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A obsessão pela sobra não justifica os 3-5-2`s

27 de novembro de 2009 20

Simulação de uma basculação defensiva para cobertura do lateral-esquerdo, em sistema com linha defensiva de quatro jogadores

A disseminação do 3-5-2 e de todas as suas variações no futebol brasileiro, endossada pelos títulos conquistados pelo técnico Muricy Ramalho, tem entre suas principais justificativas a necessidade permanente de uma “sobra”. Esta figura do “zagueiro da sobra” – que substituiu o extinto líbero, no Brasil - a estratégia defensiva que se tornou uma obsessão por aqui. Para mim, fenômeno de difícil compreensão.

O zagueiro da sobra atua entre dois outros zagueiros. Estes marcam individualmente por função os eventuais dois atacantes adversários. Funciona da seguinte forma: os zagueiros dos lados perseguem os atacantes por onde eles forem. E o da sobra permanece posicionado, caso algum destes companheiros de defesa seja vencido. Para a cobertura.

É tão grande a obsessão pelo zagueiro da sobra que alguns técnicos fingem jogar no 4-4-2, mas não se desapegam dos três zagueiros. No Rio Grande do Sul, Paulo Porto fez isso pelo Brasil de Pelotas contra o Inter B recentemente. Um 4-4-2 com três volantes. Na prática, entretanto, um 3-5-2: o primeiro volante recuava para marcar individualmente um atacante, o zagueiro-central fazia a perseguição do centroavante, e o quarto-zagueiro formava a sobra.

O problema está na formação da sobra associada à marcação individual por função. Como o zagueiro da sobra é o único que mantém posicionamento, torna-se refém do desempenho individual dos companheiros. O primeiro perseguidor que falhar tecnicamente na marcação vai permitir ao adversário partir com espaço e em 2-1 sobre o “zagueiro da sobra”.

Os sistemas com linha defensiva de quatro jogadores – sejam eles o 4-4-2, o 4-3-3, o 4-5-1 e as variações de todos eles – sempre resolveram muito bem este problema. Primeiro, com a marcação por zona. Quatro faixas de campo paralelas às linhas laterais delimitando a área de atuação de cada jogador, que exerce pressão sobre o adversário que ingressa no seu respectivo espaço COM a bola. Todos os demais mantêm o posicionamento inicial.

E a sobra não é ignorada. No diagrama tático que ilustra o post, por exemplo, está uma das soluções óbvias da linha de quatro defensiva. A basculação. Suponhamos, como sugere o desenho, que o lateral-esquerdo subiu e o adversário contra-ataca às suas costas. Identificada a faixa de atuação do oponente, a linha defensiva – com os três jogadores remanescentes – movimenta-se de maneira sincronizada.

O quarto-zagueiro assume a zona do lateral-esquerdo; o zagueiro-central assume a zona do quarto-zagueiro; e o lateral-direito assume a zona do zagueiro-central. Com esta basculação, está formada a sobra: um homem na bola, um na cobertura, e um terceiro que pode ingressar em diagonal às costas dos companheiros para uma sobra complementar.

O Barcelona – vejam aqui, no 4-3-3, faz isso para proteger Daniel Alves. A zaga “bascula”, sem abandonar a marcação por zona e, portanto, sem “variar para o 3-5-2″, como alguns analistas erroneamente vêem estes movimentos – o fato de o lateral-base participar da basculação não o torna um terceiro zagueiro. É um movimento natural da linha defensiva de quatro jogadores.

Há ainda outra solução, também comum a estes sistemas: o uso dos volantes para a cobertura pelos lados. O volante assume a zona desguarnecida (ou por um lateral ou por um zagueiro que subiu e está sendo contra-atacado pelas costas) e recompõe a linha de quatro. O Barça, acredito, não se utilize deste movimento porque atua no 4-3-3 com triângulo alto, e se aplicar seu único volante na cobertura de Daniel Alves, abrirá a frente da área. Busquets permanece atento à segunda bola, e às infiltrações pelo meio.

Coloco estes movimentos em debate para desconstruir um pouco esta ideia cada vez mais arraigada no Brasil, de que o 3-5-2 “protege melhor a defesa” em função do “homem da sobra”. Não é verdade. Qualquer sistema que se utilize de linha defensiva combinada à marcação por zona tem alternativas para contar com um jogador a mais do que o número de adversários no ataque. E com a vantagem de não usar a pouco eficiente marcação individual por função.

