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Posts de julho 2010

O 3-5-2 de Silas no Grêmio

30 de julho de 2010 18

Não assisti à integra do empate em 2 a 2 com o Cruzeiro, mas conto neste post com a orientação da colega Tati Lopes, setorista de Grêmio do clicEsportes, para descrever o 3-5-2 organizado pelo técnico Silas. Sistema tático com o qual o Tricolor deve disputar o Gre-Nal 382 do próximo domingo.

O 3-5-2 do Grêmio tem triângulo de base baixa no meio-campo. São três zagueiros, sem líbero, suscedidos por uma linha com dois alas e dois volantes; mais à frente há um organizador central, e na frente combinam-se um atacante de movimentação, e outro de referência.

Na zaga, Rodrigo é o "homem da sobra", deturpação do líbero na importação do sistema pelos técnicos brasileiros - Ozeia e Rafael Marques jogam pelos lados; Adilson cuida da esquerda e Ferdinando da direita nas coberturas à frente da área; Douglas é o vértice ofensivo do triângulo de meio-campo, enquanto Jonas e Borges formam a dupla de ataque.

O principal diferencial para se obter sucesso neste 3-5-2 é o uso de meio-campistas nas alas. Maylson e Hugo são os jogadores incumbidos de marcar o lateral adversário, e apoiar Douglas na criação. Embora possam sofrer com a atribuição defensiva da função, o êxito deste sistema depende da participação de ambos nas jogadas centrais. Quando um tiver a bola pelo lado, o outro precisa fazer a diagonal para o meio, apresentando-se como opção de passe ou conclusão, e descentralizando a marcação sobre Douglas.

O risco, para o domingo, é confrontar o 3-5-2 brasileiro com o 4-2-3-1 do Inter. Continuo acreditando, na teoria, que há desvantagem à estratégia defensiva dos três zagueiros quando se depara com meias-extremos ofensivos, pelo sistema de marcação individual aplicado a ela.

Pelos treinos, o domingo apresentará um duelo entre Ozeia e Rafael Sobis, e entre Rafael Marques e Giuliano. Dois zagueiros lentos contra meias-atacantes rápidos e ágeis. Hugo e Maylson não podem auxiliar na marcação, pois estarão algemados à marcação individual dos laterais colorados. É um risco, que certamente Silas - treinador profissional e ex-jogador de grande passado - calculou ao se decidir pelo 3-5-2, se realmente for este o sistema do Grêmio para o Gre-Nal do Beira-Rio.

O bloqueio são-paulino no 4-5-1

29 de julho de 2010 5

Na segunda-feira projetei uma escalação do São Paulo, baseado nas partidas recentes e nas informações da imprensa paulista, que abria margem a duas variações: ou o preferencial 3-5-2, ou o 4-4-2 - leiam aqui, a partir do avanço de Richarlyson para o meio-campo. Mas a proposta defensiva da equipe de Ricardo Gomes apresentou ontem, na derrota de 1 a 0 para o Inter, uma terceira via - ainda com a mesma escalação: o 4-5-1.

Na prática, o sistema prioritário do São Paulo ontem pode ser configurado como um 4-5-1 com três volantes, dois meias centralizados e um atacante de referência (ou 4-3-2-1). O desenho se aproxima bastante do que Carlo Ancelotti fazia no Milan, no "Christmas Tree" (árvore de Natal). Reparem na figura abaixo:

A foto apresenta uma variação de exceção na partida. Provavelmente Hernanes desceu ao primeiro posto para cobrir um eventual avanço de marcação de Rodrigo Souto, que retornou pela posição do camisa 10. No primeiro tempo Richarlyson foi o primeiro volante, com Rodrigo Souto à direita e Hernanes à esquerda na segunda linha. E no segundo tempo (quando fiz a foto acima) Richarlyson passou para a esquerda, marcando D'Alessandro de cima, enquanto Hernanes foi para a direita, e Rodrigo Souto recuou à primeira função.

