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Centroavante ou falso-nove?

02 de novembro de 2009 20

O centroavante tem uma área de ação mais restrita, enquanto o falso-nove recua, busca jogo, e se movimenta para os lados.

A pedidos de muitos leitores, trago ao debate deste feriado no blog Preleção a última coluna do cronista britânico Jonathan Wilson, publicada no blog The Question do jornal The Guardian, sob o título: Why are teams so tentative about false nines? If players who appear to be playing centre-forward, but drop deep, are so dangerous, why don`t more teams trust the system? (na tradução, algo mais ou menos assim: Porque os times hesitam tanto em usar um falso-nove? Se estes jogadores que deveriam ser centroavantes, mas recuam, são tão perigosos, porque mais times não confiam neste sistema?) – leiam aqui a coluna original.

A questão é simples: centroavante fixo ou de movimentação – o dito falso-nove? E essa pergunta o aflige especialmente, é óbvio, pela observação no futebol inglês. Mas ele também cita exemplos de outros grandes clubes de Europa, como o Barcelona. Segundo Wilson, Manchester United e Barcelona perdem taticamente trocando o falso-nove (respectivamente Tevez e Eto`o) por centroavantes ortodoxos de área (Berbatov e Ibrahimovic).

O raciocínio principal é sobre a indefinição na marcação. O centroavante de área joga posicionado, tendo um zagueiro em seu encalço, e liberando o outro para a cobertura. A marcação está definida, mesmo que antes essas coberturas fossem feitas por um lateral-base. Mas, como os meias-extremos estão cada vez mais ofensivos, os laterais precisam “bater” com estes wingers, e não conseguem mais fechar a área com eficácia no 4-4-2 britânico. Na teoria, e neste caso, o centroavante ortodoxo facilita as coisas para o adversário.

Para Wilson, no espelhamento de sistemas em duas linhas, ou apenas no confronto de qualquer sistema contra uma linha defensiva de quatro jogadores, é mais lógico atuar com um falso-nove. Afinal, se os laterais estão preocupados com os extremos, se o atacante de área recua para buscar jogo, cria duas situações: ou traz consigo o zagueiro, abrindo espaço na área; ou, se o zagueiro não o persegue, cria espaço para ele mesmo girar e partir com bola dominada. Ou seja, indefine a marcação.

Acredito que há alguns aspectos culturais e outros pontuais interferindo na aceitação plena do argumento de Jonathan Wilson. Existem sistemas, seleções ou clubes que não prescindem do camisa 9 típico – o caso da própria Inglaterra e da figura histórica do centroavante no 4-4-2 britânico. Em outros, entretanto, a tradição é jogar apenas com atacantes de movimentação – a história recente do Inter, por exemplo, que enfileirou Nilmar, Daniel Carvalho, Pato, Alex, Sóbis, Iarley…o que leva a torcida a resistir tanto à mudança de estilo proporcionada pela figura do 9, o vaiado Alecsandro.

As questões pontuais dizem respeito ao elenco. Se um time não tem bons “falsos-noves”, não pode fazer uso desta tática individual. É o caso do Bayern de Klinsmann, que tinha Podolski em má fase, mas dois centroavantes de área fazendo gols (Luca Toni e Klose), escalando ambos simultaneamente. A Juventus faz isso hoje com Amauri e Iaquinta, ao invés de colocar Del Piero na frente. Já na Argentina, Maradona lançou mão de vários “falsos noves” – Tevez, Agüero… – mas só se deu bem nas Eliminatórias quando abriu espaço para o centroavante ortodoxo (Palermo e Higuaín).

Há ainda os centroavantes ortodoxos que conseguem fazer o pivô, saindo da área e trazendo a marcação consigo, sem necessariamente se transformar no “falso-nove”. Continuam sendo centroavantes, camisas 9, mas com alguma movimentação em espaço restrito. Vejo em Adebayor esta característica: está na área, cabeceia, conclui, mas de vez em quando sai, puxa a marcação, faz as suas jogadas, sem deixar de ser um centroavante.

Jonathan Wilson finaliza a análise trazendo o Arsenal como o eterno exemplo da vanguarda no futebol inglês. Ele lembra que os Gunners inovaram com o falso-nove Bergkamp nos anos 90, e hoje têm em Van Persie “o falso-nove do futebol europeu no momento”. No 4-5-1 com três meias ofensivos, Van Persie tem atuado realmente como falso-nove, saindo da área para os ingressos dos wingers – Arshavin e Bendtner (um centroavante ortodoxo usado agora como meia-extremo, invertendo posição com o holandês).

Caso-a-caso, a questão de Jonathan Wilson é muito oportuna para os treinadores: levando-se em consideração o sistema, o elenco, e a cultura tática, qual a melhor solução? Centroavante ou falso-nove? Nos exemplos citados por ele, acredito, a análise acerta em todos: o Barça perde sem Eto`o, o Manchester perde sem Tevez, e o Arsenal ganha com esta inversão entre Van Persie e Bendtner.

