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O 4-2-4 do Brasil bicampeão Mundial

14 de janeiro de 2010 13

Diagrama tático do Brasil, campeão do Mundo em 1958

Retomo hoje a série de posts que dissecam o livro Inverting the Pyramid, do jornalista inglês Jonathan Wilson, chegando a um dos assuntos que mais nos interessam: o surgimento, no Brasil, do sistema 4-2-4 – responsável por mais uma revolução tática no futebol, e também pelo arquivamento do W.M e suas variações.

Vários treinadores reivindicaram a paternidade do 4-2-4, ou então tiveram esta paternidade atribuída por alguém. Certo é que Vicente Feola chegou à Copa de 1958 com um forte legado de boas referências para a consolidação de um sistema que foi se desenhando em diversas partes, em equipes treinadas por nomes como Zezé Moreira, Fleitas Solich, Bélla Guttman e Flávio Costa – técnico do Brasil nas copas de 50 e 54.

O principal elemento catalizador da transição, no Brasil, do W.M para o 4-2-4 foi a indisciplina tática dos jogadores brasileiros. Com a imigração de técnicos húngaros, fugindo da Segunda Grande Guerra, o nosso futebol recebeu grande contribuição na evolução tática. Mas todos esbarraram na inviabilidade de aliar qualidade técnica e comprometimento coletivo. Os jogadores brasileiros não queriam obedecer o rígido posicionamento, nem executar a marcação individual por função do W.M.

Flávio Costa fez grande sucesso no início da Copa de 50 aplicando na Seleção Brasileira um desenho tático que Jonathan Wilson chama de “diagonais”. É uma variação do W.M, com meio-campo formando um paralelograma. O problema foi ter retornado ao W.M tradicional na decisão com o Uruguai, em um imperdoável impulso defensivista. Notem, no diagrama tático abaixo, como funcionava. Na prática, ele desfez o quadrado de meio-campo do W.M (um 3-4-3), aproximando um volante da linha defensiva, e um meia-ofensivo dos três atacantes – tornando-o um ponta-de-lança:

diagonais por você.

Este desenho estava próximo de um 4-2-4. De mesma forma, quando os húngaros fizeram seu M.M, o recuo do centroavante para a ponta-de-lança e o avanço dos meias ofensivos também configuravam um embrião do eterno sistema brasileiro. Como sempre, a nova tendência viria da inteligência de treinadores que souberam adaptar um padrão tático às características culturais do futebol local.

Feola se beneficiou destas variações húngaras e brasileiras. Zezé Moreira percebeu que os jogadores do Fluminense não conseguiam se adaptar à marcação individual por função e criou a marcação por zona no W.M. Costa lançou as diagonais. Martim Francisco, no Vila Nova-MG, recuou ainda mais o volante, e avançou ainda mais o ponta-de-lança, em movimento que Jonathan Wilson considera o primeiro 4-2-4 identificável, em 1951. Fleitas Solich fez o mesmo no Flamengo de 53, e Bélla Guttman no São Paulo de 56.

Para a Seleção Brasileira de 1958, o 4-2-4 encaixou perfeitamente à característica do elenco. Pelé, na ponta-de-lança, reunia os elementos requeridos pela função de assessorar o centroavante, criando e concluindo. Garrincha, declaradamente indiscplinado taticamente, abriu pela direita e teve liberdade para brincar. A compensação vinha na esquerda, com o estratégico recuo por dentro de Zagallo. Zito e Didi marcavam e faziam a qualificada saída de jogo. E Bellini, recuado para ser o “quarto zagueiro” – função que até hoje recebe este nome por aqui, recebia autorização para ganhar o meio-campo.

Notem que o avanço eventual de Bellini, e o recuo sincronizado de Zagallo, davam ao Brasil vez que outra a cara do 3-4-3 – o W.M. Com a diferença da variação inovadora da linha de quatro na frente, e principalmente a marcação por zona na linha defensiva – que ganhava laterais, o que evitava as perseguições encaixadas do sistema anterior, responsáveis pelos buracos na área. Um sistema novo que, aliado à qualidade técnica e ao improviso incomparável de Pelé, Garrincha, Didi, Zito…, fez o Brasil vencer com sobras as copas de 58 e 62.

LEIAM MAIS:

1) Primeira tática do futebol se inspirou no rugby

2) Novo impedimento provoca 1ª variação tática

3) As primeiras escolas clássicas de futebol

4) O revolucionário W.M de Herbert Chapman

5) Itália reúne dois sistemas e cria o W.W

6) Russos inauguram as trocas de posições

7) A interpretação dos húngaros para o W.M

Postado por Eduardo Cecconi

Comentários (13)

  • Genésio Nunes diz: 14 de janeiro de 2010

    Fala, Eduardo, tudo bom?
    Lendo a monografia de um treinador Gaúcho, Luis Esteves, encontrei um depoimento de Zagallo comentando sobre esse “recuo estratégico dele”. Segue o depoimento e a fonte.