Mas em determinados momentos de pressão do Inter, Ricardo Gomes apresentou ainda uma variação. Mantendo o 4-5-1, com diferente desenho de meio-campo. Reparem na imagem a configuração de um 4-1-4-1, com a abertura dos meias pelos lados, alinhando-se aos volantes da segunda faixa:

Acredito que Ricardo Gomes tenha pensado em bloquear as jogadas preferenciais do Inter, que são as triangulações laterais com Taison, Guiñazu e Kleber na esquerda, ou D'Alessandro, Nei e Sandro na direita, tendo Andrezinho a liberdade para se aproximar de ambos os trios.

Com estas duas linhas - Richarlyson entre elas - havia marcação dupla pelos lados. Jean e Marlos encaixados em Taison e Kleber, Júnior César e Dagoberto em D'Alessandro e Nei, enquanto o trio Richarlyson, Hernanes e Rodrigo Souto batia com Andrezinho, Sandro e Guiñazu. O que permitia aos zagueiros Alex Silva e Miranda cuidar de Alecsandro.

Nunca é demais lembrar um conceito teórico relevante: quando há encaixe de marcação, quando uma proposta é apenas defensiva, cabe ao time proponente buscar jogadas individuais. A técnica precisa prevalescer para desorganizar a estrutura defensiva adversária. Afinal, se cada jogador cuida de um respectivo, driblá-lo provoca um efeito em cadeia de jogadores deixando seus postos para a cobertura. Outra boa alternativa é o chute à distância.

Taison foi o melhor em campo exatamente porque compreendeu as exigências da partida: driblar e concluir. Partiu para cima em todos os lances, arriscou a jogada individual, e sempre que possível chutou a gol. D'Alessandro fez o mesmo, não com tantos dribles, mas investindo contra a marcação e concluindo.

O Inter foi bem neste aspecto, não se desorganizou e conseguiu, sem abdicar de sua estrutura tática, chegar à quinta vitória em cinco jogos. Um justo aproveitamento de 100%, pelo bom desempenho da equipe treinada por Celso Roth.

Chivas vs. La U: análise tática

28 de julho de 2010 10

Assisti ontem à noite ao jogo de abertura das semifinais da Copa Libertadores 2010, o empate em 1 a 1 entre Chivas Guadalajara e Universidad de Chile, no México. Logicamente, o blog Preleção não poderia perder a oportunidade de acompanhar o adversário de Inter ou São Paulo na decisão do principal campeonato das Américas. Vamos então à análise tática das duas equipes.

Chivas Guadalajara

Os mexicanos atuam no clássico 4-4-2 em duas linhas de quatro jogadores. Sem a bola, os meias-extremos alinham-se aos centrais, e o centroavante recua de forma centralizada. Recuperada a posse, a transição ofensiva se dá com estes wingers - Arellano na direita, Medina na esquerda - espetados no alto do campo. O centroavante Bautista, apesar de claras e manifestas limitações técnicas, participa na distribuição em pivô, girando sobre a marcação e partindo para a área na tentativa de receber a devolução.

A vocação desta transição ofensiva é pela direita. Arellano, camisa 9 velocista, centraliza as atenções dos companheiros, recebendo a bola com frequência. Bravo, o atacante mais adiantado, abre pelo setor para tabelar com Arellano, trazendo a marcação e permitindo a Bautista ingressar na área.

A compensação se dá no outro setor com o lateral-esquerdo Ponce, que apoia em auxílio a Medina. Ponce não chega à linha de fundo, mas aproxima-se do meia-extremo canhoto e arrisca muitos chutes de longe. Também pela esquerda, o meia central Báez é o apoiador, enquanto Mejía permanece mais restrito à proteção da linha defensiva.

Os zagueiros não são confiáveis, principalmente Reynoso, que entregou o gol da Universidad de Chile. Ele gosta de dar arrancadas à moda Lúcio, mas sem a mesma eficiência, obrigando Mejía a recuar na cobertura, o que abre espaços no meio-campo.

Universidad de Chile

Os chilenos jogam no 4-5-1 em duas linhas com um ponta-de-lança à frente (ou 4-4-1-1). Este sistema, e a própria formação básica, permanecem desde o início da temporada passada, quando La U estagiou em campanhas nas copas Libertadores e Sul-Americana. O grupo agora tem experiência em competições continentais, e está muito entrosado.

