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Primeira tática do futebol se inspirou no rugby

28 de dezembro de 2009 16

Diagrama tático da primeira organização de uma equipe de futebol, no 1-2-7.

Retorno das férias cumprindo a promessa de repercutir de imediato a leitura do livro Inverting the Pyramid, do jornalista inglês Jonathan Wilson. A obra trata com muita clareza e exaustiva apuração histórica toda a evolução da organização tática no futebol. São tantas informações que terei de dividir esta análise em uma série de posts diários, agregando também referências de outras leituras que tenho feito – como a do livro Elementi di Tattica Calcistica – vol I, que me foi emprestado pelo técnico Tite, a quem muito devo pelo auxílio na minha tentativa de qualificar o debate no Preleção.

A primeira curiosidade na linha do tempo dos sistemas táticos é a influência do rugby na organização das equipes. Influência esta proporcionada pelo compartilhamento entre ambos os esportes da regra do impedimento, quando houve a divisão entre eles.

O futebol é mais antigo. No século XVIII, chegou a ser banido em algumas regiões britânicas pela violência demasiada. Mas no início do séculoi XIX, ele foi utilizado como ferramenta política de fortalecimento do Império entre os jovens – principalmente por ser um esporte coletivo. Sendo disseminado nas escolas britânicas como atividade física.

Mas cada escola criou regras próprias. Não havia padrão. Em algumas se utilizava o pé, em outras a mão, e em outras ambos. Variava-se ainda o número de jogadores. Diferenças que inviabilizavam os confrontos entre escolas. Houve reuniões entre as instituições de ensino, que por maioria restringiram o toque com as mãos, o que desgostou o pessoal da Rugby School – originando o surgimento do rugby na dissidência.

Em 1848 estas escolas lançaram o primeiro compêndio de regras unificadas do futebol. Com uma ainda bastante ligada ao rugby, como destaca Jonathan Wilson no Inverting the Pyramid. A “Lei 6″ determinava que todos os jogadores à frente da linha da bola estariam impedidos de tocá-la. O rugby até hoje é assim.

Como resultado, as primeiras ações técnicas e táticas do futebol foram idênticas às do rugby, trocando apenas as mãos pelos pés. As equipes se organizavam em uma espécie de 1-2-7, com a linha de sete atacantes agrupando-se como os paredões uniformes vistos nos campos de rugby.

Sem poder acionar companheiros à frente da linha da bola, o futebol se tornou um esporte coletivo na teoria, mas quase individual na prática. A “Lei 6″ forçava os jogadores a buscar a decisão pessoal, sem trocar passes. Quem recuperasse a bola, partia com ela dominada em velocidade até perdê-la, ou concluir a gol. Terminada a jogada, a outra equipe fazia o mesmo: um jogador pegava a bola e partia correndo, com um enxame de seus colegas vindo atrás. Só condução, sem passes. Chamado por Jonathan Wilson de “kick and run” (chute e corra).

Isso contribuiu para a demora na constatação de que o futebol é um esporte eminentemente tático, e coletivo. Inpirados no rugby, os jogadores queriam decidir sozinhos em grandes arrancadas. Essa noção individualista era tão evidente que os “chefes das turmas” nas escolas formavam a linha de sete atacantes, deixando o trabalho sujo de desarme aos calouros.

Foi preciso alterar a regra do impedimento para que o futebol se tornasse um esporte coletivo, com trocas de passes e valorização da organização tática. Mas esta nova percepção não partiu da Inglaterra, e sim de um país vizinho, história que eu conto amanhã…

Postado por Eduardo Cecconi

Comentários (16)

  • Maurício diz: 28 de dezembro de 2009

    bom retorno de férias e um ótimo ano novo a todos

  • Luis diz: 28 de dezembro de 2009

    Excelente coluna Eduardo! Quando criança eu sempre pensava “bem que poderiam extinguir a regra do impedimento”. Bem na inocência. Se formos analisar, o impedimento é a regra que mantém o futebol o que é. Senão seria 22 jogadores em uma área e chutão, coisa primitiva. A gente as vezes reclama dessa regra por impedir que nosso time faça gol né, mas temos que admitir que é a regra que mantém o futebol um esporte interessante e competitivo.

  • Paulo Cass diz: 28 de dezembro de 2009

    Bem vindo das férias!
    não via a hora de tornar a ler o amigo!

  • Thiago diz: 28 de dezembro de 2009

    Hoje alguns técnicos usam o inverso dela.. com 7 defensores, 2 meias (de preferencia volantes) e 1 atacante (de preferência milagreiro).. um exemplo: CELSO ROTH!! hauheauheauha ODEIO TÉCNICOS RETRANQUEIROS!!!

  • Mano diz: 29 de dezembro de 2009

    Show!

  • Gabriel diz: 28 de dezembro de 2009

    A diferença fundamental entre o rugby e o futebol é a proibição do “rush” (correr com a bola nas mãos) neste último. Inclusive, no início do futebol, qualquer jogador podia dominar a bola com as mãos, mas para conduzi-la precisava largá-la no chão e sair chutando.
    Já a regra do impedimento permanece até hoje no futebol: é proibido passar a bola para um companheiro que esteja à frente, a não ser que (alteração que deve ser tratada pelo Cecconi) haja dois adversários entre ele e a linha de fundo.

  • Renato Zanata diz: 28 de dezembro de 2009

    Mestre Cecconi,que “aula inaugural” show de bola sobre a História da Tática!Já criei uma pasta aqui para registra-las em separado.
    Blues Abraços!
    Zanata

  • Jacira Franco diz: 29 de dezembro de 2009

    Seja muito, mas muito bem vindo mesmo, grande amigo Cecconi, com boas energias renovadas.
    Tem uma “galera” te aguardando, que muito te quer bem, e recomecar uma nova jornada e com sede de “MATE” heheheheheh
    abracos.
    OBS: se tu notar alguma falta de letra no meu comentario (digitacão), não esquenta, não estou a comer letras, ë que meu teclado estä com defeito e algumas letras não digitam, de jeito nenhum hehehehehehehe
    mas sou sagitariana e teimosa, não desisto de contatar o blog do amigo.

  • Mauro diz: 28 de dezembro de 2009

    Espetáculo, Cecconi! Que venham os próximos “capítulos”. Se tivesses que indicar uns dois livros sobre o assunto (para quem quisesse começar a entender um pouco mais sobre tática), seriam esses mencionados no teu post? Abraços, Mauro

  • gremista da palhoça diz: 28 de dezembro de 2009

    Bom retorno caro Cecconi!
    Aproveita. Nestes tempos em que todos estão de férias, quem posta é lido por todos!

  • jairo diz: 28 de dezembro de 2009

    Bom retorno Cecconi. Parabéns pela coluna.

  • Cristiano Pitt diz: 28 de dezembro de 2009

    Parabéns e obrigado pela pesquisa, Cecconi.

    Isso aí é novidade pra mim: não sabia que o rugby tinha nascido do futebol (na verdade eu pensava o contrário) e tampouco a origem do nome do esporte…

    Estamos ansiosos pelos próximos posts.

    PS: tem muito jogador brasileiro que adoraria essa regra antiga do impedimento, em que não podia dar passe para os companheiros, não?

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