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Posts de janeiro 2010

O Wolfsburg que Réver vai encontrar

29 de janeiro de 2010 8

Hoje o Wolfsburg, futuro time do ex-zagueiro gremista Réver, empatou com o Hamburgo - 1 a 1, pelo Campeonato Alemão. Excelente oportunidade para falarmos sobre esta equipe que no ano passado conquistou seu primeiro título da Bundesliga, mas que nesta temporada enfileira maus resultados.

O Wolfsburg atua no 4-4-2, com meio-campo em losango. A estratégia aplicada a este sistema tático, entretanto, é bastante defensiva. Josué, primeiro vértice da figura geométrica, joga poucos metros adiante da linha defensiva. Ele se posiciona centralizado na intermediária, movimenta-se pouco, atendo-se exclusivamente à proteção dos zagueiros, e à cobertura das diagonais ofensivas dos adversários. Na linha defensiva, os laterais também apoiam pouco.

Com cinco jogadores prioritariamente defensivos, o Wolfsburg sobrecarrega os meias criativos. Na segunda linha do losango, Gentner e Hasebe abrem pelos lados. Eles reprisam os carrilleros argentinos, ou os box-to-box ingleses, como é comum nos 4-4-2's em losango: sem a bola, marcam e combatem no auxílio ao volante central; com a bola, apoiam pelos lados e tentam chegar na área adversária.

Misimovic é o cérebro da equipe, praticamente abandonado na tarefa de distribuir as jogadas. Na frente do articulador do Wolfsburg, há uma dupla que beirou a genialidade na temporada passada: o brasileiro Grafite à direita, e o bósnio Dzeko à esquerda. Sou grande fã de Dzeko. Ele e Grafite aliam força física e tempo de bola para as disputas pelo alto - como centroavantes, e velocidade, explosão e técnica para as jogadas que partem de fora da área para dentro - como atacantes de movimentação.

Réver deve rivalizar por posição com o italiano Barzagli, que atua pelo lado esquerdo - assim como Réver e, portanto, é quarto zagueiro. Barzagli é considerado o herdeiro de Cannavaro na seleção Azzurra. Faz 29 anos em maio, e além do Wolfsburg - onde atua desde 2008 - já passou por Chievo e Palermo. É um jogador técnico, assim como o ex-gremista: em 19 jogos na Bundesliga 2009/2010, levou apenas dois amarelos, e nenhum vermelho. Mede 1,86m e pesa 79kg. Estava no grupo campeão mundial da Itália na Copa de 2006.

Além de se preparar para a disputa com um jogador de certo prestígio na Europa, Réver precisa estar atento para algo ainda mais importante: ele será muito exigido. O posicionamento inicial dos jogadores, e a estratégia aplicada ao 4-4-2 em losango, fazem do Wolfsburg uma equipe muito recuada e defensiva. Desta forma, é natural que o adversário tenha mais posse de bola, e consequentemente crie muitas chances de gol.

No empate de hoje, o Wolfsburg teve apenas 30% de posse de bola. Passou 70% do jogo sendo atacado. A bola passa muito tempo no campo do atual campeão alemão. Réver precisará, caso ganhe a disputa com Barzagli, atuar em estado de alerta constante. A bola vem por cima, por baixo, por todos os lados. Talvez esta estratégia explique a má fase da equipe na Bundesliga: quem atrai o adversário e abre mão da posse de bola corre o risco de perder pela insistência.

Afinal, a melhor maneira de frear um adversário é manter a posse de bola, e não esperar por ele.

Uma boa seleção com os "fora da copa"

28 de janeiro de 2010 20

Nas Eliminatórias à Copa do Mundo de 2010, seleções que contam com bons jogadores ficaram de fora. E estas eliminações alijaram o público de assistir a nomes como Ibrahimovic e Arshavin nos jogos da África do Sul. Como exercício de ficção, proponho um debate sobre a formação de uma seleção formada apenas pelos "fora da copa".

