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Novo impedimento provoca 1ª variação tática

29 de dezembro de 2009 15

Primeira variação tática: um centroavante recua, torna-se centromédio, e o sistema passa do 2-2-6 para o 2-3-5 - a PIRÂMIDE

No livro Inverting the Pyramid, o jornalista inglês Jonathan Wilson faz um belo resgate do contexto que levou à primeira variação tática no futebol. Aconteceu, é lógico, na Inglaterra, onde o esporte se desenvolveu a partir da adoção do futebol como atividade física nas escolas – leiam aqui o post de ontem que abre a série sobre a evolução tática aqui no blog Preleção.

Dezoito anos depois de sua criação, a lei de impedimento do futebol abandonou a inspiração no rugby. Os jogos estavam monótonos, tediosos, com sucessões de “kick and run`s” de lado a outro – chutões e correria em jogadas individuais. Quem ultrapassasse a linha da bola estaria impedido, portanto, quem recuperava a bola saía correndo sem passar para ninguém.

Em 1866, foi decidido que bastaria ter pela frente três adversários (o goleiro e mais dois, por exemplo) para legalizar a posição de um jogador. O objetivo era claro: estimular as combinações de jogada. Se antes os atletas partiam correndo para não voltar o jogo (só podiam passar para quem estivesse atrás da linha da bola) agora os companheiros tinham liberdade para se deslocar e criar alternativas mais adiantadas.

À esta época, adotavam-se dois sistemas táticos: o 1-2-7 e o 2-2-6 – que fazia muito sucesso com o escocês Queens Park. Eles atuavam com dois zagueiros, dois meio-campistas e seis atacantes, sendo: dois pontas, dois atacantes internos, e dois centroavantes. Os ingleses ainda usavam o sistema com três centroavantes, somando sete jogadores ofensivos, e apenas um zagueiro.

Ambos os sistemas, entretanto, não ajudavam as equipes a modificar a estratégia. Ainda se jogava no kick and run mesmo com a alteração na lei do impedimento. Era quase um instinto de “fazer rugby com os pés”. Cenário que começou a mudar na década de 70 do século XIX.

Foi quando aconteceu a primeira variação tática que se tem registro no futebol. A Inglaterra abdicou dos dois centroavantes e da linha de sete na frente. Com base no 2-2-6 dos escoceses, os ingleses recuaram o centroavante para a linha de meio-campo, criando o centre-half (centromédio).

Jonathan Wilson chama este novo sistema de “pirâmide”: dois zagueiros, três meio-campistas, e cinco atacantes. O 2-3-5. Ainda vocacionado ao desequilíbrio entre defesa e ataque, ainda com o vício do kick and run, mas com um claro propósito – criar opções para linhas de passe.

Com o centromédio, inaugurou-se também a figura do organizador. Centralizado, ele não era apenas um combatente, mas o jogador que começava ainda que de forma primitiva a articular a saída de jogo, a fazer a distribuição dos passes, a arriscar lançamentos longos. Futebol como esporte coletivo, eminentemente tático, com variações no posicionamento dos jogadores e na estratégia. Tudo isso a partir da percepção de que não bastava correr sozinho com a bola.

Postado por Eduardo Cecconi

Comentários (15)

  • JGK diz: 29 de dezembro de 2009

    Beleza o teu blog, tchê!
    O melhor da net! Onde acho este livro, mesmo em english? hehehe

    Abraços, continua com o teu trabalho!

  • Sidi diz: 29 de dezembro de 2009

    Cecconi: excelente registro!
    Parabéns pelo blog!
    E já que entraste no assunto,mesmo que indiretamente, me explique (e para outros 99,8% dos que acompanham futebol e não sabem): sei como funciona o impedimento e tudo mais. Mas quero saber PORQUE ele existe? Se causa tantos erros de arbitragem, discussões não seria prudente eliminá-lo das regras? Além do mais, aumentaria muiito o numero de gols em uma partida. Quer coisa melhor?
    Explique, porque existe o impedimento? Não vejo razão pra existir

  • Marcelo diz: 29 de dezembro de 2009

    Acho que poderias falar mais sobre o Rúgby, que é muito pouco praticado e conhecido aqui no Brasil.

  • Dyeison Martins diz: 29 de dezembro de 2009

    bah, mas eram um faceiros mesmo… =P Foi esse sistema ai que depois se tornou o WW da Hungria de 54? (desculpe se estou adiantando alguma coisa).

    Resposta do Cecconi: ainda não Dyeison, houve alguns desdobramentos antes. Jájá chegaremos…hehehehe. Abraços.

  • Samuel Ritter diz: 29 de dezembro de 2009

    Nessa época, só havia preocupação com o ataque e nada com a defesa.

