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A volta do nosso tiqui-taca

11 de agosto de 2010 12

O jornal espanhol As publicou ontem um artigo em seu site (leiam aqui) atribuindo as reconstruções das seleções brasileira e italiana à influência espanhola. O texto foi ao ar antes da partida Estados Unidos x Brasil. Segundo a contextualização do As, o modelo de jogo obstinado em manter a posse de bola no campo ofensivo com aproximações e triangulações curtas – o “tiqui-taca” da Espanha – seria copiado por Mano Menezes no Brasil, e por Prandelli na Itália.

A analogia do As é oportuna, e mais uma vez demonstra como a imprensa esportiva europeia está familiarizada com o debate teórico de alto nível em suas matérias. Mas, sob a perspectiva espanhola, talvez tenha se ufanado em demasia, ignorando as premissas clássicas do futebol brasileiro, reconhecidas na vitória da Seleção Brasileira de Mano Menezes sobre os Estados Unidos, por 2 a 0.

O Brasil não está copiando a Espanha. Na verdade, o sucesso do tiqui-taca espanhol pode ser considerado uma inspiração para que o Brasil recupere as suas próprias características. O “nosso tiqui-taca”, sem rótulos. Aplicando à valorização da posse de bola e às aproximações, típicas da Espanha, o tempero do improviso técnico natural dos jogadores virtuosos que costumam surgir em nossos clubes.

É certo que o 4-5-1 de Mano Menezes (ou 4-2-3-1) é uma importação europeia. Mas não necessariamente da seleção da Espanha. O treinador do Brasil se utiliza deste modelo desde 2007, no Grêmio. Dunga, seu antecessor, também atuava desta forma, embora sob outra estratégia. Nosso sistema tático também não é uma cópia da Fúria, mas sim uma adequação à tendência mundial. A evolução tática aponta para o 4-2-3-1 como o “modelo do momento”.

A este 4-2-3-1, Mano Menezes aplica características identificáveis no recente futebol espanhol à sua estratégia. As principais estão ilustradas no diagrama tático que ilustra o post, simulando uma jogada pelo lado esquerdo: controle da posse de bola no campo adversário, e aproximações. Somadas (posse ofensiva + aproximações) a Seleção Brasileira dominou a partida, e criou diversas chances.

A sincronia de movimentos é interessante. Os meias da segunda linha não assumem posicionamentos estáticos, como fazem de maneira equivocada alguns treinadores brasileiros em seus clubes, na tentativa de importar o 4-2-3-1. Quando André Santos apoiava pela esquerda, auxiliando Neymar, não apenas Paulo Henrique aproximava-se, mas também Robinho saía da direita para centralizar-se. Ou seja, uma triangulação (André Santos, Neymar e Paulo Henrique) com a aproximação de Robinho, mais o posicionamento de Ramires para a segunda bola, e a movimentação de Pato na referência.

Estas “pequenas sociedades”, conceito teórico democratizado por Paulo Autuori - que trouxe da Espanha esta explicação – proporcionam várias opções de passe: a equipe pode tanto dar sequência às infiltrações curtas na entrada da área, como aprofundar o jogo na linha de fundo e buscar o cruzamento, ou fazer a transição de pé em pé para o outro setor, ou até mesmo fazer a virada longa – porque a aproximação em bloco de um lado do campo leva a marcação e abre campo para o lateral oposto (no caso do diagrama, Daniel Alves) receber a inversão direta. Repertório vasto, como faz a Espanha em seu “tiqui-taca”.

Esta inspiração, entretanto, para por aí. O Brasil é Brasil, e não Espanha, quando joga com a bola no pé. Pois, além dos passes curtos, das aproximações, da movimentação de vários jogadores oferecendo-se como opções para o passe, há também o improviso e o drible, próprios do futebol brasileiro. Reunindo na mesma equipe os dois conceitos teóricos que mais me agradam. São eles:

- Controle ofensivo da posse de bola: trocar passes com jogadores próximos, pelo chão, mantendo a posse no campo adversário. Esta é a melhor maneira de marcar a outra equipe pois, com a bola, é impossível levar gol. E como lembrava Tite quando treinava o Inter, ano passado – esta posse não precisa ser objetiva constantemente. A equipe pode trocar passes e se movimentar por vários minutos até que o espaço naturalmente se abra, desorganizando o posicionamento da defesa, sem apressar a conclusão da jogada.

- Improviso para desconstruir a marcação: essa é velha – quando há encaixe de marcação, vence a técnica do jogador. Se a troca de passes “tiqui-taqueira” não desorganiza a defesa, há outro recurso. O drible. Partir para cima do marcador, eliminando-o da disputa, e desencadeando um efeito dominó de coberturas na defesa, o que automaticamente abre espaços para os demais companheiros.

