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O futebol sente falta de jogadores com o perfil dos "Cobras"?

30 de março de 2010 21

Assisti ontem a uma bela participação do ex-jogador Carlos Alberto, lateral-direito de exceção e capitão do Brasil na conquista do tricampeonato mundial – no México, em 1970 – no programa Bem, Amigos, do canal Sportv. No debate, Carlos Alberto explicou uma variação de estratégia utilizada pela Seleção na partida contra o Uruguai: a inversão de posicionamento e função entre Clodoaldo e Gérson, diretamente responsável pela nossa vitória. Saibam mais sobre a Seleção de 70 clicando aqui.

Segundo Carlos Alberto, Gérson propôs durante a partida uma troca com Clodoaldo. Responsável pela saída de bola brasileira, pelo primeiro passe, Gérson recebia marcação individual. Com isso, o Uruguai conseguia bloquear a articulação brasileira, desabastecendo o quarteto ofensivo formado por Rivelino, Jairzinho, Tostão e Pelé. Tanto que os adversários saíram na frente, abrindo 1 a 0 no primeiro tempo.

Gérson percebeu que uma simples inversão com Clodoaldo anularia esta marcação individual. E foi o que ele fez. Durante a partida, Gérson procurou Carlos Alberto, líder de um grupo de jogadores à época chamados de “Os Cobras”. Debateu a mudança. Obteve consentimento. Procurou Clodoaldo e disse: “vamos trocar. Você apoia pela esquerda e eu fico na tua posição”.

De marcado, Gérson passava a marcador do seu perseguidor uruguaio, como primeiro volante. E Clodoaldo recebia a atribuição de fazer a saída de bola. Em poucos minutos, a inversão surtiu efeito. Clodoaldo passou da linha da bola, desmarcado, na faixa de campo antes ocupada por Gérson. Surpreendeu a marcação, e recebeu um lançamento mais que preciso de Rivelino. Invadiu a área e empatou o jogo. O Brasil venceria por 3 a 1, passando à final.

A narrativa suscitou uma discussão sobre a importância dos jogadores-líderes. “Os Cobras” tinham autoridade moral para conversar de igual para igual com o técnico Zagallo. E uma autorização prévia para iniciativas dentro de campo. Nem Gérson, nem Carlos Alberto, consultaram Zagallo sobre a inversão. Apenas executaram. Deu certo. Se tivessem esperado pela observação do técnico, talvez fosse tarde demais. E não havia como “pedir tempo” para falar com o treinador à beira do campo. A decisão exigia urgência.

Hoje não vemos mais “Cobras”, nem na Seleção, nem nas equipes. Trazendo o debate para nosso futebol gaúcho: quem fala durante os jogos de Grêmio e Inter? À distância, posso estar enganado, são times silenciosos. Dependentes das ordens dos treinadores. Os jogadores limitam-se a cumprir as funções determinadas na preleção, de boca fechada. Ninguém conversa. Ninguém orienta. Ninguém chama atenção do colega que está mal posicionado, do companheiro que tomou a decisão errada. Ninguém corrige ninguém.

E não estou me referindo às lideranças de vestiário. Aos grupos de jogadores que negociam premiações com a diretoria. Estes grupos mais parecem “sindicatos”, são lideranças que representam os direitos e reivindicações dos jogadores. Estou falando das lideranças táticas e técnicas. Dos jogadores que modificam jogos sem esperar pelo treinador.

A que se deve este desaparecimento dos “Cobras”? Podemos atribuir a escassez de lideranças táticas ao maior profissionalismo do futebol? Ou os jogadores estão desinteressados? Ampliando: é bom ou ruim não termos mais “Cobras”? Eles fazem falta, ou representam uma época semi-amadora do Esporte?

Deixo aberto o debate para vocês.

Comentários (21)

  • Felipe open diz: 30 de março de 2010

    Vendo no Grêmio pode-se observar a orientação na saída de bola do Rodrigo, 4o. zagueiro. Ele “puxa” os jogadores com a mão, fazendo gestos. E em um jogo passado notei o Ferdinando passando “dicas” (se assim puder chamar, né) para um dos outros guris do meio-campo. No mais, é um time bastante quieto.

  • Matias Schuler Guenter diz: 30 de março de 2010

    Esses e outros “cobras” viraram técnicos depois, e cheios de orgulho, não aceitam que jogadores façam algo que eles não tenham ordenado… com o tempo, os jogadores se acomodaram…

  • Ratofx diz: 30 de março de 2010

    Me parece que, bem ou mal, o último “cobra” do Grêmio foi o Tcheco. No inter, o Fernandão.

  • Daniel Correa diz: 30 de março de 2010

    O Fernandao era uma boa liderança no Inter. Em partidas decisivas, jogadores com personalidade fazem a diferença.

    Hoje em dia os jogadores sao muito influenciados pelos acessores. Tem uns que nem falar sabem. Alguem consegue ouvir uma entrevista do Alexandre Pato até o fim? Chega a dar pena.

