Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros

Processos da análise tática no blog Preleção

12 de julho de 2010 19

Hoje resolvi compartilhar com vocês processos que desenvolvi para a análise tática. Sem muita bibliografia para servir de referência, criei uma série de processos que facilitam minha observação. Por ser naturalmente uma pessoa metódica, organizar uma linha de trabalho quando assisto aos jogos foi importante também para criar um padrão nas análises do blog Preleção.

Todas as análises postadas aqui partem dos mesmos processos, dos mesmos parâmetros. O que permite aos leitores se familiarizar com a linha de raciocínio, jogando o time analisado no 3-5-2, no 4-3-3, no 4-5-1, ou em qualquer sistema. O processo não muda.

Vale lembrar ainda que são processos empíricos, ou seja, baseados na experiência e na observação. Nunca li bibliografia voltada a análise tática na crônica esportiva, e nem tenho a pretensão de influenciar ninguém. Também destaco que estes processos, facilitadores e organizadores do meu trabalho, não são a verdade, não têm a pretensão de ser a verdade, e nem contrariam outros processos que existam. Vamos a eles.

1) Identificar o posicionamento inicial dos jogadores: é a constatação do “diagrama tático”, da disposição dos jogadores. A própria expressão é esclarecedora. Posicionamento inicial, região de onde partem os jogadores. Na figura que ilustra o post, o posicionamento inicial é centralizado, na intermediária defensiva.

2) Identificar o sistema tático da equipe: encontrados os posicionamentos iniciais de cada jogador, é possível distribuí-los em um diagrama que descreva o sistema tático (numérico) da equipe – 4-3-3, 4-4-2, 3-5-2, 4-5-1, etc…

3) Identificar as funções defensivas e ofensivas dos jogadores: partindo do posicionamento inicial, verificar que função o jogador desempenha. Levo em conta não apenas as características de cada atleta, mas também a área de atuação/movimentação dele, e as suas atribuições – tarefas defensivas e ofensivas desempenhadas. Na figura que ilustra o post, o jogador representa um volante.

4) Identificar o sistema de marcação: localizar onde se posicionam as linhas defensivas quando não há posse de bola, e de que maneira os jogadores obedecem a elas – por zona com pressão sobre a bola, individual por função, marcação mista – e também a intensidade desta marcação coletiva, a partir do posicionamento das linhas – meia-pressão, pressão, pressão-alta…

5) Identificar a estratégia da equipe: são os movimentos coletivos, com e sem a bola. Pode-se usar como exemplo a Espanha na final do Mundial ontem. A estratégia da Fúria, aplicada ao sistema tático 4-5-1 (ou 4-1-4-1) foi controlar a posse de bola, adiantar as linhas, marcar no campo adversário, exercer pressão na saída de bola, articular-se pelo chão à frente da área…a estratégia da Holanda, pelo contrário, foi defensiva: recuar linhas, marcar por zona sem pressão, abdicar da posse de bola, fazer a transição ofensiva em velocidade com bola longa na direção dos pontas, principalmente na direita com Robben…

6) Confrontar informações de posicionamento e função: esta é a parte mais importante deste processo. Como a análise tática não é uma ciência exata, como a bibliografia é escassa, as referências teóricas são raras, e não há conceitos padronizados, é bastante comum confundir posicionamento com função, função com posição, comprometendo a análise.

A grande questão neste confronto de informações é identificar que tarefas cada jogador desempenha de acordo com suas funções e posicionamentos. Exemplos não faltam, mas vou usar um lateral-direito para ficar mais claro. O posicionamento inicial de um lateral-direito costuma ser uma linha à frente dos zagueiros, aberto pelo lado. Ele tem como atribuições defensivas bascular a linha quando o lateral oposto apoia, marcar por zona quando há adversário no seu setor…e como atribuição ofensiva principal a passagem para o apoio, pelo lado ou em diagonal.

Se eu identifico o posicionamento inicial deste jogador (uma linha à frente dos zagueiros), e a função desempenhada na partida (lateral-direito) fica fácil concluir que seu apoio não o torna um atacante. Se este lateral chegar à linha de fundo ofensiva para cruzar não terá proporcionado variação tática, não terá se transformado em atacante. Estará apenas cumprindo uma atribuição da função.

Este confronto de informações, para verificar com maior precisão o que é da função de cada jogador, é muito importante para evitar erros bastante comuns na análise tática voltada à mídia. Sem diferenciar posicionamento de função, e principalmente sem ter um critério que baseie todas as análises sem distinção, começa-se a ver variações e novas configurações onde elas não existem.

