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A gênese da catimba argentina nos anos 60

03 de fevereiro de 2010 4

Depois de alguns dias de muita correria, consigo hoje retomar a série de posts sobre o livro Inverting the Pyramid, do jornalista inglês Jonathan Wilson, sobre a evolução tática do futebol. Não dissecarei o capítulo sobre o Catenaccio, porque recentemente falamos sobre este sistema aqui no Preleção. Hoje, o assunto é o surgimento de um estilo de jogo diferente na Argentina: a catimba.

Primeiro, a contextualização histórica de Jonathan Wilson, jornalista muito aplicado na recuperação de fatos, com pesquisas e entrevistas. Segundo o Inverting the Pyramid, tudo começou com a falsa impressão – entre os argentinos – de que eles praticavam um futebol de exceção, nos anos 50. Percepção que não se sustentava, pelo isolamento do futebol no país, distante dos confrontos com equipes estrangeiras e seleções. Não havia base de comparação.

Ainda no jurássico 2-3-5, a Argentina foi massacrada pela Checoslováquia na Copa de 58, por 6 a 1. Foram à Suécia acreditando-se os melhores, retornaram cheios de dúvidas. De imediato, importaram o 4-2-4 brasileiro, sem passar pelo estágio do W.M que já caía em desuso no Mundo. Abriam-se, portanto, às tendências táticas. Pretendiam evoluir.

Mas os reveses nas copas persistiram. Jogar bonito, ter técnica, procurar o gol, nada disto bastava. A Argentina buscava um padrão, uma característica, uma tradição. Como acontecera aos húngaros e austríacos da Danubian School, ou aos russos da desordem organizada, ou aos ingleses do W.M, ou até mesmo aos vizinhos brasileiros e seus virtuosos jogadores no 4-2-4.

Era preciso ter vontade de vencer. Ou melhor: vencer a qualquer custo. Aos poucos, os clubes argentinos começavam a aplicar ao 4-2-4 uma estratégia de jogo que para os perplexos olhos estrangeiros foi rotulado de anti-jogo, ou catimba. Ao invés de jogar bonito e tentar o gol, a meta passava a ser a marcação forte, o aguerrimento, e a fortaleza defensiva.

Essa característica tomou forma nas conquistas argentinas na Copa Libertadores, nos anos 60. Primeiro com o Racing, depois com o Estudiantes do técnico Zubeldia – equipe tricampeã continental, difusora de uma centena de folclores por eles negados, mas pelo mundo confirmados, de violência física (socos e chutes que até mesmo fraturas provocavam), intimidação psicológica (ameaças a adversários, uso de informações pessoais para desestabilizá-los), e a aplicação de agulhas (“pinchas”) para espetar adversários.

As intimidações relatadas por Jonathan Wilson chegam a ser, de tão absurdas, engraçadas. Comandados por Bilardo, volante que representava em campo as orientações de Zubeldia, os jogadores do Estudiantes esmeravam-se em desestabilizar os oponentes. Em um jogo, descobriu-se que um adversário manteve relacionamento quase incestuoso com a mãe, recém-falecida. Um jogador do Estudiantes se aproximou dele e falou – segundo o Inverting the Pyramid: “parabéns, até que enfim você conseguiu matar a própria mãe”.

Mas o Estudiantes tricampeão da Libertadores não era apenas o precursor da catimba, representante de um futebol que ultrapassava a virilidade para chegar à violência. O time de Zubeldia trouxe à Argentina duas inovações estratégicas aplicadas ao 4-2-4: a marcação-pressão e a linha de impedimento. O Estudiantes se adiantava, mesmo sem a bola posicionava-se à frente da própria intermediária. Retirava espaço do adversário, e combatia quem recebia a bola com dois ou três jogadores. Os pontas – La Bruja Verón e Ribaudo – auxiliavam a preencher o meio-campo, como faziam os “tornantes” do catenaccio italiano (wingers avançados com a bola, recuados sem ela).

Os recursos de anti-jogo ficaram, entretanto, mais conhecidos do que a linha de impedimento e a marcação-pressão adiantada em função dos confrontos com os clubes europes, em dois jogos, nas finais dos Mundiais Interclubes.

LEIAM MAIS:

1) Primeira tática do futebol se inspirou no rugby

2) Novo impedimento provoca 1ª variação tática

3) As primeiras escolas clássicas de futebol

4) O revolucionário W.M de Herbert Chapman

5) Itália reúne dois sistemas e cria o W.W

6) Russos inauguram as trocas de posições

7) A interpretação dos húngaros para o W.M

8 ) O 4-2-4 do Brasil bicampeão Mundial

9) Zagallo disseminou as variações táticas

Comentários (4)

  • Marco Aurelio diz: 4 de fevereiro de 2010

    Cara, muito bom! Parabéns! Continuo aguardando uma análise tática da Holanda-1974, se é que isto é possível.

  • Marco Aurelio diz: 4 de fevereiro de 2010

    Cecconi

    Esqueci de comentar, mas o Mundial Interclubes ficou suspenso por um período, pois os europeus consideravam os representantes da América do Sul um tanto violentos.

  • Zanata ‘La Bruja’ Arnos diz: 7 de fevereiro de 2010

    Mestre Cecconi, sensacional !!!
    Uma preciosidade histórica do glorioso clube Pincha!
    Vai para meu blog, ok?

  • hugo diz: 26 de fevereiro de 2010

    Olá, Cecconi. tenho acompanhado esse blog e me interessei muito. Gostei bastante dele.
    Queria saber se você parou com as análises da variação tática ao longo dos anos porque faz tempo que não há postagens.
    obrigado pela atenção!

    Resposta do Cecconi: oi Hugo. Vou retomar sim, mas é que com o início dos Estaduais e da Libertadores, muitos assuntos factuais tomaram frente. Mas na semana que vem vou fazer um post sobre a Laranja Mecânica. Abraços.

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