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Barça abre mão do 4-3-3 sem perder a força

25 de novembro de 2009 12

Barcelona muda e vence bem, com Iniesta desestruturando a marcação italiana

Ontem contra a Inter de Milão o técnico Guardiola preparou uma variação tática interessante no Barcelona. Ele abriu mão do tradicionalíssimo – e histórico – 4-3-3 do clube catalão, posicionando os jogadores em um 4-4-2 com desenho de difícil descrição no meio-campo. E a modificação de sistema em nada alterou a estratégia de jogo do Barça, que seguiu valorizando posse de bola com objetividade e ofensividade.

Culturalmente, o Barça joga no 4-3-3 com triângulo altovejam aqui. Na linha defensiva há sempre um lateral-apoiador e um base; no meio-campo, um volante centralizado e dois meias articuladores e ofensivos na base alta. O ataque costuma ter dois “pontas” de pés invertidos – destro na esquerda, canhoto na direita – com um finalizador na área. Mas ontem Guardiola não tinha nem Messi nem Ibrahimovic. E mudou o sistema.

Henry passou para o centro do ataque, com Pedro aberto na ponta-esquerda. Mas Iniesta, substituto de Messi, não foi atacante pela direita. Ele fechou para a meia-direita, empurrando Xavi para o meio e Keita ainda mais para o lado. Esta basculação dos meias formou uma espécie de linha com Keita na esquerda, Xavi ao centro e Iniesta pela direita – completamente livre para se movimentar e fazer diagonais na direção de Henry.

Esse posicionamento novo segurou Xavi, que permaneceu mais por dentro, no auxílio a Busquets. E Iniesta desestruturou o sistema defensivo da Inter, no seu 4-4-2 em losango. Ele bateu com Cambiasso, primeiro vértice do meio-campo, mas pela movimentação frequentemente tirou o volante argentino da frente da área, abrindo espaços para a circulação – sem marcação – de Henry, Pedro, Keita ou Xavi na entrada da área italiana.

Outro detalhe ofensivo é a compensação de forças, mantendo o equilíbrio da equipe. Sem Messi, e com Iniesta fechando na meia-direita, Guardiola abriu um corredor para o apoio de Daniel Alves. O lateral-direito atuou de maneira muito ofensiva. Do outro lado, com Pedro e Keita ocupando a faixa esquerda ofensiva, Abidal praticamente não pisou no campo adversário, mantendo-se na base da linha. Iniesta ora subia pelo meio, ora ajudava Daniel Alves na direita. O meio ainda contava como pivô de Henry e a aproximação de Xavi. Muitas opções, em todos os setores.

Defensivamente, houve uma basculação interessante. Pique saía na eventual cobertura de Daniel Alves, trazendo Puyol para a zaga central, e Abidal para a quarta-zaga. Esse movimento lateral sincronizado da linha defensiva é comum nos times que se utilizam do 4-4-2 em duas linhas, já que em outros sistemas quem cobre o lateral é o volante. Mas o Barça adotou esta estratégia, com sucesso, mantendo Busquets na frente da área, enquanto os zagueiros e Abidal seguravam as pontas na linha defensiva.

Um parêntese é válido para Mourinho. Embora seja seu fã, mais uma vez o técnico português até certo ponto me decepciona. Ontem no losango ele escalou três volantes marcadores: Thiago Mota, Cambiasso e Zanetti. Sei que estava sem Sneijder, mas ainda assim faltou ambição. A Inter jogou para não sofrer gols – como aconteceu em Milão no turno – e permitiu ao Barça controlar a posse sem oferecer resistência. É pouco para um grande elenco e para um grande técnico.

Mesmo sem o 4-3-3, sem Messi e Ibra, e com todas essas alterações táticas significativas, o Barcelona não alterou sua filosofia de futebol. Uma maneira linda de jogar: a posse de bola objetiva. O Barça teve assustadores 66% de posse. A Inter praticamente não viu a bola. E não é um controle enfadonho, de passes laterais.

A posse do Barça é objetiva. Trocam passes e se movimentam buscando espaços para a imediata infiltração. E quando não encontram chance, retomam o movimento devolvendo a bola para Xavi ou Iniesta redistribuírem o jogo. São muitas variações, combinações e movimentos ofensivos de uma equipe que chega a se posicionar com sete jogadores no campo ofensivo – o que permite pressão-alta na marcação assim que a bola é perdida, forçando o adversário a errar o contra-ataque.

