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O Mundial da organização tática

10 de julho de 2010 10

Períodos históricos sucedem-se pela necessidade de grandes mudanças, a partir de constatações ou descobertas. Foi pela agricultura e pela pecuária que os povos nômades passaram da Pré-História à Idade Antiga; os grandes impérios foram substituídos por pequenos feudos independentes; o comérico restabelecido provocou o início da Idade Moderna; o fim da teocracia e as reunificações nacionais marcaram a transição para a contemporaneidade.

O mesmo acontece na literatura. Novas escolas em contraposição às estabelecidas, como na objetividade parnasiana em sequência ao romantismo subjetivo. E em praticamente todas as demais áreas do conhecimento humano. Um novo pensamento modificando o padrão vigente, respondendo perguntas antes desconhecidas ou ignoradas, procurando soluções ao esgotamento dos modelos decadentes.

No futebol é diferente. As novas eras não contrapõem as anteriores. Agregam-se a elas, e as complementam. Ampliam a paleta de características com a qual o futebol se colore à observação pública.

Em sua gênese, o futebol prescindia da coletividade. Era um esporte individual, mesmo em equipes. Sua primeira Era foi técnica. Os jogadores foram desenvolvendo fundamentos, qualificando o passe, a conclusão, descobrindo o uso da cabeça no contato com a bola. O indivíduo acima do coletivo.

Depois veio a Era Física. Desenvolvimento da preparação, sem se contrapor à técnica. O futebol não abandonou a valorização da habilidade individual. Mas agregou ao talento natural o condicionamento físico. O importante, além de saber jogar, era ter força e fôlego para se impôr ao adversário.

Massificado, envolvido em interesses populares, o futebol viveu também uma Era Psicológica. Motivação, concentração, comprometimento, empenho, entrega, aguerrimento. Novamente, sem alijar os períodos anteriores do processo. Somou à técnica e ao condicionamento físico o preparo emocional.

O Mundial da África do Sul apresenta-se como o marco de uma nova fase. A Era Tática. O futebol enfim como um esporte coletivo, sobrepondo a organização e o planejamento às virtudes já adquiridas. Jogadores técnicos, em condicionamento físico de alto nível, motivados e equilibrados emocionalmente, mas profundamente ligados a aspectos como posicionamento e cumprimento de funções complexas.

Essa constatação, entretanto, não menospreza todo o desenvolvimento tático que aconteceu paralelamente às eras anteriores. A evolução analisada pelo jornalista britânico Jonathan Wilson no livro Inverting the Pyramid é oportuna, relevante, e justa. Os treinadores sempre buscaram aliar a organização coletiva às questões individuais. Desde o começo, com o 1-2-7, passando pelo 2-3-5, pelo W.M, pelo W.W, pelo 4-2-4, pelo 4-3-3, pelo 4-4-2, pelo 3-5-2, pelas duas linhas, pelo 4-5-1 e todas as suas variações…desenvolvendo à reboque estratégias diferentes, combinadas a sistemas de marcação.

Mas as grandes referências são isoladas. A revolução do 4-2-4 brasileiro no final da década de 50 influenciou toda uma geração de times e seleções, assim como aconteceu ao W.M de Herbert Chapman, ou ao 4-3-3, ou ao 3-5-2 das copas de 86 e 90. Padrões disseminados, comprados como verdades absolutas pelos demais. A exceção é o 1-3-3-3 do Carrosel Holandês, que conseguiu ser diferente em meio aos modelos rígidos compartilhados pela maioria.

Na África do Sul houve mais do que isso. Em um único Mundial, assistimos a variados sistemas táticos. Praticamente todas as seleções com uma característica própria. Não houve um padrão de comportamento, nem tático, nem estratégico.

As quatro semifinalistas são equipes organizadas. Holanda, Uruguai, Alemanha e Espanha têm craques, têm bons jogadores, mas sem nenhuma individualidade de supremacia absoluta sobre os demais mortais da Terra. Contaram com grandes atletas, técnicos e talentosos, bem condicionados e concentrados.

Mas quem é o craque indiscutível da Copa? O indivíduo absolutamente acima de todos. Não tivemos um Pelé. Um Maradona. Um Ronaldo. Um jogador que decidisse a Copa sozinho. Não. As melhores seleções da Copa chegaram a este patamar por serem as equipes mais organizadas, melhor planejadas taticamente.

Os treinadores parecem agora estudar mais as características de seus elencos, partindo daí ao planejamento coletivo. Parecem também estudar mais as virtudes e defeitos dos adversários. Há pequenas e grandes variações, e dentro de um único jogo foi possível assistir de lado a lado verdadeiros embates entre estrategistas. Com técnica, com preparo físico, com equilíbrio emocional, mas acima de tudo com organização coletiva.