  • Júnior Albuquerque diz: 30 de março de 2010

    Em parte eu concorco contigo. Hoje não tem ninguém pelo menos no Grêmio que tome uam decisão dessas durante a partida. Mas em termos de correção de posicionamento isso acontece direto.
    Mesmo assim no ano passado, o jogo era Palmeiras x Grêmio e o Réver tinha sofrido aquela pancada na cabeça depois que o Autuori ja tinha feito as 3 substituição e quem organizou o time foi o Tcheco. Foi ele quem disse pro Túlio ir pra lateral, o Mário para a zaga, ele de volante, etc.
    Tá certo que na hora era um pouco óbvio que seria isso a melhor opção, mas só estou dando exemplo de que ele tomou iniciativa, sem precisar falar com o Autuori, que depois elogiou o Tcheco por essa atitude. Pode ver que logo depois que colocam o Réver na maca ele reúne os jogadores pra falar isso.

  • Guilherme diz: 30 de março de 2010

    A figura do técnico está como o professor para com seus alunos. Não há diálogo, o que o professor diz é lei e os alunos jogam contra o técnico. O mestre tem que dar abertura para o jogador chegar e falar, se não partir dele o incentivo não teremos jogadores assim. No Inter parece que me ocorre isto, os jogadores estão de birra com o professor e estão deixando de fazerem suas lições.

  • Fernando diz: 30 de março de 2010

    Isto passa pelo trabalho nas categorias de base, que do tanto que acompanhei parece filtrar por altura e força, já começa tudo errado. Nos últimos tempos percebi que os jogadores mais articulados e com maior clareza de pensamento são justamente os que jogam de maneira mais limitada e muitas vezes violenta, geralmente são zagueiros ou meio campistas com função primariamente defensiva. Chega a ser engraçado, apesar de ser triste. Acho que esta década é realmente a dos jogadores sem grande iniciativa, como o exemplo maior daquela seleção brasileira de 2006. Não creio que seja apenas culpa do êxodo para o exterior, porque vários jogos destes campeonatos também mostram a escassez de jogadores decisivos, “pensantes”. São valorizados além da conta os treinadores, os times jogam partidas demais, as táticas evoluem para o lado errado, os jogadores correm mais do que jogam e a idéia toda do jogo está meio que do avesso… Mesmo assim, de vez em quando, ainda pinta algo interessante pra assistir por aí. Acho que dos diversos fatores o que fica mais claro mesmo é a falta de interesse dos jogadores, estão no emprego e não demonstram gostar do trabalho. De certa forma um reflexo da época em que vivemos.

  • Gilberto Silva diz: 30 de março de 2010

    Só fico pensando se algum treinador escalaria, nos dias de hoje, esse quarteto ofensivo com Pelé, Tostão, Jairzinho e Rivelino. Com certeza não. A primeira coisa que diriam é que não poderiam jogar juntos por isso, por aquilo e blá, blá, blá. Se atualmente faltam lideranças entre os jogadores, falta ainda mais coragem para os treinadores. Ninguém arrisca nada. É todo mundo marcando firme e forte e bola pra frente pra ver no que dá.

  • Marcelo Lehmen diz: 30 de março de 2010

    Toda a vez que um jogador tenta ter essa iniciativa, o mesmo é tachado de indiciplinado pela comissão técnica e diretoria de clubes. Então como esperar que eles tenham autonomia se isso é visto com uma coisa ruin. Nos tempos de hoje (na visão de técnico), bom jogador é o que obedece calado e de preferência bata continência ao chefe.
    Eis a velha máxima… “Manda quem pode e obedece quem tem juízo.”

    E tem outra.
    Se os jogadores tem que fazer alterações técnicas no time, é porque o treinador não tá fazendo o trabalho dele. hehehehe.

  • Wilson Farina diz: 30 de março de 2010

    O Inter de 2005-2006 tinha isso com Fernandão e Tinga, além de jogadores mais inteligentes, como o Alex, Sóbis e tal.

    É uma pena mesmo, faz muita falta jogadores assim. O máximo que se tem são os líderes pela motivação, que fazem o time se esforçar mais. Mas nao com conhecimento de causa.

    Na real até acho que o problema seja mais sério, alé do futebol, as pessoas em geral são mais isoladas e conformadas. Mas enfim.

  • marlon diz: 30 de março de 2010

    o dunga na segunda passagem dele no internacional foi o típico jogador-cobra: cobra escanteio, cobra falta e se arrasta em campo.

  • Roberto diz: 30 de março de 2010

    Ano passado era o Tcheco quem orientava os companheiros em campo. Contra o Esportivo, o zagueiro Rodrigo mostrou comando forte, até mesmo antes do início do jogo. Estou curioso até de ver como será quando Souza voltar (ou tentar voltar, porque não sei se ainda vai conseguir um lugar no time).

  • Bruno diz: 30 de março de 2010

    faz uma analise da seleçao de 90 tbm, blz?

  • Flávio diz: 30 de março de 2010

    É uma tendência mundial. Hoje os jogadores, mesmo os craques, têm pouca iniciativa. Já vi vários boleiros das antigas, inclusive alguns que viraram técnicos, como Frank Rijkaard, reclamando disso.