Postado por Eduardo Cecconi

Comentários (20)

  • Saulo diz: 14 de janeiro de 2010

    Olá Eduardo, sempre acompanho o seu blog e posso dizer q estou aprendendo muito sobre futebol através das postagens. Vc se importaria se eu usasse a imagem q ilustra este post em uma postagem num blog de torcedores do São Paulo? Vou dar os créditos, é claro Obrigado

    Resposta do Cecconi: vai firme, Saulo. Sem problemas. Abração!

  • Jacira Franco diz: 28 de novembro de 2009

    Cecconi pensei que tu já havia voado direto para o show do AC/DC; e está ainda trabalhando?
    hehehehehhe abraços

  • Junior diz: 27 de novembro de 2009

    Para mim o grande problema desse esquema nem é muito a questão da sobra, mas sim do meio de campo: se formos analisar, seriam um ala pela direita e um pela esquerda, correto? Então teríamos 3 meio campistas apenas. No combate com um 4-4-2, por exemplo, faltaria um homem, e o domínio adversário no meio de campo seria algo quase certo. Logo, maior posse de bola, maior controle das ações durante a partida. Haveria também um desgaste grande sobre os meio campistas, que teriam que correr bem mais.

  • Tuiuan Almeida Veloso diz: 29 de novembro de 2009

    Cecconi, viste o jogo do Valência com o Mallorca? Caso tenha visto, o que tens a comentar sobre os habilidosos meias do Valência e sua constante movimentação

  • valdir espinosa diz: 28 de novembro de 2009

    Parabéns por seu comentário.
    Acompanho sempre seu trabalho.
    Tem sido importante para todos que queiram
    enriquecer seus conhecimentos.
    Abs

  • guilherme diz: 27 de novembro de 2009

    tu daria um excelente auxiliar técnico.
    com a prática, poderia ser um grande técnico.
    tu sabe analisar muito bem as táticas e, acredito, com uma certa rapidez que proporcionaria um bom auxílio na análise de equipes adversárias.
    parabéns pelo blog. sem dúvidas, é o melhor que já li na área do futebol.

  • rodrigo avila diz: 28 de novembro de 2009

    no brasil, poucos laterais têm características defensivas. jonathan, leo moura, juan, julio cesar, junior cesar, vitor, independente do esquema, não são jogadores com qualidade defensiva pra marcar atacantes. é por isso que muitos times jogam com 3 volantes, cada volante do lado sustenta um lateral. o 3-5-2 é um esquema covarde, troca-se um meia por uma sobra, os laterais continuam batendo com os laterais adversários. a coisa mais fácil que tem é destruir um 3-5-2, é só jogar com 1 só atacante.

  • retranqueirofc diz: 27 de novembro de 2009

    Ótimo post! Queria fazer apenas uma observação: será que a volatilidade dos treinadores em seus cargos (comum no Brasil) tbém não é um fator do advento desse tipo de marcação no Brasil? Pois creio que para armar a equipe em treino é mais fácil e, principalmente, mais rápido usar a marcação individual por função. Como os treinadores brasileiros sempre são contratados na “fogueira”, eles tem q rapidamente “acertar” a equipe. Há muitos contra-exemplos ao que eu disse, mas me passa essa impressão.

  • Dani Viegas diz: 29 de novembro de 2009

    Puxa! Neste post nem dá pra perceber que tu é terrivelmente contra o 3-5-2…
    E com certeza pra quem é admirador do famoso “Futebol Arte” ver uma partida nesse esquema é cruel.
    Apesar de pouco entender sobre todas as muitas variações táticas, gostava muito do 4-4-2 com o losângulo no meio que Tite usava no Inter, quando tinha as “peças” certas pra usar.
    E Maurício, o Cecconi NÃO pode ser técnico do Xavante, não pode abandonar o PJ do Inter… (brincadeirinha).
    Parabéns pelo Blog!

  • Gustavo F. Barbosa diz: 27 de novembro de 2009

    Belo post. Com o que foi dito não há nada a acrescentar. Compartilho desta idéia na íntegra, e a algum tempo tenho observado esta basculação da linha defensiva em alguns times, como Internazionale, o própio Barcelona que foi citado, etc.

