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Posts de março 2010

Um Estudiantes mais à esquerda na Libertadores 2010

31 de março de 2010 5

Nesta temporada, o Estudiantes recorreu a uma fórmula bastante utilizada no futebol brasileiro: resgatar seus jogadores recentemente negociados no mercado externo. Repatriou Sosa, um exímio meia-atacante esquerdo, e também o oportunista Gastón Fernández. No papel, mantidos Verón, Braña, Boselli, Desábato, Angeleri, Pérez, o Estudiantes de Sabella tem um time titular ainda mais forte do que o campeão da Libertadores em 2009.

Mas o sistema 4-4-2 em duas linhas de quatro jogadores, bem escolhido por Sabella na temporada passada, ainda não emplacou. Pérez está em má fase, e o técnico do Estudiantes não parece confiar na força defensiva de seus laterais - principalmente Clemente Rodríguez. Dessa forma, ele repete em 2010 o sistema tático escolhido para defrontar o Barcelona no Mundial da Fifa: o 3-5-2, com variação para 3-6-1.

Ontem, na vitória de 2 a 0 sobre o Juan Aurich, no Peru, o Estudiantes começou no 3-5-2. A estratégia é bem semelhante à aplicação brasileira dos sistemas com três zagueiros. Os laterais, principalmente Angeleri na direita, apoiam pouco. Sem a bola, forma-se um paredão de cinco jogadores defensivos, somando os alas-lateralizados com o trio Cellay, Desábato e German Ré.

No meio-campo, segue a parceria centralizada. Braña como primeiro volante, e Verón como box-to-box, marcando por dentro e saindo para a armação cadenciada e inteligente, de exceção como craque que é, do meio para a direita. Pouco mais adiantado está Sosa, aberto pela esquerda. No ataque, Gastón Fernández e Boselli movimentam-se, com o segundo mais posicionado na função de centroavante de referência.

Na prática, entretanto, o sistema varia para o 3-6-1. Fernández recua por ambos os lados, sem a bola, dependendo do setor pelo qual avança o adversário. Ele auxilia o ala que está sendo atacado, e ao mesmo tempo compensa a ausência de um segundo volante - Verón sabe marcar com posicionamento e dedicação, mas não é um "Braña", combativo.

O problema - se é que isto se configura em problema - é a viciação ofensiva pela esquerda. Notem no diagrama tático que ilustra o post: Sosa abre pela esquerda, e Clemente Rodríguez apoia mais do que Angeleri. Essa parceria naturalmente atrai Fernández para a triangulação. Não há jogadas pela direita, praticamente. E Verón se força a fazer a transição ofensiva sempre buscando Sosa.

Apesar da previsibilidade, deu certo. Foi com Sosa que o Estudiantes construiu a jogada do primeiro gol, em bela jogada individual do camisa 7, que serviu a Fernández. Braña, em golaço de fora da área, completou o placar.

A contextualização mais importante para a permanência do 3-5-2/3-6-1 é trazida pelo amigo Renato Zanata, o @zanatalabruja do Twitter, cronista especializado em futebol argentino, torcedor pincharrata, e abnegado consultor do blog Preleção para análises de clubes da Argentina. Pérez não vive boa fase. Angeleri está retornando de lesão, ainda incostante. Isso é fundamental para entendermos a escolha de Sabella.

Parece-me - posso estar enganado - que a tendência lógica é, aos poucos, sacar um zagueiro e dar uma nova chance a Pérez. Com ele e Sosa abertos pelos lados, como wingers, e uma linha defensiva bem planejada nas coberturas aos laterais, tendo Braña e Verón centralizados - um volante e um box-to-box - e a dupla Fernández-Boselli na frente, o Estudiantes poderia reproduzir o brilhante 4-4-2 em duas linhas campeão da Libertadores 2009, e com acréscimo de qualidade nas contratações - uma formação mais equilibrada, com jogadas pelos dois lados.

Se isso acontecer, os adversários que se preparem. O Estudiantes se tornaria forte candidato ao título novamente. Competitivo, organizado, e com sobra de talentos individuais.

O futebol sente falta de jogadores com o perfil dos "Cobras"?

