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Suíça ensina como se usa o 4-4-2 britânico defensivamente

16 de junho de 2010 13

Como analista tático apaixonado por conceitos teóricos e ferramentas de apoio à observação de campo, sou fã dos heat maps. Heat map é o “mapa de calor” que alguns sites especializados oferecem, mapeando o deslocamento de cada jogador em campo durante as partidas – o que facilita o reconhecimento, ao mesmo tempo, do posicionamento inicial e da função executada por eles. Durante a Copa do Mundo, tenho acompanhado bastante o heat map do site oficial da Fifa, que faz atualizações táticas a cada 15min de jogo.

A figura que ilustra o post é definitiva sobre o 4-4-2 em duas linhas aplicado pela Suíça na vitória de 1 a 0 sobre a Espanha, conquistada hoje. O heat map aponta com perfeição as linhas defensiva e de meio-campo, sucedidas por uma dupla de atacantes que tem um jogador de referência, mais adiantado, e um de movimentação, que recua sem a bola.

A linha defensiva contou com os excelentes laterais Lichtsteiner (dir) e Ziegler (esq), mais os zagueiros Grichting e Von Bergen (que substituiu Senderos, lesionado, logo cedo). O meio-campo teve como wingers Barnetta (dir) e Gelson Fernandes (esq), Inger de central marcador, e Huggel não menos marcador por dentro, mas com um posicionamento pouco mais adiantado. Na frente, Derdyok foi o atacante de movimentação, e Nkufo fez a referência.

A Suíça aplicou ao 4-4-2 britânico uma estratégia defensiva. Recuou ambas as linhas, compactou-as à frente da própria área, e estabeleceu desta forma dupla marcação por zona com pressão sobre a bola. Traduzindo: dividindo o campo em quatro faixas paralelas às linhas laterais, cada zona contou com um marcador, e uma cobertura imediatamente atrás. Os únicos liberados da zona foram os atacantes, com Nkufo prendendo um zagueiro, e Derdyok combatendo individualmente o volante que fizesse a saída de bola.

O mérito da Suíça foi seguir à risca a premissa desta marcação por zona com pressão sobre a bola. Que é exatamente esta: pressão sobre a bola. Sem perseguições individuais. O jogador só combate aquele que ingressar em sua respectiva zona de atribuição E com a bola. Sem ela, pode transitar no setor à vontade, que será observado apenas de longe.

Este sistema de marcação fundamental para o sucesso da estratégia mais defensiva deste 4-4-2 britânico/suíço evita a desorganização. A Espanha, no 4-2-3-1, dá liberade de movimentação para seus meias e atacante. Imaginem se os suíços marcassem Xavi, Silva, Iniesta, Xabi Alonso e Villa individualmente? A cada lance, esta rotação espanhola desorganizaria o sistema defensivo suíço. Quem perseguisse um jogador adversário abriria espaços, provocando um efeito dominó – bastante comum às táticas brasileiras de três zagueiros, que usam marcação individual no sistema defensivo.

O ideal, para a Espanha furar este bloqueio, seria apostar sempre na infiltração central, pelo chão, com dupla de atacantes jogando sobre a linha defensiva – o que elimina a cobertura da marcação dupla. Uso como exemplo o estilo de jogo de Nilmar, sempre no limite do impedimento, entre um zagueiro e o lateral. Apelar para o jogo pelos lados, como fez a Espanha no 2º tempo – na tentativa de abrir o jogo – é quase inócuo porque pelos lados há bloqueio de um winger, protegido por um lateral-base. Ou cria-se uma triangulação sobre eles, ou não se consegue ultrapassá-los.

Melhor é seguir rodando posições, e encaixar passes para a infiltração. Com a linha adiantada, pegar esta segunda bola e arriscar de média distância. E, em último caso, apelar para o cruzamento alto. A Espanha só tentou uma das três alternativas – o chute de longe – e do meio para o fim do jogo. Não quis modificar o próprio estilo, e acabou vitimada pela eficiência de uma estratégia que evita a desorganização defensiva.

