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Brasil de 1970: o último romântico

23 de março de 2010 16

Retomo a série de posts que resenham o livro Inverting the Pyramid, do jornalista inglês Jonathan Wilson, trazendo ao debate a Seleção Brasileira tricampeã mundial em 1970. O time treinado por Zagallo é o protagonista do capítulo “Fly Me to the Moon”, na obra que apresenta a história e a evolução das táticas no futebol.

Jonathan Wilson destaca que o Brasil de 70 é o último dos times que abriu espaço para todos os seus bons jogadores. Zagallo, com muita inteligência, soube encontrar espaço na Seleção Brasileira para cada um dos craques do momento. E conviveu, à época, com dilemas que colocavam Gérson e Rivelino como concorrentes a uma posição, assim como Pelé e Tostão – entre os quatro, alguns diziam, apenas dois poderiam jogar.

A solução de Zagallo se deu a partir do recuo de Gérson, que passou a desempenhar uma função na Itália conhecida por “regista” – uma espécie de segundo volante responsável pela saída de bola qualificada, com passes curtos ou longos, regendo a transição ofensiva. Clodoaldo assumia a responsabilidade de proteger a dupla de zagueiros, que tinha aos lados dois laterais distintos: pela direita, o apoiador Carlos Alberto; na esquerda, o marcador Everaldo.

À frente de Clodoaldo e Gérson, distribuíam-se quatro jogadores ofensivos. Rivelino à esquerda, aproximando-se do trio formado pelo ponta Jairzinho, na direita, e pelos pontas-de-lança Tostão e Pelé, centralizados. Rivelino ocupava um lado, Jairizinho abria o corredor em diagonal para a passagem de Carlos Alberto no outro, e a dupla de frente tratava de acabar com a vida dos zagueiros adversários.

Esta formação, descrita no diagrama tático que ilustra o post, privilegiava os jogadores mais talentosos. Mesmo sob o risco de sobrepôr algumas características semelhantes, Zagallo encontrou lugar para atletas que nos clubes desempenhavam funções equivalentes. E o desenho resultante causa para Jonathan Wilson até mesmo uma certa indefinição:

“Era um 4-4-2, um 4-3-3, um 4-2-4, ou até mesmo um 4-5-1? Era todos, e nenhum. Era apenas jogadores em um campo, que se complementavam perfeitamente. Modernamente, poderia muito bem ser descrito como um 4-2-3-1, mas tais sutilezas não significavam tanto na época”, analisa Jonathan Wilson.

É uma analogia interessante. O desenho lembra o 4-2-4 campeão em 1958. Mas o posicionamento inicial de Rivelino também sugere a variação para 4-3-3 criada pelo próprio jogador Zagallo, entre 58 e 1962. Alguém pode ainda ver um 4-4-2, considerando Jairzinho um meia. Ou então enxergar o 4-5-1 desdobrado em 4-2-3-1, com Tostão à frente de Pelé, Jairzinho e Rivelino.

Eram os melhores jogando, no último suspiro do futebol romântico, onde há camisas suficientes para todos os craques, a despeito do sistema tático escolhido.

Leiam mais sobre o livro “Inverting the Pyramid”:

1) Primeira tática do futebol se inspirou no rugby

2) Novo impedimento provoca 1ª variação tática

3) As primeiras escolas clássicas de futebol

4) O revolucionário W.M de Herbert Chapman

5) Itália reúne dois sistemas e cria o W.W

6) Russos inauguram as trocas de posições

7) A interpretação dos húngaros para o W.M

8) O 4-2-4 do Brasil bicampeão Mundial

9) Zagallo disseminou as variações táticas

10) A gênese da catimba argentina nos anos 60

11) O futebol total do carrossel holandês

Comentários (16)

  • Douglas Campos diz: 23 de março de 2010

    J. Wilson estava certo, a indefinição se dá pela falta da referência na área, pois todos os 4 jogadores mais adiantados podiam desempenhar mais de duas funções. Meu pai concorda contigo em relação a movimentação dos jogadores mas em relação ao esquema tático ele enxerga um 4-3-3 que em contra ataque virava um 4-2-4 pela movimentação do Jairzinho. O velho chegou até suspirar de saudades, hehehehe.

  • Blog do Carlão – Futebol é nossa área diz: 23 de março de 2010

    Realmente é difícil classificar o sistema tático sem gerar divergências. Mas se tivesse que escolher um, fico com o 4-2-4, por considerar Pelé e Tostão dois atacantes (o 10 com grande liberdade/obrigação na movimentação), e Rivellino e Jairzinho, dois pontas. Porém não sustento esta tese com tanta veemência porque vi apenas um jogo na íntegra: a final contra a Itália. Também fiz um post sobre a Seleção de 70: http://carlospizzatto.blogspot.com/2010/03/selecao-tricampea-do-mundo.html . Abraços.