Logicamente, à memória acorrem primeiro os nomes de atacantes e meias ofensivos. Por isso, não se assustem com esta formação. Optei pelo 4-3-3, com triângulo de base alta - um volante e dois meias - e um trio ofensivo que combina força física, técnica, improviso, e oportunismo.

A defesa tem o excelente goleiro irlandês Given, vítima da "mão de Henry". Nas laterais, escalei o tcheco Grygera pela direita, e o norueguês Riise na esquerda, ambos atualmente no futebol italiano. Representando a Premier League, os dois zagueiros: O'Shea, da Irlanda, e Vermaelen, da Bélgica - reitero o que já disse no post anterior: Vermaelen é hoje o zagueiro de melhor desempenho no futebol mundial.

O meio-campo tem como volante *o malinês Keitá. À frente dele, dois meias ofensivos rápidos e habilidosos: o russo Arshavin e o croata Modric. Eles seriam os responsáveis por municiar um ataque de três grandalhões: o togolês Adebayor, o sueco Ibrahimovic, e o bósnio Dzeko.

É complicado acomodar três nomes que comungam de características semelhantes. Todos eles são preferencialmente centroavantes, homens de área. Mas capazes de se movimentar, velozes nas arrancadas curtas, e fortes. Poderiam se movimentar, alternando posições a todo momento. Pensei em Adebayor no pivô, com Dzeko e Ibrahimovic avançando com os "pés invertidos" - canhoto na direita, destro na esquerda.

Para treiná-los, nada mais natural do que o holandês Guus Hiddink, comandante da Rússia. Ele é um técnico adepto do 4-3-3. Saberia como fazer esta engrenagem funcionar. Talvez eu tenha esquecido nomes melhores do que os escolhidos. Por isso, deixo o debate aberto para quem quiser contribuir com mais lembranças.

No banco de reservas, por exemplo, figurariam o malinês Kanouté; os croatas Olic (atacante) e Srna (lateral/meia); o tcheco Jankulovski (lateral-esquerdo); o norueguês Carew (atacante); o búlgaro Berbatov (atacante); o turco Altintop (meia) ...

*Post corrigido

Arsenal reconfigura a linha ofensiva

28 de janeiro de 2010 6

Arsene Wenger privilegiou os fãs do bom futebol com a formação de uma das melhores equipes da história recente deste esporte: os Invencíveis, do Arsenal campeão na temporada 2003/2004. Time de um desempenho tão encantador, que acabou influenciando a disseminação imediata do sistema tático 4-5-1 - desdobrado em 4-2-3-1 - na Europa. A linha ofensiva do meio-campo contava com Pires, Bergkamp e Ljungberg, protegidos por Vieira e Gilberto Silva, e tendo à frente Henry.

Será difícil reprisar o desempenho e os resultados conquistados pelo Arsenal dos Invencíveis. Mas Wenger continua tentando. Fustigado por uma epidemia de lesões graves no elenco, ele nunca pôde escalar o time ideal, com os protagonistas do grupo simultaneamente prontos. Hoje, ele ainda não tem Van Persie, acaba de perder o zagueiro belga Vermaelen - para mim, o melhor da posição no futebol mundial nesta temporada europeia - e Song em breve voltará da Copa Africana das Nações.

Mas, a despeito de todos os problemas, Wenger começa a reconfigurar no Arsenal uma linha ofensiva de qualidade acima da média. Ontem, no empate em 0 a 0 fora de casa com o Aston Villa, o treinador repetiu a escalação do trio Fábregas, Rosicky e Arshavin. Eduardo foi o centroavante, enquanto Denilson e Ramsey protegeram a linha defensiva formada por Sagna e Clichy nas laterais, mais Gallas e Vermaelen (depois Campbell) na zaga.

As triangulações que caracterizam o estilo de jogo do Arsenal de Wenger estão deslanchando novamente. Orquestrada por Fábregas, a segunda linha de meio-campo é leve, tem mobilidade, e cria um entrosamento antes barrado pela impossibilidade de escalar o trio simultaneamente. O importante, acima de tudo, é assistir a Wenger contando novamente com jogadores inteligentes e participativos, tecnicamente qualificados e velozes, no setor ofensivo.

