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Posts de fevereiro 2010

São Paulo no 4-4-2 sem Ricardo Gomes

26 de fevereiro de 2010 16

No primeiro jogo sem Ricardo Gomes, o auxiliar Milton Cruz abdicou dos três zagueiros e sistematizou o São Paulo no 4-4-2, ontem, pela Copa Libertadores. A equipe levou 2 a 1 do Once Caldas de virada, na Colômbia, mas teve uma boa atuação no primeiro tempo. Uma disposição tática diferente de tudo o que haviamos observado nesta temporada – leiam aqui.

O 4-4-2 do São Paulo teve dois desenhos. Sem a bola, Cléber Santana e Hernanes – pelos lados – alinhavam-se aos volantes Jean e Richarlyson. Mas com a bola eles não atuaram como “wingers” clássicos, não foram meias-extremos incisivos, ofensivos, de condução para a linha de fundo ou de diagonais para a conclusão dentro da área.

Com a posse, tanto Cléber Santana quanto Hernanes posicionavam-se mais centralizados, à frente dos volantes, em um 4-4-2 bem brasileiro: dois marcadores e dois armadores no meio-campo. Assim que o adversário recuperava a bola, ambos rapidamente retornavam à linha de meio-campo, bloqueando a frente da área, à frente da linha defensiva.

No 2º tempo, entretanto, Milton Cruz apresentou uma terceira alternativa tática. Ele recuou o atacante Marcelinho Paraíba, centralizou Cléber Santana, e inverteu Hernanes para a direita. O trio manteve-se à frente dos volantes com ou sem posse de bola. Configurando um 4-5-1 com dois volantes e três meias, também chamado de 4-2-3-1.

O mais interessante, apesar da derrota, é contrariar os defensivistas que atribuem os sistemas com três zagueiros à inviabilidade de se jogar com laterais ofensivos. Ou o lateral é base, ou é ala. Está errado. Milton Cruz armou o 4-4-2 com Cicinho e Jorge Wágner nas laterais. E eles respeitaram o posicionamento inicial na linha, alternaram o apoio, e sempre que o ataque do Once Caldas se dava pelo lado oposto, faziam a basculação defensiva, ingressando na área para formar uma sobra.

Pode se discutir não o 4-4-2, ou a escalação de dois laterais ofensivos – mesmo que eles tenham se dedicado ao cumprimento de todas as atribuições exigidas pela função. O que me desagradou foi o mau desempenho técnico de alguns atletas. Faltou a Milton Cruz, no intervalo, recorrer ao reservado. Ao invés de trocar jogadores que iam mal – Marcelinho Paraíba, Richarlyson e Cicinho não estavam inspirados – ele preferiu alterar o sistema tático. Não deu certo, e o time permitiu a virada.

Ainda assim, torço para que Milton Cruz não desista, e siga se utilizando deste 4-4-2 que varia da linha para o quadrado. E, acima de tudo, com laterais que apoiam e defendem, como deve fazer todo o jogador escalado para a função. Sem a ideia de que é preciso jogar com três zagueiros para proteger os lados do campo.

Inter: falta no meio, sobra na zaga

24 de fevereiro de 2010 41

Fiquei muito feliz ao acompanhar a boa repercussão do post que publiquei ontem à tarde, horas antes da partida entre Inter e Emelec, dissecando o sistema tático e a estratégia prediletos do treinador colorado Jorge Fossati – análise amparada na observação dos jogos e principalmente dos treinos. O que se previa realmente aconteceu – leiam aqui – assim como o 3-6-1 do Emelec, também analisado no blog Preleção, confirmou-se. Trago hoje um desdobramento desta análise, posterior à vitória de virada do Inter por 2 a 1.

A foto que ilustra o post foi tirada das sociais do Estádio Beira-Rio, evidenciando o posicionamento inicial dos jogadores de sistema defensivo do Inter. Está nítida a configuração do 3-5-2, com três zagueiros, dois volantes alinhados com dois alas, e um ponta-de-lança à frente.

