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Posts de novembro 2009

Catenaccio: pai da retranca e do contra-ataque

30 de novembro de 2009 21

O Catenaccio da Inter de Milão bicampeã europeia

Tenho falado muito no blog Preleção sobre tendência tática, quando associo os títulos conquistados por Muricy Ramalho à disseminação do 3-5-2 no Brasil. O Jonathan Wilson também debate com frequência no blog The Question do site do The Guardian a respeito da influência do 4-4-2 em duas linhas, que ele considera nociva na Inglaterra. E na leitura do livro "Elementi di Tattica Calcistica - Volume 1", escrito por Franco Ferrari, encontrei o gancho para falar também da cultura tática italiana.

Quando se diz que na Itália se pratica um futebol dos mais defensivistas, a origem está no Catenaccio. O Catenaccio não é bem um sistema tático, mas sim uma estratégia de jogo. E esta estratégia volta-se a duas prerrogativas fundamentais: solidez defensiva e velocidade no contra-ataque.

O surgimento do Catenaccio se deu no início da década de 30. A criação é atribuída a Karl Rappan, técnico do Grasshopers e depois da seleção da Suíça. Mas foi na Itália que esta estratégia se disseminou, tendo a Inter de Milão bicampeã europeia como seu principal propagandista.

Na descrição tática, o Catenaccio original pode ser visto como uma espécie de 4-3-3 sem laterais. Os jogadores eram distribuídos da seguinte forma: um líbero fixo (quase uma contradição, afinal o líbero é um jogador "livre"), que pode ser comparado ao nosso "homem da sobra" do 3-5-2 brasileiro; à frente deste líbero fixo, três zagueiros não menos rígidos; e logo depois do paredão de quatro zagueiros, um volante complementava o bloco defensivo.

No meio-campo, uma linha à frente do volante, posicionavam-se dois meias mais abertos, ainda no campo defensivo. E na frente, três atacantes: dois pontas e um centroavante. Notem no diagrama tático que ilustra o post a grande concentração de jogadores centralizados no campo defensivo, e o espaço entre eles e os atacantes.

Segundo Franco Ferrari, autor do livro citado e instrutor da escola de treinadores da Uefa, o Catenaccio variava o sistema de marcação entre o individual e a zona. E a estratégia de jogo assim é descrita por Ferrari: "o time estacionava no próprio campo, sempre com superioridade numérica, de maneira compacta e sem oferecer espaços; no momento da reconquista da bola, avançava-se em profundidade no campo adversário, com lançamentos longos".

Sem a bola, retranca; com a bola, contra-ataque veloz. Abdica da posse de bola, atrai estrategicamente o adversário para o próprio campo, assume o risco da pressão, até encontrar o momento certo de encaixar uma precisa transição ofensiva. Foi esta estratégia que durante muitos anos influenciou o futebol italiano, e fez esta escola clássica ser conhecida mundialmente pelo defensivismo e pelo pragmatismo.

Postado por Eduardo Cecconi

Mourinho do Italiano x Mourinho da Champions

29 de novembro de 2009 8

Diagrama tático da Inter de Milão que venceu a Fiorentina por 1 a 0, neste domingo

Já falei aqui no blog Preleção várias vezes sobre o livro "Mourinho: o porquê de tantas vitórias" escrito por quatro jornalistas portugueses, que dissecam o método de trabalho do hoje técnico da Inter de Milão. Nele, Mourinho afirma que trabalha apenas com dois sistemas táticos: o 4-3-3 - seu predileto, por considerá-lo o que faz a melhor ocupação de espaços - e o 4-4-2 com meio-campo em losango.

Na Inter, Mourinho adotou o 4-4-2 em losango. Recorre ao 4-3-3 apenas em circunstâncias de exceção. Como hoje, vencendo a Fiorentina em casa por 1 a 0 com um interessante equilíbrio de ações na escolha dos jogadores. A Inter, com a mudança para os três atacantes, voltou a jogar futebol.

No 4-3-3, Mourinho desenhou um triângulo de base alta no meio-campo. Cambiasso foi o vértice defensivo, com Stankovic na direita e Muntari na esquerda, de armadores. E na frente, ele optou por um ataque de dois centroavantes - Eto`o pouco à esquerda, e Diego Milito centralizado (às vezes, ambos trocavam de posição). E Quaresma muito aberto pela direita.