  • Genésio Nunes diz: 14 de janeiro de 2010

    “Os dois eram
    excelentes. Percebi que tinha de fazer algo diferente do estilo deles e passei a jogar mais recuado,
    ajudando na marcação no meio-campo.(CBF, 2007).”

  • André Rocha diz: 14 de janeiro de 2010

    Eduardo, ótimo post!

    Mas reforço que para Zagallo e outros tantos, o Brasil de 1958/62 atuava mesmo no 4-3-3. O Flu de Telê Santana e os times do Velho Lobo já atuavam assim no país. Tenho os vídeos contra França, Suécia e Chile e o desenho tático parece bem claro. Tanto que Zito apoia muito pela direita, deixando o centro para Didi e Pelé tabelarem. Vavá ficava mais à esquerda e só ia para o centro quando Garrincha ia ao fundo pela direita.

    Abração!

  • Dyeison Martins diz: 14 de janeiro de 2010

    E esse ai é o pai dos estilos futuros, do 4-3-3. Tudo porque os brasileiros não queriam marcar.

    Mas o Bellini era meio campo, e virou o “quarto zagueiro” para se adaptar ao sistema ou já era quarto-zagueiro?

  • Genésio Nunes diz: 14 de janeiro de 2010

    “Estreou no amistoso
    contra o Paraguai, no dia 4 de maio de 1958, e marcou dois gols na goleada de 5 a 1. Para a ponta-
    esquerda, Pepe, do Santos, e Canhoteiro, do São Paulo, eram os outros dois jogadores convocados.
    Pepe tinha um chute potente com a perna esquerda, marcava muitos gols, e Canhoteiro era
    considerado um dos maiores pontas-esquerdas do país em todos os tempos.”

  • Saulo diz: 14 de janeiro de 2010

    Olá Eduardo, cada post seu é uma verdadeira aula sobre tática!
    Teria como vc me passar o seu e-mail pra entrar em contato com vc?
    Obrigado

  • Genésio Nunes diz: 14 de janeiro de 2010

    “Logo vi que jogando como camisa 10 não ia chegar nunca à Seleção, já que era a posição em que
    havia os jogadores mais talentosos do Brasil. O caminho mais curto era a ponta-esquerda. Já com a
    camisa 11, transferido para o Flamengo, tricampeão carioca em 53-54-55, Zagalo só foi convocado
    para a Seleção em 1958, no grupo que se prepararia para o Mundial da Suécia.”

  • Eduardo Menezes diz: 14 de janeiro de 2010

    Cara, essa tua série de posts sobre evolução tática tá boa demais. Parabéns

  • Marco Aurélio diz: 14 de janeiro de 2010

    Sempre leio suas colunas e recomendo. O 4-2-4 do Brasil-1958 surpreendeu o 2-3-5 da França de Fontaine, por mais sólido defensivamente. Uma dúvida me atormenta: quando chegaremos à análise tática da Holanda-1974, o Carrosel Holandês? João Saldanha contava que um espião foi ver a Holanda, o Mário Américo voltou confuso, não conseguia explicar nada. Aí, foi interrompido por alguém impaciente: “Mas qual esquema deste time?”. “Não sei, só sei que eles jogam prá burro?”.

  • Joao Henrique diz: 14 de janeiro de 2010

    Cecconi, o 1-4-2-4 do Brasil era a plataforma de jogo com a bola, a plataforma de jogo sem a bola, que é a matriz/inicial, era o 1-4-3-3.

    Abraco!

  • Ricardo Ribas diz: 14 de janeiro de 2010

    Olá Edu! Excelente post, como sempre.
    Tenho uma dúvida: é verdade que foi nesta seleção que começou a surgir a ultrapassagem do lateral, aproveitando a vocação do Zagallo para compor o meio, dando proteção para esse avanço de quem vinha de trás?
    Obrigado.

  • Francisco Luz diz: 15 de janeiro de 2010

    Cecconi, ótimo post, como de costume. Mas só uma correção: quem treinou o Brasil em 1954 foi o Zezé Moreira. O Flávio Couto não ficou após o Maracanazzo.

  • Yuri Soares Ferreira diz: 15 de janeiro de 2010

    Cecconi que “timinho fraco” esse hein amigo essa na minha humilde opinião foi uma das maiores seleções de todos os tempos do camisa um ao 9 é quase perfeita na minha opinião o garrincha erá um monstro acompanhado de outro pelé e de todo o time mais mudando de assunto os meu temores se confirmaram o silas vem com as frescuras dele no 3-6-1 3-5-2 Deus queira que o pessimo resultado afaste as suas intenções pq timinho ridiculo esse que jogou o ultimo jogo treino um abraço e otimo trabalho o teu

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