Fábregas atua centralizado na segunda linha de meio-campo. Distribui com alento as jogadas, e auxilia no combate sem a bola. O espanhol é um jogador que parece não se desgastar com a bola, pela capacidade de perceber os espaços vazios. É nestes vácuos de marcação que Fábregas se posiciona para receber a bola na transição ofensiva dos volantes, e articular a próxima jogada.

Rosicky e Arshavin atuam pelos lados, como wingers. O tcheco na direita, o russo na esquerda. Ambos aproximam-se de Fábregas em diagonais que indefinem a marcação e aproximam o trio para as tabelas. Eduardo, o brasileiro-croata, também é capaz de participar das triangulações. E assim este quarteto forma um mini-carrossel de peças em constante movimento, mantendo a bola sempre em circulação, de pé-em-pé.

Ainda falta melhor condicionamento a Rosicky, Arshavin é um jogador instável, e realmente não dá para comparar esta formação aos Invencíveis. Mas o Arsenal de Wenger consegue vencer todo o tipo de dificuldade - é um clube historicamente azarado (leiam "Febre de Bola", de Nick Hornby) - para seguir fiel à filosofia que alia um sistema tático bem planejado a uma estratégia ofensiva. O Arsenal joga com a bola no chão, com movimentos rápidos, com toque de bola. Em breve, voltará a dar prazer em assistir.

Ausência de 1º volante indefine formações do Grêmio

26 de janeiro de 2010 44

Neste início de temporada, Silas vem testando diversas formações no Grêmio. Já atuou no 4-5-1 com dois volantes e três meias (desdobrado em 4-2-3-1 para quem preferir), no 4-4-2 com meio-campo praticamente em quadrado (dois volantes e dois meias centrais, bem brasileiro), no 4-4-2 com um volante centralizado e três meias ofensivos (desdobrado em 4-1-3-2), e até mesmo em um 3-5-2 emergencial.

Após o empate com o Veranópolis, e a chegada de Douglas, Silas parece estar se encaminhando para o 4-4-2 quase em quadrado, descrito no diagrama tático que ilustra o post. Isso porque Jonas se afirmou como artilheiro de início de temporada, Borges é o único centroavante disponível, e há uma comoção pela manutenção da dupla ofensiva. Nesta formação, se abrirá uma intensa disputa por duas vagas no meio-campo: pela esquerda, entre Hugo e Dougas; e pela direita, entre Souza e Leandro.

Pela imposição de Jonas, este 4-4-2 parece ser o sistema tático e o desenho mais apropriado às exigências do que Silas pretende. Sem nenhum primeiro volante de qualidade no grupo - repito, nenhum primeiro volante em todo o grupo - o 4-4-2 com três meias ofensivos (4-1-3-2) ruiu contra adversários de Gauchão. Vítima desta ausência. Adilson não consegue ser um volante marcador capaz de oferecer segurança À linha defensiva, conforme o desenho abaixo:

Silas começou a temporada no 4-5-1 (diagrama abaixo), e chegou a me passar uma excelente impressão nos treinamentos da pré-temporada. Esta alternativa sai do primeiro para o último lugar da fila devido ao bom momento de Jonas, que força o treinador gremista a jogar com dois atacantes. Este 4-5-1 seria ideal, por exemplo, para acomodar o maior número de meias contratados e remanescentes - Souza, Douglas, Leandro e Hugo disputariam três posições, sobrando apenas um. No 4-4-2, dois deles vão para o banco, e nunca é confortável ter jogadores de destaque inconformados na suplência.

Em todas as alternativas é evidente a urgência por um primeiro volante. Até no 3-5-2. A diretoria contratou três meias de qualidade - Douglas, Hugo e Leandro - e já tinha Souza. Trouxe Borges para fazer dupla com Jonas. Formou um elenco ofensivo de primeira classe. E se esqueceu da proteção à defesa.