As duas linhas da Suíça se posicionaram, e assim permaneceram até o final. Sem se desorganizar. Mostrando como aplicar uma estratégia defensiva a um sistema que pode ser ofensivo, dependendo do objetivo ao qual a equipe se propõe. Uma aula de tática. Foi bonito de ver.

*PS: aos muitos que perguntaram. É fácil de achar os heat maps. É só entrar no Match Cast de cada jogo, e procurar pelas formações táticas. Dá para ver ainda heat maps individuais clicando sobre o nome de cada jogador.

Comentários (13)

  • Nicolas diz: 16 de junho de 2010

    Por favor, não poste o heatmap da Espanha tampouco de Portugal. São irreconheciveis, hahaha!

  • Adilson Kim diz: 16 de junho de 2010

    Concordo que foi uma estratégica de sucesso adotada. Daqui pra diante vou torcer pra Suiça sagrar-se campeã do Mundo, pra ver o que vão fazer pra acabar com essas retrancas de times “pequenos”. O futebol é um dos únicos esportes em que se pode consagrar alguém ou um time que não tenta nada, não arrisca, não persegue o objetivo (goal ou gol) do início ao fim. Desta forma, temos jogos tão enfadonhos e ridículos como os dessa Copam até agora. O que você acha Cecconi? A propósito, já leste o Sant’anna hoje? Nãqo concorda?

  • Adilson KIM diz: 16 de junho de 2010

    Concordo que foi uma estratégia de sucesso adotada. Daqui pra diante vou torcer pra Suiça sagrar-se campeã do Mundo, pra ver o que vão fazer pra acabar com essas retrancas de times “pequenos”. O futebol é um dos únicos esportes em que se pode consagrar alguém ou um time que não tenta nada, não arrisca, não persegue o objetivo (goal ou gol) do início ao fim. Desta forma, temos jogos tão enfadonhos e ridículos como os dessa Copam até agora. O que você acha Cecconi? A propósito, já leste o Sant’anna hoje? Não concorda?

  • fernando diz: 16 de junho de 2010

    Algumas curiosidades sobre o tópico: 1) a quase engraçada sinceridade do Hitzfeld, falando abertamente na coletiva anterior ao jogo, sobre como posicionaria a equipe em campo (9 atrás da linha da bola, esperando a brecha para o contragolpe). 2) o desespero do narrador do SporTV dizendo q a Suíça seguia a bola, então seria “só” fazer a inversão – o problema é NÃO DAVA pra inverter…

  • walmir diz: 16 de junho de 2010

    Tuas análises são ótimas!!! teus posts são aulas sobre táticas, estratégias e posicionamento no futebol. Parabéns!!!

  • Eduardo Mello diz: 16 de junho de 2010

    Oi Eduardo!

    Onde posso acompanhar os heatmaps da copa?

    Obrigado

  • Carlos Lima Jr diz: 16 de junho de 2010

    cecconi,
    qual parte do site fifa tem esta analise tatica?
    só achei neste estilo: http://pt.fifa.com/mm/document/tournament/competition/01/24/64/23/14_0615_bra-prk_playersheatmap.pdf

  • Bruno Costa diz: 16 de junho de 2010

    Eu julgo o Chile bastante superior à Espanha, então prevejo muita dificuldade para a Espanha se classificar…
    A tendência é a Suíça fazer 6 pontos ou 7 pontos… Se o Chile e Suíça empatarem na próxima rodada, os Chilenos jogam pelo empate contra a Espanha…
    Se o Chile ganhar da Suíça, idem…
    No grupo “a”, como eu havia comentado no teu post sobre Uruguay x França, os europeus e os sulamericanos devem classificar com 7 pontos…
    Se o Uruguay sair em primeiro, a França tira a Argentina…