Alguns problemas desta formação estão destacados nos dois círculos vermelhos. À esquerda, vemos Sorondo, Bolívar e Danilo Silva marcando o único atacante do Emelec; por outro lado, Giuliano está entregue a dois volantes do Emelec, e com todos os seus companheiros distantes. Precisa atuar em uma grande faixa de campo, sem companhia.

Os traços vermelhos mostram o encaixe de marcação típico dos sistemas com três zagueiros, que adota o sistema individual por função: alas batem com alas, volantes com meias, meia com volantes, zagueiros com atacante. Fora da foto, estão Alecsandro e Edu, e os três zagueiros do Emelec.

Reitero: é assim que Fossati quer ver o Inter jogar. No 3-5-2/3-6-1, com segurança defensiva, posicionamento inicial recuado de sete jogadores, e estratégia voltada ao contra-ataque em velocidade sempre pelos lados, descentralizando a articulação, para lançar a bola na área. Planejamento que deve alcançar êxito em jogos fora de casa, ou contra equipes ofensivas, ou debilitadas na cobertura pelos lados…

O problema se dá quando o Inter enfrenta adversários também cautelosos, e no Beira-Rio. Foram sete jogadores para combater quatro equatorianos. Para piorar, necessitando criar, o Inter viu seu único articulador refém da marcação. Restou ao time recorrer à movimentação exaustivamente treinada por Fossati: linha de fundo, bola na área. Não funcionou contra o Emelec.

Na entrevista coletiva, o próprio Fossati deixou claro que é isso que ele quer do Inter:

“Gostei muito. Nós controlamos a partida com muitas jogadas de linha de fundo. Conseguimos chegar ao fundo, mas tivemos problemas na finalização, no último passe”. Ou seja: era para o Inter jogar pelos lados e cruzar para a área, conforme orientação do seu treinador. Ele gostou do que viu porque os jogadores cumpriram sua determinação.

Sei que o 3-5-2 é competitivo, e recentemente vencedor. E sei também que Fossati pode fazer do Inter uma equipe vencedora com este modelo que privilegia a segurança defensiva, e gosta de “matar” os jogos em saídas velozes na transição para o ataque. Entretanto, a estratégia e o sistema escolhidos talvez não sejam os ideias para as características do elenco do Inter. Estamos somente em fevereiro, ainda é cedo, mas esta é a minha percepção. Jogar no 3-5-2 apostando nos cruzamentos laterais para a área é pouco para o Inter.

Descentralização colorada não deveria ser surpresa

23 de fevereiro de 2010 41

Quando o técnico Jorge Fossati atribuiu, ainda no início da temporada, a reserva de Giuliano em um coletivo a deficiências do jogador no cumprimento da função de ponta-de-lança dentro do 3-5-2/3-6-1 colorado, ninguém compreendeu. Aos poucos, com o desenvolvimento dos treinos, foi possível perceber o que Fossati pretende, qual a estratégia aplicada ao sistema tático, e a opção do treinador do Inter se esclareceu. Não se justifica o espanto geral com a descentralização da articulação do Inter.

No 3-5-2 com variação para 3-6-1 de Fossati (ou, se quiserem, 3-4-1-2 com variação para 3-4-2-1), a estratégia ofensiva escolhida é a transição pelos lados do campo. Os jogadores são distribuídos da seguinte forma: três zagueiros, guarnecidos por dois volantes, alinhados aos alas bem abertos, com um (ou dois) meias na intermediária adversária, um (ou nenhum) atacante de movimentação, e um centroavante de referência. Naturalmente, esta disposição já “abandona” o articulador, por apresentar um desequilíbrio – são sete jogadores com posicionamento inicial no campo de defesa.

Essa natural vocação dos sistemas com três zagueiros acentua-se a partir da estratégia escolhida por Fossati. O Inter joga pelos lados do campo. Na direita, Índio (ou Bolívar, enquanto Índio se recupera de lesão) empurra Nei (ou Bruno Silva); na esquerda, Eller (ou Danilo Silva) avança e joga Kleber para a frente; Sandro completa o triângulo do lado direito, e Guiñazu faz igual passagem na esquerda. Sobra, centralizado, apenas um meia – D’Alessandro/Giuliano – ou dois, quando a opção é pelo 3-6-1. E eles, devido à falta de companhia na faixa central, acabam movimentando-se pelos lados para buscar as jogadas.