O equilíbrio se deu da seguinte forma: Mourinho "segurou" Stankovic, atribuindo a ele a distribuição das jogadas. E "soltou" Muntari para o apoio pela esquerda. Essa estratégia compensou a utilização de um atacante aberto pela direita. Quaresma foi quase um ponta, municiando os dois centroavantes. E Muntari fazia a passagem pela esquerda, aproximando-se de Eto`o quando o camaronês abria pelo lado.

Para não perder a segurança sem a posse de bola, Zanetti e Chivu foram laterais marcadores. Muito presos à base da linha defensiva. Somados a Cambiasso e aos zagueiros, eram cinco jogadores de bloqueio constante, com outros cinco apoiando.

Essa mudança, para um jogo em casa pelo Campeonato Italiano, explica um pouco o grande sucesso de Mourinho à frente do Inter no Nacional, e os recentes fracassos na Liga dos Campeões. Existem dois Mourinhos. O treinador português adota uma postura no Italiano - ofensiva, de "time grande", requerendo o protagonismo de cada partida, com posse de bola e objetividade; e outra postura na Champions - cauteloso em excesso, quase defensivista, burocrático e pragmático.

Contra o Barcelona, fora de casa - pela Champions - a Inter perdeu por 2 a 0 jogando no 4-4-2 com três volantes no losango: Cambiasso, Zanetti e Thiago Motta. A Inter não teve nenhuma posse de bola, nem velocidade na transição ofensiva. Simplesmente, deixou o Barça bater, aceitou o domínio, e foi a nocaute. E hoje, no Italiano, escalou a equipe no 4-3-3 com apenas um volante. Uma mudança radical de estrutura tática e de estratégia.

Talvez se o Mourinho do Italiano começar a treinar a Inter na Champions, a multicampeã nacional possa enfim, sob o comando do técnico português, vencer também no continente.

Postado por Eduardo Cecconi

A obsessão pela sobra não justifica os 3-5-2`s

27 de novembro de 2009 20

Simulação de uma basculação defensiva para cobertura do lateral-esquerdo, em sistema com linha defensiva de quatro jogadores

A disseminação do 3-5-2 e de todas as suas variações no futebol brasileiro, endossada pelos títulos conquistados pelo técnico Muricy Ramalho, tem entre suas principais justificativas a necessidade permanente de uma "sobra". Esta figura do "zagueiro da sobra" - que substituiu o extinto líbero, no Brasil - a estratégia defensiva que se tornou uma obsessão por aqui. Para mim, fenômeno de difícil compreensão.

O zagueiro da sobra atua entre dois outros zagueiros. Estes marcam individualmente por função os eventuais dois atacantes adversários. Funciona da seguinte forma: os zagueiros dos lados perseguem os atacantes por onde eles forem. E o da sobra permanece posicionado, caso algum destes companheiros de defesa seja vencido. Para a cobertura.

É tão grande a obsessão pelo zagueiro da sobra que alguns técnicos fingem jogar no 4-4-2, mas não se desapegam dos três zagueiros. No Rio Grande do Sul, Paulo Porto fez isso pelo Brasil de Pelotas contra o Inter B recentemente. Um 4-4-2 com três volantes. Na prática, entretanto, um 3-5-2: o primeiro volante recuava para marcar individualmente um atacante, o zagueiro-central fazia a perseguição do centroavante, e o quarto-zagueiro formava a sobra.

O problema está na formação da sobra associada à marcação individual por função. Como o zagueiro da sobra é o único que mantém posicionamento, torna-se refém do desempenho individual dos companheiros. O primeiro perseguidor que falhar tecnicamente na marcação vai permitir ao adversário partir com espaço e em 2-1 sobre o "zagueiro da sobra".

Os sistemas com linha defensiva de quatro jogadores - sejam eles o 4-4-2, o 4-3-3, o 4-5-1 e as variações de todos eles - sempre resolveram muito bem este problema. Primeiro, com a marcação por zona. Quatro faixas de campo paralelas às linhas laterais delimitando a área de atuação de cada jogador, que exerce pressão sobre o adversário que ingressa no seu respectivo espaço COM a bola. Todos os demais mantêm o posicionamento inicial.