A estratégia é defensiva, mas sem abdicar do contra-ataque. As duas linhas compactam-se com laterais de pouco apoio, e meias centrais muito marcadores - Seymour e Iturra. O uruguaio Victorino comanda com maestria a linha defensiva, dando sequência à grande fase que o levou até a Copa do Mundo 2010.

Com a bola, La U procura o camisa 10 Montillo. O ponta-de-lança argentino atua de acordo com a característica do futebol em seu país natal: movimenta-se de lado a outro, apresentando-se ao jogo curto, às tabelas, procurando manter a posse de bola em triangulações com os companheiros até encontrar espaços para acionar o centroavante Olivera.

Olivera é alto, e além da bola aérea - nos cruzamentos e bolas paradas - participa do jogo recuando para reunir-se às tabelas curtas coordenadas por Montillo. A equipe também busca, quando Montillo não encontra espaços, a bola longa para o centroavante.

Pelos lados, os meias-extremos participam de duas formas: na direita Contrera faz a linha de fundo, enquanto na esquerda Puch prefere a diagonal para o centro, abrindo espaço aos raros apoios do lateral Rojas. A equipe ainda se ressente da saída de Álvaro Fernandez, uruguaio que não renovou contrato e foi para o futebol norte-americano.

Vale destacar ainda, para fechar: La U conta hoje com o melhor goleiro em atividade nas Américas. Miguel Pinto é um monstro. Joga demais.

Inter tem boa perspectiva pelos lados contra o São Paulo

27 de julho de 2010 11

Quem acompanha o blog Preleção com maior frequência sabe que não gosto de fazer projeções. São vários os empecilhos: treinos fechados, escalações sigilosas, estratégias diferentes. Qualquer surpresa no time, na estrutura tática ou na proposta de jogo lançam por terra a projeção. Melhor sempre é analisar o que aconteceu, buscar explicações, apresentar uma interpretação das estruturas táticas e estratégias. Mas a circunstância - uma semifinal de Copa Libertadores - pede uma projeção para Inter x São Paulo, mesmo sob risco de diferenças entre o debate de hoje, e a prática de amanhã.

Mesmo sem Tinga, Celso Roth deve manter o 4-5-1 com dois volantes e três meias ofensivos (ou 4-2-3-1). Para substituir o armador central, candidatam-se Giuliano e Andrezinho, jogadores de características diferentes - o primeiro mais ágil e dinâmico, o segundo mais cerebral e organizador. Saibam mais sobre este sistema clicando aqui.

A possibilidade de centralizar D'Alessandro, com Rafael Sobis entrando no lado direito, parece remota porque o próprio Roth não gosta de ver o argentino refém de volantes. Outra hipótese de menor chance é o retorno ao sistema com três volantes e dois meias (o 4-3-2-1), entrando Wilson Matias - estrutura utilizada pelo treinador colorado nos primeiros treinos táticos da intertemporada - leiam aqui.

O São Paulo tem duas variações possíveis, sem que seja necessário modificar a escalação. A polivalência de Richarlyson permite que ele seja zagueiro pela esquerda, no 3-5-2, ou volante no 4-4-2 - situação que empurraria Hernanes e Marlos para uma faixa mais ofensiva da intermediária do Inter. Pelo histórico recente do clube, apostar no 3-5-2 não é nenhum sacrilégio. Saibam mais sobre o 3-5-2 do São Paulo clicando aqui.

Neste cenário, confirmando-se o 3-5-2 são-paulino, a melhor alternativa para o Inter é o jogo incisivo pelos lados do campo. Os problemas de marcação do sistema com três zagueiros tornam-se ainda mais evidentes quando ele se depara com três atacantes, ou com um atacante e dois meias abertos pelos lados - caso do Inter.

Recuperando a teoria: o 3-5-2 brasileiro utiliza a marcação individual por função. Zagueiro persegue atacante, volante encaixa com meia, meia vigia volante, ala bate com lateral, atacante pressiona zagueiro. Ao invés das zonas de marcação dos sistemas com linha de quatro defensores, os treinadores brasileiros que adotam o 3-5-2 preferem ver seus atletas marcando individualmente os adversários.