30 de março de 2010 21

Assisti ontem a uma bela participação do ex-jogador Carlos Alberto, lateral-direito de exceção e capitão do Brasil na conquista do tricampeonato mundial - no México, em 1970 - no programa Bem, Amigos, do canal Sportv. No debate, Carlos Alberto explicou uma variação de estratégia utilizada pela Seleção na partida contra o Uruguai: a inversão de posicionamento e função entre Clodoaldo e Gérson, diretamente responsável pela nossa vitória. Saibam mais sobre a Seleção de 70 clicando aqui.

Segundo Carlos Alberto, Gérson propôs durante a partida uma troca com Clodoaldo. Responsável pela saída de bola brasileira, pelo primeiro passe, Gérson recebia marcação individual. Com isso, o Uruguai conseguia bloquear a articulação brasileira, desabastecendo o quarteto ofensivo formado por Rivelino, Jairzinho, Tostão e Pelé. Tanto que os adversários saíram na frente, abrindo 1 a 0 no primeiro tempo.

Gérson percebeu que uma simples inversão com Clodoaldo anularia esta marcação individual. E foi o que ele fez. Durante a partida, Gérson procurou Carlos Alberto, líder de um grupo de jogadores à época chamados de "Os Cobras". Debateu a mudança. Obteve consentimento. Procurou Clodoaldo e disse: "vamos trocar. Você apoia pela esquerda e eu fico na tua posição".

De marcado, Gérson passava a marcador do seu perseguidor uruguaio, como primeiro volante. E Clodoaldo recebia a atribuição de fazer a saída de bola. Em poucos minutos, a inversão surtiu efeito. Clodoaldo passou da linha da bola, desmarcado, na faixa de campo antes ocupada por Gérson. Surpreendeu a marcação, e recebeu um lançamento mais que preciso de Rivelino. Invadiu a área e empatou o jogo. O Brasil venceria por 3 a 1, passando à final.

A narrativa suscitou uma discussão sobre a importância dos jogadores-líderes. "Os Cobras" tinham autoridade moral para conversar de igual para igual com o técnico Zagallo. E uma autorização prévia para iniciativas dentro de campo. Nem Gérson, nem Carlos Alberto, consultaram Zagallo sobre a inversão. Apenas executaram. Deu certo. Se tivessem esperado pela observação do técnico, talvez fosse tarde demais. E não havia como "pedir tempo" para falar com o treinador à beira do campo. A decisão exigia urgência.

Hoje não vemos mais "Cobras", nem na Seleção, nem nas equipes. Trazendo o debate para nosso futebol gaúcho: quem fala durante os jogos de Grêmio e Inter? À distância, posso estar enganado, são times silenciosos. Dependentes das ordens dos treinadores. Os jogadores limitam-se a cumprir as funções determinadas na preleção, de boca fechada. Ninguém conversa. Ninguém orienta. Ninguém chama atenção do colega que está mal posicionado, do companheiro que tomou a decisão errada. Ninguém corrige ninguém.

E não estou me referindo às lideranças de vestiário. Aos grupos de jogadores que negociam premiações com a diretoria. Estes grupos mais parecem "sindicatos", são lideranças que representam os direitos e reivindicações dos jogadores. Estou falando das lideranças táticas e técnicas. Dos jogadores que modificam jogos sem esperar pelo treinador.

A que se deve este desaparecimento dos "Cobras"? Podemos atribuir a escassez de lideranças táticas ao maior profissionalismo do futebol? Ou os jogadores estão desinteressados? Ampliando: é bom ou ruim não termos mais "Cobras"? Eles fazem falta, ou representam uma época semi-amadora do Esporte?

Deixo aberto o debate para vocês.

Gerrard, sem improvisos. Aleluia!

29 de março de 2010 13

Quem acompanha o Preleção há mais tempo conhece minha oposição ao uso de Gerrard como o "número 1" do Liverpool. Basta acessar a categoria "Liverpool" no menu à direita do blog para conferir. Há mais de uma temporada o técnico Rafa Benítez desperdiça o talento e violenta as principais características de Gerrard utilizando-o equivocadamente como um mero coadjuvante de Fernando Torres, refém de zagueiros, em nome do defensivismo.