E a sobra não é ignorada. No diagrama tático que ilustra o post, por exemplo, está uma das soluções óbvias da linha de quatro defensiva. A basculação. Suponhamos, como sugere o desenho, que o lateral-esquerdo subiu e o adversário contra-ataca às suas costas. Identificada a faixa de atuação do oponente, a linha defensiva - com os três jogadores remanescentes - movimenta-se de maneira sincronizada.

O quarto-zagueiro assume a zona do lateral-esquerdo; o zagueiro-central assume a zona do quarto-zagueiro; e o lateral-direito assume a zona do zagueiro-central. Com esta basculação, está formada a sobra: um homem na bola, um na cobertura, e um terceiro que pode ingressar em diagonal às costas dos companheiros para uma sobra complementar.

O Barcelona - vejam aqui, no 4-3-3, faz isso para proteger Daniel Alves. A zaga "bascula", sem abandonar a marcação por zona e, portanto, sem "variar para o 3-5-2", como alguns analistas erroneamente vêem estes movimentos - o fato de o lateral-base participar da basculação não o torna um terceiro zagueiro. É um movimento natural da linha defensiva de quatro jogadores.

Há ainda outra solução, também comum a estes sistemas: o uso dos volantes para a cobertura pelos lados. O volante assume a zona desguarnecida (ou por um lateral ou por um zagueiro que subiu e está sendo contra-atacado pelas costas) e recompõe a linha de quatro. O Barça, acredito, não se utilize deste movimento porque atua no 4-3-3 com triângulo alto, e se aplicar seu único volante na cobertura de Daniel Alves, abrirá a frente da área. Busquets permanece atento à segunda bola, e às infiltrações pelo meio.

Coloco estes movimentos em debate para desconstruir um pouco esta ideia cada vez mais arraigada no Brasil, de que o 3-5-2 "protege melhor a defesa" em função do "homem da sobra". Não é verdade. Qualquer sistema que se utilize de linha defensiva combinada à marcação por zona tem alternativas para contar com um jogador a mais do que o número de adversários no ataque. E com a vantagem de não usar a pouco eficiente marcação individual por função.

Postado por Eduardo Cecconi

CSKA e as variações de sistema

26 de novembro de 2009 4

Diagrama tático do CSKA

Teoria tática em diversos momentos apresenta situações que podem ser interpretadas de maneiras diferentes. Isso costuma acontecer bastante em sistemas que permitem muitas combinações, como o 4-5-1 e seus desdobramentos.

O CSKA, por exemplo, atua no 4-5-1 com dois volantes e três meias ofensivos, também chamado de 4-2-3-1. Mas, dependendo das funções de cata atleta da segunda linha de meio-campo, e do posicionamento deles, outras leituras podem surgir. Eu via no Corinthians campeão da Copa do Brasil o 4-3-3, com Dentinho e J.Henrique atuando como atacantes pelos lados, enquanto outros os viam como meias-extremos normais do 4-2-3-1.

No time russo, a semelhança entre dois sistemas é outra. O meia centralizado da segunda linha, Necid, aproxima-se bastante do posicionamento original do atacante Dzagoev. Ambos recuam para buscar jogo, e "misturam" se ao meio campo, passando algumas vezes a impressão de um 4-4-2.

Mas os meias-extremos não mantêm-se fixos à linha quando não existe posse de bola. Também adiantam a marcação na comparação com os volantes. O que reforça a ideia do 4-5-1 com três meias ofensivos.

Na defesa, a única certeza. Os laterais apoiam pouco, configurando uma linha bem rígida. É ela quem sustenta esse aparato ofensivo de pelo menos quatro jogadores adiantados - Rahimic e Mamayev pelos lados, Necid e Dzagoev centralizados.

Eu, que já havia assistido a partidas recentes do CSKA antes desta vitória de ontem sobre o Wolfsburg, na Rússia, fiquei novamente ao lado do 4-5-1.