Para a primeira função vieram Ferdinando e Henrique. Sem preconceito a ambos, mas não devem dar conta do recado. Adilson é segundo volante, assim como William Magrão, Maylson e Fábio Rochemback. Túlio já teve oportunidades de sobra. O Grêmio sofreu gols em todos os três jogos - 2 contra o Pelotas, 2 contra o Caxias, e 1 contra o VEC. Boa parte deles - se não a totalidade - provocados pela falta de um volante marcador, que cubra o lateral apoiador, que bloqueie a frente da área, que auxilie os zagueiros na bola aérea, que mantenha-se fixo no posicionamento inicial. Enfim, que sustente o sistema defensivo para o casting de meias e atacantes brilhar.

Não sei ainda qual sistema Silas vai escolher. E nem quais jogadores ofensivos deixará no banco. Mas acredito que, sem um primeiro volante qualificado, terá muito trabalho para formatar um Grêmio equilibrado, em qualquer sistema, e com qualquer escalação. A estratégia aplicada à tática escolhida terá de compensar esta carência.

Leverkusen: meio inglês, meio alemão

25 de janeiro de 2010 6

Associado tão intensamente ao futebol inglês, a ponto de ser chamado aqui no blog Preleção de 4-4-2 britânico, o consagrado sistema das duas linhas é tão usual na Alemanha quanto em sua terra. E um bom exemplo - além de Schalke 04, Bayern de Munique, Hamburgo, Borussia Dortmund - é o Bayern Leverkusen.

O líder da Bundesliga atua no 4-4-2 britânico. Sem a bola, as duas linhas se desenham e se aproximam uma da outra. Os wingers baixam para o nível dos meias-centrais, e os laterais fazem o mesmo para a perspectiva dos zagueiros.

Na marcação, os atacantes Kiessling e Drdiyok auxiliam alternando a pressão na saída de bola adversária, e o recuo por dentro, reforçando o bloqueio. Os laterais costumam permanecer na base, apoiando apenas quando é conveniente e seguro.

Com a bola, os dois wingers partem em posicionamento muito avançado. Barnetta, pela direita, é o "dono do time". O Leverkusen gosta de jogar pelo seu setor. Vidal, o volante da linha, faz a saída com Barnetta preferencialmente. Na esquerda, Kroos também se destaca.

Assisti à vitória de 3 a 0 fora de casa sobre o Hoffenheim no domingo, resultado que manteve o Leverkusen na liderança invicta da Bundesliga - 19 rodadas sem perder. Gostei do sistema convencional, da estratégia equilibrada e do desempenho de seus protagonistas.

O já pragmático 4-4-2 britânico ganha do Leverkusen a eficiência matemática dos germânicos. O Leverkusen nem se retranca, nem se expõe. Mantém a posse de bola sem exageros, marca por zona com grande competência, sai para o ataque em velocidade, e ocupa muito bem os espaços. Feijão-com-arroz, como sempre defendo.

Mas o grande diferencial não poderia ser mais alemão: a bola aérea ofensiva. Principalmente em faltas laterais e escanteios. O finlandês Hyypia, ex-Liverpool, é letal quando sobe na área adversária. O Leverkusen demonstra uma clara preocupação em treinar cruzamentos. Quem cobra sabe onde lançar a bola, quem se posiciona na área cumpre um papel definido no ensaio.

Mantendo-se firme com bola rolando, o Leverkusen lidera a Bundesliga na bola parada.

Muricy coloca o Palmeiras no 4-4-2

22 de janeiro de 2010 11

Diagrama tático do Palmeiras no 4-4-2

Ontem assisti ao empate entre Grêmio Barueri e Palmeiras (2 a 2) pelo Campeonato Paulista. A partida teve erros terríveis de arbitragem, prejudiciais ao Verdão, mas este assunto não é o tema do blog Preleção. O confronto nos apresenta outro debate.

Muricy Ramalho escalou o Palmeiras no 4-4-2. E com uma distribuição de posicionamentos e funções bem brasileira. A equipe teve uma linha defensiva de quatro jogadores, guarnecida por dois volantes. Pierre é o primeiro, pouco mais à direita; e Márcio Araújo o segundo volante, pela esquerda.