Com o naufrágio de Robby Keane, e a chegada de *Mascherano, Benítez decidiu adiantar Gerrard. Trocou um box-to-box por um segundo volante na faixa central, e abdicou de um segundo atacante. Formou um 4-5-1 desdobrado em 4-4-1-1. Havia outra alternativa: a troca simples de Keane por Kuyt - mas o holandês permaneceu na extrema-direita da segunda linha, embora atue como centroavante na seleção holandesa.

Xabi Alonso foi embora, mas Benítez não reconsiderou a estratégia recente. Promoveu o também volante Lucas, manteve Gerrard improvisado, e insistiu com Kuyt na asa-direita do meio-campo. À época, o novo argumento era a ausência de bons wingers, mesmo que Babel estivesse arquivado, fora dos planos.

Gerrard é um box-to-box. Jogador que precisa de campo para jogar. Não sabe atuar próximo dos zagueiros, nem de costas para o gol. O camisa 8 do Liverpool tem como principais características o lançamento longo, e a conclusão de média distância. O raciocínio é bem simples: preciso lançamento longo + chute potente de média/longa distância = posicionamento inicial na segunda linha de meio-campo. Quanto mais próximo da área, menos Gerrard pode executar lançamentos, menos Gerrard pode surpreender goleiros, menos Gerrard participa da articulação, menos Gerrard domina a segunda bola, e mais a equipe se priva do seu melhor jogador.

Ontem, na vitória de 3 a 0 sobre o Sunderland, Rafa Benítez fez o óbvio: o ex-arquivado Babel na extrema esquerda, o recente reforço Maxi Rodríguez na extrema direita, Kuyt de segundo atacante, Torres de centroavante, e Gerrard de box-to-box. Como fã do camisa 8, empolguei-me a ponto de quase estourar foguetes na janela de casa. Estaria Rafa Benítez febril? Seja qual for a causa, é preciso aplaudir o fim da hipnose. Que o técnico do Liverpool adote esta formação como o time prioritário do Liverpool.

O 4-4-2 britânico, em duas linhas de quatro jogadores, não prescinde de duas figuras: os wingers e o box-to-box. Dois jogadores velozes pelos lados da segunda linha, e um apoiador de qualidade no passe e precisão no chute distribuindo o jogo. Durante mais de uma temporada, o Liverpool emaranhou-se em improvisos e decisões incompreensíveis de Benítez. Ontem ele fez o feijão-com-arroz. Um box-to-box, dois wingers, um segundo atacante...e venceu fácil. Criou 29 oportunidades de gol, e teve 63% de posse de bola. Amplo e irrestrito domínio da partida.

Esta é a melhor notícia para os ingleses em muitos meses. Gerrard, um jogador que precisa de uma extensa faixa central de campo para render - como simula a área em vermelho do diagrama tático que ilustra o post - vem atuando de improviso como "número 1" no Liverpool, e de improviso como winger na seleção. Caiu de produção, mergulhou em má fase. Voltou a jogar "na dele". Gerrard é box-to-box, e ali precisa atuar para voltar a ser o Gerrard que, não faz muito, brilhava.

Que a escalação de ontem não seja circunstancial, apenas. Torçamos para ver Rafa Benítez repetindo esta formação do Liverpool. Pelo bem, como sempre reitero, do futebol.

*Post corrigido

Roma bloqueia zona de articulação da Inter

28 de março de 2010 8

Vencer a Inter, ontem à tarde, fez da Roma uma candidata ao título do Campeonato Italiano nesta temporada. E a conquista do 2 a 1, em casa, teve grande contribuição tática no bloqueio da zona de articulação principal do time de José Mourinho.

No 4-4-2 com meio-campo em losango - ou 4-3-1-2, se assim preferirem - a Inter concentra no ponta-de-lança Sneijder sua organização. Ele se posiciona próximo da dupla de ataque, centralizado, na intermediária ofensiva. Por ali, atrai atacantes, aproxima-se de laterais, e conta com a passagem dos apoiadores (ontem, Stankovic e Thiago Motta).

Como a Roma estancou esta movimentação? Com um bloqueio de três volantes centralizados. Pizarro por dentro, Perrota à direita, e De Rossi na esquerda formaram um trio de marcadores que retirou mobilidade e velocidade da transição ofensiva da Inter. Estrategicamente ocupando espaços, a Roma permitiu à Inter manter uma posse de bola alta (quase 70%), porém pouco objetiva. Arriscado, mas efetivo ontem.