É assim que Fossati quer ver o Inter jogar. Acompanhei praticamente todos os treinamentos abertos que ele comandou em 2010. O treinador colorado trabalha exaustivamente a descentralização da equipe. Não existe a figura do articulador, do pensador. É o time quem faz a transição, de pé em pé, de lado a outro, utilizando-se do meio-campo apenas como intermediário. O objetivo é chegar à lateral, à linha de fundo. Abrir o jogo, abrir o adversário. Avançar pelos lados do campo, aos poucos.

Do meia, seja ele D’Alessandro, Giuliano, Edu ou Andrezinho, Fossati exige o ingresso na área. Por quê? Porque o time trabalha para lançar a bola na área. Os dois alas avançam simultaneamente, assessorados pelos zagueiros e pelos volantes. Aberto o jogo, alcançada a lateral ofensiva, a bola é cruzada – alta ou rasteira. Alecsandro não pode disputar sozinho. Precisa do segundo atacante e do meia, ou dos dois meias (no caso do 3-6-1) com ele.

Assisti a uma atividade tática, comandada por Fossati, que endossa esta percepção. Ele posicionou 11 titulares, sem adversário algum, no gramado principal do Beira-Rio. A movimentação tinha início na reposição de bola do goleiro (Lauro, na oportunidade). Sem pressa, Fossati orientava zagueiros, volantes e alas a trocar passes de lado a outro, até que o ala disparasse, acompanhado do meia, pelo lado do campo. O outro meia (ou segundo atacante) ingressava na área acompanhando Alecsandro. O ala oposto fechava.

Bola cruzada na área. Em mais de uma hora, Fossati não testou nenhuma outra alternativa de transição ofensiva (chute de média distância, aproximação pelo meio, infiltração com bola no chão…). Nada. Apenas trabalhou a jogada pelo lado, e o cruzamento na área. Como Giuliano é um meio-campista menos incisivo, está demorando a se adaptar à exigência de Fossati. Terá de aprender a esperar na área pelo cruzamento, ou passar pelo lado em auxílio ao ala.

Assim o Inter deve enfrentar o Emelec hoje: com alas, volantes e zagueiros passando pelos lados e cruzando; meias e atacantes ingressando na área para concluir. Esta é a estratégia escolhida por Fossati. Por isso a articulação colorada descentralizou.

Não estou aqui – é bom esclarecer – lançando juízo de valor. Essa é uma análise do sistema tático e da estratégia adotados por Jorge Fossati no Inter. Um debate que pode partir desta análise, e aí sim é possível se posicionar com mais subjetividade, é o seguinte: vale a pena impôr uma estrutura tática a qualquer elenco? Ou é melhor priorizar as características do grupo na escolha do sistema? Pergunto isso porque a opção pelo 3-5-2 descentralizado soa um desperdício ao repertório de bons meio-campistas do Inter. Vale mais a pena Fossati seguir obstinado nos sistemas com três zagueiros, mesmo que isso deixe bons meias na reserva, e torne o meia titular um coadjuvante? Ou seria melhor abdicar do trio defensivo para abrir espaço a outro articulador, modificando não apenas o sistema, mas também a estratégia de jogo?

Mancini usa o losango no Vasco

22 de fevereiro de 2010 14

Assisti à decisão da Taça Guanabara, e como já propus no blog Preleção o debate sobre o 3-5-2 do Botafogo – campeão ontem, vencendo por 2 a 0.  É uma boa oportunidade para falarmos do Vasco, treinado por Vágner Mancini, equipe ainda não abordada na temporada 2010 aqui nas nossas conversas.