Eu vejo o Barcelona jogar desta forma – sem Messi e Ibra – e lamento que no Brasil tanta gente goste do 3-6-1…como é bonito ver uma equipe que gosta de jogar futebol com a bola no pé sem perder a objetividade e sem se desguarnecer, marcando forte no campo adversário e criando diversas opções de jogadas.

Postado por Eduardo Cecconi

Comentários (12)

  • Pedrão3 diz: 25 de novembro de 2009

    Edu, belo post, como sempre. No último parágrafo, fala que no Brasil ninguém joga assim, ou ao menos tenta, jogar como o Barça. Quais as razões para isso? – Burrice tática dos jogadores? – Dos técnicos? – Campos muito grandes, que dificultam times compactos? – Pouca qualidade técnica? – Nova filosofia de futebol no Brasil, privilegiando defesa e não ataque? – Todas as alternativas acima ou nenhuma? Abs!

    Resposta do Cecconi: Pedrão, acredito que seja cultural. Na transição dos anos 80 para os 90, o 4-4-2 foi caracterizado como o “sistema brasileiro”, com o quadrado. Depois, veio a disseminação do Muricybol nos sistemas com três zagueiros. E o 4-3-3 acabou relegado, embora usado em algumas circunstâncias – o Corinthians venceu a Copa do Brasil dessa forma. Abraços.

  • Rafael Locatelli diz: 25 de novembro de 2009

    Cecconi, eu não gosto muito do futebol de toques do Barcelona, mas não há como não admirar o posicionamento adiantado do time. Eu sempre achei que quanto mais adiantado o time se posicionar, mais difícil pro adversário tocar bola e sair do próprio campo. E isso o Barcelona faz muito bem. Marca de cima, recupera a bola e a mantém no campo de ataque. Pq será que outros times não fazem isso?? E olha que eles jogam com o Puyol, que é bem fraco.

    Resposta do Cecconi: essa é a ideia, Rafael. Posicionando-se no campo adversário o Barça agride mais na marcação, tira espaços, induz ao erro, e imediatamente recupera a posse de bola. Isso tem de ser feito de maneira muito organizada. Abraços.

  • Caio diz: 26 de novembro de 2009

    Cecconi, o q vc acha? o Guardiola mudou o sistema do Barça pra “matar” o 4-4-2 da Inter ou por não ter Messi e Ibrahimovic? Ou seja: Ele mudou o sistema de acordo com o elenco que ele tinha ou de acordo com o adversário?

    Resposta do Cecconi: Caio, acredito que seja uma combinação. Ele já usou Iniesta na ausência de Messi e/ou Ibra, mas como atacante pelo lado. A troca do sistema se impôs para desordenar a marcação da Inter. Ele mudou de acordo com o elenco, mas também ambicionando explorar um defeito do adversário. Abraços.

  • Cléber Farias diz: 26 de novembro de 2009

    Boa tarde, tudo bem? Vejo duas explicações básicas para o bom resultado do Barcelona, primeiro a ótima condição física da equipe e segundo pela também ótima condição técnica desses atletas. Para exercer o tipo de marcação que o Barça exerce, pressão alta, somente com atletas do nível de um Barcelona mesmo. No Brasil não vejo capacidade de algumas equipes jogarem dessa forma pelo motivo supracitado. Você concorda Cecconi? Abraços,

    Resposta do Cecconi: Cléber, circunstancialmente isso pode ser feito. No 3-5-2, o Flu adotou essa postura contra o Cerro lá no Paraguai, e venceu. Acredito que possa ser feito mesmo sem tanta qualidade. Desde que haja comprometimento tático de todos. No que um furar, a barca afunda. Abraços.

  • Gustavo F. Barbosa diz: 25 de novembro de 2009

    Belo post.Porém vale resaltar que Inter joga quase sempre com 3 volantes sem perder a ofensividade.Mota tem sempre muita liberdade para atacar e Maicon é sempre “um ponta” e com as trasições o time sempre faz muitos gols.Sinceramente não acho que entraram cautelosos.O Inter foi pressionado, errou muitos passes e não teve tranquilidade para contra-atacar. Poderia estar mais ofensivo, e se mantivessem estes erros, o jogo seria o mesmo.É importante não generalizar e pensar.Méritos do Barça.Abraço.