Este bloqueio subia para uma quase linha de cinco jogadores com a participação de Ménez e Vucinic pelos lados. Com a bola, ambos avançavam - principalmente Vucinic, que transitava da meia-extrema para a "punta", como um segundo atacante - abrindo o corredor para Riise sobre Maicon. Na direita, Ménez e Cassetti armaram outra dobradinha. Para a descrição tática, a Roma atuou no 4-5-1 com variação para 4-4-2 a partir do movimento de Vucinic.

Na frente, Luca Toni teve a responsabilidade de segurar a bola nas transições, até que Vucinic, Ménez, e ao menos um dos volantes pudesse chegar nos contra-ataques. Centroavante de exceção, marcou o gol da vitória e foi importantíssimo no embate físico com a defesa não menos corpulenta da Inter.

Nem sempre oferecer posse de bola a um time qualificado como a Inter dá certo. Corre-se o risco de permitir aos talentosos jogadores adversários criar oportunidades de gol com improviso. Mas a Roma assumiu este risco, bloqueou espaços com até nove jogadores na frente da própria área, apostou no contra-ataque, nas diagonais de Vucinic, nos corredores pelos lados, e na estrela de Luca Toni. E ateou fogo no Calcio.

Silas completa a primeira etapa

26 de março de 2010 20

Minha principal crítica ao trabalho recente de Silas no Grêmio tinha relação com a falta de uma "mecânica de jogo", como popularmente se chama a sincronia de movimentos entre os mais diversos pequenos grupos de jogadores distribuídos conforme o sistema tático escolhido. Essa carência se dava principalmente pelas indefinições de tática e escalação: Silas passou do 4-5-1 para o 3-5-2, depois para o 4-4-2, mas ainda sem convicção; e alternou a formação diversas vezes, não apenas por lesões e suspensões, mas também por escolhas pessoais.

Entretanto, a indefinição se desfez. Há cinco jogos Silas repete o sistema tático e a escalação do Grêmio. A primeira etapa na formação de uma equipe competitiva foi atingida: repetição. E, a reboque desta sequência, começam a aparecer movimentos organizados, ainda incipientes, mas alentadores para os torcedores gremistas.

O Grêmio já não busca exclusivamente o pivô - antes com Borges, depois com William, e às vezes com Jonas. Agora há apoio alternado dos laterais, assessoramento de Maylson pela direita, avanço comedido dos volantes, e centralização da articulação ofensiva em Douglas. Além do pivô, existe a bola aérea, o chute de média distância, e a infiltração pelo chão com as assistências longas do "regente" da equipe.

A ressalva permanece: os adversários são de Gauchão e de início da Copa do Brasil. Mas a análise se presta à comparação do Grêmio que ontem venceu o Novo Hamburgo, com o mesmo Grêmio de algumas semanas atrás - dominado, por exemplo, pelo próprio Novo Hamburgo na decisão do primeiro turno do Estadual. É evidente o crescimento do desempenho. Nada empolgante, mas houve evolução. E, se na hora dos problemas é feita a crítica, quando a equipe evolui é preciso parabenizar o técnico.

Silas acerta na manutenção deste 4-4-2 com dois volantes centralizados, e dois meias adiantados e pouco mais abertos pelos lados. Acerta na fixação de Mário Fernandes na zaga (sempre defendi que este é o lugar do garoto, exímio no desarme limpo, na antecipação, e na velocidade de recuperação). Acerta em oferecer protagonismo a Douglas. Acerta na alternância dos laterais e dos volantes, que não mais desguarnecem a equipe subindo simultaneamente. E estão de fora Borges, Leandro, Souza, Hugo...

Ainda tenho restrições à filosofia de futebol do técnico gremista. Ele costuma recair ao defensivismo quando se sente acuado. Foi assim contra o Votoraty, foi assim na decisão da Taça Fernando Carvalho, sempre com substituições discutíveis. Talvez esta evolução, consolidando um desempenho regular e equilibrado, possa também levar Silas a não ter mais recaídas. Alcançando maturidade tática para as próximas etapas: variações, novas combinações, jogadas diferentes...

