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O ocaso do "gioco all'italiana" em 1982

24 de março de 2010 8

Costuma-se dizer que os moribundos tendem a apresentar súbita melhora antes da morte. Um suspiro de consciência. Segundo o jornalista inglês Jonathan Wilson, no livro Inverting the Pyramid, isto aconteceu com o modelo de jogo vigente na Itália durante a Copa do Mundo de 1982.

A seleção da Itália reproduzia o “gioco all’italiana” utilizado pela maioria dos clubes nacionais desde a década de 70. Conforme descreve Jonathan Wilson – simulo a distribuição italiana no diagrama tático que ilustra o post – o sistema tático era o 4-4-2, com três peculiaridades: um líbero, um lateral-base, e um meio-campista lateralizado.

Mesmo contando com apenas dois zagueiros, um deles jogava como líbero. Inspirado no modelo holandês. O líbero precisava ser um jogador técnico e inteligente, para combinar qualidade na saída de jogo – bons passes, lançamentos precisos – com discernimento para saber quando se projetar, e quando recuar. Na seleção, Scirea exercia este papel, tendo ao lado o zagueiro Collovati. Gentile, na teoria, era um lateral-direito, mas na prática precisava guardar um posicionamento inicial mais rígido, centralizando quando necessário, e apoiando pouco.

Na esquerda, o lateral Cabrini tinha autorização para avançar. A compensação, equilibrando a transição entre os dois lados, se dava com o meia Conti, um jogador que atuava aberto pela direita, como os wingers britânicos. Segundo Jonathan Wilson, posição na Itália chamada de “tornante”.

O meio-campo tinha um volante marcador, com um meia ofensivo pela direita, e um organizador pela esquerda. Este desenho quase lembra o 3-5-2- “moderno”, com dois defensores, um líbero (sem a obrigação da sobra, mas sim um líbero de verdade), e avanço pelos dois lados. Mas o sistema com três zagueiros ainda não havia surgido – em breve vou colocar em debate aqui no blog Preleção este assunto – e a base tática do gioco all’italiana era mesmo este 4-4-2 cheio de compensações e desalinhos.

O aspecto mais importante, entretanto, era estratégico: marcação individual. Nove jogadores de linha marcavam individualmente. Somente o líbero (camisa 6) não perseguia ninguém de forma fixa. No Campeonato Italiano, onde praticamente todas as equipes atuavam da mesma forma, o espelhamento se dava pelos números das camisas: o tornante, camisa 7, marcava e era marcado pelo lateral-esquerdo (número 3), e assim por diante, de maneira previsível.

Funcionou na Copa, contra a Argentina, tendo a marcação individual anulado Maradona. Também funcionou contra o Brasil, graças ao dia iluminado – é evidente – de Paolo Rossi na frente. Mas estava por um fio. E foi abandonado este 4-4-2 com marcações individuais no momento em que a favorita Juventus de Giovanni Trapattoni perdeu a final da Champions League de 1983 para o Hamburgo, da Alemanha.

A Juventus contava com a base da defesa italiana de 82 – Scirea, Gentile e Cabrini. Tinha ainda Michel Platini como o articulador, Boniek como o meia ofensivo, e Paolo Rossi na área. Mas Ernst Happel, técnico dos alemães, havia estudado as deficiências proporcionadas pelas múltiplas marcações individuais. Em seu 4-4-2 típico da Alemanha à época – com líbero e meio-campo em losango – inverteu o segundo atacante, para jogar às costas do lateral-esquerdo.

Refém da marcação individual, Trapattoni mandou o marcador acompanhar o atacante para não sobrecarregar Cabrini, e desguarneceu o outro setor – a direita. Perdida, a Juventus levou 1 a 0, gol de Felix Magath, sepultando este modelo tático. O mesmo Hamburgo, poucos meses depois de bater a Juventus de Platini, perdeu a decisão do Mundial Interclubes para o 4-3-3 do Grêmio, em Tóquio.