Este problema conceitual do 3-5-2 torna-o vulnerável ao 4-2-3-1. Isso porque indefine-se a marcação do meia-extremo. Se Jean e Júnior César precisam "bater lá em cima" com Nei e Kleber, basta os laterais do Inter manterem ambos ocupados, que D'Alessandro e Taison terão muito espaço para desenvolver velocidade às costas dos mesmos. Cria-se um dilema para o zagueiro: ou ele deixa o seu posto original e aproxima a marcação do meia-extremo, o que abre espaço na área e elimina a sobra; ou ele mantém o posicionamento inicial, espera a chegada do meia-extremo, mas permite que ele calcule a melhor jogada com tempo de sobra.

Esta vantagem do 4-2-3-1 sobre o 3-5-2 já se fez clara na vitória do Inter sobre o Flamengo, domingo - leiam aqui. Taison atuou entre as costas de Léo Moura e o zagueiro Jean. Antes que o rubro-negro descobrisse quem deveria marcá-lo, ou de que forma ele deveria ser marcado, Taison já havia feito um gol, e seguiu levando vantagem até o final da partida - leiam aqui.

Possibilidade tática para a primeira Seleção de Mano

26 de julho de 2010 24

Hoje o técnico Mano Menezes convocou os jogadores que vão defender a Seleção Brasileira em amistoso contra os Estados Unidos. Na entrevista coletiva que sucedeu o anúnico, o treinador do Brasil confirmou sua predileção pelo 4-2-3-1, conforme já havíamos debatido aqui no blog Preleção.

Com base nas duas informações - a lista de convocados, e o sistema tático - é possível projetar, ainda que correndo o risco de errar, o time-base da partida de estreia de Mano Menezes. Nesta especulação, acrescento ainda conceitos bastante identificáveis no trabalho dele por Grêmio e Corinthians.

Mano Menezes prefere o 4-2-3-1; neste sistema, combina um volante marcador e um apoiador na primeira linha do meio-campo (Sandro Goiano e Lucas no Grêmio, Cristian e Elias no Corinthians); na função central da segunda linha de meio-campo, gosta de um camisa 10 clássico, distribuidor de jogo (Tcheco e Douglas, por exemplo); e pelos lados, como meias-extremos, utiliza jogadores velozes, ofensivos, e com boa capacidade de conclusão na aproximação com o atacante (Dentinho e Jorge Henrique são os principais exemplos, mas no Grêmio ele fez isso também com Carlos Eduardo, Hugo e Diego Souza, entre outros).

Entre todos os listados, o primeiro volante mais típico é Sandro, do Inter. Se ele não puder jogar, caso o Inter chegue à final da Copa Libertadores, Lucas pode ser utilizado na função - pois no Liverpool cumpre função mais defensiva do que fazia no Grêmio. Ao lado de Sandro (ou Lucas) sobram volantes-apoiadores: Ramires, Hernanes, Jucilei, e o próprio Lucas, voltando às origens. Pela experiência em Copa do Mundo, Ramires deve largar na frente.

Na segunda linha, pelo histórico de Mano Menezes, o mais lógico é apostar na camisa 10 para Paulo Henrique Ganso, como um articulador clássico, organizador de jogadas. Pelo Lyon, já vi Ederson cumprir esta função, embora ele também atue pelos lados do campo. Por isso, no diagrama tático que ilustra o post, arrisquei esta disputa - embora Ederson possa atuar em qualquer das três posições ofensivas da segunda linha.

Pelos lados, velocistas com capacidade de conclusão: Robinho e Carlos Eduardo, ou Robinho e Neymar, ou Robinho e Ederson. Sempre com Robinho pelo histórico na Seleção, papel importante em processos de renovação. Seria interessante iniciar com Carlos Eduardo pelos "pés invertidos" - destro na esquerda, canhoto na direita - buscando diagonais incisivas na direção da área (a Holanda fez isto na Copa, Celso Roth reproduz a mesma ideia no Inter, e pipocam muitos exemplos mais no futebol mundial). Alexandre Pato na frente também me parece bastante plausível.