  • Ewerton diz: 29 de dezembro de 2009

    Na verdade o equilíbrio de defesa, meio e ataque só foi possível a partir da nova mudança da regra com apenas 2 defensores. Assim as defesas tiveram que aumentar sua proteção e o jogo redistribuiu, aí surgiram WM, 4-2-4 etc…

  • gremista da palhoça diz: 29 de dezembro de 2009

    Cecconi, vc está fazendo descrição a partir da regra de impedimento estabelecida. Quer dizer, existia uma regra de impedimento que era excessiva e passou-se a afrouxá-la no sentido de criar as possibilidades do jogo ficar mais coletivo. Mas seria interessante descrever o caminho que determinou implantação do impedimento. Qual o sentido de sua criação!!

    Resposta do Cecconi: oi gremista de palhoça. O sentido na verdade é mais uma herança do que qualquer coisa. Como não haviam regras, essa lei que pertencia à Rugby School – criadora do rugby e inspiradora das primeiras normas do futebol – não foi excluída. Era, na verdade, a única maneira que se conhecia de jogar futebol sem que todos os 11 jogadores ficassem dentro da goleira adversária tentando fazer gol…hehehe. Mas depois viram que isso não se aplicava ao futebol da mesma forma que o rugby, e conseguiram consertar. Abraços.

  • gremista da palhoça diz: 29 de dezembro de 2009

    Na verdade falar em abolir a regra do impedimento sem uma prévia argumentação, nada mais é do que um tiro no escuro. Os desdobramentos no aspecto tático seriam tais, que gerariam outra modalidade, não seria mais o futebol que conhecemos. Apesar que o Cecconi citou como um fator de simples herança, certamente a regra tem a sua razão de ser, não tenham dúvida disso, é só raciocinarmos um pouquinho sobre as possibilidades que se criariam com a sua ausência.

  • Sidi diz: 29 de dezembro de 2009

    Cecconi

    Talves vc tenha razão, mas embora vc sendo “conservador” quanto a isso, não acha que ao menos em caracter experimental, em algum campeonato menor, emfim, não seria uma ideia testar jogos sem a regra do impedimento?
    Eu ainda continuo achando que bem trabalhada esta questão, poderiamos ter jogos mais atrativos e menos suscetiveis a “resultados de arbitragem”.

    Valeu
    Um grande abraço

  • gremista da palhoça diz: 29 de dezembro de 2009

    Na verdade eu também tendo pelo caminho do conservadorismo. O futebol é tão bom (com o impedimento), que temos que seguir a regra de que em time que está ganhando não se mexe. Mas dá para visualizar alguma coisa: imaginem um time necessitando da vitória – deixaria um ou dois ou até três caras na pescaría, junto a área adversária. Isso obrigaria o adversário a deixar marcadores em igual número. Isto certamente resultaria num desagrupamento dos times. Acho que seria regressão ao individualismo.

  • Daniel Machado diz: 29 de dezembro de 2009

    Olá Ceconi!

    cara, parabéns pelo brilhante trabalho! Com certeza, tu srá um comentarista da RBS logo. As tuas observações taticas são excelentes.

  • Roberticus diz: 29 de dezembro de 2009

    Parabens Cecconi ao retornar ao blog e Feliz 2010 para ti!
    A propósito, Jonathan Wilson está trabalhando um novo libro, que vai abarcar como tema os 10 jogos mais históricos da seleção inglesa.
    Ficarei atento às tuas aulas durante todo o ano!
    Outra coisa; uma curiosidade sobre esse termo “centre-half”; os espanhois siguem chamando assim de `mediocentro` a aquele meiocampista (seja volante, seja organizador)até hoje em dia enquanto os ingleses utiliza-no para denominar os zagueiros.

    abraço

  • gremista da palhoça diz: 29 de dezembro de 2009

    Cecconi, se vc diz que é mais uma herânça do que qualquer outra coisa, então vc vê sentido na abolição da regra de impedimento?? Como seria o futebol sem esta regra?? Você consegue visualizar isso? Ontem, em entrevista histórica concedida ao Galvão, o impressionante João Havellnage declarou que o futebol é o que é por manter três fatores: o erro do árbitro, o off-side e mais uma terceira que não me recordo agora. Como seria o futebol sem o off-side?

    Resposta do Cecconi: bruxo, vou responder pra ti e também pro Sid, que fez pergunta semelhante. Sou meio conservador nesse ponto. Acredito que abolir a regra do impedimento teria efeito contrário – ao invés de aumentar o número de gols, traria definitivamente as equipes para dentro das próprias áreas. Passariam querendo só se defender. Seria ruim, eu acho. Abraços.

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