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As primeiras escolas clássicas de futebol

30 de dezembro de 2009 6

Diagrama tático do 2-2-6 do Queens Park, com trocas de passes do meio para a frente

No início do século XX, apesar da situação quase amadora do futebol, já se difundiam conceitos que caracterizavam escolas de futebol em formação. Mesmo com bases táticas semelhantes – ou o 2-2-6, ou o 2-3-5 – utilizadas como default`s, países influentes transmitiam também filosofias. Estratégias. Estilos de jogo.

No Inverting the Pyramid, livro escrito pelo jornalista Jonathan Wilson que serve de parâmetro para esta série de posts do blog Preleção sobre a evolução tática do futebol – leia também a influência do rugby na primeira tática, e as mudanças provocadas pela nova lei do impedimento – é possível identificar pelo menos três estilos de jogo completamente diferentes que se desenvolveram na transição entre os séculos XIX e XX.

A Escola Inglesa baseava-se no kick and run. Força, mas acima de tudo velocidade. Apesar da mudança na lei do impedimento, que passou a permitir passes à frente da linha da bola, os clubes e a seleção da Inglaterra não abandonaram a estratégia de condução em disparada. Principalmente pelos lados. Alguns ainda no embrionário 1-2-7, outros já no 2-3-5, mas todos investindo demais nas jogadas laterais, com os wingers – jogadores que começavam a se destacar com duas prerrogativas fundamentais: alta velocidade e individualismo para decidir sozinho.

Mas, apesar de ter criado o futebol moderno, não foi a Inglaterra quem exerceu influência teórica sobre países da Europa, principalmente na região central do continente. Foi a Escócia, com o 2-2-6 do Queens Park, e um estilo descrito por Jonathan Wilson como o close/quickly-passing (algo como “passes rápidos e curtos”). Uma estratégia de jogo absolutamente diversa da inglesa. Para os escoceses, a nova lei do impedimento surtiu o efeito ambicionado pelos seus idealizadores: incentivar as linhas de passe. Vale ressaltar que esse Queens Park não é o QP Rangers. É só Queens Park, conhecido como “The Spiders”, clube que não deu sequência a seu sucesso. É o mais antigo da Escócia, mas milita nas divisões inferiores agora.

O estilo escocês foi importado por Áustria e Hungria, formando a Danubian School, a partir de uma excursão de clubes escoceses na região. Austríacos e húngaros perceberam que era mais inteligente aproximar seus jogadores, trocar passes curtos e dessa forma abrir espaços, ao invés de fazer ligação direta para os wingers dispararem, como praticavam os ingleses. As duas seleções – Áustria e Hungria – assumiram até certo protagonismo nas primeiras competições e amistosos internacionais pela Europa, mas depois declinaram.

Outra escola clássica da “idade Antiga do futebol” nasceu no Uruguai, com repercussão semelhante na Argentina. Desde cedo resistentes à influência externa, os argentinos e uruguaios de descendência latina não gostavam do futebol de velocidade e força praticado por ingleses na disseminação do futebol pela região do Rio da Prata.

E começaram a improvisar, brincar com a bola, ludibriar adversários. Driblar. Conforme conceitua Jonathan Wilson, nascia o estilo home-grown (em português, algo como “feito em casa”). O futebol de improviso, mantendo a posse de bola em curto espaço. Foi dessa forma que o Uruguai conquistou duas Olimpíadas (24 e 28), dois Mundiais (30 e 50) e seis Copas Américas em curto espaço de tempo (16, 17, 20, 23, 24 e 26). 

Ingleses no chutar e correr; escoceses, austríacos e húngaros no passe rápido e curto; uruguaios e argentinos no drible e no improviso em pequenos espaços. Foram estas, segundo o Inverting the Pyramid, as principais escolas de futebol do início do século XX, que influenciaram tantos outros países a adotar estes mesmos estilos de jogo, mesmo que a base tática (o 2-3-5) fosse corriqueira.

Muito cedo o futebol já fortalecia o óbvio: sistema tático é uma coisa, estratégia é outra coisa, e apesar da qualidade técnica dos jogadores ser muito importante, o principal é a organização da equipe em um esporte coletivo. Wilson, assim como eu, também é contrário à frase “o jogador é quem decide”, semelhante às frases “futebol é futebol”, ou “tática pouco importa, o que faz a diferença é o jogador”.

Postado por Eduardo Cecconi

Comentários (6)

  • Cristiano diz: 15 de janeiro de 2010

    As questões táticas são tão importantes quanto às qualidades individuais e físicas. O futebol é bonito por isso: nenhuma dessas questões garantem vitórias, nem mesmo as táticas. Esse blog é um dos melhores, Parabéns!

  • Gilson Gustavo diz: 30 de dezembro de 2009

    Complementando… O sucesso do QP foi adiante porque o clube optou pelo amadorismo, enquanto os outros se profissionalizaram.
    Além disso, o azul marinho do uniforme escoces veio do QP, que usava essa cor em seu uniforme.

    É comum imaginarmos que no início a Inglaterra não tinha adversário, mas na verdade, o estilo escocês de jogo era tão superior que de 1872 (1ª partida entre seleções) a 1890, Escócia e Inglaterra disputaram 19 jogos com 11V da Escócia, 5E e apenas 3D.

  • Gabriel diz: 1 de janeiro de 2010

    O q mais importa eh a VONTADE(MOTIVAÇÃO, etc), CAPACIDADE FÍSICA, e, QUALIDADE TÉCNICA. Se o teu time tiver as três coisa acima, não importa esquema tático e nem técnico (q são coisas secundárias), tu ganharás de qualquer um, a não ser q teu adversário tbm tenha essas mesmas 3 qualidades, porém em um nível maior. Esquemas táticos e técnicos ajudarão quando ambos os times tiverem paridade nestes 3 atributos (isso se um ou alguns jogadores ñ estiverem inspirados, daí caem por terra as estratégias)

    Resposta do Cecconi: Gabriel, discordo completamente do teu pensamento. Futebol é esporte coletivo. Qualidade, motivação e preparação física são atributos que agregam valor às equipes, mas servem à organização tática. A história comprova que esta linha de raciocínio é equivocada. Senão, terás de atribuir todas as vitórias de “pequenos sobre grandes” à sorte, fatalidade, ou casualidade. O Hamburgo bateu a Juventus de Platini em 83 sem ter um Platini na equipe. A explicação, então, já que não havia qualidade técnica, é somente porque entrou motivado em campo e correu? Então não falamos de futebol, mas sim de atletismo. Abraços.

  • Lu Parhan diz: 30 de dezembro de 2009

    Cecconi! Sistema tático apropriado ao material humano disponível e uma boa estratégia que leve em consideração as potencias fragilidades do adversário em questão são importantíssimas sim, porém o atleta pode fazer a diferença, pelo simples fato do enredo a princípio, salvo casos que sequer há esta necessidade como por exemplo a partida ente Flamengo e Gremio, não ser costumeiramente combinado com o advesário. Assim sendo, penso que é sobre esta estrutura que deve-se manifestar a arte do atleta.

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