3-5-2: a culpa é dos argentinos

25 de março de 2010 16

Não me xinguem. O título do post é uma piadinha com a rivalidade regional. Afinal, sou um grande fã do futebol argentino, coleciono camisas e demais materiais esportivos dos clubes de lá, e da seleção, e não tenho nada contra o futebol ou o povo do país vizinho. Mas, na leitura do livro Inverting the Pyramid, o jornalista inglês Jonathan Wilson relata a gênese do 3-5-2. E a "culpa" (uma brincadeira também com minha restrição à interpretação brasileira deste sistema tático) é dos argentinos.

O pai do 3-5-2, segundo Jonathan Wilson, é Carlos Bilardo. Técnico da seleção da Argentina na Copa de 1986, ele sempre teve predileção por estratégias cautelosas. Para ele, um time de futebol precisa de sete jogadores defendendo, e três atacando.

A criação do 3-5-2 partiu do seguinte raciocínio: frente à extinção dos pontas, na transição do 4-3-3 para o 4-4-2, por que manter laterais presos à linha defensiva? Não havia, na teoria, quem ser marcado no setor. A partir daí, Bilardo desenvolveu o novo sistema tático, que revolucionou o futebol mundial no final da década, e no início dos anos 90.

Pelos lados, havia três opções: utilizar meio-campistas - como preferiu Bilardo, com Olarticoechea e Giusti; laterais ofensivos, como fez a Alemanha na copa seguinte, com Brehme e Reuter; ou laterais defensivos, configurando o 5-3-2 - a inversão completa da pirâmide tática (afinal, o primeiro sistema tático organizado reconhecido era o 2-3-5, uma pirâmide de base alta).

No 3-5-2 da Argentina, Bilardo se dava ao luxo de manter sete jogadores defendendo, pela presença de Maradona. Em grande fase, o camisa 10 foi utilizado como um segundo atacante livre para se movimentar, ocupar espaços, driblar e levar o time para a frente. Valdano era o homem mais adiantado, e Burruchaga o meia de aproximação, completando o trio ofensivo.

Mas, como era novidade, Bilardo fez mistério. Atuou na primeira fase inteira no 4-4-2, e passou ao 3-5-2 contra a Inglaterra, no mata-mata. Fez sucesso. Combinar um meio-campo ocupado por cinco jogadores, abolir os laterais, e recuperar a figura do líbero pós-Copa de 1966, difundida pela Holanda de Cruyff, abriu um grande precedente entre equipes e seleções. Virou moda. Todos passaram a usar. Principalmente na Itália, onde este "5-3-2" quase lembrava um catenaccio.

O contexto é muito oportuno, como bem Jonathan Wilson ampara em números: a Copa de 1990, abarrotada de seleções no 3-5-2, teve a pior média de gols da história. Foi uma copa "feia". Cruyff disse que a substituição dos pontas pelos alas significava a "morte do futebol". A Euro 92 teve média de gols ainda mais baixa. A Fifa procurou mudar regras para o futebol voltar à vida.

Aos poucos, o 3-5-2 caiu em desuso. Menos no Brasil, onde a prática cada vez mais comum influencia países vizinhos, como Uruguai e Paraguai. E há enclaves de resgate do 3-5-2 também na Itália. Ainda assim, é tido por Jonathan Wilson como um sistema ultrapassado e em grata extinção.

O ocaso do "gioco all'italiana" em 1982

24 de março de 2010 8

Costuma-se dizer que os moribundos tendem a apresentar súbita melhora antes da morte. Um suspiro de consciência. Segundo o jornalista inglês Jonathan Wilson, no livro Inverting the Pyramid, isto aconteceu com o modelo de jogo vigente na Itália durante a Copa do Mundo de 1982.

A seleção da Itália reproduzia o "gioco all'italiana" utilizado pela maioria dos clubes nacionais desde a década de 70. Conforme descreve Jonathan Wilson - simulo a distribuição italiana no diagrama tático que ilustra o post - o sistema tático era o 4-4-2, com três peculiaridades: um líbero, um lateral-base, e um meio-campista lateralizado.