À frente, dois meias-articuladores, obedecendo ao mesmo critério. Pela direita, Sacconi um pouco mais recuado, enquanto na esquerda Cleiton Xavier é o meia mais ofensivo. O desenho do quarteto lembra duas diagonais. Não fecha uma figura geométrica, não me pareceu losango nem quadrado, mas sim duas diagonais - uma dos volantes, uma dos meias. Mas assisti a apenas um jogo. 

No ataque, Diego Souza e Robert. Sim, Diego Souza, que no RJ começou como volante, chegou ao Grêmio como segundo homem de meio-campo, foi adiantado por Mano Menezes, ganhou mais terreno com Luxemburgo no Palmeiras, e agora é definitivamente um homem de área, ao lado do centroavante Robert.

Defensivamente, o Palmeiras faz a tradicional basculação, movimento bastante debatido e explicado aqui no blog Preleção. Os laterais alternam o apoio. Se Figueroa sobe, Armero fica - e vice-versa. Perdida a posse de bola, o lateral que permaneceu na base reúne-se aos zagueiros Léo e Danilo para a cobertura, movendo-se com a dupla de defensores no sentido do ataque adversário.

Ofensivamente, pela presença de dois homens de área que usam a força física, o Palmeiras ainda tem na bola aérea sua principal estratégia. Diego Souza e Robert sabem se posicionar na área, vencer zagueiros na disputa com o corpo, e são precisos na cabeçada - Diego Souza marcou um golaço desta forma ontem. Mas ambos também jogam pelo chão, recebendo passes para diagonais às costas dos zagueiros - principalmente em saídas rápidas na transição ofensiva (contra-ataque).

Como Muricy e o próprio Palmeiras estão há muito tempo trabalhando no 3-5-2/3-6-1 - principalmente o treinador - esta migração será lenta, acredito. No meio-campo, principalmente, algo falta ao Palmeiras. Há poucos movimentos sincronizados, parece-me que os volantes e os meias ainda não atuam com naturalidade em um quarteto que agora protege uma linha defensiva na marcação por zona, e não mais nas perseguições individuais dos três zagueiros.

Tomara que Muricy não desista tão fácil. Se ele conseguir um meia diferenciado para atuar ao lado de Cleiton Xavier, este 4-4-2 tem boas chances de engrenar. Ou então, se este meia não vier, dá para recuar Diego Souza e colocar um atacante de movimentação ao lado de Robert. Gostei, acima de tudo, de ver Muricy receptivo a um conceito tático diferente.

Postado por Eduardo Cecconi

Como Sandro pode jogar no Tottenham

21 de janeiro de 2010 23

Diagrama tático do time-base do Tottenham Hotspurs

Se a venda de Sandro para o Tottenham se concretizar - repito, antes que alguém me xingue: "se" - o volante do Inter certamente disputará posição na parte interna da linha de meio-campo. Dentro do 4-4-2 em duas linhas dos Spurs, ele teria duas alternativas: ou ser um box-to-box, jogador mais adiantado, como acontece com Huddlestone; ou um meio-campista defensivo, mais marcador, como faz Palacios.

O time-base do Tottenham me agrada bastante. A linha defensiva tem dois laterais participativos - Corluka e Ekotto. Os meias centrais são qualificados, marcadores viris e também aplicados no apoio. Pelos lados, Lennon e Modric são diferenciados. Combinam velocidade e habilidade, cada qual com sua caracteríscia - Modric mais cerebral e finalizador, Lennon mais incisivo. Na frente, Robbie Keane, embora decadente, ainda é um bom jogador. E Defoe contribui muito dentro da área.

Dentro deste contexto, em qualquer das alternativas, Sandro terá de aprender a chutar. E esta iniciativa partirá da percepção de que no sistema 4-4-2 em duas linhas ele não será o volante brasileiro, não executará a mesma tática individual exigida dos volantes nas leituras tupiniquins do 4-4-2 - em quadrado ou losango- e das várias versões de 4-5-1 e 3-5-2/3-6-1.