O mais difícil de se projetar é a linha defensiva. Daniel Alves na direita, quem sabe André Santos na esquerda. Thiago Silva e David Luiz formando a dupla de zaga? E Victor no gol. São estas as minhas hipóteses. Confiram agora a lista de convocados:

Goleiros:
Victor (Grêmio)
Renan (Avaí)
Jefferson (Botafogo)

Zagueiros:
David Luiz (Benfica)
Henrique (Racing Santander)
Réver (Atlético-MG)
Thiago Silva (Milan)

Laterais:
André Santos (Fenerbahçe)
Marcelo (Real Madrid)
Rafael (Manchester United)
Daniel Alves (Barcelona)

Meio-campistas:
Hernanes (São Paulo)
Jucilei (Corinthians)
Lucas (Liverpool)
Ganso (Santos)
Sandro (Inter)
Ramires (Benfica)
Carlos Eduardo (Hoffenheim)
Ederson (Lyon)

Atacantes:
Alexandre Pato (Milan)
André (Santos)
Diego Tardelli (Atlético-MG)
Neymar (Santos)
Robinho (Santos)

O 3-5-2 híbrido do Flamengo

25 de julho de 2010 9

Acompanhei hoje a vitória do Inter por 1 a 0 sobre o Flamengo, no Estádio Beira-Rio. E achei curiosa a movimentação defensiva dos cariocas, o que motiva o debate sobre o rubro-negro no blog Preleção.

O Flamengo do técnico Rogério Lourenço apresentou um 3-5-2 híbrido. Na prática, Rômulo atuou como um zagueiro centralizado, entre Jean e Ronaldo Angelim, caracterizando o sistema com três zagueiros. No meio-campo, dois volantes alinhados (Willians e Correa), e Petkovic centralizado na ponta-de-lança. Completaram o time os atacantes Vinícius Pacheco e Diego Maurício abertos pelos lados.

Com a bola Rômulo avançava seu posicionamento, dando margem à percepção de uma variação tática para o 4-4-2 com meio-campo em losango, tendo ele no primeiro vértice do setor. Durante todo o primeiro tempo ele fez este balanço, recuando e avançando, muito atento à movimentação do único atacante fixo colorado - Everton.

A presença de Rômulo no trio defensivo espetou Juan e Léo Moura nas alas do Flamengo, posicionando ambos bem próximos dos pouco apoiadores laterais colorados Daniel e Juan. Essa estratégia, entretanto, voltou-se contra o próprio time de Lourenço.

Quando Rômulo recuava para marcar Everton, e os alas flamenguistas adiantavam-se para bater no alto com os laterais colorados, abria-se muito espaço pelos lados. Nesta faixa entre o ala e o zagueiro Taison atuou sem ser incomodado. O treinador do Flamengo, sem alterar a estrutura, tentou anestesiar a circulação de Taison invertendo os volantes - Correa, mais combativo, passou para o lado direito, e Willians foi para a esquerda.

Como meia-extremo pela esquerda, no 4-5-1 (ou 4-2-3-1) colorado, Taison jogou das costas de Léo Moura até o combate de Jean, entre as intermediárias. Espaço suficiente para desenvolver velocidade, observar o melhor caminho a seguir, analisar possibilidades, e ter vitória pessoal. Assim ele marcou o gol e criou as melhores chances do Inter na vitória de 1 a 0.

No segundo tempo, Lourenço corrigiu o problema mais comum dos 3-5-2's à brasileira (indefinição da marcação pelos lados). Rômulo deu lugar ao meia Marquinhos, e o 4-4-2 se configurou.

Mano tem estilo europeu no planejamento tático

24 de julho de 2010 15

A referência para o planejamento tático de Mano Menezes na Seleção Brasileira é, obviamente, seu histórico no Grêmio e no Corinthians. Em ambos, ele demonstrou receber influência das tendências europeias, colocando em prática sistemas pouco usuais no Brasil. E sempre com cinco homens no meio-campo.

O sistema preferencial de Mano Menezes parece ser o 4-5-1 com dois volantes e três meias ofensivos (ou 4-2-3-1), tendo uma pequena variação que apresenta o segundo modelo - o 4-5-1 com duas linhas de quatro jogadores e um volante entre elas (ou 4-1-4-1). Isso não quer dizer que ele nunca tenha se utilizado de outros sistemas, ou que na Seleção uma terceira possibilidade seja inviável.