O Vasco de Mancini joga no 4-4-2 com meio-campo em losango. Para quem gosta de desdobramentos, pode ser descrito também como 4-3-1-2, ou então 4-1-2-1-2. Maneiras diferentes de se falar a mesma coisa. É um 4-4-2 com um volante defensivo, centralizado, no primeiro vértice (Nilton); dois apoiadores com função prioritária de marcação, mas também responsáveis pelo suporte ofensivo aos laterais – fazendo o vai-vem dos carrilleros argentinos, ou dos box-to-box ingleses (Souza na direita, Léo Gago na esquerda); e um ponta-de-lança no vértice mais adiantado, próximo aos atacantes (Carlos Alberto).

Na defesa, há dois laterais que apoiam – Elder Granja e Márcio Careca. A dupla de zagueiros conta com Fernando e Titi, jogadores de muita força física, efetivos na bola aérea e nos combates corporais, mas deficientes no bloqueio a jogadores velozes ou habilidosos em espaços maiores de campo.

O ataque tem o super-garoto Philippe Coutinho, que está jogando muito bem; e Dodô, com as mesmas oscilações que caracterizam sua carreira. Philippe Coutinho é um atacante habilidoso, veloz, corajoso e inteligente, que precisa apenas trabalhar os fundamentos de acabamento das jogadas (principalmente o chute, mas também a assistência) para ganhar espaço de destaque. Tanto que já está acertado com a Inter de Milão, conforme informações da imprensa carioca.

Philippe Coutinho sincroniza com Carlos Alberto boas inversões de posicionamento. Por também atuar na ponta-de-lança, o jovem costuma acrescentar ao repertório de variações entre esquerda e direita, um recuo centralizado que abre espaço para o ingresso de Carlos Alberto na área. Ambos estão afinados, jogam próximos, e parece-me que Carlos Alberto reconheceu em Philippe Coutinho um companheiro capaz de improvisar triangulações.

Contra o Botafogo, Mancini promoveu uma pequena variação tática. No intervalo, sacou Léo Gago e colocou Magno – meia ofensivo que se destacou em 2009 pelo Brasil de Pelotas. Magno seguiu posicionado como apoiador pela esquerda, mas avançou naturalmente com a posse de bola, levando Souza a adotar a postura contrária, e recuar – resultando na assimetria do losango.

Vale destacar, como sempre, que este foi o primeiro jogo que assisti do Vasco em 2010. Percebi com clareza o 4-4-2 com meio-campo em losango, mas deixo o debate aberto a quem quiser acrescentar mais detalhes sobre o histórico das decisões de Mancini nesta temporada.

Um 3-5-2 para Loco Abreu no Botafogo

18 de fevereiro de 2010 19

Muricy Ramalho foi demitido do Palmeiras, mas parece estar dirigindo o Botafogo. Joel Santana reproduz no Alvinegro carioca o 3-5-2 à brasileira consagrado por Muricy, e referência tática recente no futebol brasileiro. Com sucesso imedito, afinal, ontem a equipe eliminou o favorito Flamengo, e está na decisão da Taça Guanabara.

O 3-5-2 do Botafogo de Joel Santana tem triângulo de base baixa no meio-campo. Os volantes Leandro Guerreiro (direita) e Eduardo (esquerda) protegem a frente da área e auxiliam respectivamente os zagueiros Antônio Carlos e Fábio Ferreira na cobertura dos alas. Fahel é o “homem da sobra”, função que modificou no Brasil o antigo conceito do líbero à italiana.

Os alas Alessandro e Marcelo Cordeiro atuam muito adiantados – ou como diria Tite, “espetados”. É a teoria que justifica a presença de cinco defensores na equipe: liberá-los para o apoio insistente. Com isso, Lúcio Flávio é o vértice alto do triângulo, permanecendo solitário na articulação central do Botafogo.

A estratégia aplicada ao 3-5-2 tem como prioridade a busca de Loco Abreu no pivô ofensivo. Ontem, contra o Flamengo, não foram poucos os lances idênticos. Algum zagueiro ou volante faz a ligação direta, com lançamento longo e pelo alto; Loco Abreu recua, trazendo a marcação consigo, até a intermediária ofensiva; e de cabeça serve a algum dos alas pelo lado do campo, girando para receber na frente. Herrera, que apesar de não ser alto como Loco Abreu gosta muito de estabelecer seu campo de ação pelo contato físico, também recebe o lançamento direto para girar pelo lado.