A diferença é: em duas linhas, o meio-campista central não tem articuladores à sua frente. O setor conta com wingers abertos pelos lados. O jogador interno da linha de meio-campo tem pela frente os companheiros de ataque. Está em contato direto com os homens de frente. Ao contrário do volante tradicional dos outros sistemas difundidos no Brasil.

Aqui, o volante tem meias articuladores pela frente. Sua função principal é desarmar e entregar a bola para eles criarem. E mais. Geralmente, a segunda bola é dos meias. Os laterais passam pelos lados, atacantes entram na área, meias se adiantam por dentro. No 4-4-2 britânico, não. Wingers passam pelos lados, atacantes entram na área, e os supostos volantes se adiantam.

De frente para os atacantes, os meio-campistas centrais da Inglaterra - sejam os box-to-box, que fazem o vai-vem de área a área; ou os defensivos, mais posicionados na intermediária defensiva - são responsáveis pela distribuição de jogo. Fazem a transição de lado a outro quando a bola gira de pé em pé. Executam lançamentos, longos ou curtos, para as infiltrações dos atacantes, ou para o avanço dos wingers. E chutam. Como chutam!

Resumindo, Sandro precisará reunir os seguintes requisitos para ter sucesso no Tottenham: disciplina tática para não desagrupar a linha; combatividade sem a bola; qualidade e precisão nos passes e lançamentos; e - este é o diferencial, a cereja do bolo - iniciativa para avançar e concluir a gol.

É neste aspecto que, acredito, falham os ex-gremistas Anderson e Lucas. Anderson perdeu espaço no Manchester United por não saber chutar a gol. Tendo a concorrência de Carrick, Fletcher e Scholes, três clássicos box-to-box que arriscam muito, e marcam belos gols na segunda bola ofensiva, foi preterido. No Liverpool, Lucas só está jogando porque Xabi Alonso foi embora, mas segue abdicando deste fundamento.

No Inter, Sandro marca poucos gols. Mas atua em uma função diferente, é verdade. Precisa trabalhar nesta adaptação. Sandro não será volante na Inglaterra. Será um box-to-box, um jogador que defende sem a bola, avança com ela, adianta-se, distribui o jogo e precisa assegurar o rebote - a segunda bola ofensiva. É uma posição muito valorizada no país. Se entender quais os requisitos necessários, tem qualidade técnica suficiente para se destacar.

Postado por Eduardo Cecconi

Rafa Benítez acorda e adianta Kuyt

20 de janeiro de 2010 12

Diagrama tático do Liverpool na tarde de hoje, contra o Tottenham

Para mim esta alternativa era quase óbvia, e sobre ela já havia falado no Twitter. Mas para o técnico do Liverpool, Rafa Benítez, o melhor substituto de Fernando Torres no elenco foi descoberto nesta quarta-feira, na vitória de 2 a 0 sobre o Tottenham, pela Premier League.

No 4-3-3 da Holanda, Kuyt joga com a camisa 9. É o centroavante de área quando Nistelrooy não está. Van Persie e Robben jogam pelos lados. Ser centroavante, portanto, não é novidade. Apesar de todas as limitações técnicas dele, Kuyt está ambientado à função. E compensa com a dedicação daqueles artilheiros que costumam fazer gols de qualquer jeito.

No Liverpool, Kuyt é o winger direito. O que se justifica pela presença de Fernando Torres. O espanhol é centroavante diferenciado. Não daria para o holandês rivalizar com ele. Mas, o que não se pode conceber, é Benítez não ver em Kuyt a primeira opção quanto El Niño se lesiona - e isto acontece com frequência. Usar N`gog, por exemplo, mantendo Kuyt na meia-extrema, é um erro estratégio.

O Liverpool tem um bom elenco de wingers. Kuyt não é imprescindível nesta função. Sem Torres, ele pode jogar na área, com o ingresso de Benayoun na direita. Ou então de Degen, como Benítez fez hoje contra o Tottenham. Finalmente! Rafa Benítez acordou para o óbvio, contrariando uma teimosia que acompanho há mais de uma temporada.