O 4-2-3-1 de Mano Menezes fez sucesso no Grêmio. Uma linha de quatro defensores, sucedida por dois volantes - um mais combativo, o outro apoiador com a bola. À frente desta dupla, um articulador que comanda a velocidade do jogo, distribuindo a bola com passes curtos ou lançamentos. Pelos lados, dois meias incisivos, ofensivos, e com boa capacidade de conclusão. Na área, um centroavante de referência.

No Grêmio, a dupla de volantes teve Gavillán ou Sandro Goiano no combate, e Lucas no apoio; Tcheco foi o organizador central, e nas extremidades ofensivas da segunda linha de meio-campo passaram Léo Lima, Hugo, Diego Souza e Carlos Eduardo.

No Corinthians, o comportamento dos wingers fez este 4-2-3-1 até mesmo se transformar em 4-3-3. Foi desta forma que a equipe conquistou a Copa do Brasil. Mano adiantou o posicionamento dos meias-extremos (Dentinho e Jorge Henrique). Orientação que, combinada à característica dos próprios jogadores - atacantes natos - colocou ambos mais perto de Ronaldo, das jogadas de área, e dos gols. Um 4-3-3, para mim, sem dúvida.

O 4-1-4-1 também acontece, como variação do preferencial 4-2-3-1, e foi registrado tanto no Grêmio, como em jogos do treinador pelo Corinthians. A diferença, na prática, consiste na alteração da base do triângulo central de meio-campistas.

Enquanto no 4-2-3-1 são dois volantes e um meia (triângulo de base baixa), no 4-1-4-1 adianta-se um dos volantes, transformando-o no segundo meia (triângulo de base alta). Todas as demais posições da equipe permanecem inalteradas.

Há no blog Preleção uma foto produzida pela equipe de trabalho de Mano Menezes configurando o 4-1-4-1 em um Gre-Nal no Estádio Olímpico - vejam aqui. Mas a formação mais conhecida neste modelo aconteceu quando o treinador corintiano adiantava Elias para a organização, ao lado de Douglas, deixando Cristian como o volante de sobra entre as linhas da equipe - leiam aqui, em post de junho de 2009.

Nota-se, neste levantamento, alguns conceitos importantes: Mano Menezes gosta de jogar com organizadores centrais, articuladores cerebrais, os camisas 10's à moda antiga (Douglas, Tcheco, Danilo), lentos sem a bola, mas responsáveis pela distribuição de jogo; Mano também dá preferência a meias-extremos que, além de velozes, sejam bons na conclusão a gol (Dentinho, Hugo, Diego Souza, Carlos Eduardo), e que saibam ainda contribuir com a equipe dedicando-se à marcação dos laterais adversários; usa ainda em suas equipes um volante apoiador, que passa da linha da bola em velocidade (Elias e Lucas); e tem nas duas formações possibilidade de variação para o 4-3-3.

Roth adianta Tinga e não muda estrutura tática

22 de julho de 2010 31

Ao contrário do que se previa antes da partida contra o Atlético-MG, o técnico Celso Roth não alterou a estrutura tática com a qual o Inter havia vencido as duas primeiras partidas pós-Copa. Mesmo com o ingresso de Tinga no time titular - e dos treinos dele como apoiador em um 4-5-1 com três volantes (ou 4-3-2-1), o jogador substituiu Giuliano sem prejuízo à formação dos bons resultados recentes.

Com Tinga, o Inter venceu o Atlético-MG utilizando-se do 4-5-1 com dois volantes e três meias ofensivos (ou 4-2-3-1). De camisa 11, o voluntarioso predador colorado ocupou a faixa central da segunda linha do meio-campo, tendo nas meias-extremas os jogadores de pés invertidos - canhoto D'Alessandro na direita, destro Taison na esquerda. Sandro e Guiñazu alinharam-se na primeira função.