Do pivô resulta a jogada de linha de fundo e o cruzamento para a área. Situação que se repete nas faltas laterais e nos escanteios. Um típico 3-5-2 à brasileira adepto do “Muricybol”, nome fantasia que associa respeitosamente o legado de Muricy Ramalho e a estratégia predileta deste sistema: algo parecido com o rugby e o futebol americano – os zagueiros são os quarter-backs, Loco Abreu é o running back, e os alas são os wide receivers. E quando não dá para o touchdown, eles se contentam com o field goal.

Neste 3-5-2, há ainda espaço para os reforços mais recentes. Danny Morais, zagueiro técnico e inteligente, pode muito bem substituir Fahel como “homem da sobra”. Ele qualificaria a saída de bola, e com a experiência de quem já atuou na primeira função do meio-campo, pode adiantar seu posicionamento por dentro quando a partida exigir o avanço da marcação. E Sandro Silva também tem qualidade para desbancar Eduardo ou Leandro Guerreiro, dando mais velocidade ao primeiro passe botafoguense.

Para encerrar, antes que alguém cometa esta atrocidade, assino embaixo no comentário de Vitor Sergio, do Esporte Interativo, via Twitter. Isto não tem nada de “futebol inglês”, como tentou conceituar pejorativamente o técnico flamenguista Andrade. Faz muitos anos – ou décadas – que o futebol inglês não se resume mais à ligação direta para o grandalhão da frente. Quem diz isso não assiste à Premier League desde os tempos de George Best ou Stanley Mathews.

Porto "desalinhado" com três atacantes

17 de fevereiro de 2010 4

Hoje o Porto venceu o Arsenal por 2 a 1, pela Liga dos Campeões, utilizando-se de um 4-3-3 um pouco diferente daquele que lhe caracterizou na temporada passada. Em 2009, era um sistema clássico de três atacantes, com dois abertos pelos lados (começou com Lisandro López e Cristian Rodríguez, terminou com Varela e Mariano), e um centroavante de referência.

Agora, com Hulk e Falcão García no time – dois centroavantes – o desenho ofensivo do Porto “desalinhou”. Contra o Arsenal, ambos alternaram-se entre quem jogava pela esquerda, e quem centralizava, enquanto Varela permanecia aberto na direita. Essa formação corre o risco de tornar o time capenga para a direita, ou então induzir a articulação a simplificar procurando os dois centroavantes para o pivô na bola longa. Mas, como é o primeiro jogo do Porto que acompanho, essa estratégia pode ter sido de exceção para o confronto com o Arsenal, ou então é realmente o padrão da nova temporada.

Há um certo desalinhamento também no meio-campo. Fernando, primeiro volante, aprofunda mais a marcação pela direita, na comparação com Raúl Meireles na esquerda. Micael, o articulador da equipe nesta espécie de triângulo com base baixa, aproxima-se mais de Varela do que dos centrovantes.

O Porto teve posse de bola pouco inferior à do Arsenal, mesmo jogando em casa. Explicada pela característica do time inglês - buscar o controle da partida trocando passes. Os Gunners também criaram mais oportunidades de gol, ressentindo-se da saída de Adebayor e da lesão de Van Persie, que eram seus artilheiros. Essa é uma tendência para o segundo jogo: Arsenal com posse, jogando no campo adversário; e o Porto, com a vantagem, buscando os contra-ataques pela direita com Varela.

Lyon bloqueia o lado forte do Real Madrid

16 de fevereiro de 2010 4

Gosto de reiterar no blog Preleção que jogar com a posse de bola – seja ela objetiva ou paciente – é uma tendência comprovada pela disseminação dos sistemas que agrupam jogadores no meio-campo. Quem tem a bola não pode sofrer gols, pois está com ela; e ainda mantém-se na iminência de marcar, buscando espaços. É a estratégia que mais me agrada. Jogar com a bola, marcar com a bola, adiantar-se, tirar espaços do adversário, criar espaços. Sempre com a bola. Como faz o Barcelona. Entretanto, esta não é uma regra, uma fórmula matemática. É uma tendência, apenas. Lógica, mas falível. Contrariada eventualmente, como hoje, pelo Lyon.