  • Daniel Colorado diz: 23 de março de 2010

    Cecconi, pq tu achas que o futebol de hoje nao permite que clubes sejam tao flexiveis em campo, a ponto de adotar uma “anarquia tatica” como essa que descreveste? O Brasil de ’70 era um 4-2-4, um 4-3-3, um 4-2-3-1? Ninguem se arrisca a rotular. Talvez fosse tudo isso. A verdade eh que Zagallo nao distribuiu um esquema tatico, mas sim camisas aos que mereciam vesti-las… e se deu muito bem! Eram os jogadores daquela epoca tao melhores que os de hoje, que se desdobravam em multiplos esquemas taticos em um mesmo jogo, sem prejuizo a qualidade do futebol jogado e aos resultados obtidos? Ou sera que a Selecao de ’70, ou qualquer tentativa de recriar sua estrategia em campo, nao teria chances de vencer um campeonato nos dias atuais?

    Resposta do Cecconi: Daniel, não vejo o Zagallo como um simples distribuidor de camisas. O Brasil tinha sim uma organização, como bem demonstra o Jonathan Wilson. Acredito que este sistema poderia ser bem sucedido hoje, tanto é que ele lembra o 4-2-3-1, bastante utilizado. Abraços.

  • Paulo diz: 23 de março de 2010

    Que tal usar essa formação no Inter? (De tras para frente, de baixo para cima no desenho)

    Nei, Bolivar, Indio, Eltinho… Guinazu, Andrezinho, Kleber… Giulliano, D’Alessandro e Alecsandro (ou Marquinhos ou Kleber Pereira ou qualquer um que faça gol).

  • Antonio diz: 23 de março de 2010

    Belo post Cecconi. Verifique se também ocorreu na zaga este tipo de “improvisação”, por que se não estou enganado, Piazza era volante de origem e sempre jogou no meio campo do Santos. Mas sinceramente…Esta seleção não é parâmetro para nada. Ela tinha um número muito alto de jogadores acima da média e o melhor de todos os tempos. Se as camisas fossem dadas por sorteio, do tipo rachão, com Pelé na lateral, Rivelino de zagueiro… ainda assim seria um bom time. Não compare nem faça teses em times que tinha Pelé em campo. Faça teses apenas com times normais.

    Resposta do Cecconi: Antonio, não fiz tese sobre este time. Apenas dei sequência à série de posts sobre um livro que apresenta a evolução tática no futebol. Abraços.

  • Charles diz: 23 de março de 2010

    Poderiamos pensar em seleção brasileira atual, vejamos: temos um lateral de direito apoiador, nossa dupla de zaga indiscutível, nossa principal deficiência é a lateral esquerda (coloca-se um marcador com everaldo). No meio campo gilberto silva, felipe mello e kaká (fazendo a função de rivelino) os 3 homens de frente seriam formados por r.gaúcho, luis fabiano (penso que tem carcteristicas de tostão) e robinho (para relembrar-mos jairzinho).
    O que acha:

  • Roberticus diz: 23 de março de 2010

    Para Charles acima…

    Não dá para comparar os volantes brutucus de esta seleção brasileira (ou qualquer desde ’86) com essa equipe de 1970. Hoje em dia, o estilo de Gerson seria mais parecida a aquele de um meia tipo Fabregas/Xavi. Clodoaldo como Xabi Alonso; marcava mais também tinha ótimo repertório de passes. Lembra aquele drible que Clodoaldo fez no preâmbulo do quarto gol no final? Você consegue imaginar Gilberto Silva ou Felipe Mello fazendo semelhante coisa?

  • Roberto diz: 23 de março de 2010

    Eu tinha 8 anos e assisti pela tv a Copa de 70. Se houve um time que passou a impressão de entrar em campo sempre certo da vitória, foi aquele. Até pode ser qualificado de romântico, já que se tratava de um time tipicamente brasileiro, ou seja, bem melhor de ataque do que na defesa. Mas era na verdade um time imperturbável, calmo, metódico, eficiente, muito bem preparado tática, física e psicologicamente. Acho que a única real improvisação foi a escalação do Everaldo, já que o titular deveria ter sido Marco Antônio, mas dizem que tremeu. O Piazza foi mais um caso de acomodação na equipe dos melhores. Jogou na defesa para comandar o sistema defensivo com muita técnica e experiência e porque o Clodoaldo era um centromédio simplesmente perfeito. Naquela copa aprendi o valor de um grande meia-armador. Gerson comandava o time dentro de campo e liderava fora também. E isso que Pelé era a maior estrela daquela Seleção. Talvez por causa da capacidade do Gerson não havia um esquema rígido. O que não impedia o time de se distribuir perfeitamente em campo. E aqui se pode pensar novamente em uma equipe romântica, porque realmente estava embasada na idéia de que deviam jogar os melhores. Bem ao contrário do que pensa, por exemplo, o técnico Dunga, com a preferência por Gilberto Silva e Felipe Mello, por exemplo.