Mesmo contando com apenas dois zagueiros, um deles jogava como líbero. Inspirado no modelo holandês. O líbero precisava ser um jogador técnico e inteligente, para combinar qualidade na saída de jogo - bons passes, lançamentos precisos - com discernimento para saber quando se projetar, e quando recuar. Na seleção, Scirea exercia este papel, tendo ao lado o zagueiro Collovati. Gentile, na teoria, era um lateral-direito, mas na prática precisava guardar um posicionamento inicial mais rígido, centralizando quando necessário, e apoiando pouco.

Na esquerda, o lateral Cabrini tinha autorização para avançar. A compensação, equilibrando a transição entre os dois lados, se dava com o meia Conti, um jogador que atuava aberto pela direita, como os wingers britânicos. Segundo Jonathan Wilson, posição na Itália chamada de "tornante".

O meio-campo tinha um volante marcador, com um meia ofensivo pela direita, e um organizador pela esquerda. Este desenho quase lembra o 3-5-2- "moderno", com dois defensores, um líbero (sem a obrigação da sobra, mas sim um líbero de verdade), e avanço pelos dois lados. Mas o sistema com três zagueiros ainda não havia surgido - em breve vou colocar em debate aqui no blog Preleção este assunto - e a base tática do gioco all'italiana era mesmo este 4-4-2 cheio de compensações e desalinhos.

O aspecto mais importante, entretanto, era estratégico: marcação individual. Nove jogadores de linha marcavam individualmente. Somente o líbero (camisa 6) não perseguia ninguém de forma fixa. No Campeonato Italiano, onde praticamente todas as equipes atuavam da mesma forma, o espelhamento se dava pelos números das camisas: o tornante, camisa 7, marcava e era marcado pelo lateral-esquerdo (número 3), e assim por diante, de maneira previsível.

Funcionou na Copa, contra a Argentina, tendo a marcação individual anulado Maradona. Também funcionou contra o Brasil, graças ao dia iluminado - é evidente - de Paolo Rossi na frente. Mas estava por um fio. E foi abandonado este 4-4-2 com marcações individuais no momento em que a favorita Juventus de Giovanni Trapattoni perdeu a final da Champions League de 1983 para o Hamburgo, da Alemanha.

A Juventus contava com a base da defesa italiana de 82 - Scirea, Gentile e Cabrini. Tinha ainda Michel Platini como o articulador, Boniek como o meia ofensivo, e Paolo Rossi na área. Mas Ernst Happel, técnico dos alemães, havia estudado as deficiências proporcionadas pelas múltiplas marcações individuais. Em seu 4-4-2 típico da Alemanha à época - com líbero e meio-campo em losango - inverteu o segundo atacante, para jogar às costas do lateral-esquerdo.

Refém da marcação individual, Trapattoni mandou o marcador acompanhar o atacante para não sobrecarregar Cabrini, e desguarneceu o outro setor - a direita. Perdida, a Juventus levou 1 a 0, gol de Felix Magath, sepultando este modelo tático. O mesmo Hamburgo, poucos meses depois de bater a Juventus de Platini, perdeu a decisão do Mundial Interclubes para o 4-3-3 do Grêmio, em Tóquio.

Leiam mais sobre o livro "Inverting the Pyramid":

1) Primeira tática do futebol se inspirou no rugby

2) Novo impedimento provoca 1ª variação tática

3) As primeiras escolas clássicas de futebol

4) O revolucionário W.M de Herbert Chapman

5) Itália reúne dois sistemas e cria o W.W

6) Russos inauguram as trocas de posições

7) A interpretação dos húngaros para o W.M

8) O 4-2-4 do Brasil bicampeão Mundial

9) Zagallo disseminou as variações táticas

10) A gênese da catimba argentina nos anos 60

11) O futebol total do carrossel holandês

12) Brasil de 1970: o último romântico

Brasil de 1970: o último romântico

23 de março de 2010 16

Retomo a série de posts que resenham o livro Inverting the Pyramid, do jornalista inglês Jonathan Wilson, trazendo ao debate a Seleção Brasileira tricampeã mundial em 1970. O time treinado por Zagallo é o protagonista do capítulo "Fly Me to the Moon", na obra que apresenta a história e a evolução das táticas no futebol.