Com apenas 33% de posse de bola, o Lyon venceu o Real Madrid por 1 a 0, jogando em casa, pela Champions League. Abdicou de se articular, e não teve vergonha de propor uma estratégia reativa sob a assistência de seus torcedores. O Lyon reagiu ao Real Madrid, venceu sem sofrer gols, e vai à Espanha em boa posição – embora seja ainda mais arriscado jogar desta forma no Santiago Bernabéu.

O Lyon posicionou-se no 4-4-2 em duas linhas, bem definido. No meio-campo, dois jogadores de marcação por dentro – Toulalan e Makoun – e nos extremos dois wingers: Delgado na esquerda e Govou na direita. À frente, Pjanic mais à direita, ora recuando para tornar-se um quinto jogador de meio-campo, ora aproximando-se de Lisandro López, o único atacante clássico da equipe.

A estratégia principal aplicada à concessão da posse de bola ao Real Madrid foi: jogar pela esquerda, marcar pela direita. Se em um lado o treinador liberou Cissokho para apoiar, na direita Reveiller manteve-se fiel ao posicionamento original; Toulalan prestou especial atenção ao setor, deixando o centro para cobrir o lado direito defensivo; e Govou teve fôlego para recuar e marcar no campo do Lyon, pelo lado, sempre que preciso.

Com isso, o Lyon criou um triângulo de marcação sobre o centro da inteligência merengue: Kaká e Cristiano Ronaldo jogaram abertos pela esquerda ofensiva. Tiveram pela frente Reveiller, Toulalan e Govou. O Lyon lhes deva a bola, mas lhes tirava espaço. Do outro lado, Cissokho não precisou marcar ninguém em especial, e teve liberdade para empurrar a equipe ao lado de Delgado. O equilíbrio ofensivo, já que Reveillere não subiu, foi a queda de Pjanic para o lado direito, auxiliando Govou.

Como o Atlético de Madrid venceu o Barcelona

15 de fevereiro de 2010 3

Não tem sido comum, mas às vezes acontece de o Barcelona perder. Ontem, a invencibilidade catalã no Campeonato Espanhol caiu fora de casa para o Atlético de Madrid, placar de 2 a 1. E o time da capital, embora não tenha modificado sua característica de jogo, foi bem sucedido na estratégia escolhida.

O Atlético de Madrid jogou no 4-4-2 em duas linhas, seu sistema preferencial. Nada de novo, portanto, atuar desta forma contra o Barcelona. O português Tiago, recente reforço, foi o box-to-box mais à direita, com Paulo Assunção de volante marcador, e a dupla Simão-Reyes como wingers de pés invertidos nos extremos da segunda linha. À frente, a dupla Forlán e Aguero. Ontem, inspiradíssimos.

No Barcelona, Guardiola definiu um 4-3-3 com variação para 4-4-2, tendo Iniesta como o terceiro atacante que retorna para formar o quarteto de meio-campo. Movimento já realizado outras vezes, sempre nas eventuais ausências de Thierry Henry. O Barça se manteve fiel, ainda, à manutenção da posse de bola como estratégia prioritária, controlando a partida por quase 67% do tempo.

O Atlético venceu na eficiência ofensiva. Mesmo com 33% de posse, a equipe de Madrid criou o mesmo número de oportunidades do Barcelona – 13 contra 13. Marcou dois gols, sofreu um. Contou, é evidente, com uma tarde pouco inspirada dos atacantes do Barça, aliada a um domingo de qualidade dos seus próprios atacantes – principalmente Aguero que, mesmo não tendo marcado gols, foi responsável por metade das conclusões do Atlético.

Este modelo é o mesmo aplicado pelo Rubin Kazan na Liga dos Campeões: 4-4-2 em duas linhas; compacta meio e ataque, bloqueia infiltrações; permite ao Barcelona ter posse de bola em uma zona pouco criativa, entre-intermediárias; e aposta na perícia ofensiva quando sair em contra-ataque.