Ainda no 4-5-1 em duas linhas, que pode ser desdobrado em 4-4-1-1, o Liverpool não contou com Torres e Gerrard. O treinador levou Kuyt para a área, escalou Degen de winger na direita, Riera na esquerda, e centralizou Aquilani como o enganche - substituindo Gerrard. Fez o óbvio, e venceu bem.

Postado por Eduardo Cecconi

Zagallo disseminou as variações táticas

19 de janeiro de 2010 7

Diagrama tático da Inglaterra campeã de 66, segundo Jonathan Wilson

O 4-2-4 nasceu no Brasil e ganhou destaque com o título de 1958, mas desde seus primeiros dias na Seleção já pendia ao 4-3-3. Graças ao movimento de vai-volta do então ponta-esquerda Zagallo, que pela intensidade com que retornava para auxiliar na marcação, acabava se tornando uma espécie de terceiro homem do meio-campo.

Em 1962 o recuo de Zagallo ficou tão configurado que não se via mais uma variação do 4-2-4 para o 4-3-3, e sim o inverso: o posicionamento inicial do "Formiguinha" - assim chamado pelo desvelo na aplicação tática - partia do meio-campo. O Brasil já atuava com três atacantes, e Zagallo era o pioneiro - ou então, o primeiro a ganhar fama neste sentido - da polivalência. Um jogador capaz de desempenhar mais de uma tática individual (função), permitindo à equipe variar dentro da mesma partida seu sistema tático.

O exemplo de Zagallo disseminou pelo futebol mundial diversas variações táticas. Se até a Copa de 1958 sempre havia uma tendência predominante, que influenciava os demais (primeiro o 2-3-5, depois o W.M, depois o 4-2-4), a partir de Zagallo cada treinador passou a estudar como conciliar as características de seus jogadores a um sistema de jogo que pudesse explorar essas virtudes da melhor maneira.

Em 1966, a Inglaterra conquistou sua primeira - e única - Copa do Mundo amparada em duas variações táticas. Alf Ramsey, técnico dos ingleses, convocou jogadores polivalentes, com a clara intenção de consolidar mais de um sistema tático, mais de uma estratégia, mais de um padrão de jogo. Ele percebeu que, a despeito da técnica individual, da importância do jogador, a organização coletiva está acima do brilho singular que antes predominava no kick and rush, embrião do wing play inglês, que por muitos anos fez o país acreditar que o futebol se decidia pelos pés de um velocista habilidoso "resolvendo sozinho".

Ramsey começou no 4-2-4 sua jornada, mas rapidamente escolheu "um Zagallo" para variar ao 4-3-3. Segundo Jonathan Wilson resgata no livro Inverting the Pyramid, o winger direito Paine reproduzia no English Team o movimento de vai-vem lateralizado do Formiguinha brasileiro. Com grande sucesso nos amistosos prévios da Copa. Desempenho satisfatório que levou Ramsey a esconder o jogo dos adversários - ele atuava no 4-2-4, mas treinava no 4-3-3, com a intenção de lançar uma falsa percepção do estilo inglês para os concorrentes.

As mudanças não pararam. Tanto que o segundo jogador a recuar, de maneira definitiva, foi o centroavante Bobby Charlton. Ele deixou de ser um segundo jogador de área, para atuar centralizado na segunda linha de meio-campo, como organizador. Na frente, dois homens. Um 4-4-2 bem caracterizado. Paine saiu, mas Ramsey fixou Peters e Ball - dois formiguinhas - pelos lados, completando com Bobby Charlton o setor.

Jonathan Wilson reproduz uma excelente definição de Ramsey, justificando sua escolha à época: "ter dois wingers abertos pelos lados é deixar sua equipe com apenas nove jogadores quando está sem a bola". Foi para ocupar melhor os espaços no meio-campo que o treinador da Inglaterra optou pelo fim do wing play, pelo fim dos pontas, e pelo fim do 4-2-4. Um centroavante recuou, um winger tornou-se meio-campista, e os atacantes alinharam-se para formar uma dupla de área. Na final, este 4-4-2 venceu a Alemanha Ocidental, que se utilizava do "default" do 4-2-4 brasileiro.

