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O revolucionário W.M de Herbert Chapman

31 de dezembro de 2009 9

Diagrama tático do W.M, com o recuo do centromédio e de dois atacantes-internos, modificando a estrutura do 2-3-5 para um 3-4-3 (ou 3-2-2-3)

Dando sequência à série de posts que resgatam a cronologia da evolução tática no futebol, baseados no livro Inverting the Pyramid, do jornalista inglês Jonathan Wilson, o assunto do post de hoje no blog Preleção é importantíssimo: o primeiro sistema tático que revolucionou o futebol.

A organização das equipes, com todos os conceitos norteadores para sistemas e estratégias, tornou-se prerrogativa fundamental a partir da criação do W.M. O pai dessa revolução tática é o técnico Herbert Chapman, que levou o Arsenal a protagonizar a maior inovação tática da história – se levarmos em consideração todos os efeitos consecutivos ao seu surgimento.

Assim como acontecera no final do século XIX, foi uma nova alteração na regra do impedimento que motivou o desenvolvimento desta nova organização. Em 1925, os dirigentes da FA constataram que o Campeonato Inglês estava chato. Marcava-se poucos gols, mesmo com cinco atacantes dispostos no “default” 2-3-5. A solução encontrada foi reduzir para dois, e não mais três, o número de adversários necessários para legalizar a condição de qualquer jogador. Na prática, um goleiro e um zagueiro à frente eram suficientes – regra que perdurou até a criação da “mesma linha”.

Chapman, que desde 1925 treinava o Arsenal no corriqueiro 2-3-5, em 1930 experimentou três alterações de posicionamento: recuou o centromédio, colocando-o entre os dois zagueiros; e criou uma segunda linha de meio-campo, a partir do recuo dos dois atacantes-internos. *A leitura deste diagrama, um 3-4-3 (ou 3-2-2-3, como queiram) formava no campo duas letras – W no ataque, M na defesa. Nascia o W.M.

A estratégia, entretanto, contrariava o objetivo da FA na mudança da lei de impedimento. O W.M do Arsenal primava pelo contra-ataque. Chapman abdicava da figura do organizador – o centromédio, recuado para a zaga. Na frente, abria seus wingers. Sem a bola, o Arsenal recuava, compactando-se com três zagueiros e “dois volantes”; recuperada a posse, a equipe recorria à ligação direta, em lançamentos longos na direção dos wingers.

Ter o recuo estratégio e o contra-ataque veloz pelos lados como estratégias fizeram o W.M consolidar no futebol inglês um estilo conceituado por Jonathan Wilson como o “wing-play” (algo como “jogo para os wingers”). Os wingers, espécie de pontas velocistas e individualistas, ganharam grande destaque. A Inglaterra formou uma verdadeira geração de craques para a função, notabilizando-se Stanley Mathews como seu principal protagonista – um jogador que criava e finalizava as próprias jogadas. Na prática, o wing-play fez o futebol inglês permanecer individualista, contrariando as filosofias coletivas do passe-curto adotadas na maioria dos países.

Aos poucos, os resultados do Arsenal ampararam a disseminação do W.M como novo sistema tático default na Europa. Equipes que mantinham o 2-3-5 assumiam o risco do “atraso”. Mas Chapman teve de lidar também com uma saraivada de críticas. Afinal, sua interpretação tática da nova lei de impedimento surtiu efeito contrário ao desejado pela FA. Ele foi acusado de tornar o futebol “ainda mais feio”, mais defensivo.

Ele também foi responsabilizado pela estagnação do futebol inglês. Os resultados obtidos pelo W.M foram tão significativos que sua influência enrijeceu os demais treinadores locais. A partir do sistema de Chapman, técnicos de outros países desenvolveram variações, novas interpretações, modificações de acordo com as características de seus jogadores, e conforme a cultura tática que os norteava. Enquanto isso, a Inglaterra blindou-se às inovações. A culpa, obviamente, não era de Chapman.