Postado por Eduardo Cecconi

Barça abre mão do 4-3-3 sem perder a força

25 de novembro de 2009 12

Barcelona muda e vence bem, com Iniesta desestruturando a marcação italiana

Ontem contra a Inter de Milão o técnico Guardiola preparou uma variação tática interessante no Barcelona. Ele abriu mão do tradicionalíssimo - e histórico - 4-3-3 do clube catalão, posicionando os jogadores em um 4-4-2 com desenho de difícil descrição no meio-campo. E a modificação de sistema em nada alterou a estratégia de jogo do Barça, que seguiu valorizando posse de bola com objetividade e ofensividade.

Culturalmente, o Barça joga no 4-3-3 com triângulo alto - vejam aqui. Na linha defensiva há sempre um lateral-apoiador e um base; no meio-campo, um volante centralizado e dois meias articuladores e ofensivos na base alta. O ataque costuma ter dois "pontas" de pés invertidos - destro na esquerda, canhoto na direita - com um finalizador na área. Mas ontem Guardiola não tinha nem Messi nem Ibrahimovic. E mudou o sistema.

Henry passou para o centro do ataque, com Pedro aberto na ponta-esquerda. Mas Iniesta, substituto de Messi, não foi atacante pela direita. Ele fechou para a meia-direita, empurrando Xavi para o meio e Keita ainda mais para o lado. Esta basculação dos meias formou uma espécie de linha com Keita na esquerda, Xavi ao centro e Iniesta pela direita - completamente livre para se movimentar e fazer diagonais na direção de Henry.

Esse posicionamento novo segurou Xavi, que permaneceu mais por dentro, no auxílio a Busquets. E Iniesta desestruturou o sistema defensivo da Inter, no seu 4-4-2 em losango. Ele bateu com Cambiasso, primeiro vértice do meio-campo, mas pela movimentação frequentemente tirou o volante argentino da frente da área, abrindo espaços para a circulação - sem marcação - de Henry, Pedro, Keita ou Xavi na entrada da área italiana.

Outro detalhe ofensivo é a compensação de forças, mantendo o equilíbrio da equipe. Sem Messi, e com Iniesta fechando na meia-direita, Guardiola abriu um corredor para o apoio de Daniel Alves. O lateral-direito atuou de maneira muito ofensiva. Do outro lado, com Pedro e Keita ocupando a faixa esquerda ofensiva, Abidal praticamente não pisou no campo adversário, mantendo-se na base da linha. Iniesta ora subia pelo meio, ora ajudava Daniel Alves na direita. O meio ainda contava como pivô de Henry e a aproximação de Xavi. Muitas opções, em todos os setores.

Defensivamente, houve uma basculação interessante. Pique saía na eventual cobertura de Daniel Alves, trazendo Puyol para a zaga central, e Abidal para a quarta-zaga. Esse movimento lateral sincronizado da linha defensiva é comum nos times que se utilizam do 4-4-2 em duas linhas, já que em outros sistemas quem cobre o lateral é o volante. Mas o Barça adotou esta estratégia, com sucesso, mantendo Busquets na frente da área, enquanto os zagueiros e Abidal seguravam as pontas na linha defensiva.

Um parêntese é válido para Mourinho. Embora seja seu fã, mais uma vez o técnico português até certo ponto me decepciona. Ontem no losango ele escalou três volantes marcadores: Thiago Mota, Cambiasso e Zanetti. Sei que estava sem Sneijder, mas ainda assim faltou ambição. A Inter jogou para não sofrer gols - como aconteceu em Milão no turno - e permitiu ao Barça controlar a posse sem oferecer resistência. É pouco para um grande elenco e para um grande técnico.

Mesmo sem o 4-3-3, sem Messi e Ibra, e com todas essas alterações táticas significativas, o Barcelona não alterou sua filosofia de futebol. Uma maneira linda de jogar: a posse de bola objetiva. O Barça teve assustadores 66% de posse. A Inter praticamente não viu a bola. E não é um controle enfadonho, de passes laterais.

A posse do Barça é objetiva. Trocam passes e se movimentam buscando espaços para a imediata infiltração. E quando não encontram chance, retomam o movimento devolvendo a bola para Xavi ou Iniesta redistribuírem o jogo. São muitas variações, combinações e movimentos ofensivos de uma equipe que chega a se posicionar com sete jogadores no campo ofensivo - o que permite pressão-alta na marcação assim que a bola é perdida, forçando o adversário a errar o contra-ataque.