A presença de Tinga privilegia a estratégia de posse de bola e trocas de passes com aproximações elaborada por Celso Roth para o Inter. Participativo e qualificado na execução dos passes curtos, Tinga transitou de lado a outro, sendo responsável pelo controle da posse a partir das viradas de pé em pé. Tinga apareceu na esquerda, quando triangulou com Kleber e Taison; na direita, trocando passes com D'Alessandro e Nei; e pelo centro, com Alecsandro, Guiñazu e Sandro.

Roth encaixou a característica do atleta à estratégia que aplica ao seu 4-5-1. Aliás, este é o principal mérito que vejo no treinador colorado: reconhecer as virtudes do elenco e buscar um sistema tático e uma estratégia adequados a elas. De nada adiantaria Roth impor um desenho tático que não aproveitasse o que os jogadores têm a oferecer - como tentou fazer Fossati com os três zagueiros e seis meio-campistas de sucesso da LDU. Ele chegou ao Beira-Rio e constatou: há meio-campistas de bom nível sobrando. O que fazer? Abrir espaço para o maior número deles, elaborando uma estratégia que valorize a posse de bola, o passe curto e preciso, e a movimentação constante de todas as peças. O Inter faz isso há três jogos. Méritos totais de Celso Roth.

Ontem também caiu um mito. Sobre a suposta irresponsabilidade tática de Guiñazu. Cholo calou os críticos atuando como volante pela esquerda, ao lado de Sandro, na primeira linha do 4-5-1. Sem um "volante da sobra", ou um zagueiro da sobra protegendo, Guiñazu foi obediente ao posicionamento inicial exigido por Roth, combatendo à frente da linha defensiva, fazendo a cobertura de Kleber, e ainda apresentando-se ao apoio - sempre na sua área de atuação, sem desguarnecer a equipe. Sandro, para compensar, permaneceu mais fixo.

Outros jogadores também demonstraram abnegação tática sem a bola. Taison e D'Alessandro foram verdadeiros meias-extremos, marcando pelos lados o avanço dos laterais adversários. O argentino, camisa 10, foi visto afastando bola na área colorada no segundo tempo. Empenho que não compometeu a transição ofensiva do Inter, quando todas as linhas avançavam em busca da ocupação de espaços no campo adversário.

Quem melhor explica a estratégia de bola no chão, passes curtos, linhas adiantadas e movimentações constantes dos meias é o próprio Inter. No primeiro gol, Tinga toca para Taison, que lança Alecsandro; no segundo, Sandro aciona Guiñazu, que encontra Alecsandro. Dois gols, quatro meio-campistas tocando na bola, na intermediária ofensiva.

Com Tinga e Guiñazu, Roth retoma o 4-3-2-1

20 de julho de 2010 28

No início da intertemporada colorada, o técnico Celso Roth sistematizou o Inter no 4-5-1 com três volantes e dois meias ofensivos (ou 4-3-2-1) - leiam aqui. Mas a janela de transferências demorou para abrir, Guiñazu sofreu uma lesão muscular, e ele alterou a estrutura tática para o 4-5-1 com dois volantes e três meias ofensivos (ou 4-2-3-1) - leiam aqui, com o qual venceu Guarani e Ceará.

Contra o Atlético-MG Guiñazu volta, e Tinga está liberado para estrear. Indício de retorno ao 4-3-2-1, apesar do bom desempenho da linha de meias ofensivos nos dois jogos pelo Brasileirão. O raciocínio é simples: desde o primeiro dia da intertemporada, Roth planejou a equipe contando com Tinga e Rafael Sobis. Foi daí que nasceu este 4-5-1, e agora ele enfim pode utilizá-lo, tendo Taison "guardando lugar" para Sobis na extrema-direita.

Com a bola, o Inter ampara sua movimentação em triangulações pelos lados do campo. Formam-se dois grupos. Na direita, o lateral Nei, o apoiador Tinga, e o meia-extremo Taison; na esquerda, o lateral Kleber, o apoiador Guiñazu, e o meia-extremo D'Alessandro (com a ressalva de que Taison e D'Ale podem inverter os lados).