  • felipe diz: 30 de março de 2010

    Com certeza que o futebol sente falta, mas não vamos muito longe, o Internacional foi campeão da libertadores em 2006 pela presença de 3 grandes “Cobras”, Fernandão, Iarley e Clemer, que sempre orientava, as vezes duramente, o sistema defensivo colorado.

  • Leonardo diz: 31 de março de 2010

    Sim, Ceconi, precisamos de cobras. Dunga, se não foi brilhante como jogador, era excelente capitão e cobrava a perfeição de todos (Recentemente Gilmar Rinaldi falou sobre isso). Kaká diz que quer ser líder, mas não vejo esse tipo de atuação dele. Porque Dunga não cobra dos jogadores isso seria uma boa pergunta. Acho muito complicado também hoje em dia, pois técnicos “engessam” os jogadores, que por sua vez, também parecem ser despreocupados, executando somente o que o “professor” disse. Provavelmente, só irá mudar se a imprensa começar a bater nessa tecla massivamente. Esta aí um bom mote para voicês! Aproveitando, queria te pedir para fazer a análise tática da Holanda-74; sei que ja falaste sobre o futebol total, mas vi essa seleção jogando e me encantei pela movimentação do time (tanto ofensiva quanto defensiva). Acho que ainda podemos beber daquela! No mais, parabéns pela evolução do blog! Abraço!

  • Lucas Colferai diz: 31 de março de 2010

    Um cobra que deu o título mundial ao Inter: Fernandão (claro, com o apoio de Yarley e Clemer). São os chamados líderes-positivos. Penso que não é apenas um fator que causou o desaparecimento dos “cobras”, mas um conjunto: busca do profissionalismo, (super)valorização do papel do treinador, fim do romantismo no futebol, fim da “fidelidade clubística” (que existia, em certo grau) e, PRINCIPALMENTE (ao meu ver), baixo grau de instrução dos jogadores. É engraçado como a Educação faz falta em tantos níveis, até no futebol. É só lembrarmos de jogadores com maior nível de escolaridade e fazer uma comparação com a média dos demais. Facilmente percebemos que eles tendem mais a serem líderes, a se tornarem técnicos, dirigentes, a jogarem com inteligência dentro de campo.

  • Jonas Rafael diz: 31 de março de 2010

    Exatamente! O Grêmio há tempos é um time “mudo”. No brasileiro do ano passado, quando perdia fora de casa você podia ver o conformismo na cara dos jogadores. Ninguém berrava, ninguém discutia. O mesmo ocorre agora com o Inter. Caras assim fazem falta sim. Lembra do Dinho com o Felipão na final do braisleiro de 96? “. Bota o Aílton no meu lugar e vamos pra cima deles”. Quem fez o gol do título? O próprio Scolari admitiu mais tarde num programa de TV que as vezes o jogador que está lá dentro sente mais a partida, e bem faz o técnico nessas horas em escutá-lo. Isso que é líder, não um Souza da vida, que só faz reclamar e querer decidir tudo sozinho.

  • Paulo diz: 31 de março de 2010

    Não sei se Cobra seria o termo correto, mas acho que o grande problema do Inter é carecer de jogadores com atitude, que fazem mais do que simplesmente obedecer o treinador. No Beira Rio, todos pensam que são craques e que não precisam se esforçar. Ta faltando garra.

  • Antonio diz: 31 de março de 2010

    Acredito que exista uma pequena confusão. Liderança e leitura de jogo são características diferentes. Podem existir na mesma pessoa, mas não são iguais.
    Gérson leu o jogo, mas consultou o líder. Fernandão era líder, mas a leitura de jogo era do Clemer. Lembro de uma entrevista muito antiga que o Silas, atual técnico gremista gritava para o atacante Muller marcar um volante (brucutu) o qual se enchia de moral, tentava sair jogando, e facilitava as coisas para o São Paulo. Bons leitores são raros no Brasil.

  • Fausto Vanin diz: 4 de abril de 2010

    Cecconi,

    Boa discussão inicada! Ótimas opiniões dos leitores.
    Eu creio que estamos passando pelo período das terminologias “disciplina tática”, “estratégia de jogo”, entre outros. É a época onde jogadores como Kaká se destacam. Executam muito bem a organização tática do técnico e são dignos à palavra “peça” que alguns profissionais da área usam e que me espanta. São peças, a serem movidas/repostas por seus técnicos, indiferentes (ou pior, insensíveis) ao que se passa.
    Em um time é importante que todos os jogadores tentem ler a partida. A liderança, dentro ou fora de campo, deve receber esta leitura e agir.
    Pegando o caso do Grêmio, você vê o adversário fazer duas, três jogadas às costas do Fábio Santos e ninguém é capaz de orientar o jogador ou sua cobertura por conta disso. Falta leitura e liderança.
    No Inter, apesar da experiência de seus defensores percebe-se que, às vezes, acontece um branco e a marcação oscila, dando espaço aos adversários. Índio tem experiência, mas não tem a leitura do jogo.

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