Eu vejo o Barcelona jogar desta forma - sem Messi e Ibra - e lamento que no Brasil tanta gente goste do 3-6-1...como é bonito ver uma equipe que gosta de jogar futebol com a bola no pé sem perder a objetividade e sem se desguarnecer, marcando forte no campo adversário e criando diversas opções de jogadas.

Postado por Eduardo Cecconi

Stuttgart sufoca o Rangers no 4-4-2

24 de novembro de 2009 0

Diagrama tático do Stuttgart

Hoje o Stuttgart conseguiu sucesso em partida pela Liga dos Campeões da Europa, vencendo o Rangers fora de casa - por 2 a 0 - usando um modelo de 4-4-2 bastante comum entre os clubes alemães.

O Stuttgart reprisa o que fazia Klinsmann no Bayern de Munique. A linha de meio-campo conta com dois meio-campistas centrais mais marcadores, enquanto os meias-extremos assumam um posicionamento mais adiantado. Essa estratégia permite à equipe exercer marcação alta no campo do adversário e ainda assim contar com a segurança de dois volantes.

Neste Stuttgart, os volantes são Kuzmanovic e Träsch, enquanto os extremos são Hleb e Rudy. Eles abastecem dois centroavantes, Cacau e o russo Pogrebnyak. Ambos recuam bastante para buscar a bola, o que naturalmente traz os meias-extremos para o jogo curto de maneira mais centralizada.

As aproximações e o posicionamento avançado auxiliam no controle da posse de bola, e ao mesmo tempo induzem o adversário ao erro na tentativa de transição ofensiva. Na Escócia, o Stuttgart alcançou 61% de posse. Foram 26 oportunidades de gol, contra 3 do Rangers. Um massacre.

Os dois gols - de Rudy e Kuzmanovic - surgiram de jogadas com muitas trocas de passes, inversões de lado, e combinação de bola longa e curta. Vale destacar, claro, que o Rangers já se mostrou bastante abaixo na comparação com os adversários, sofrendo derrota muito mais constrangedora em casa do Sevilla. Mas a análise vale pelo "comportamento alemão" do Stuttgart.

Postado por Eduardo Cecconi

Box-to-box funciona no Manchester United

22 de novembro de 2009 13

Diagrama tático do adiantamento das linhas do Manchester United, com Fletcher e Carrick na segunda bola

Há alguns anos nenhuma emissora de TV - aberta ou paga - transmitia no Brasil os jogos do Campeonato Inglês. Ainda assim, era possível sempre acompanhar nos "Gols do Fantástico" alguns golaços da Premier League, nas noites de domingo. Eram gols, invariavelmente, marcados com potentes chutes de fora da área.

Essa é uma das principais virtudes exigidas pela tática individual do "box-to-box" no 4-4-2 em duas linhas: a conclusão de média/longa distância. A característica do tradicional sistema tático britânico mudou um pouco, principalmente devido à qualificação dos elencos - com jogadores mais técnicos - mas ainda há espaço para jogadores que desempenham esta função da maneira clássica.

No Manchester United, por exemplo, a titularidade de Fletcher e Carrick se explica, entre outras coisas, pela precisão nos chutes de fora. Ontem, ambos deram uma aula sobre o box-to-box na partida vencida pelo Manchester United por 3 a 0 sobre o Everton. Cada um deles marcou um gol de fora da área.

Box-to-box é uma referência ao jogador que faz, no meio-campo central, o "vai-vem". Box significa área, em inglês, portanto a tradução é "de área a área". A imagem é claríssima: o jogador que sem a bola posiciona-se defensivamente à frente da própria área, e quando a equipe recupera a bola aproxima-se dos atacantes, nos arredores da área adversária. Atuar nos dois campos é prerrogativa básica desta tática individual.

A conclusão de fora dos meio-campistas box-to-box é consequência do adiantamento das linhas. É um movimento organizado comum ao 4-4-2 britânico. No diagrama tático que ilustra o post, faço a simulação de uma jogada de linha de fundo pela esquerda, usando como referência o gol marcado por Fletcher. É uma reprodução do movimento ideal de cada jogador nesta situação.