Na verdade, ele foi o precursor de uma filosofia de trabalho hoje impossível de se alijar do futebol: a do verdadeiro técnico, um profissional estudioso e dedicado. O comandante do Arsenal, pai do W.M, é tido por Jonathan Wilson como o introdutor do estudo tático. Chapman fazia preleções, com quadro-negro aos jogadores; analisava os adversários, combatendo suas virtudes e explorando suas deficiências; ministrava palestras táticas, debatia com seus atletas posicionamento. Via no futebol a necessidade de organização coletiva. A imprescindibilidade, aliás, desta organização.

*P.S: vou adotar de agora em diante aqui no blog Preleção a leitura de diagramas táticas que formem letras (como o W.M) a partir do ataque para a defesa, como faz Jonathan Wilson no Inverting the Pyramid. No sistema de Chapman não há confusão, afinal, a leitura do W.M é possível da esquerda para a direita, e vice-versa. Mas em outros sistemas – veremos nos posts seguintes – as leituras são diferentes. Então é melhor adotar o mesmo padrão para não causar confusão.

Leiam mais na série “Invertendo a Pirâmide”:

1) Primeira tática se inspirou no rugby

2) Novo impedimento proporciona variação

3) Escolas clássicas do futebol

Postado por Eduardo Cecconi

Comentários (9)

  • Jairo diz: 31 de dezembro de 2009

    Cecconi,

    Sabes se este livro ja tem tradução para o portugues? Um abraço!

  • Gustavo F. Barbosa diz: 31 de dezembro de 2009

    Muito bom este trabalho de análise histórica das táticas. Bem meticuloso.
    Interessante acompanhar esta inversão da pirâmide.
    Parabéns.

    Um grande abraço.

  • Gabriel diz: 31 de dezembro de 2009

    Só não consigo entender essa de que alguém inventou tal sistema tático, até pq qualquer um q entende um pouco de futebol pode jogar da forma q quiser com seu time e etc.
    Também não entendo essa história de q o padrão d hj é o 442, 352 ou 451 (q muitos dizem q foi uma evolução ao antigo 433 – p/ mim o melhos sistm – e hj só Barça e na Holanda se vê). Tbm acho ridículo essa história de caracterizar por ex o Grêmio como time q só deve jogar de forma defensiva,quem fala isso esquece q era 433 em 83

  • André diz: 31 de dezembro de 2009

    Eduardo,

    excelente série de posts!
    Muito obrigado e continue assim.

    Feliz 2010!

  • Luís Fernando diz: 31 de dezembro de 2009

    Olá Cecconi. Muito boa essa sequência de posts sobre a evolução tática do futebol. Acho que é uma curiosidade comum dos amantes do futebol como e por quê os times jogam dessa forma. Gosto de ver o futebol como um jogo de inteligência também.

    Feliz Ano Novo. Abraço!

  • Anderson Cardoso diz: 31 de dezembro de 2009

    Vou ler o livro. Ótimo blog. o/

  • Júnior Albuquerque diz: 2 de janeiro de 2010

    Gabriel, estas tendo uma visão muito superficial das coisas. Primeiro que, pra mim pelo menos, o melhor esquema é aquele que se encaixa melhor a aquele grupo de jogadores. O Barcelona tem todas categorias de base jogando no 4-3-3 (implementar aqui que não seria tão fácil quanto parece). Tu tambem tá confundido tática com estrategia pois, o esquema não define necessariamente a postura da equipe, caso contrario o Grêmio não teria um dos melhores ataques em 2006 jogando no 4-5-1.

  • Daniel Correa diz: 2 de janeiro de 2010

    Nao sei se alguem entende italiano aqui, mas um dos times que revolucionou os sistemas taticos foi o Grande Torino dos anos 40. Na wikipedia em italiano tem os detalhes: http://it.wikipedia.org/wiki/Grande_Torino O detalhe é que o time inteiro morreu num acidente aereo em 1949. Por ser a base da seleçao italiana, a Squadra Azzurra fez uma péssima campanha na copa do mundo do Brasil àquele em 1950. Vale como història.

  • Preleção » Blog Archive » Brasil de 1970: o último romântico diz: 23 de março de 2010

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