Estratégia arriscada, é claro, porque o Barcelona é uma equipe paciente. Gosta de jogar com essa posse de bola pouco objetiva, em busca de espaços. Permitir que seus jogadores troquem passes é abrir a possibilidade para eles identificarem os melhores espaços, ocuparem e concluírem com muita qualidade. Foi assim contra o Estudiantes, no Mundial. Mas às vezes dá certo. No 4-4-2 em duas linhas, o Atlético de Madrid ontem repetiu o Rubin Kazan, e venceu o invencível Barça.

A Batalha de La Plata - análise tática do Estudiantes

14 de fevereiro de 2010 12

É possível analisar taticamente uma equipe com 9 jogadores em campo? E com 7 – o goleiro, mais seis? Sim, eu digo. É possível. O amigo Renato Zanata – mais conhecido como “Zanata La Bruja” é torcedor do Estudiantes, músico, e capitão do excelente blog Bruxas e Leões de La Plata. É ele quem nos envia uma detalhada análise tática do Estudiantes na épica Batalha de La Plata, partida disputada em 08 de julho de 1983 pela Copa Libertadores. Jogando em casa, com quatro expulsos, o Estudiantes buscou o empate em 3 a 3 com o Grêmio, depois de sair perdendo por 3 a 1. Tudo detalhado abaixo, com texto de Renato Zanata, e diagramas táticos do blog Preleção:

ESTUDIANTES COM ONZE EM CAMPO

O Estudiantes começou em um 4-4-2 com meio-campo em losango, tendo Trobbiani de enganche – há quem prefira chamar de 4-3-1-2. Ponce , Sabella e Trobbiani usavam a intermediária ofensiva em uma larga faixa de campo para fazer triangulações e tabelas. Se é que podemos comparar, Ponce era o Verón daquele time. Trobbiani ao mesmo tempo buscava Sabella e Ponce, e se aproximava de Gurrieri – de maior movimentação – e Trama – mais posicionado entre a ponta direita e o bico da área – na frente.

O jogo do Estudiantes se deu muito do centro para a esquerda, com os canhotos Ponce e Sabella chamando o lateral Gugnali para o apoio“. Nesta formação, destaco, o jogo foi 0 a 0. O Estudiantes perdeu Ponce e Trobbiani expulsos aos 33min do 1º tempo, e ainda assim abriu o placar seis minutos depois, com Gurrieri. Osvaldo empatou no último minuto, encerrando a etapa inicial em 1 a 1.

ESTUDIANTES COM NOVE EM CAMPO

No começo do 2º tempo, já com 9 jogadores em campo, o Estudiantes adiantou a marcação e formou inicialmente um 4-3-1, com o recuo do atacante Gurrieri.  Sabella foi o grande nome da segunda etapa, com a ausencia de Ponce. Coube ao camisa 10 Pincha armar todas as jogadas do Estudiantes e chegar ao ataque, principalmente pelas laterais do campo, com uma habilidade que lhe “rendeu” inúmeras faltas sofridas no campo de ataque.

Outro importante destaque deste jogo histórico foi o atacante Gurrieri, que no segundo tempo auxiliou os companheiros Sabella e Russo na marcação, e ainda foi responsável por boas jogadas individuais. Gurrieri marcou dois gols, e participou do lance que originou o empate, de Russo.

Assim que o Grêmio fez o segundo gol (com César, aos 8min), o tecnico Manera tirou o zagueiro Gette e colocou o camisa 11 Hugo Tévez. O esquema passou a variar para o 3-4-1, quando o Estudiantes tinha a posse de bola. O retorno à linha defensiva de quatro se dava com o recuo de Russo, transformando-se em quarto zagueiro, quando o Grêmio tinha a bola”. Renato Portaluppi fez mais um, aos 18min. Logo em seguida, Camino e Tevez foram expulsos, aos 24min e aos 30min, com placar de 3 a 1 para o Grêmio.