As triangulações oferecem diversas movimentações combinadas, todas treinadas à exaustão por Roth. A ideia é manter o trio sempre próximo, para jogar com bola no chão, trocando passes e buscando espaços. Do outro lado, o trio que não tem a bola também cumpre atribuições: o lateral se alinha aos zagueiros para a basculação defensiva, enquanto o apoiador e o meia-extremo entram na área para auxiliar Alecsandro na conclusão. E se a triangulação de um setor não dá resultado, Roth pede que o jogo seja invertido, para que o outro lado faça a tentativa, e seja mantida a posse de bola.

Sem a bola, a marcação se dá por zona, com linhas adiantadas, em pressão alta ou meia-pressão. Sandro praticamente não abandona o posicionamento inicial à frente da linha defensiva. Na prática, em caso de contra-ataque do adversário, a transição defensiva do Inter precisa ter ao menos quatro jogadores posicionados (os dois zagueiros, Sandro e o lateral do lado oposto ao apoio).

Roth já falou sobre isso: a opção por este 4-5-1 com três volantes (ou 4-3-2-1) se dá para oferecer ao time o apoio de Guiñazu e Tinga com a segurança de Sandro. Para o treinador colorado, qualquer outra configuração que conte com Guiñazu e Tinga (jogadores de muita movimentação) sem a presença de um primeiro volante de posicionamento rígido pode desguarnecer a equipe. E ele não prescinde da qualidade desta dupla de volantes de exceção.

P.S: na minha primeira análise sobre o 4-5-1 com três volantes utilizado por Roth, eu fiz uma analogia ao Christmas Tree de Carlo Ancelotti, traduzido por "árvore de Natal". Mas cometi um erro. Apesar de também se desdobrar em 4-3-2-1, o Christmas Tree de Ancelotti no Milan tinha dois meias ofensivos centralizados à frente do trio de volantes, e não abertos pelos lados, como faz Roth.

O primeiro Palmeiras da nova Era Felipão

19 de julho de 2010 10

Acompanhei os dois últimos jogos do Palmeiras no Brasileirão, após o final do recesso destinado à Copa do Mundo 2010: vitória sobre o Santos no Pacaembu, sob comando de Murtosa (mas com Felipão passando instruções das cabines); e derrota fora de casa para o Avaí, tendo Felipão instalado no banco de reservas. E a equipe paulista apresentou duas formações diferentes.

No clássico da semana passada, o Palmeiras jogou no 4-4-2 com meio-campo em losango. O setor teve Edinho como volante central, à frente da linha defensiva de quatro jogadores; Márcio Araújo (dir) e Marcos Assunção (esq) na segunda linha, cobrindo o apoio dos laterais Vitor e Gabriel Silva (respectivamente); Lincoln na ponta-de-lança, fazendo a ligação com o ataque; Ewerthon de segundo atacante, e Kléber na referência:

Contra o Avaí, entretanto, a equipe mudou (ver diagrama tático que ilustra a abertura do post). Talvez pela ausência do zagueiro Danilo, suspenso, Felipão tenha optado por uma formação diferente. Ao invés do 4-4-2 com meio-campo em losango, o Palmeiras iniciou a partida no 4-5-1 com dois volantes e três meias ofensivos (ou 4-2-3-1).

Edinho passou para a quarta zaga, sem um substituto na primeira função do meio-campo. Felipão abdicou da função, alinhando Pierre e Marcos Assunção na proteção à linha defensiva. Mais à frente, três meias ofensivos: Márcio Araújo aberto na direita, Lincoln centralizado, e Ewerthon aberto na esquerda. Kléber foi o centroavante de referência.

Com a bola, o sistema se assemelha ao adotado por Dunga na Seleção Brasileira. Ewerthon foi o meia-extremo agudo, responsável pelas diagonais na direção de Kléber. Já Márcio Araújo jogou mais preocupado em ocupar a faixa direita defensiva, entre as intermediárias, apoiando pouco. E Lincoln atuou extremamente próximo a Kléber, passando da linha da bola para receber, protegido pelos dois volantes.

Em apenas dois jogos, e sem acompanhar os treinos, é difícil definir qual sistema será utilizado, e principalmente determinar o melhor entre os dois. A análise presta-se a abrir o debate sobre os conceitos táticos que Felipão apresenta em seu retorno ao Brasil.