Jonathan Wilson destaca que o Brasil de 70 é o último dos times que abriu espaço para todos os seus bons jogadores. Zagallo, com muita inteligência, soube encontrar espaço na Seleção Brasileira para cada um dos craques do momento. E conviveu, à época, com dilemas que colocavam Gérson e Rivelino como concorrentes a uma posição, assim como Pelé e Tostão - entre os quatro, alguns diziam, apenas dois poderiam jogar.

A solução de Zagallo se deu a partir do recuo de Gérson, que passou a desempenhar uma função na Itália conhecida por "regista" - uma espécie de segundo volante responsável pela saída de bola qualificada, com passes curtos ou longos, regendo a transição ofensiva. Clodoaldo assumia a responsabilidade de proteger a dupla de zagueiros, que tinha aos lados dois laterais distintos: pela direita, o apoiador Carlos Alberto; na esquerda, o marcador Everaldo.

À frente de Clodoaldo e Gérson, distribuíam-se quatro jogadores ofensivos. Rivelino à esquerda, aproximando-se do trio formado pelo ponta Jairzinho, na direita, e pelos pontas-de-lança Tostão e Pelé, centralizados. Rivelino ocupava um lado, Jairizinho abria o corredor em diagonal para a passagem de Carlos Alberto no outro, e a dupla de frente tratava de acabar com a vida dos zagueiros adversários.

Esta formação, descrita no diagrama tático que ilustra o post, privilegiava os jogadores mais talentosos. Mesmo sob o risco de sobrepôr algumas características semelhantes, Zagallo encontrou lugar para atletas que nos clubes desempenhavam funções equivalentes. E o desenho resultante causa para Jonathan Wilson até mesmo uma certa indefinição:

"Era um 4-4-2, um 4-3-3, um 4-2-4, ou até mesmo um 4-5-1? Era todos, e nenhum. Era apenas jogadores em um campo, que se complementavam perfeitamente. Modernamente, poderia muito bem ser descrito como um 4-2-3-1, mas tais sutilezas não significavam tanto na época", analisa Jonathan Wilson.

É uma analogia interessante. O desenho lembra o 4-2-4 campeão em 1958. Mas o posicionamento inicial de Rivelino também sugere a variação para 4-3-3 criada pelo próprio jogador Zagallo, entre 58 e 1962. Alguém pode ainda ver um 4-4-2, considerando Jairzinho um meia. Ou então enxergar o 4-5-1 desdobrado em 4-2-3-1, com Tostão à frente de Pelé, Jairzinho e Rivelino.

Eram os melhores jogando, no último suspiro do futebol romântico, onde há camisas suficientes para todos os craques, a despeito do sistema tático escolhido.

Leiam mais sobre o livro "Inverting the Pyramid":

1) Primeira tática do futebol se inspirou no rugby

2) Novo impedimento provoca 1ª variação tática

3) As primeiras escolas clássicas de futebol

4) O revolucionário W.M de Herbert Chapman

5) Itália reúne dois sistemas e cria o W.W

6) Russos inauguram as trocas de posições

7) A interpretação dos húngaros para o W.M

8) O 4-2-4 do Brasil bicampeão Mundial

9) Zagallo disseminou as variações táticas

10) A gênese da catimba argentina nos anos 60

11) O futebol total do carrossel holandês

Os problemas de Capello para a Copa do Mundo

22 de março de 2010 16

Considerada uma das principais favoritas ao título da Copa do Mundo de 2010, a seleção da Inglaterra passa por uma fase de péssimas notícias. São tantos os problemas que não há soluções para todos. Acredito que o técnico Fábio Capello mal consiga dormir, às vésperas do Mundial da África do Sul, em busca de alternativas.

O sistema tático deve ser mantido. É o 4-4-2 britânico, em duas linhas, com um atacante de movimentação e um de referência. A estratégia também é convencional: sem a bola, marcação por zona - pressão sobre a bola - nas duas linhas, e pressão-alta dos dois atacantes sobre a saída adversária; com a bola, transição ofensiva pelos lados do campo, com os wingers; e distribuição de jogo centralizada nos meias box-to-box, apostando também nas infiltrações pelo chão para os atacantes.

Não há, entretanto, um winger-esquerdo ortodoxo. Durante as Eliminatórias e amistosos, Capello entregou a função a Gerrard. O capitão do Liverpool, entretanto, sempre se destacou como um box-to-box. Não aprofunda as jogadas, não sabe se utilizar da linha de fundo, e ainda por cima é destro, o que lhe obriga a priorizar as diagonais.