  • juliano diz: 16 de junho de 2010

    Muito bom! Só que a Espanha só não venceu por uma dessas coincidências de fatores que ocorrem no futebol, vez que jogou bem mais e teve várias chances, enquanto que a Suíça fez um gol de chiripa…
    O que digo é que todo esse bla-bla-bla ruiria se o jogo tivesse o resultado condizente com o acontecido em campo, ou seja, a vitória espanhola. E aí, e a tal tática, como ficaria??
    Concordo com as análises que fazes, só discordo de que a tática foi determinante para o resultado. O futebol tem muitas nuances que ultrapassam as questões meramente táticas. É aquilo, um time não joga p… nenhuma, faz um gol de contra-ataque e um comentarista de resultados (não digo que é o teu caso, veja bem!), com há muitos na ZH, principalmente, diz que a vitória foi merecida por isso e por aquilo… Mesma coisa quando o time é campeão, aí não interessa se tomou chocolate nas finais e que ganhou por causa de um lance fortuito ou erro de arbitragem, que vai ser incensado por comentaristas que conseguem ver algo que a torcida não viu… Ah, vamos parar com isso…

    Resposta do Cecconi: se a tática não foi determinante para o resultado, Juliano, eu não sei o que é futebol. Até o tênis, um esporte individual, depende de tática e estratégia. Em um esporte coletivo, então, nem se fala. Muitos acreditavam em goleada da Espanha. Porque ela não aconteceu? Apenas por obra do Sobrenatural de Almeida? Não, né. Abraços.

  • Daniel Seidel diz: 16 de junho de 2010

    Eu sinceramente não entendo porque o Vicente Del Bosque vem insistindo com esse esquema de apenas um atacante na Espanha. Quando ele assumiu o comando espanhol em 2008, a única coisa que ele tinha que fazer era a manutenção do esquema vencedor do Luís Aragones na Eurocopa, ou seja, dois jogadores por dentro, Xavi e Xabi Alonso ou Busquets, e nos lados Iniesta e David Silva. Na frente é óbvio Villa e Torres. Esse treinador conseguiu acabar com o futebol do Xavi deixando-o de costas e marcado nos setor ofensivo em vez de colocá-lo mais atrás de frente para o campo adversário, organizando como ele próprio faz com maestria. Sem o Torres descontado, ele poderia colocar o Pedro, ou então o Llorente. Acredito que depois desse inesperado revés, Del Bosque vai abrir os olhos e fazer as melhoras necessárias pra que esses jogadores que têm muito talento possam render mais.
    Abraço.

  • Leonardo diz: 16 de junho de 2010

    Cecconi,
    Não achas que faltou mais trocas de posições em velocidade para furar o bloqueio suíço?? A meu ver, esse é um grande defeito da Espanha, que apesar de ter jogadores de excelente nível técnico, não trocam de posições, nem possuem velocidade para tal. Ainda, não fizeram jogadas com jogadores entrando em diagonal na área, recurso esse, muito efetivo no futebol de hoje (barcelona e arsenal usam muito desse recurso) , tanto que, o gol do Elano saiu foi dessa forma. Que me dizes?

  • Gabriel Lopes diz: 17 de junho de 2010

    Como já mencionei nos comentários de um post anterior, é exatamente o que eu penso que o Roth deveria aplicar ao Inter para tentar segurar o São Paulo. Até porque os times brasileiros não estão acostumados a jogar contra adversários posicionados assim e a tendência é a se complicarem. Fica a dúvida sobre o Roth ter tempo para ajustar o time neste esquema. E mais: acho que a Coréia do Norte jogou muito parecido com este esquema também, contra o Brasil, apenas contando com jogadores menos técnicos.

  • Vinicius Ryazantsev diz: 18 de junho de 2010

    Esse jogo foi a minha cara, eu gosto demais desse estilo de jogo, tive o prazer de ver Hiddink anulando o Barcelona em camp nou em 2009, depois o Bob Bradley com a espanha na copa das confederações, o Kurban Berdyev com o Paredão russo trancando o Barcelona, em casa e fora, Mourinho simplesmente mito, nessa champions league, e agora o Hitzfeld, fico feliz em ver que esse estilo de futebol tá se espalhando, não consigo ver times desorganizados defensivamente, só pensando no ataque e em jogo bonito pra torcida ver, passo longe de Holanda, Espanha, Barcelona, Arsenal e Santos

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