  • Marcelo Bonatto diz: 24 de março de 2010

    Pude acompanha o jogo na integra, entre Brasil e Italia na final de ’70, graças a uma série da ESPN, onde reprisam as principais partidas das copas do mundo por completo(90min.), com a narração e os comentários do própio pessoal da ESPN, PVC, Calçade, Mauro Cezar Pereira entre outros.
    O mais impressionante deste jogo foi quando o Brasil perdia a bola, todos, TODOS, voltavam para o meio-campo e marcavam, cobriam espaços, era Tostão pegando volante, Rivellino fechando o meio, Pelé precionando a saida de bola. Muito legal de se assistir.

    PS: A ESPN já passou, além de Brasil x Italia ’70, Holanda x Brasil’74, Alemanha x Holanda’74 e Brasil x Argentina’78.

    Abraço.

  • Jonas Rafael diz: 24 de março de 2010

    Acho que era sim, um 4-3-3 que variava no andamento do jogo. Isso porque, assim como a Holanda em 74, tinha muitos jogadores inteligentes.

  • Guilherme diz: 24 de março de 2010

    Vejo o Grêmio desse ano…o Romantismo não morreu!!!! Silas está se baseando no futebol dos anos 70 e 60 para montar o Grêmio 2010…afinal, marcar para quê? Estratégia e disciplina tática para quê?..o Importante é encher de jogador de qualidade e deixar que se virem em campo!

  • Antonio diz: 24 de março de 2010

    Obrigado pela resposta Cecconi, realmente não deveria ter me referido a ti e sim ao autor do Livro. Acho difícil fazer qualquer análise em times que tinha Pelé, Maradona ou Garrincha. Estes três, cada um a sua maneira, desequilibravam os jogos e talvez tenham “escondido” defeitos de muitos times em que jogaram. Parabéns pelo Blog.

  • Preleção » Blog Archive » O ocaso do “gioco all’italiana” em 1982 diz: 24 de março de 2010

    [...] 12) Brasil de 1970: o último romântico [...]

  • Alexandre diz: 25 de março de 2010

    Assisti também a reprise do jogo final contra a Itália no ESPN e não vi nada tão espetacular. Claro que tinhamos os jogadores extra-classe que fizeram a diferença, mas o futebol era muito alegre. O Clodoaldo e principalmente o Gérson (por sinal o melhor em campo no jogo) saiam jogando com a bola da zaga do Brasil e iam até o ataque quase sem serem incomodados, era muita liberdade. Apesar da qualidade dos jogadores, Pelé e Rivelino cobraram 3 faltas tão horríveis que não me lembro de jogadores atuais baterem tão mal. Esses dois mais o Tostão e o Jairzinho quase não tocaram na bola no jogo. O Everaldo errou a maioria dos passes que deu. Aquele sistema de jogo, hoje, seria suicídio, mesmo com a qualidade dos jogadores.

  • Catimba diz: 26 de março de 2010

    O Maior Time da História!!! Indiscutível!!! Essa variação de todos os esquemas em um só fo possivel apenas porque os jogadores além de craques eram inteligentissimos taticamente também, algo raro nos dias de hoje. Gerson, Rivelino, Pelé, Tostão e cia. não eram só craques quando a bola estava em seu pé, sabiam ler o jogo sem bola como se fossem treinadores dentro de campo. Esse time nem precisava de técnico, qualquer um de nós treinava!

  • Preleção » Blog Archive » O futebol sente falta de jogadores com o perfil dos “Cobras”? diz: 30 de março de 2010

    [...] Assisti ontem a uma bela participação do ex-jogador Carlos Alberto, lateral-direito de exceção e capitão do Brasil na conquista do tricampeonato mundial – no México, em 1970 – no programa Bem, Amigos, do canal Sportv. No debate, Carlos Alberto explicou uma variação de estratégia utilizada pela Seleção na partida contra o Uruguai: a inversão de posicionamento e função entre Clodoaldo e Gérson, diretamente responsável pela nossa vitória. Saibam mais sobre a Seleção de 70 clicando aqui. [...]

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