A segunda linha adianta-se completamente. Se o winger esquerdo (Giggs) procura o fundo, o winger direito (Valencia) fecha em diagonal para a segunda trave, enquanto um atacante (Owen) entra na primeira trave, e o outro atacante (Rooney) centraliza. A formação se completa com os dois box-to-box posicionados na entrada da grande área, buscando a segunda bola.

O adiantamento da segunda linha proporciona assim duas situações de protagonismo para os box-to-box: os atacantes podem usar o pivô para serví-los (o gol de Fletcher saiu de uma ajeitada de Valencia), ou eles podem bloquear o contra-ataque sufocando em pressão caso o adversário afaste o cruzamento (o gol de Carrick saiu dessa forma).

Para completar, a linha defensiva também avança. Caso a primeira pressão, alta, dos box-to-box falhe na transição ofensiva adversária, os zagueiros e laterais diminuem o campo de ação, tirando a velocidade e o espaço dos meias ou atacantes oponentes.

Acredito que esta característica tenha sido determinante para a reserva de Anderson no Manchester United. Ele não conclui. Quando se aproxima da área, é apenas para distribuir o jogo. Já Fletcher, Carrick e o veterano Scholes marcam com alguma frequência belos gols em chutes de longe. Vale o mesmo para o Liverpool, que sente a saída de Xabi Alonso - jogador que fazia isso com muita qualidade - enquanto Lucas e Mascherano não concluem.

Todos os times que atuam neste 4-4-2 em duas linhas precisam de um box-to-box talentoso na conclusão. O Tottenham tem Huddlestone. Antes de Xabi Alonso, Gerrard era o jogador ideal para a função no Liverpool. O City conta com Barry e Ireland. Na seleção, Lampard é o box-to-box pela direita. Ontem, o Manchester United mostrou que Fletcher e Carrick integram esta lista de bons jogadores para a função.

Postado por Eduardo Cecconi

Defensivismo ainda resiste na Inglaterra

21 de novembro de 2009 9

Diagrama tático do Liverpool no 4-4-1-1, contra o City no 4-1-4-1, e o consequente espelhamento

Por muitos anos o Campeonato Inglês sofreu com o estereótipo do defensivismo exacerbado, da rigidez do 4-4-2 em duas linhas, da falta de criatividade, e da articulação ofensiva resumida ao "chuveirinho". O crescimento financeiro de clubes contribuiu para a mudança de perspectiva. A Premiere League agora é considerada a competição nacional mais qualificada da Europa, mas ainda sobrevivem conceitos defensivistas arraigados à tradição inglesa.

Hoje, os técnicos de Liverpool e Manchester City demonstraram que não pretendem abandonar planejamentos táticos voltados ao combate das virtudes adversárias. Tanto o anfitrião Rafa Benítez como também o visitante Mark Hughes decepcionaram em Anfield Road, relegando sistemas e jogadores mais ofensivos que poderiam ser escolhidos, em nome do encaixe da marcação. Anularam, desta forma, o adversário e a si mesmos.

Ambos optaram pelo 4-5-1. No Liverpool, a disposição dos jogadores pode ser desdobrada em 4-4-1-1. São duas linhas de quatro jogadores, com Gerrard à frente da segunda, e Ngog isolado na frente. E no Manchester City, o desdobramento dá no pragmático 4-1-4-1, com duas linhas de quatro jogadores, um volante entre elas, e Adebayor não menos sozinho.

A sobreposição dos sistemas de Liverpool e City apresenta um espelhamento exato das marcações, conforme demonstra o diagrama tático que ilustra o post. De Jong, o volante entre as linhas do City, confrontou-se com Gerrard, o enganche do Liverpool. De resto, wingers bateram com laterais, e os meio-campistas centrais com os respectivos meio-campistas centrais do adversário. Espelhamento que permitiu sempre existir uma sobra - o único atacante de cada equipe entre dois zagueiros.

Rafa Benítez segue sacrificando Gerrard. E escalando mal. Gerrard não rende como enganche, e costuma perder duelos contra volantes vigorosos. Sei que o Liverpool sofre com dezenas de desfalques. Mas, ainda assim, os jogadores disponíveis permitiam uma formação mais ofensiva. Dava, por exemplo, para escalar Gerrard como winger (é assim que ele atua na seleção inglesa, por exemplo) e empurrar Kuyt para o ataque (com a lesão de Nistelrooy, ele foi o centroavante da Holanda nas eliminatórias). Formaria-se um 4-4-2 britânico, sem a necessidade sequer de recorrer ao banco de reservas. Bastaria reposicionar jogadores e modificar as funções de Gerrard e Kuyt.