  • fernando diz: 25 de novembro de 2009

    cecconi, preferências à parte, vamos falar do barça… como adversário, o q vc faria? será q não tem como aproveitar melhor as costas do daniel alves? e pra conter as saídas dos meias (os 3 saem, é um pavor!)… amontoaria gente no meio ou tentaria forçar o posicionamento defensivo de um deles, insistindo nas bolas enfiadas? em resumo – sei q tu admiras o ofensivismo catalão, mas qro te colocar na outra situação: como enfrentá-lo? abs!!

    Resposta do Cecconi: fernando, acredito que existam pelo menos dois caminhos – e podem haver ainda mais. Se a intenção for puramente defensiva, 4-4-2 em duas linhas muito compactas e recuadas, o que mantém o Barça com posse de bola, mas tira a objetividade por não dar espaços. Foi assim que o Rubin venceu no Camp Nou. Outra maneira pode ser também com as duas linhas, mas bem adiantadas. Tira espaço, disputa a posse de bola com o Barça, e sai rapidamente pelos lados com os wingers. Abraços.

  • Nerull diz: 25 de novembro de 2009

    Belo post… admiro muito seu blog, esta de parabens… alias, tentando responder a pergunta do fernando, posso estar errado mas no meu ver o melhor esquema contra o barça seria um parecido 4-3-3, com 2 pontas de velocidade e um meia habilidoso para conseguir distribuir os contra ataques para os pontas, assim, num eventual contra ataque bem sucedido seriam 3 atacantes contra 3 defensores.. tendo mais chances de marcar. No meu ver seria isso…

  • Daniel Seidel diz: 25 de novembro de 2009

    A grande diferença deste time do barça está sem dúvidas na dupla Xavi e Iniesta, pois esse esquema funciona bem, porque eles comandam a orquestra, a posse de bola parte sempre do ritmo que ambos dão para a partida. Diferentemente, do 4-3-3 do Milan, em que os seus meias não mantêm a posse , tornando um time frágil nesse esquema, pois sem a bola, a marcação e principalmente a recuperação da bola se tornam mais difíceis.

  • Éverton diz: 27 de novembro de 2009

    Cecconi, como tu montarias o time da Inter pra jogar contra o Barça? Disseste que te decepcionou a falta de ambição do Mourinho. Eu fiquei pensando o que ele poderia fazer, mas não há opções no elenco, eles tem apenas dois meias ofensivos que são Sneijder e o Stankovic, sem um deles, vejo com dificuldades planejar um esquema diferente do que o Mourinho colocou em campo.

    Resposta do Cecconi: Éverton, o próprio Mourinho declarou que só trabalha com dois sistemas – 4-4-2 em losango e 4-3-3 – sendo este seu preferido. Poderia ter jogado no 4-3-3, com triângulo baixo, espelhando dois volantes nos meias do Barça, e centralizando dois atacantes em cima da zaga e abrindo um nas costas do Daniel Alves. É só uma hipótese, claro, mas acho que poderia ser feito isso. Abraços. 

  • Gabriel diz: 27 de novembro de 2009

    Pra mim o melhor esquema eh sempre o 4-3-3(com dois meias e dois pontas), independentemente de qualidade técnica, ou do posicionamento adversário, ou de tradição e etc.
    A única coisa que realmente eh necessário para dar certo eh q os jogadores estejam muito bem fisicamente para fazerem marcação sobre pressão no campo adversário(o maior tempo possível, e quem cansar será substituído, sem dó) e contra-ataques rápidos, para poderem acelerar e desacelar o jogo na hora certa (assim como faz o Boca)

  • Roberticus diz: 27 de novembro de 2009

    Para mim, a perdida de Sneijder perjudica muito ao Inter já que Stankovic é mais box-to-box como é Lampard. Só Sneijder ofrece aquela fantasia de camisa 10.

  • Ailson diz: 27 de novembro de 2009

    Cecconi, tu não acha que, guardadas as devidas proporções, ficou parecido com o Grêmio de 95??? Um lateral apoiador no corredor, enquanto o outro guarda posição. Um volante a frente da área e um outro a sua frente… um meia esquerda combinado com um atacante pela esquerda, pra contrabalancear as jogadas ofensivas agudas… e um centroavante matador… não estou falando em qualidade, em clubismo, se é bom ou ruim, apenas a idéia central da coisa me pareceu similar, concordas?

    Resposta do Cecconi: Ailson, tem sim suas semelhanças. É uma boa constatação para quem afirma que o feijão-com-arroz só dá certo no Barça porque tem Ibra, Messi e outros craques. Bem planejado, dá certo com qualquer elenco competente. Abraços.

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