Postado por Eduardo Cecconi

Comentários (20)

  • Leonardo sander diz: 3 de novembro de 2009

    Cecconi,o Inter não poderia jogar com Bolaños ou Edu vindo de trás, sendo pontas de lança(Q é a função de ambos, pq nenhum deles é um Atacante mesmo)juntamente com o Marquinhos, q poderia ser o tal “falso-nove” q se movimenta bastante, sai bem da área com velocidade levando consigo um zagueiro e abrindo espaço para o ponta de lança ou para o Giuliano, Andrézinho etc.Tu concorada, ou eu falei besteira, heheh???

  • Leonardo sander diz: 3 de novembro de 2009

    Cecconi o inter tem três opções.A do centro-avante “aipim” q fica plantado na área(caso do Alan Kardec), a do centro-avante, q não chega a ser um “falso nove” mas sabe se movimentar,sem querer fazer nenhuma comparação no caso do Adebayor, q no inter seria o Alecsandro(não tanto quanto o Adebayor no quisito movimentação, pq no técnico nem se fala), Walter e se não me engano o Léo, e também tem o “falso nove” caso do Marquinhos(e com algum esforço tbm Bolaños e Edu).Não concorda Cecconi???

    Resposta do Cecconi: Leonardo, realmente opções não faltam para o Inter. O problema é a urgência pela aproximação do fim do campeonato. Eu não mudaria mais a estrutura. Deixaria Alecsandro ou Kardec ao lado do Marquinhos ou do Edu. Abraços.

  • Rodrigo diz: 3 de novembro de 2009

    Cara tambem não acho que o Barça perdeu com a saida do Eto, Ibrahimovic é um dos atacantes mais completos do mundo, cabeceia, dribla, chuta com as 2 pernas e alem disso tem mobilidade na minha opinião é um “falso nove” assim como o Eto, e não sei se voce concorda mais alguns exemplos de “falsos noves” eu colocaria Alexandre Pato e Rooney

    Resposta do Cecconi: olá Rodrigo. Eu entre Eto`o e Ibra, prefiro Eto`o, mas respeito quem discorda. E concordo com teus exemplos, Rooney e Pato podem desempenhar essa função do falso nove. Abraços.

  • Pedro diz: 3 de novembro de 2009

    Nos exemplos citados por ele, só não concordo com o do Barcelona: acredito que a diferença de movimentação, de tática individual do Ibrahimovic para o Eto`o é pouca, se não for nenhuma: ambos poderiam ser considerados um falso-nove. A diferença técnica, ao meu ver, é maior, com (grande) vantagem pró Ibra. Abraço!

  • Blog do Carlão – Futebol é nossa área diz: 5 de novembro de 2009

    Vou discordar num ponto. A meu ver o Barça ganha e muito com Ibrahimovic. Porque além de ser mais jogador que Eto`o, ele também joga longe da área. Para mim o sueco faz os dois papéis: de centroavante e do chamado falso nove. Já fazia na Inter, inclusive.

  • Yuri diz: 4 de novembro de 2009

    outro detalhe que esqueci de falar, sem berbatov e com tevez ou rooney a jogada aérea do man united tinha SUMIDO (isso explica ronaldo de CF na UCL, ja que ele vivia marcando de cabeça), com berbatov ela voltou.. ontem ficaram 2 mil anos cruzando pra area em linha de fundo para macheda, owen ou rooney na area (todos com 1,70 e quebrados), rooney recuou como berbatov mas nao teve a qualidade do passe, precisou de lance furtuito (um baixinho de cabeça) pra marcar. isso pq berba ta longe do maximo

  • Yuri diz: 4 de novembro de 2009

    o manchester united perde sem tevez? nao sei, owen tem caracteristicas parecidas, berbatov da diversidade às jogadas. nao lembra da temporada que o time ganhou a UCL que o fergie colocava ronaldo de centro-avante fixo? jogo contra a roma por exemplo, ele fez gol mas quase nao tocou na bola, berbatov è mais tipico da função. ele tb recua e da passes magistrais mudando o jogo, nao é so CF cabeceador/chutador, é um dos que mais tem qualidade e visao de passe no elenco.

  • vicente diz: 3 de novembro de 2009

    O Fernandão, quando atacante, no Inter, era falso-nove também.

    Aliás, faz tempo que o Inter não joga com um nove-nove [ou nove-aipim] com sucesso [domingo, tentou-se com o Kardec]. Até o Alecsandro, que deveria ser um, sai da área [pela falta de pontas, como dito, já que Taison joga na diagonal], mesmo sem ter qualidade para fazê-lo [fora da área ele só "se pisa"].

  • Guilherme diz: 3 de novembro de 2009

    Eu acho que o Ibrahimovic está mais para um falso-nove do que para um centroavante ortodoxo, já que ele gosta de partir pra cima com bola dominada, na maioria das vezes pela direita.