Mark Hughes repete Sir Alex Ferguson, e deixa Tevez no banco para escalar um meio-campista. No United, era Giggs que entrava, no 4-4-1-1. E no City a alternativa é ainda mais defensiva: De Jong. Não seria proibido retirar De Jong, ou Ireland - subindo o volante holandês - e iniciar a partida com Tevez na frente. Sem perder a característica do futebol britânico, afinal, constituiria-se um 4-4-2 ortodoxo.

A partida terminou com empate em 2 a 2 - dois gols de bola parada (Adebayor e Skrtel), um de xiripa no abafa (Benayoun) e um de contra-ataque (Ireland). O City só marcou quando Hughes variou para o 4-4-2, com a entrada de Tevez no lugar de Barry (alinhando De Jong com Ireland). Mas ele mudou o sistema porque saiu perdendo. Enfim, como na maioria das partidas que confrontam treinadores obsessivos pela defesa, as duas equipes não atuaram de maneira equilibrada, faltou articulação, criação de oportunidades, e sobrou monotonia.

Postado por Eduardo Cecconi

Como joga o Inter B

20 de novembro de 2009 6

Diagrama tático do Inter B

Ontem assisti ao jogo entre Inter B e Brasil de Pelotas, pelas semifinais da Copa Arthur Dallegrave, no Estádio Beira-Rio. Foi uma excelente oportunidade para assistir a duas filosofias completamente diversas de planejamento tático. E, mais ainda, mais uma chance de observar a qualificação do técnico Osmar Loss à frente das categorias de base coloradas.

Na goleada de 4 a 0, o Inter B enfrentou o Brasil se utilizando do britânico 4-4-2 em duas linhas de quatro. Mas não foi sempre assim. A equipe iniciou posicionada no 4-5-1, também em duas linhas, desdobrado - para quem prefere - em 4-4-1-1. Na segunda linha, Loss dispôs o meia Ytalo como extremo pela direita, e o atacante canhoto Léo na extrema esquerda. E à frente dos volantes Élton e Josimar, posicionou-se centralizado Wagner Libano, como o "enganche".

Talvez esta primeira formação pudesse ser vista como um 4-2-3-1, idêntico ao utilizado por Mário Sérgio no Inter "profissional", contra o Santos. Observei em algumas situações Ytalo, Libano e Léo no mesmo patamar do campo, mas sem a bola os extremos alinhavam com os volantes. Em todo caso, esta formação inicial durou pouco tempo até que eu pudesse tirar esta dúvida.

Osmar Loss percebeu que, em função do campo encharcado pelo temporal recente, precisava mexer na estrutura tática. É um dado importante para constarmos que o treinador tem papel muito relevante, precisando manter-se atento até mesmo a estes elementos adversos imprevisíveis, como uma chuvarada. No Beira-Rio, o campo alagou nas laterais, impedindo a condução de bola em velocidade dos leves extremos. E Libano, um jogador leve, estava perdido na tentativa de articular sozinho a equipe, desabastecendo Leandro Damião na frente.

O Inter B ganhou com o reposicionamento. Loss passou Léo para o ataque, caracterizando um 4-4-2, e abriu Libano pela extrema-esquerda da segunda linha.  Léo é atacante, e auxiliou Damião a disputar pelo alto a bola quando a equipe viu necessidade de recorrer à ligação direta. E Libano "entrou no jogo" atuando aberto pelo lado esquerdo, embora seja destro.

A estratégia priorizou o jogo pelo meio. Afinal, não havia como aprofundar as jogadas em função das poças nas laterais. Tanto Ytalo como também Libano jogaram insistentemente em diagonal da ponta para a frente da área. Leandro e Léo apresentavam-se para os pivôs em jogadas curtas com os meias-extremos. E os volantes adiantavam-se para a segunda bola. Um time que soube compreender as exigências do cenário - campo pesado, jogo pelo meio, toques rápidos, aproximação da linha de meio-campo e presença física dupla na frente.