Para piorar, é mal escalado por Rafa Benítez como o "número um" do Liverpool, no 4-5-1 desdobrado em 4-4-1-1, refém de zagueiros, sem espaço para concluir a média distância, e sem espaço também para seus lançamentos e assistências longas. Está em má fase. Milner, outro destro - porém mais adaptado à função - é a alternativa.

Capello usa Gerrard na extrema-esquerda da segunda linha porque, por dentro, considera Barry e Lampard mais seguros. São os titulares das posições centrais do meio-campo. Infelizmente para o técnico inglês, no entanto, também não vivem boas fases em seus times.

A diagonal de Gerrard servia para abrir o corredor a Ashley Cole, uma compensação tática interessante. Com este balanço entre ambos os lados - winger abre na direita, lateral na esquerda - a Inglaterra tem equilíbrio ofensivo. Mas Ashley Cole está lesionado, e deve se recuperar a poucos dias da preparação. Seu desempenho no retorno é uma incógnita. E o reserva imediato, Bridge, pediu dispensa depois de problemas pessoais com o ex-capitão Terry.

Na extrema-direita, Capello não tem Beckham, lesionado; Wright-Phillips perdeu a posição no City, Walcott é eterno reserva no Arsenal. Sobra Lennon, bom jogador do Tottenham, mas não um protagonista.

E no ataque, encerrando a longa lista de problemas, Capello ainda não encontrou o parceiro ideal para Rooney. Já usou Crouch, Defoe, Heskey, Carlton Cole...cada um com uma característica, um estilo. Entre todos que vi, os de melhor desempenho foram Defoe e C.Cole, mas Heskey foi titular no maior número de jogos. Em todo caso, todos eles se igualam a Lennon e Milner - alternativas a problemas: são coadjuvantes.

Lesões de Beckham e Ashley Cole; declínio técnico de Gerrard, Lampard e Barry; problemas pessoais entre Terry e Bridge; indefinição no ataque. Capello tem muito trabalho pela frente até junho.

Fulham derruba a árvore de Natal da Juventus

18 de março de 2010 15

A maior surpresa da rodada de hoje, que fechou as oitavas de final da Liga Europa, foi a eliminação da Juventus. Depois de vencer fácil na Itália por 3 a 1, a Juve foi goleada por 4 a 1, e viu o Fulham conquistar a vaga, na Inglaterra.

E o Fulham chegou à classificação utilizando-se do ortodoxo 4-5-1 britânico, claramente desdobrado em 4-4-1-1. São duas linhas de quatro jogadores, tendo Gera atuando na conexão com o centroavante Zamora.

A estratégia também é clássica entre os clubes ingleses. O Fulham adiantou a linha defensiva, aproximando-a do meio-campo. Esta escolha forma um paredão compacto de oito jogadores entre as duas intermediárias, retirando espaço do adversário.

Na recuperação da posse, a transição é facilitada exatamente por este avanço. A marcação exerce pressão por zona no campo do adversário, ou seja, dá início ao contra-ataque já na intermediária ofensiva. Há menos terreno pela frente, e mais condições de acelerar a chegada à área.

A Juventus optou pelo não menos clássico 4-5-1 "Christmas Tree", comum nas passagens de Carlo Ancelotti pelo Milan. O desdobramento em quatro faixas apresenta um 4-3-2-1, e este escalonamento - três volantes, dois meias, um atacante - lembra uma árvore de Natal. Por isso a denominação "Christmas Tree" utilizada pelos cronistas ingleses e italianos.

Felipe Melo foi o primeiro vértice, central, guarnecendo a linha defensiva. Teve Camoranesi à direita, e Sissoko à esquerda; mais adiantados, estiveram os meias Diego e Candreva. E, no ataque, Trezeguet - que abriu o placar (a Juventus levou 4 a 1 de virada).

O jogo, entretanto, teve um ingrediente fundamental. Cannavaro foi expulso na metade do primeiro tempo. Para reajustar a defesa, Zacheroni sacou Candreva, colocando Grygera em campo. Desfazia-se a árvore de Natal, que seria definitivamente derrubada com grande atuação de Gera, autor de dois gols.