Inspiração europeia, sim. Mas sem cópia. O futebol brasileiro sempre foi referência neste modelo de jogo. A amostragem inicial é boa, e Mano Menezes tem boas chances e obter sucesso comandando a Seleção Brasileira se conseguir manter estes conceitos aplicados ao modelo de jogo escolhido.

Comentários (12)

  • RatoFX diz: 11 de agosto de 2010

    Tens algum dado de posse de bola do jogo de ontem?
    Se fosse um jogo do Barcelona já teria aparecido a estatística… hehehe

  • Roger diz: 11 de agosto de 2010

    Pra adicionar o que tu diz (e eu concordo) acho que o Brasil sempre foi muito mais objetivo e pra frente do que a Espanha foi nessa copa. Chegava às vezes a dar nos nervos tanto toque e ninguém driblando ou chutando no gol. Nesse sentido, e isso é uma diferença gigante, o futebol espanhol é bem diferente do brasileiro.

    Ah, e boa percepção, e tem muita gente se enganando, de que os esquemas de Dunga e Mano são diferentes. O Mano apenas tem jogadores mais ofensivos fazendo o mesmo 451.

  • Bryan diz: 11 de agosto de 2010

    Mais um belo texto Cecconi, eu acho que o fato deles falarem que estamos copiando a EXCEPCIONAL equipe da ESPANHA é só pelo fato de nos termos jogado incriveis QUATRO ANOS de futebol de contra ataque e os UNICOS times de futebol a tentaram jogar contra a maré nesse tempo foram a ESPANHA e o BARÇA( o time dos santos só voltou a jogar bonito nos ultimos 6 meses e só por causa do talento de Ganso e Neymar e a coragem de Dorival) , então fica facil entender porque eles falam em “cópia’.

  • Bryan diz: 11 de agosto de 2010

    e mais uma coisa , ficou provado que esse esquema 4-2-3-1 variando para 4-2-1-3 é o ideal para para as triangulaçoes de jogadas dessa equipe , Neymar e Ganso jogaram muito e pato é o camisa nove IDEAL para substituir no futuro a altura o Ronaldo e Romario, esses 3 moleques tem um potencial ILIMITADO, se conseguirem chegar ao nivel que todos esperam que cheguem vai ser quase impossivel para-los daqui a alguns anos. Mesmo Lucio e Juan AINDA SEREM os nossos melhores zagueiros , para uma seleção renovada os mais que promissores David luis e o monstro Thiago silva vao suprir perfeitamente a saida dos 2 .

  • Michel Costa diz: 11 de agosto de 2010

    Análise perfeita. Com todo respeito aos campeões do mundo, o Brasil tem seu próprio estilo e só precisava resgatá-lo. Além disso, como você bem explicou no post, o 4-2-3-1 é o sistema do momento, é o que Mano mais gosta e também o que era usado pelo Brasil de Dunga. A diferença – para melhor – é o estilo leve e arejado desta nova Seleção.
    Por se tratar de um simples amistoso, não há razão para euforia, mas é impossível não ver a estreia de ontem com otimismo.
    Abraço.

  • PJ diz: 11 de agosto de 2010

    Pra mim pareceu mais um 4-3-3 ou 4-2-1-3.

  • Gabriel diz: 11 de agosto de 2010

    Tu não acha que seria possível jogar exatamente no mesmo esquema, porém com os volantes em linha, para atacarem em bloco e manterem ainda mais a posse de bola (assim como faz o Manchester com o Anderson – q será titular desse time, provavelmente no lugar do Ramirez – e o Fletcher ou Carrick? Com isso o Lucas teria uma participação mais efetiva tbm ofensivamente, o q seria bom pq eh um jogador de muita qualidade e muito fôlego, q nem o Tinga, porém com uma noção de marcação bem mehor, pois aprendeu isso com os modelos táticos rígidos dos ingleses.
    Pra mim eh possível sim, só bastaria uma recomposição bem rápida quando o time perder a bola (o q aconteceria muito poucas vezes).

  • Preleção » Arquivo » Roth faz a importação correta do 4-2-3-1 europeu diz: 12 de agosto de 2010

    [...] Como é bonito quando um técnico elabora o planejamento tático a partir das características do elenco. É o que faz Celso Roth no Inter, com o 4-5-1 (ou 4-2-3-1) que oferece aos jogadores as melhores alternativas para aplicar suas virtudes. É um dos raros exemplos de correta importação deste sistema europeu no futebol brasileiro, assim como faz Mano Menezes, agora na Seleção Brasileira – leiam aqui. [...]