Tecnicamente, Ytalo teve uma atuação muito destacada. Inteligente, aplicou suas diagonais às costas do zagueiro que marcava Damião, indefinindo a marcação entre ele e o lateral. Libano também revelou, com liberdade para o apoio pelo lado, uma habilidade que eu desconhecia - o drible. Leandro e Léo formaram boa dupla de área, Élton comandou o meio-campo, e Wagner Silva foi soberano nas raríssimas vezes que o Brasil passou perto da área colorada.

Boa atuação acentuada pela estruturação tática risível do Brasil de Pelotas. O técnico Paulo Porto sistematizou a equipe da seguinte forma: três zagueiros (marcação individual por função sobre os dois atacantes do Inter, e um sobrando); dois laterais que não apoiam (sim, laterais, não alas ofensivos); e dois volantes combatentes. Foram sete jogadores de defesa posicionados a partir da intermediária, para trás.

No campo do Inter ficavam um meia centralizado, e dois atacantes abertos. Para piorar, a estratégia foi surreal: jogar pelos lados. Os jogadores do Brasil passaram 90min brigando com poças d`água nas laterais. Tentando conduzir a bola. Em nenhum momento o Xavante apresentou alguma variação buscando o meio. Nem ao menos adiantou suas linhas para evitar as diagonais dos meias colorados. Ninguém parou na beira do campo e disse: na lateral tem água, vai pelo meio! Foi goleado ao natural, sem reação do treinador, e não fosse a atuação do goleiro Vanderlei, retornaria a Pelotas saraivado por muitos gols mais.

*Post corrigido

Postado por Eduardo Cecconi

Mário Sérgio explica Alecsandro nos contra-ataques

18 de novembro de 2009 36

Diagrama tático do Inter no 4-5-1, com o pivô utilizado na transição para o contra-ataque

Ontem em entrevista coletiva o técnico Mário Sérgio foi perguntado sobre a possibilidade de substituir Alecsandro por um jogador de maior velocidade na próxima partida - para aproveitar os contra-ataques fora de casa, contra o Atlético-MG. E o treinador do Inter utilizou a questão para trazer ao debate uma boa imagem teórica para debatermos aqui no blog Preleção.

Segundo Mário Sérgio, a saída rápida nos contra-ataques tem duas possibilidades: ou com dois jogadores de velocidade pelos lados, ou com a presença de um centroavante no pivô. Foi desta forma que ele justificou a tendência de manter Alecsandro na equipe, no confronto do Mineirão.

A preferência faz sentido, principalmente se Mário Sérgio não alterar a estrutura do 4-5-1 (desdobrável em 4-2-3-1) que deu a vitória sobre o Santos. Isso porque o centroavante-pivô, quando acionado, segura a bola o tempo suficiente para a aproximação dos meias ofensivos. É uma forma de valorizar a posse de bola, sem "apressar" a transição.

Nesta alternativa, o pivô é responsável pelo agrupamento das linhas. No caso do Inter, domingo, cito o exemplo: o Atlético-MG pressiona, as duas linhas do meio-campo coloradas são empurradas para a frente da própria área, abrindo um espaço muito grande entre o bloco de contenção e o único atacante.

Se este atacante for um jogador de velocidade, esta característica o levará a partir para cima assim que receber a bola na ligação direta para o contra-ataque. Não dará tempo, portanto, para receber auxílio dos demais companheiros. Acabaria, por si, isolando-se no ataque.

Com o pivô, a equipe pode fazer a transição de maneira mais organizada. Ele segura a bola e permite o avanço organizado dos meias, com três opções de distribuição: para algum dos dois lados, ou pelo meio.

Só peço por favor, antes de se manifestarem nos comentários, que abstraiam do nome - Alecsandro - na análise. Só utilizei os exemplos dele, de Mário Sérgio e do Inter, pelo "gancho" oportunizado pelo treinador do Inter na entrevista. O melhor será debatermos sobre a opção tática deste 4-5-1 com a estratégia aplicada de valorização da posse de bola no contra-ataque, tendo na figura do centroavante-pivô a referência para a distrubição das jogadas e o agrupamento das linhas ofensivas.

Postado por Eduardo Cecconi