Este é o legado da Copa da África do Sul. Um futebol mais enxadrista. Um futebol como esporte eminentemente tático, estratégico, organizado. E coletivo.

Comentários (10)

  • marcelo diz: 10 de julho de 2010

    Isso é que é saber escrever um texto, e analisar um tema.

  • Leonardo diz: 10 de julho de 2010

    Cecconi, a meu ver, estamos no Brasil muito atrasado nessa “evolução”. Estamos com um misto de físico e psicológico. Portanto, creio, que, o técnico que conseguir passar essas idéias a nossos jogadores e conseguir fazê-los cumprir, terá grande vantagem sobre os demais nos nossos campeonatos nacionais. No entanto, não vejo técnicos com essa capacidade, talvez, somente Mano Menezes. O que assusta, pensando em Brasil para a próxima copa…

  • Marco diz: 10 de julho de 2010

    Ótimo texto Eduardo. Parabéns. Cronologia perfeita. Concordo com o comentário do Leonardo, a parte tática no Brasil eu vejo muito atrasada em relação à outras escolas. Ainda se visa os treinos coleticos, porém sem jogadas ensaiadas, sem uma estratégia para determinadas situações, sem se conhecer o que cada atleta pode render de melhor dentro de um sistema de jogo. Se algo sai errado, a solução é o “abafa”. Para quem gosta de futebol, isso é triste.

  • Cristiano diz: 10 de julho de 2010

    Cecconi, parabéns pelo blog. Sempre acompanho o que tens a dizer antes e depois das principais partidas. Acho que a Copa apresentou alto nível em todos os aspectos, diferentemente da de 2006. Concordo que todas as seleções apresentaram suas principais características e aproveitaram bastante as situações táticas. Acho que a característica tática mais marcante é a consolidação e o amadurecimento do esquema 451 e suas diferentes abordagens (4231, 4321 ou 433) que já tinha sido bastante utilizado em 2006, mas ainda engatinhava. É claro, verdades absolutas e futebol são quase “antônimos”. Um abraço.

  • Júnior Albuquerque diz: 11 de julho de 2010

    Concordo plenamente com o Leonardo. Tudo que eu falar agora será redundancia da minha parte, pois é exatamente isso que eu penso.

  • Leonardo Sander diz: 11 de julho de 2010

    Quem é o melhor técnico do mundo? Na minha opinião é José Mourinho. pq tem pulso, e é mestre em tática, o condionamento físico todos tem-bem verdade uns mais que os outros- o Psicológico, parte da cabeça do jogador e tbm do pulso do técnico, no sentido de não deixar o jogador se desconcentrar etc. Mas na europa além de Mourinho tem Arséne Wenger, Hiddink, Guardiola, Van marwijk etc. Mas e no Brasil? Mano Menezes, Felipão e só. Muricy é 3-5-2 ou 3-6-1, Luxemburgo é puro marketing. Mas continuamos com só dois, tah na hora do Brasil acordar e começar a dar mais atenção a esta função: A do técnico. Pq só assim o Brasil(Clubes) vai voltar a se destacar e ser + respeitado no mundo todo!

  • Preleção » Arquivo » Possibilidades táticas da decisão entre Holanda e Espanha diz: 11 de julho de 2010

    [...] Será um embate tático muito acentuado. As duas equipes chegam à decisão com méritos sem depender do brilho de apenas um jogador. Ambas têm seus protagonistas – Villa e Sneijder são os maiores – mas suas campanhas baseiam-se nos conjutos. Boas equipes, com táticas elaboradas, estratégias adequadas a seus elencos, jogadores abnegados no cumprimento das funções, e muita aplicação no combate às virtudes adversárias. Aprofundei o debate, a respeito de toda a Copa do Mundo, neste link. [...]

  • Emerson Skrabe diz: 12 de julho de 2010

    Excelente comentário. Em quase todas as partidas era impressionante perceber o alinhamento dos jogadores em campo.

  • Lucas diz: 12 de julho de 2010

    eu diria q foi a copa de duas fases. a primeira fase foi pessima e a fase mata-mata, principalmente a partir das quartas, foi de alto nivel. gostei mt de ver a alemanha jogar e o futebol bonito do japao. este merecia chegar pelo menos em quarto. a final foi justa e o brasil merecia ser eliminado na primeira fase pra minha alegria ficar maior ainda.

  • Diego diz: 12 de julho de 2010

    Concordo que a primeira fase foi fraca tecnicamente. Já os mata-matas foram ótimos. As surpresas positivas foram Gana, Japão e Uruguai. E os dois melhores Alemanha e Espanha. A Holanda passou pelo Brasil mais por falhas do próprio Brasil. E se o Uruguai não tivesse tantos desfalques poderia tê-la eliminado.

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