  • Antonio diz: 12 de agosto de 2010

    “Como é bonito quando um técnico elabora o planejamento tático a partir das características do elenco.” Até que em fim um técnico resolve colocar Alexandre Pato no lugar onde é mais perigoso: perto da grande área adversária. Cansei de assistir aos jogos do Milan e vê-lo jogado na ponta direita, escorregando e tomando pancadas. Pato tem sua maior virtude na finalização acertada, dificilmente erra suas conclusões. Méritos para o Mano.

  • Júnior Albuquerque diz: 15 de agosto de 2010

    O Mano usa o 4-5-1 desde 2006 no Grêmio, e não 2007 (não que faça muita diferença essa informarmação mas…)
    O time base, ou o que eu lembro dele era esse:
    Campenato Gaúcho – Marcelo Grohe, Patrício, Pereira, Evaldo e Escalona Jeovânio, Lucas, Marcelo Costa, Wellington e Ramón; Ricardinho.

    Depois ficou assim:
    Marcelo Grohe; Patrício, Willian, Maidana/Evaldo e Escalona/Bruno Teles; Jeovânio, Lucas, Hugo, Tcheco e Ramón/Marcelo Costa, Rômulo.

  • Felipe MJ diz: 17 de agosto de 2010

    Cecconi, apesar de nunca ter postado sempre acompanho seu blog em busca de novos conhecimentos táticos para aplicá-los em um jogo chamado FOOTBALL MANAGER 2010 (não sei se conheces). No entanto venho postar pela primeira vez para solicitar sua ajuda, se possível, no esclarecimento de algumas questões que eu e muitos outros players que buscam recriar a tática de Mano Menezes no FM 2010 temos dúvida.

    Antes de tudo vou tentar lhe explicar mais ou menos algumas dinâmicas do jogo:

    1- Ao escalar um jogador em determinada faixa do campo, automaticamente o sistema de criação de táticas do FM 2010 lhe dará as opções de PAPÉIS e TAREFAS para a posição onde o jogador foi escalado.
    ((( Por exemplo: Ao colocar um jogador dentro do gol será possivel escolher entre os PAPÉIS de GUARDA-REDES ou GUARDA-REDES LÍBERO )))
    ((( Outro exemplo: Ao escalar alguém de atacante podemos escolher para esse atancante um dentre os 7 papéis que à ele são atribuidos – Ponta de Lança, Ponta de Lança Fixo, Jogador Alvo, Avançado Completo, Avançado Recuado, Avançado Defensivo ou Camisa 10)))

    2- Para cada PAPEL, há TAREFAS pra serem escolhidas
    ((( Por exemplo: um GUARDA-REDES pode jogar apenas com a TAREFA DEFENDER, já o GUARDA-REDES LÍBERO pode jogar com a TAREFA DEFENDER, APOIAR ou ATACAR )))

    3- Para cada PAPEL há uma explicação sobre o que o jogador com esse PAPEL irá procurar fazer ((( Como exemplo vou falar da explicação que o FM 2010 dá para o atacante com a função de Ponta de Lança Fixo, lá vai: ” O ponta de lança fixo se mantém perto do último defesa à procura de quebrar a linha defensiva e captar bolas vindas do meio campo. Embora o ponta de lança fixo esteja sempre pronto a evitar o seu marcador direto e até mesmo cruzar bolas quando necessário, o seu principal objetivo é tentar colocar bola no fundo da baliza (…) )))

    4- Para cada papel também existe uma lista com os principais atributos que o jogador deve possuir para exercê-lo ((( Como exemplo vou usar novamente o ponta de lança fixo: “Finalização / Finta / Primeiro Toque / Antecipação / Compostura / Sem bola / Aceleração / Agilidade / Equilíbrio / Velocidade )))

    De posse dessas explicações, queria que me ajudasse a esclarecer os PAPÉIS e TAREFAS de Lucas e Ramires nessa formação de Mano Menezes.

    Na primeira linha de meio de campo temos 3 PAPÉIS disponíveis ( MÉDIO DEFENSIVO defender ou apoiar – CONSTRUTOR DE JOGO defender ou apoiar – TRINCO defender )
    Já na linha central temos 5 PAPÉIS ( CONSTRUTOR DE JOGO, MÉDIO CENTRO – MÉDIO RECUPERADOR DE BOLAS – MÉDIO ÁREA-A-ÁREA – CONSTRUTOR DE JOGO AVANÇADO )

    Queria saber se o PAPEL do Lucas é Medio Defensivo com TAREFA DEFENDER conforme venho escalando; e se o Ramires seria um MÉDIO ÁREA-A-ÁREA

  • DAVID FM diz: 17 de agosto de 2010

    Ramires seria um box-to-box ?

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