ESTUDIANTES COM SETE EM CAMPO

Quando o Estudiantes perdeu também Camino e Tévez, expulsos, passou a formar taticamente num 3-2-1. A defesa se distribuiu com Russo pela direita, Aguero no centro e Gugnali no lado esquerdo”. Um minuto depois da 4ª expulsão, Gurrieri descontou. E, aos 42min, Russo marcou o gol de empate.

O Grêmio de Valdir Espinosa jogou no 4-3-3, com triângulo de base alta no meio-campo.  A defesa teve Mazaropi, Paulo Roberto, Leandro, De León e Casemiro. No meio, China foi o volante, com Osvaldo na meia-direita, e Tita na meia-esquerda. E o ataque formou com Renato Portaluppi, Caio e Tarciso. A principal dificuldade tricolor, segundo o Renato Zanata, foi o apoio maciço do Estudiantes sobre o setor de Paulo Roberto, um lateral reconhecidamente forte no apoio, o que o manteve preso à base defensiva para cuidar de Gugnali. No 2º tempo o Grêmio tentou ser mais cauteloso, entrando Tonho no lugar de Tarciso, mas não conseguiu segurar a vitória.

A Batalha de La Plata aconteceu em um triangular semifinal. O Grêmio passou, eliminando o Estudiantes e o América de Cali, e em seguida conquistou a América batendo o mítico Peñarol, que defendia o título Mundial. Em Tóquio, o Grêmio venceu o alemão HSV Hamburgo, que na decisão da Champions League havia derrotado a Juventus de Platini com gol de Magath.

Newell's usa um 4-4-2 tradicional na Argentina

12 de fevereiro de 2010 6

Gostei do Newell’s Old Boys, apesar da derrota fora de casa para o Emelec por 2 a 1, e da consequente eliminação na pré-Libertadores. Os argentinos criaram mais, foram melhores, mas não conseguiram vencer o inspiradíssimo goleiro do Emelec. Merecia o Newell’s integrar o Grupo 5 da competição. Melhor para o Inter.

O Newell’s do técnico e ex-jogador Sensini joga no 4-4-2 com meio-campo em losango. Muitos analistas táticos desdobram esta formação em quatro faixas de campo, e chama de 4-3-1-2. Segundo o jornalista britânico Jonathan Wilson, no livro Inverting the Pyramid – um resgate histórico da evolução tática no futebol – este modelo de 4-4-2 é tradicional na Argentina.

Foi com o 4-4-2 em losango que a Argentina conquistou a Copa do Mundo de 1978, derrotando a Holanda. Esta formação disseminou ainda os conceitos de duas funções: os carrilleros e os enganches. Carrillero é o apoiador, que faz o vai-vem sobre o mesmo eixo (faixa paralela à linha lateral) de campo. Defende sem a bola, ataca com ela. Na Inglaterra, chama-se box-to-box. E o enganche é o típico camisa 10 argentino, o jogador que pensa, organiza, lança, passa, e aproxima-se do ataque para tabelar e concluir. Um ponta-de-lança.

No 4-4-2 do Newell’s, os carrileros são Barrientos e Vangioni, e o enganche é Formica. Não contando tanto com o apoio de Dolci na lateral direita, Barrientos sobe menos do que faz Vangioni na esquerda, em companhia do lateral Insaurralde. Mas é Formica, com uma movimentação incansável de lado a outro, alguma técnica e muita disposição, quem articula a equipe e concentra a organização. Um enganche típico.

Na frente, forma-se uma dupla de segundo atacante – Achucarro – e centroavante – Boghossian. Nenhum deles é brilhante, mas são ambos participativos. Achucarro aparece mais, é um baixinho daqueles “parrudos”, trombador, que vai para cima do marcador e conclui de qualquer lugar. Boghossian resume-se mais à referência e ao pivô.

O sistema defensivo posiciona-se em linha, com os laterais na base ao lado dos zagueiros Schiavi e Alayés. Quarteto guarnecido pelo volante Bernardi, primeiro vértice do losango, um marcador que cobre as duas laterais e protege os zagueiros pelo centro, sempre preocupado em manter-se fiel ao posicionamento.