7) Recorrer a ferramentas de auxílio: parte final do processo, e não menos importante. Quando é possível -poucas transmissões online contam com esta tecnologia – é necessário conferir os heat map’s das partidas, os average position’s, ler matérias e análises de outras pessoas, debater e compartilhar todas estas informações para se diminuir as chances de erro.

Conclusão: cumprir os seis primeiros passos deste processo demora bastante. É preciso atenção para identificar os posicionamentos iniciais e as funções de cada jogador, partindo destes específicos para o todo (sistema tático, estratégia, sistema de marcação). Há jogos em que as conclusões surgem após os 20min do 1º tempo. Depois disso, é preciso manter a atenção para identificar eventuais variações – mudanças táticas dos técnicos com as partidas em andamento.

Eu não vejo jogo de futebol sem bloquinho e caneta na mão, desenhando o campo e identificando os posicionamentos, desenhando as setas e identificando as funções, desenhando as linhas e identificando a marcação. Sempre, e vocês devem estar tão carecas quanto eu de ler isso, desdobrando o campo em três faixas perpendiculares às laterais – defesa, meio-campo e ataque.

E reitero a justificativa: desdobrar uma equipe em três faixas, e outra em quatro, é falta de critério, comprometendo a análise porque os dois modelos diferem em vários aspectos – principalmente na identificação da função de cada jogador.

Comentários (19)

  • Dani Viegas diz: 12 de julho de 2010

    Ok, Professor Cecconi!

    Aula impressa pra estudo. Espero colocar em prática na próxima quarta-feira, já que temos jogo fora e assistirei pela TV (na mureta não tem como ficar com papel e caneta… hehe).

    Mas gostei mesmo foi da colocação “vocês devem estar tão carecas quanto eu de ler isso”! :P

  • Gilson diz: 12 de julho de 2010

    Cecconi, muito interesante sua postagem sobre como você trabalha. Sabendo como isso, ajuda a quem acompanha seu blog entender suas análises.

  • João A. diz: 12 de julho de 2010

    Para não puxar demais o saco vou dizer o mínimo, em linguagem de futebol:
    Tu és diferenciado.

  • LSDR96 diz: 12 de julho de 2010

    Aprendi muito sobre tática neste blog, quase tudo o que sei hj, vlw cara, sou teu fã!continua assim que tu vai muito mais longe.

  • Fabio Oliveira diz: 12 de julho de 2010

    Sensacional a explicação. Somos carentes de bibliografia com análise tática. Você vem suprir essa falta com dignidade. Parabéns!

  • Marcelo diz: 12 de julho de 2010

    Antes de mais nada parabéns pelo blog. É evidente que esse conteúdo todo que tu está desenvolvendo e arquivando, ainda vai render muito para ti e para todos que acompanham.
    Eu teria uma pergunta: tu gosta e/ou já valiou como funciona a parte tática dos games “Pro Evolution Soccer” (PES) e “FIFA” da EA?
    Abraço!

    Resposta do Cecconi: Marcelo, eu só jogo PES, e gosto muito das possibilidades táticas. Não jogo nenhum outro jogo, nem Fifa, nem FM. Abraços.

  • Emerson Sares diz: 12 de julho de 2010

    Mestre!!

  • César diz: 12 de julho de 2010

    Cecconi, sempre tive essa duvida na função que um jogador desempenha, por exemplo um meia-atacante, ele é um meia mais agudo ou um jogador que é meio campista e ao mesmo tempo atacante ?? Vejo muitos comentaristas falar expressões que mais confundem do que ajudam a esclarecer o posicionamento de um deteirminado jogador, por isso sempre dou uma olhada no seu site para saber como realmente jogaram as equipes

    abraços

  • Diego diz: 12 de julho de 2010

    Muito bom teu blog. Leio há um bom tempo já. Também gosto de analisar taticamente as equipes. Acho que foi uma bela Copa nesse aspecto.
    Continuarei acompanhando. Abraço.

  • LSDR96 diz: 12 de julho de 2010

    Eae Cecconi, depois que eu vi Schweisteiger recuado fazer uma baita copa ao lado do bom jogador Khedira, e tbm uma boa atuação da Inglaterra com Gerrard e Lampard alinhados pelo meio, gostaria de saber se é possível algo parecido no meu Internacional, com por exemplo Tinga e Andrézinho(Que ja jogou e mto bem até como 1° volante, contra o VEC se não me engano, qndo o W.Mathias foi expulso). É possível?

