fechavam como zagueiros de fato enquanto Jonas Gutierrez e Di Maria revezavam quem cobriria o flanco. A frente dessa linha de até 5 ainda congestionou a entrada da área com Mascherano e Veron, ou seja teve estratégia, alias as velhas estratégias do Billardo. No segundo tempo vendo que estava perdendo a segunda bola,colocou o Bolati justamente para neutralizar o Urugua

  • richard ribeiro diz: 15 de outubro de 2009

    oi eduardo.
    achei a argentina com uma minima estrategia sim.
    a de girar a bola com veron ditando o ritmo.
    achei q o uruguai achou q a argentina iria pra cima, como tem jogado com a posse de bola sempre.afoita.
    gostei da mudanca de postura.
    cauteloso, ate demais eh verdade, mas isso foi o principal motivo de ter encaixado o jogo dos argentinos contra os uruguaios…
    desaceleraram o jogo.nao foram previsiveis como sempre foram na postura de saber jogar soh co a bola no ataque

  • Tricolor Jader diz: 16 de outubro de 2009

    Cecconi, denovo repito meus elogios ao blog. Gostaria de dar uma idéia de debate, peça aos leitores que façam sua escalação do time, e analise as 2 mais recorrentes e suas possibilidades? Tanto pra gremio quanto inter, que achas?

    Resposta do Cecconi: boa ideia Jader, podemos colocá-la em prática no futuro. Abraços.

  • Filipe Nunes diz: 15 de outubro de 2009

    Cecconi, fiquei confuso (e curioso) com todos esses sistemas de marcação. Sugiro reservar uma análise sobre o assunto qdo tiver a oportunidade.

    A diferença entre sistema e estratégia ficou mais clara agora. Mais uma ótima leitura!

  • fernando horta diz: 16 de outubro de 2009

    permita-me discordar, mas como enxadrista a mais de 30 anos, ex-tenente do exército e professor, seus conceitos de tática e estratégia estão completamente equivocados. Assim como também estão os dos jornalistas …

    Resposta do Cecconi: olá Fernando. Eu aplico os conceitos sobre sistemas táticos e estratégia utilizados no futebol, não no xadrez, nem nas guerras. Talvez esteja aí a diferença. Antes que contraponha, sei que a palavra tática surgiu no emprego militar, se não me engano na Grécia. Mas os conceitos de sistemas táticos e estratégia aplicados no futebol são estes. Não precisa me diferenciar dos jornalistas, também, porque sou um deles. Abraços.

  • Leonardo Sander diz: 15 de outubro de 2009

    Olá Cecconi tu não acha que a Argentina poderia jogar num 3-4-3 com o meio-campo em linha ficando assim: Andújar;Garay, Demichelis e Samuel;(da direita para a esquerda)Maxi rodrigues, Mascherano, F.Gago e Dátolo; Messi, Tevez e Aguero.O que tu acha disto???

  • Alessandro Hokama diz: 16 de outubro de 2009

    Eduardo, não seria melhor por o Gutierrez de lateral? e também convocar o Cambiasso? O que você acha?

    Resposta do Cecconi: Alessandro, discordo quanto ao Gutierrez – acho que ele é mais ofensivo. Sobre o Cambiasso, concordo. Continua jogando muita bola. É melhor que o Gago, que vinha sendo chamado com frequência. Abraços.

  • Preleção » Blog Archive » Seleções da Copa 2010: análise tática da Argentina diz: 7 de maio de 2010

    [...] de 2010, o blog Preleção abre os trabalhos do Grupo B com a Argentina. Equipe que, com Maradona, iniciou no 4-4-2, passou pelo 3-4-3 – melancolicamente – e retornou ao 4-4-2 em duas linhas de quatro jogadores, [...]

Envie seu Comentário