O desenho, entretanto, ainda não era o das famosas "duas linhas de quatro". Havia um volante central à frente do quarteto defensivo, guarnecendo um trio de articuladores que contava com um organizador, e dois apoiadores que faziam o vai-vem pelos lados do campo. Na prática, um ponta-de-lança e dois Zagallos. O sistema tático deu certo - e escondê-lo nos amistosos lançou surpresa sobre o que os ingleses apresentavam na Copa, sem que os adversários tivessem um antídoto.

LEIAM MAIS:

1) Primeira tática do futebol se inspirou no rugby

2) Novo impedimento provoca 1ª variação tática

3) As primeiras escolas clássicas de futebol

4) O revolucionário W.M de Herbert Chapman

5) Itália reúne dois sistemas e cria o W.W

6) Russos inauguram as trocas de posições

7) A interpretação dos húngaros para o W.M

8) O 4-2-4 do Brasil bicampeão Mundial

Postado por Eduardo Cecconi

É bom ver o Chelsea jogar

17 de janeiro de 2010 31

Diagrama tático do Chelsea no confronto com o Sunderland

Assistir ao Chelsea jogando me faz pensar se este Carlo Ancelotti é o mesmo que há poucos meses tomava decisões muito questionáveis no Milan. Ontem, em goleada de 7 a 2 sobre o Sunderland, o técnico italiano soube driblar com muita inteligência as ausências dos africanos Drogba e Essien (na Copa Africana das Nações, assim como os reservas Mikel e Kalou) e dos portugueses Deco e Bosingwa (lesionados).

Ancelotti manteve o Chelsea no 4-4-2 em losango. À primeira vista, uma estrutura tática idêntica à original, com linha defensiva de quatro jogadores, um volante central protegendo a área, dois apoiadores marcando sem a bola e criando com ela, um ponta-de-lança ofensivo centralizado, e dois atacantes - um de área, outro de movimentação.

Mas a estratégia ofensiva encaixou-se às exigências do elenco sem Drogba e Essien. É uma sequência de sincronias que levou à criação de 29 chances de gol, em absurdos 71% de posse de bola. Tudo começa, acredito, pela entrada de Malouda no lugar de Drogba.

Canhoto, Malouda levou Ancelotti a modificar a função de Anelka, que se tornou a referência de área, com Malouda fazendo o trabalho em suas imediações, pela esquerda. O substituto de Drogba contou ainda com o assessoramento constante de Ashley Cole, lateral que recupera sua melhor forma jogando em alto nível, com qualidade, velocidade, e precisão.

Para equilibrar, Ancelotti levou Joe Cole para as diagonais inversas, saindo do meio para a direita. Assim, o Chelsea trabalhou nos dois lados: esquerda, com Ashley Cole e Malouda; direita, com Joe Cole e Anelka - com Ivanovic apoiando menos. Essa solução - levar Joe Cole para o lado - proporcionou o que de mais bonito fez o Chelsea nessa partida.

Com a frente da área liberada, Lampard e Ballack brilharam, tanto na distribuição do jogo como também no ingresso na área. Malouda e Joe Cole, saindo pelos lados, arrastaram a marcação na intermediária do Sunderland, escancarando a porta da área. Dessa forma, Lampard e Ballack puderam se adiantar, sendo muito mais do que simples apoiadores. O resultado desta estratégia é: dois gols de Lampard, um de Ballack, todos de dentro da área.

O Chelsea abriu a marcação do Sunderland. Sem mexer no sistema tático. Mantido o 4-4-2 em losango, Carlo Ancelotti apenas se adequou às novas exigências do elenco desfalcado. Foi muito bem o técnico dos Blues. Ganhou o sábado quem, assim como eu, ontem parou para assistir a esta aula de futebol inteligente.

Postado por Eduardo Cecconi