  • rogerio diz: 12 de julho de 2010

    sem dúvida é o melhor blog do click. abraço

  • Marcio diz: 12 de julho de 2010

    Oi Eduardo. Leio sempre o seu blog, e apesar de não comentar muito, gosto muito de ler. Não sou um estudioso de tática, sou um mero torcedor, mas através do blog comecei a me interessar por essa área. Uma curiosidade: quais comentaristas – a nível nacional, televisão – tu admira, do ponto de vista da análise tática? És fã do PVC, Calçade, etc.? Enfim, o que tu acha a respeito desse pessoal da ESPN e Sportv. Grande abraço e saudações xavantes

  • Thiago diz: 13 de julho de 2010

    Espetacular Cecconi!

    Comecei a desenvolver interesse em análise tática lendo seu blog eventualmente. Aprendi muito aqu,i e durante esta Copa, seus posts foram leitura obrigatória pra mim!

    Inclusive ia escrever neste espaço para te pedir sugestões de leitura sobre teoria tática, mas como você já informou, a bibliografia é pobre.

    Ao menos, fica estas dicas, que com certeza vão me ajudar, como um guia, para aprender mais sobre analise tática! Parabens pelo trabalho.

    Se possível, faça algumas análises dos times catarinenses ao longo do ano. Seria muito legal!

    Grande abraço

  • Gaúcho Colorado diz: 13 de julho de 2010

    Muito bom! Por isso, esse blog ‘Preleção’ e o ‘Almanaque Esportivo’ são os melhores: isentos, criteriosos, didáticos, simples. Apresentam a realidade atual dos times e como eram ou poderiam ser… sem puxar prá ‘a’ ou ‘b’. Sou assíduo leitor do blog. Parabéns!

  • Roberto diz: 13 de julho de 2010

    Cecconi, meus parabéns pelo blog e pelo excelente nível de comunicação que manténs com teus leitores. Abraço

  • Rodrigo diz: 13 de julho de 2010

    Cecconi, acompanho há muito tempo teu blog, parabéns.
    Aproveitando esse teu post, gostaria de fazer uma pergunta. Há uma dúvida que me ocorre por exemplo quando via jogos da Inter de Milão do Mourinho. A final da Champions contra o Bayern é o exemplo perfeito. O esquema utilizado foi de fato 4-3-3, ou poderia ser caracterizado como 4-5-1? Tenho essa dúvida uma vez que o posicionamento do Eto’o e do Pandev foi muito recuado, sempre acompanhando os laterais adversários, muitas vezes fazendo uma linha com a defesa. O corinhthians do Mano de 2009 com Dentinho e Jorge Henrique e a Holanda de Robben e Kuyt são outros exemplos. Abs

    Resposta do Cecconi: Rodrigo, como expliquei ontem eu defini critérios para padronizar minha análise. Dentro destes critérios, as três equipes que citas jogaram no 4-3-3. Abraços.

  • Vini KR diz: 13 de julho de 2010

    Muito legal esse post. O blog em si é muito bom!
    Se 50% dos jornalistas esportivos tivessem esse cuidado de analisar e ler os jogos e não apenas os resultados, não escutaríamos as barbaridades que escutamos!

    Parabéns!

  • Augusto diz: 14 de julho de 2010

    Cecconi:

    Adoro jogos que simulam o dia a dia dos técnicos.
    No momento estou jogando FM 2010.

    Tens algum outro aí para indicar?

    Abraço

    Resposta do Cecconi: Augusto, eu não jogo esses jogos, nem FM. Fico te devendo, nem sei que nomes te indicar. Abraços.

  • Vinicius Ryazantsev diz: 25 de agosto de 2010

    Cecconi, me tira uma duvida, acho que esse é o post mais apropriado pra perguntar isso
    como se diferencia uma linha defensiva “high” de uma “deep”?
    porque pelo que eu vejo varia muito o posicionamento, fico meio confuso quanto a isso
    e como identificar o tipo de pressao, se é ‘bloco baixo’ ‘bloco alto’ ‘bloco médio’ ?
    sempre me confundo com isso
    valeu

    Resposta do Cecconi: não tenho profundo conhecimento teórico das linhas de marcação. Pelos treinos que já acompanhei, entretanto, parece-me bem claro: pressão alta é com meio campo e atacantes no campo adversário, média é com atacantes no campo adversário, e meias na divisória, e baixa é a partir do meio-campo para trás.

Envie seu Comentário