Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros

A interpretação dos húngaros para o W.M

06 de janeiro de 2010 12

O M.M da Hungria

Se, como vimos no post passado, os russos acrescentaram ao W.M de Herbert Chapman a movimentação dos homens de frente, e os italianos sem o recuo do centromédio montaram o W.W, o futebol da Hungria também contribuiu para o desenvolvimento do sistema. Tudo, conforme nos descreve com riqueza de dados históricos o jornalista inglês Jonathan Wilson no livro Inverting the Pyramid.

Na Hungria, o W.M virou M.M – lembro que a leitura das letras no diagrama tático, para padronizar, é feita do campo ofensivo para o defensivo. A base desta variação tática é o recuo do centrovante para a segunda linha de meio-campo. Evolução tática, como sempre, amparada em uma peculiaridade local. Estratégia conforme as características do futebol húngaro aplicada à base do W.M britânico.

Ao contrário dos ingleses e seus centroavantões de referência que aparavam na área os cruzamentos dos wingers, os húngaros não gostavam do trombador. Preferiam, desde a introdução do estilo passe-curto escocês na região, um centroavante de mobilidade e velocidade. Um jogador que também participasse da criação das jogadas, ao invés de um “poste” finalizador.

Foi o técnico Gusztav Sebes quem implementou o recuo do centroavante Hidegkuti à zona de armação. A Hungria não jogava mais com dois articuladores, mas sim com três. Beneficiando-se da mesma premissa dos russos nas inversões de posição: com a marcação individual por função do W.M, Hidegkuti arrastava consigo o zagueiro central, abrindo espaços para as infiltrações dos pontas e dos meias. Ou, se o zagueiro não o perseguisse, dominava livre de marcação, para organizar com calma a jogada de ataque.

Com o M.M a Hungria conquistou as Olimpíadas de 1949, e poderia ter sido campeã mundial em 1954, não fosse o contra-veneno da Alemanha Ocidental na decisão. Conforme Jonathan Wilson resgata, a Alemanha intensificou a marcação individual sobre Hidegkuti. Homem-a-homem. Matou a fonte de criatividade húngara, e virou uma partida de 2 a 0 para 3 a 2, talvez contando com certa soberba dos húngaros, que estavam há 36 jogos invictos, com grandes atuações.

Esta Hungria de Sebes foi o embrião também do 4-2-4 imortalizado pelo Brasil em 1958. Reparem no diagrama tático que ilustra o post: além do recuo do centroavante para a armação, a Hungria permitia que seus meias-ofensivos alinhassem com os pontas, formando uma linha de quatro na frente. De início, era só um movimento de ida-e-volta, mas depois se consolidou como posição inicial. O segundo passo, que aconteceu mais adiante, foi o recuo de um meia-defensivo para a linha de defesa (figura que se tornaria, no Brasil, o “quarto-zagueiro”). História, claro, para um próximo post.

Vale lembrar que em 31 de dezembro de 2008 eu analisei esta Hungria de Sebes aqui no Preleção, mas ainda sem o padrão de descrição tática adotado pelo Jonathan Wilson no Inverting the Pyramid. Com outra referência bibliográfica, falei que a Hungria jogava no W.W. Na prática, entretanto, não muda nada. Agora, chamamos de M.M, e vocês podem ler aquele post aqui

P.S: estou em Bento Gonçalves fazendo para o clicEsportes a cobertura da pré-temporada da dupla Gre-Nal. Por isso atrasei a postagem deste texto, e também tive de colocar o livro para descansar um pouco em função da correria. Não se preocupem que, apesar da trabalheira por aqui, tentarei todos os dias propor debates sobre o futebol “de hoje” aqui no Preleção, e na volta a Porto Alegre a série sobre evolução tática recomeça.

Postado por Eduardo Cecconi

Comentários (12)

  • Rodrigo diz: 8 de janeiro de 2010

    Continua essa série hein… Não pode parar, excelente trabalho.

    É interessante ver como esquemas táticos históricos fazem a cultura de futebol, o modo de se ver e jogar futebol de cada país (como no caso da ING com seus wingers)…

  • Rafael Rodrigues diz: 7 de janeiro de 2010

    Cecconi, parabéns pelo blog. Desde que um amigo meu do RS me falou sobre seus comentários táticos, venho acompanhando suas análises. Depois que vc inaugurou esta série sobre a evolução tática, fiquei curioso sobre este livro “Inverting the Pyramid”. Gostaria de saber de que forma eu consigo adquirir este livro??

  • Michel Costa diz: 6 de janeiro de 2010

    O curioso é que alguns alas brasileiros apóiam com tanta liberdade que o 3-5-2 daqui é bem parecido com o esquema acima. Em 2008, por exemplo, Léo Moura e Juan jogaram como pontas no Flamengo.
    Abraços.

  • fabrizio diz: 7 de janeiro de 2010

    excelente matéria meu brother… muito boa msm… parabéns!!!
    espero q continue enviando matérias sobre a evolução tática!!!
    abraços!!!

  • Eduardo Mello diz: 6 de janeiro de 2010

    Muito bom! Parabéns!

  • Júnior Albuquerque diz: 8 de janeiro de 2010

    Cecconi, esse Inverting the Pyramid tem em português?

    Abraço.

  • Dyeison Martins diz: 6 de janeiro de 2010

    Ahh, era disso que eu falei num dos primeiros posts dessa série.

    Uma dúvida, o livro do Jonathan Wilson é de quando? Ele vai até que ponto da história recente dos esquemas? Ele chega ao 4-4-2 com duas linhas? E fala sobre o 3-5-2 italiano do início dos anos 90? (idéia para um bom post)

  • eusebio diz: 7 de janeiro de 2010
  • André Rocha diz: 6 de janeiro de 2010

    Grande Eduardo! Cara, muito bem observado, analisado e descrito o esquema tático magiar em 1954.

    Só discordo em relação ao Brasil de 1958. De fato, o futebol brasileiro foi o primeiro a adotar o 4-2-4, mas com Zagallo no time o esquema de Feola passou automaticamente para o 4-3-3, com o recuo natural do ponta multifuncional que liberava Nílton Santos para descidas esporádicas, mas cirúrgicas e dava liberdade a Didi para encostar, pelo centro, em Pelé e Vavá.

    Abração!

  • João Gabriel diz: 7 de janeiro de 2010

    Muito boa essa série histórica,já estou aguardando o próximo post. Abraço

  • Preleção » Blog Archive » Fluminense se aproxima do M.M no 3-5-2 diz: 8 de março de 2010

    [...] com os alas espetados”. Uma descrição que se aplica perfeitamente ao Fluminense. Leiam aqui o post sobre a [...]

  • Tiago diz: 28 de julho de 2010

    Só descobri agora esse excelente blog, parabéns!

    Só uma correção, a Hungria venceu as Olimpíadas de 1952 e ficou 31 jogos invicta.

    Abraços.

Envie seu Comentário