Leiam mais sobre o livro “Inverting the Pyramid”:

1) Primeira tática do futebol se inspirou no rugby

2) Novo impedimento provoca 1ª variação tática

3) As primeiras escolas clássicas de futebol

4) O revolucionário W.M de Herbert Chapman

5) Itália reúne dois sistemas e cria o W.W

6) Russos inauguram as trocas de posições

7) A interpretação dos húngaros para o W.M

8) O 4-2-4 do Brasil bicampeão Mundial

9) Zagallo disseminou as variações táticas

10) A gênese da catimba argentina nos anos 60

11) O futebol total do carrossel holandês

12) Brasil de 1970: o último romântico

Comentários (8)

  • juliano diz: 24 de março de 2010

    engraçado que vendo assim, e eu sei que lá na época tinha essa tradição de laterais esquerdos ofensivos, fica um buraco grande no canto esquerdo italiano, assim como ficava um buraco no canto direito brasileiro (sem ponta, jogadas tendendo a esquerda, só leandro por ali)

  • Twitter Trackbacks for Preleção » Blog Archive » O ocaso do “gioco all’italiana” em 1982 [clicrbs.com.br] on Topsy.com diz: 25 de março de 2010

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  • Roberticus diz: 25 de março de 2010

    Eduardo,

    se lembro bem, acho que o camisa 11 (tipicamente) – neste caso Graziani – atuava como uma espécie de ponta/segundo atacante de movimentação, verdade? Um pouco como Robinho faz na seleção.

    Resposta do Cecconi: exato, segundo o relato do Jonathan Wilson, este segundo atacante vestia a 11 e era um jogador extremamente agudo, movimentando-se preferencialmente pela esquerda, enquanto a direita era ocupada pelo “tornante” camisa 7, e o centroavante com a 9 fazia a referência. Abraços.

  • André Kruse diz: 25 de março de 2010

    acho que seria interessante acrescentar que, mesmo jogando aberto pela direita, Bruno Conti era canhoto. Virou um paradigma.

    No RS sempre que se fala no time torto com dois canhotos ou com canhoto na direita se lembra de Arilson e Carlos Miguel. Pouca gente cita este time da Italia de 82

  • Rafael Gelatti diz: 25 de março de 2010

    Legal ver como funcionava e onde que deu errado. Mas muito bom ver o como funcionava por exemplo onde jogava Scirea, sempre lembrado pelo PVC. Tu comentou camisa 6 e imagino que depois dele foi o Baresi que assumiu por ali. Vi comentários da Copa de 82 e Zico e Falcão rasgaram elogios a Conti, canhoto mas que atuava pela direta. Não sei se ele entrava em diagonal ou não, mas não creio porque ninguém ia aproveitar o corredor dele. Único detalhe que queria entender é que os dois disseram que o Gentile que centralizou e fez a marcação individual no Maradona, numa fase antes, e depois em cima do próprio Zico. E contra os dois deveria ter sido expulso (é o que li que dizia Zico), mas contra ele Zico o Gentile foi amarelado logo no começo e amenizou nas porradas. Como ficou o time e onde foi parar o Oriali não sei. Bueno, parabens pelo post, sempre excelente. Esse livros do Jonathan Wilson e o sobre o Mourinho certamente valem a pena né. Abraço!

  • Bruno diz: 25 de março de 2010

    bem dexa eu ver se entendi

    tardelli e antognoni eram carrilleros ne?e o graziani tbm recuava pra fazer o enganche?

  • Roberticus diz: 26 de março de 2010

    Para Bruno acima,

    Tardelli era ‘carrilero’, jogador dinâmico de tres pulmões que fazia o box-to-box enquanto Antognoni era o ‘regista’, um meia que jogava um pouco mais recuado do que um trequartista- porem que ele tambem tinha semelhante – pois a função dele era organizar o meiocampo. Logo depois, os regista como Antognoni passariam a ser trequartistas entre linha (meias de ligação)

  • Preleção » Blog Archive » O 4-4-2 do Brasil na Copa de 1982 diz: 13 de abril de 2010

    [...] Hoje vai ao ar na ESPN, às 21h, a íntegra da partida entre Brasil e Itália, pela Copa do Mundo de 1982 – talvez o maior “crime” da história recente do futebol. E a exibição deste jogo histórico nos abre a possibilidade de analisar taticamente a Seleção Brasileira de Telê Santana no Mundial da Espanha. A referência, além da observação de vídeos e da leitura de outras análises, é o livro Inverting the Pyramid, do jornalista inglês Jonathan Wilson, que dedica muitas páginas àquela partida – a análise da Itália pode ser lida aqui. [...]

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