    Espero que estas tendências comecem a disseminar no Brasil, pelo bem do nosso futebol…

    Um grande Abraço.

  • Daniel diz: 29 de novembro de 2009

    Mas o próprio Murici e o paulo Autuori reiteraram várias vezes uma informação que justifica essa disseminação no 3-5-2: Nossos laterais não sabem fazer essa “basculação”, ou seja, ocupar o espaço por dentro da linha de zaga. Não à toa, Tite usava Bolivar e Autuori o Mauro Fernandes nessas funções; “Laterais que apoiam” como Ruy, Jadilson, Leo Moura etc não sabem fazer esse movimento. Mas não quer dizer q alguns não saibam: Roberto Carlos e Cafu, mesmo tão ofensivos, faziam isso na Europa.

  • renato diz: 28 de novembro de 2009

    parabens edu
    otima analise do esquema 3 5 2
    se coloca dois atacantes aberto um em cada ponta como que o zagueiro da sobra vai dar cobertura se o atacante passar pelo marcador vai vir com bola dominada em velocidade para cima do zagueiro da sobra. para mim o time tem que se compactar tem que jogar em bloco um cobre o outro.
    um abraço

  • Emerson Skrabe diz: 30 de novembro de 2009

    Ceconni, legal a análise. Aliás, há não muito tempo atrás (décadas de 80 e começo da 90) só se jogava no 4-4-2 ou no 4-3-3 aqui no Brasil, e essas questões eram consideradas até óbvias. Mas eu, pessoalmente, gosto do 3-5-2, QUANDO ELE É OFENSIVO, com alas atuando avançados, com, pelo menos 1 zagueiro subindo (e não ficando na sobra), com um box-to-box no meio (mais um volante e um armador), como jogou o Grêmio do Tite e o Brasil do Felipão. Mas hoje só tem retranqueiro.

  • Bier diz: 27 de novembro de 2009

    Exatamente. Sempre falo isso para quem defende o 5-3-2 feito no brasil.
    A foto do teu primeiro post no blog ilustra bem esse movimento que vc falou.

  • Maurício Borges diz: 27 de novembro de 2009

    cecconi de tecnico do XAVANTE já! curso pra isso tu ja tem hehehe

  • Thiago diz: 28 de novembro de 2009

    Cara ta de parabens mesmo, voce tem tudo para se tornar um técnico, gosto muito da parte tática do futebol e este site é um ótimo auxilio, Parabens mesmo

    Abraços

  • Marcelo Costa diz: 28 de novembro de 2009

    Olá Pessoal, Acredito que o colega tem razão. A opção pela sobra é mais uma condição necessária que uma escolha por estilo. Como ocorrem em outros aspectos da gestão desportiva no Brasil, sobretudo no futebol, o espetaculo tornou-se apenas pragmático no sentido de evitar o gols… Não sei se lembram, a algum tempo a seleção sentia falta de zagueiros eficientes, talvez seja até uma “r-ecomenda-ção” rsrsr da CBF.

  • moses diz: 27 de novembro de 2009

    O problema é que no Brasil os laterais nao tem disciplina tatica, e se atiram. O sistema apenas funciona se os laterais souberem fazer a funcao de zagueiro. Muitas vezes os laterais sobem ao mesmo tempo, deixando os zagueiros no mano. Alem disto, o lateral que tem caracteristica de meia nao pode marcar o centroavante, prq mtas vezes nem sabe cabecear. Os problemas da sobra do 442 que levaram a disseminacao do 352 a brasileira muito estao ligados a falta de aptidao defensiva dos laterais de hj

  • Marcel diz: 27 de novembro de 2009

    Tche, teu blog é muito bom! Tens bibliografia para indicar a um iniciante nas análises táticas, como é o meu caso?
    Parabéns.

  • Marcelo Bonatto diz: 27 de novembro de 2009

    Exelente post, não sei se tu concorda comigo Cecconi, mas o 4-4-2 com duas linhas de quatro não funciona no Brasil por um motivo simples, os zagueiros e laterais brasileiros não saem com rapidez no momento da retomada de bola, todos ficam “plantados” na frente da área criando um espaço gigante erte a linhas de defesa e meio. Bem diferente do modelo europeu, onde todos saem com rapidez, forçando os meias, volantes e atacantes a sair também com mais velocidade. Abraço.

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