  • Jonas Rafael diz: 6 de novembro de 2009

    Também acho o Eto`o muito mais jogador que o Ibrahimovic. Pra mim o camaronês é um Nilmar melhorado. Não sei como anda a fase dele agora, mas nos últimos anos foi sem dúvida o melhor atacante do mundo.

  • bruno diz: 3 de novembro de 2009

    só não concordo qdo diz que o Ibrahimovic é um “9″ ortodoxo…

  • Luiz Paulo Telo diz: 2 de novembro de 2009

    É tudo uma questão de estratégia e elenco.

    Para os exemplos da Barça e Manchester, também acho que as equipes perdem. Principalemnte pela caracteristica movimentação taticas dos dois times nos últimos anos.

    Agora, se tu tem no elenco um Adriano Imperador e um Perea, por exemplo, tu não pode optar por um falso-nove e, assim, perde consideravelmente em qualidade.

  • Ailson diz: 3 de novembro de 2009

    Não acredito que o Barça perca sem Eto`o, porque Ibrahimovic mostrou que sai bastante da área e com mt qualidade pra criar e também pra arrancar com bola dominada (na Inter fez vários golaços enfileirando dribles desde a intermediária)… na Inter já fazia isso e no Barça segue fazendo… além disso, muitas vezes se vê ele saindo da área para a entrada do Messi, vindo como surpresa, tanto que o Messi tem feito muitos gols assim.

  • Márcio diz: 3 de novembro de 2009

    Talvez por aí se explique a falta que Nilmar está fazendo no Inter. Alecsandro até tenta ser esse falso 9, mas não tem a mesma mobilidade e velocidade do anterior.

  • Andre diz: 2 de novembro de 2009

    Mas essa inversão é bastante usada na europa. O próprio Manchester vem jogando com suas 2 linhas de 4 e o Berbatov por trás do Rooney ou Owen.
    Eu acho interessante porque centroavantes por caracteristica, não tem tanta velocidade, mas procuram mais rapido a opção de passe em uma bola enfiada.

  • fernando diz: 3 de novembro de 2009

    bacana. tem o caso clássico do grêmio scolariano (primeiro com jardel, depois com zé alcino) que funcionou das duas formas. o 2o atacante (p. nunes) acabou virando artilheiro. nos casos citados, penso q a questão não é só tática – por exemplo, acho eto`o melhor que ibra em qq circunstância. mais estranho é o caso de bendtner: ele joga qse como único atacante na dinamarca (faz os dois noves?) e, apesar de grandalhão, não é exatamente um centroavante matador. e o maxi lopez não seria tb assim? abs

    Resposta do Cecconi: Fernando, eu acho que o Maxi se enquadra na categoria do “falso nove” que o Jonathan Wilson defende, embora ele não tenha tanta mobilidade. Ele sai da área, tanto que faz muitas assistências cruzando da direita pra Jonas ou Souza, levando a marcação junto. Mas também marca presença, faz gols. É um bom exemplo sim. Abraços.

  • volmar pisani diz: 3 de novembro de 2009

    escreves muito bem mas nao consegues explicar porque o Gremio nao ganha fora de casa.Falta postura tatica ja te falei que o tcheco e Sousa nao marcam nada.No 2tempo desaparecem de campo e com um a menos e impossivel ganhar

    Resposta do Cecconi: Volmar, não sei a qual assunto te referes, porque eu nunca tentei explicar porque o Grêmio não vence fora – deve ser por isso que, como tu diz, eu “não consigo”…hehehe. O assunto do post é outro. Abraços.

  • Oswaldo Borba diz: 3 de novembro de 2009

    O futebol é fascinante por não ter uma regra universal. Se tirasse um nove ortodoxo no Grêmio do Felipão, talvez aquele time não tivesse dado tão certo. Uma consideração: *nove fazendo pivô só funciona quando houver um legítimo ponta de lança no time (no inter, por ex., não há! de modo que não pode ser acusado o Alecsandro de não fazer pivô, como por vezes é falado pelos sábios de plantão!)

    Resposta do Cecconi: exato, Oswaldo. Foi por isso que fiz essas ressalvas às considerações do Jonathan Wilson, mesmo sabendo que ele é um mestre das análises táticas. Não dá para dizer que sempre o falso-nove vai funcionar. Futebol não tem uma regra neste caso. Sobre o Alecsandro, também concordo contigo. Abraços.

  • Rodrigo Leão diz: 3 de novembro de 2009

    Acho que depende muito do plantel que o treinador tem nas mãos. No caso do Inter, o ideal é jogar com um falso-nove, como o Nilmar fazia.

    Aproveitando: Dá uma lida no artigo do Jonathan sobre a importancia dos laterais. Muito interessante. Mas eu adicionaria os volantes nesse nível de importancia.\abraço

  • ATAQUE: CENTROAVANTE OU FALSO NOVE? « TWITEIROS diz: 14 de abril de 2010

    [...] faria esse papel de Falso-Nove no SPFC seria o Fernandinho. Conforme discussão no Blog Preleção, esse tipo de atacante sai mais da área para buscar o jogo, ataca com mais [...]

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