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Chile: vitória a qualquer custo

21 de junho de 2010 7

Analisar taticamente uma equipe treinada por Marcelo Bielsa é pura diversão. Para quem – como eu – gosta de futebol voltado à vitória, à iniciativa, à ofensividade responsável, assistir ao Chile no 1 a 0 de hoje sobre a Suíça foi muito gratificante. Bielsa tentou de tudo para vencer, para ultrapassar o bloqueio proporcionado pelas rígidas, compactas e recuadas duas linhas de quatro suíças. E conseguiu, com duas variações táticas extremamente corajosas.

O Chile começou a partida no 3-4-3, resgatando o sistema preferencial com o qual se classificou nas Eliminatórias – conforme demonstra o diagrama tático que ilustra o post. São três zagueiros bem centrais, protegidos pelo volante Carmona; uma linha com dois apoiadores que abrem pelos lados (Isla e Vidal), tendo Mati Fernandez no enganche, e o trio ofensivo com Beausejour e Sanchez de pontas à moda antiga, e Suazo na área.

A mecânica de jogo planejada para abrir a posse de bola levou o Chile a apostar nos cruzamentos – talvez induzido pelo retorno de Suazo ao time. Isla-Sanchez na direita, e Beausejour-Vidal na esquerda, formaram duas duplas de jogadores incisivos no avanço pelos lados. Em 45min, foram 12 cruzamentos para a área. Mas não houve êxito frente ao bom desempenho dos zagueiros e dos laterais-base da Suíça.

PRIMEIRA VARIAÇÃO: Bielsa voltou para o 2º tempo no 4-3-3. Sacou Suazo e Vidal, abriu Jara na lateral-esquerda, recuou (um pouco, apenas) Isla na direita, e colocou Gonzalez no meio-campo, com Valdívia no ataque central. Ainda assim, a equipe seguiu insistindo na bola aérea, piorando o aproveitamento, já que não havia mais a referência de área. O treinador do Chile então repensou a estratégia ofensiva, e com uma substituição, alterou novamente o sistema tático.

SEGUNDA VARIAÇÃO: Com a entrada de Paredes no lugar de Mati Fernandez, Valdívia recuou para o enganche. Mas Gonzalez se adiantou ainda mais. O Chile assumiu a forma de um 4-2-4, com dois zagueiros (Ponce e Medel), dois laterais apoiadores (Isla e Jara), um volante recuado (Carmona, brilhante), um enganche (Valdívia), dois pontas (Beausejour e Sanchez), um centroavante (Paredes) e um jogador de movimentação na frente (Gonzalez, mais à esquerda). E nessa formação, marcou o gol da vitória, com Gonzalez.

Conclusões não faltam, e podem contentar qualquer gosto – de quem apoia ou critica esse tipo de estratégia. É inegável, entretanto, que Bielsa assumiu todos os riscos possíveis, mas com uma lógica baseada em premissa bastante clara: a Suíça teve um jogador expulso aos 30min do 1º tempo, recuou no 4-4-1 em duas linhas, e abdicou do contra-ataque.

Era necessário criar espaços e jogar sobre o limite da linha defensiva, pelo chão. Na marcação por zona com pressão sobre a bola, dupla em cada uma das quatro faixas verticais de campo, e com força física para combater a bola aérea, a Suíça anulou a jogada aérea. Bloqueou e desqualificou os cruzamentos pelos lados, e não deixou ninguém cabecear. Bielsa fez o certo. Formou um pelotão ofensivo com quatro jogadores, entregou a batuta para Valdívida, e passou a jogar com bola no chão, martelando a linha defensiva com infiltrações rasteiras, e muita movimentação. Assim nasceu o gol da vitória.

Bielsa lutou taticamente pela vitória. Jogaço.

Comentários (7)

  • Thiago dos Reis diz: 21 de junho de 2010

    Excelente análise.

    É por isso que o Bielsa era chamado de Loco Bielsa. Mas as vezes, de tanto querer vencer acaba perdendo. O que quase aconteceu quando a Suíça adiantou a marcação depois de sofrer o gol e passou a buscar os contragolpes. O gol perdido pelos suíços foi equivalente a um pênalti.

  • rafael colorado diz: 21 de junho de 2010

    edu, qual a explicação pros gringos (especialmente no ZM) acharem tão errado um time jogar no 4-4-2 contra uma equipe com 3 “defensores”? é pelo fato de alguns times recuarem seus atacantes para o meio (como o Kalou ontem, por exemplo)? pois teoricamente o time no 4-4-2 tem condições melhores para trabalhar a bola no meio, ou não?

    Resposta do Cecconi: Rafael, não fiz essa constatação ainda. Vou acompanhar esse debate pra tentar lançar alguma explicação a respeito. Valeu a dica. Abraços.

  • Ademir Neissinger diz: 21 de junho de 2010

    Bela visao do jogo Cecconi, acho que foi por ai mesmo, brilhou-me os olhos o jogo do Chile hoje, pena nao fazerem mais gols né !!!!
    Mas a cada post como esse eu me pergunto, existem poucos treinadores hoje como o Bielsa ! nao acha? Pq diferente de todos os outros que tentam (Queiroz, o Hericson, o Del Bosque) o Bielsa é verdadeiramente ofensivo, adorador de esquemas com 3 atacantes, 2 abertos como pontas, 1 finalizador, e mais, sempre pelo menos 1 enganche de qualidade no meio, vide a Argentina do seu comando que tinha, Riquelme no meio, e jogadores como Crespo, saviola e Ortega na frente !!!
    Hoje estamos vivendo o modismo do 4-3-3, citei 3 treinadores que vi tentar fazer o 4-3-3, até agora o unico que se deu bem, mais pela fragilidade do adversário foi Queiroz, o Hericson papudo se deu mal contra o Brasil e o Del Bosque, neste momento, está ganhando somente de 1×0 da fortissima Honduras !!!

    Será que o Dunga poderia ser acometido desta doença !!!! tirando um volante e colocando o Nilmar, junto com Robinho, Kaká e Luis Fabiano? ???

    sonha torcedor !!! hahaha

  • LINCOLN BIANCONERI diz: 22 de junho de 2010

    Parabéns Cecconi!!!!!!

    Nem o Bielsa conseguiria detalhar tão bem…

    excelente trabalho, precisamos de jornalistas-analistas como voce aqui na imprensa paulista.

    Já pensou em trabalhar num grande centro????

    abrçs e parabéns!!!

  • Itamar Neri diz: 22 de junho de 2010

    Grande post. Sou fã do Bielsa e concordo com o Ademir. Seria muito bom tirar um volante e entrar Nilmar. Um 4-3-3 com Gilberto Silva, Elano (Meia Central) e Kaká mais avançado. Abertos Robinho e Nilmar. Luís Fabiano para chapelar e golear. Com certeza a saída de bola seria mais fácil até para o Kaká, pois a formação escolhida sobrecarrega o meia… Sensacional o Preleção. Análises totalmente excelentes.

  • Emerson diz: 23 de junho de 2010

    Aliás, merecidíssima vitória! Realmente, o Bielsa é um dos poucos diferentes nessa Copa. Dá gosto de ver o Chile jogar. E que bom pro futebol tb, pois a Suíça é o outro extermo, o defensivo e pragmatismo levado às últimas. E mostra que mesmo um time tecnicamente limitado, como o Chile, pode sim jogar de forma ofensiva. Claro, que logo, logo vai cair (por ex., se pega um Brasil nas oitavas toma uma goleada, pois não tem força defensiva, como aconteceu nas Eliminatórias). Eu até gostto de um time bem postado defensivamente, mas essa Copa é um exagero de retrancas!!

  • Preleção » Arquivo » Brasil x Chile: cuidem-se, laterais diz: 28 de junho de 2010

    [...] desfalques na zaga, o Chile deve abrir mão do predileto 3-4-3 de Marcelo Bielsa, variando para o 4-3-3 com triângulo de base alta no meio-campo. Esta, entretanto, é apenas uma [...]

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