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Posts de setembro 2010

Fechando a conta

10 de setembro de 2010 0

Pessoal, encerro hoje uma trajetória de seis anos no Grupo RBS, dois e meio deles dedicados ao clicEsportes, e os outros três anos e meio à Zero Hora. Com isso, fecho a conta do meu querido blog Preleção.

Repito diariamente que sou um privilegiado por trabalhar com o que amo, reunindo futebol e jornalismo. Dá prazer em acordar todos os dias para mais uma jornada. E nada em toda minha carreira, iniciada em 1998 quando entrei na faculdade e comecei a estagiar, me deu tanto prazer profissional quanto o blog Preleção. Nada.

Esta é a minha escola de estudos da teoria tática. Debater com leitores, em alto nível, trazendo para mim novos conceitos, perspectivas diferentes, ensinando-me, corrigindo-me, apontando caminhos diferentes, discordando, concordando, agregando. Foi demais compartilhar minhas análises táticas com vocês, e receber de todos mais conhecimento.

Cometerei injustiças, eu sei, mas puxei de memória nomes de alguns amigos que contribuíram para um debate qualificado aqui no Preleção: Wilson Farina, Lucas Trindade, Cristiano Sarmento, Borrach, Ratofx, Filipe Nunes, Robert Sweney (Roberticus), Pedro Lampert, Lucas Gutierrez, Openglx, Augustoyoh, Minwer, Ryazantsev, Pedro Breier, Paulo Gallotti, Júnior Albuquerque. Em nome deles agradeço a todos que estiveram comigo durante estes quase dois anos de blog.

Continuarei intrometendo-me em análises táticas nas ditas "redes sociais", quem ainda não faz parte dos meus contatos, procurem-me que estarei sempre disposto a debater e aprender mais com vocês.

Grande abraço!

PS: Pessoal, nem precisa deixar comentários aqui, pois o blog vai ficar parado e sou eu quem teria de liberar.

Cuca resgata o 4-4-2 em losango no Cruzeiro

09 de setembro de 2010 5

Antes de enfrentar o Inter - ontem, em Uberlândia - Cuca viu seu predileto 3-5-2 ruir com os desfalques na zaga. Sem três zagueiros para escalar, o treinador cruzeirense recorreu a um modelo tático bastante conhecido no histórico recente do clube. E o resgate do sistema utilizado durante praticamente três temporadas por Adilson Batista resultou na vitória de 1 a 0 sobre a equipe colorada.

Contra o Inter, o Cruzeiro se utilizou do 4-4-2 em losango. O desenho do meio-campo pode ser considerado "assimétrico", como já fizeram Tite no Inter e Carlo Ancelotti no Chelsea. Conceito geométrico que se aplica em função do desalinhamento entre os dois apoiadores da segunda linha de meio-campo.

Marquinhos Paraná foi o primeiro vértice do losango, centralizado, na proteção à linha defensiva. Logo à frente vieram os dois apoiadores: Henrique, à direita, mais recuado; e Everton, pela esquerda, mais adiantado. Roger completou o setor como ponta-de-lança, aproximando-se dos atacantes, e com liberdade para se movimentar de lado a outro.

No ataque, não houve centroavante de referência. O argentino Farías jogou com a camisa 9, mas partindo do lado esquerdo. E Thiago Ribeiro fez o mesmo no setor oposto, ambos abrindo espaço para o ingresso de Roger entre eles. Os dois laterais, Jonathan e Diego Renan, obtiveram autorização para o apoio alternado, contando sempre com a cobertura de Marquinhos Paraná, e dos respectivos apoiadores. Uma reunião de posicionamentos, funções e características de jogadores que me agrada muito. Gosto deste 4-4-2 em losango.

Não sei sob qual orientação de Cuca - pode ter sido devido à característica do time escalado, ou então por identificar este setor como o mais frágil do Inter - o Cruzeiro atuou prioritariamente pela esquerda (direita defensiva colorada). Ali se formou uma bela triangulação, efetiva principalmente no primeiro tempo, com Diego Renan, Everton e Farías. Combinação que naturalmente imantou Roger para a faixa central ofensiva, aproximando-se deste trio, e deixou Thiago Ribeiro, Henrique e Jonathan como opções para a inversão de jogo.

Farías jogou sobre Bolívar, e Everton-Diego Renan dobraram sobre Nei. Esta supremacia numérica provocou muitas dificuldades ao Inter, que não teve cobertura suficiente - Wilson Matias ficou entre o combate a Roger e o auxílio ao lado direito de defesa, e Guiñazu preocupava-se com os jogadores do setor oposto. Giuliano foi obrigado a recuar demais para acompanhar o lateral cruzeirense, e com ele todo o Inter veio junto.

Com um posicionamento surpreendentemente defensivo, e com postura passiva, o Inter permitiu ao Cruzeiro atuar em seu campo. Digo surpreendente porque o Inter vinha assumindo o controle da posse de bola, com marcação agressiva no campo adversário, mesmo em partidas fora de casa. São dois os raciocínios possíveis: foi o Cruzeiro quem empurrou o Inter, ou foi o Inter quem atraiu o Cruzeiro para seu campo. De toda forma, independentemente do diagnóstico, o recuo excessivo tirou a velocidade da transição ofensiva, porque o Inter tinha muito campo a percorrer, e pouca gente para receber à frente da linha da bola.

Acredito que o desgaste desta sequência de jogos, posterior a uma exaustiva campanha vitoriosa na Libertadores, tenha contribuído para o comportamento da equipe de Celso Roth neste jogo. Esse aspecto pode ter sido determinante para que o Inter tenha abdicado da marcação agressiva e tenha perdido a velocidade do contra-ataque, sem controlar a posse, como vinha fazendo nos últimos jogos.

Argentina aplica o contra-ataque ao 4-1-4-1

07 de setembro de 2010 4

Depois do insucesso na Copa do Mundo 2010, Maradona deixou o comando técnico da seleção argentina criticado por desguarnecer a defesa. Na África do Sul, ele adotou inicialmente o 4-5-1 com três meias (ou 4-2-3-1 - leiam aqui) e o 4-4-2 também com trio ofensivo (ou 4-1-3-2 - leiam aqui), sempre priorizando a escolha de jogadores com características mais ofensivas. Com Maradona, a Argentina propôs o jogo, buscou a posse de bola, adiantou as linhas, mas também sobrecarregou Mascherano.

Hoje, o interino Sergio Batista fez o planejamento inverso. Distribuiu a equipe no 4-5-1, mas em outra variação. A Argentina goleou a Espanha em amistoso (4 a 1) jogando no desdobramento para o 4-1-4-1, com duas linhas de quatro jogadores, e Mascherano entre elas. Confiram no diagrama tático:

Logo à frente de Mascherano, posicionaram-se Cambiasso e Banega. Dois combatentes centralizados, de movimentação restrita a um curto espaço de campo, e com atribuições principalmente defensivas. Alinharam-se a eles Tevez e Messi, respectivamente à esquerda e à direita, como meias-extremos de "pés invertidos". Higuaín foi o centroavante, de referência.

A estratégia aplicada a este 4-1-4-1 foi o contra-ataque. Mesmo jogando no Monumental de Nuñez, a Argentina ofereceu campo à Espanha, e permitiu aos campeões mundiais ter posse de bola e trocar passes entre as intermediárias. Sem a bola, as linhas argentinas recuavam, marcando por zona com pressão sobre a bola, sem nunca se desorganizar - os jogadores mantiveram-se fiéis aos posicionamentos e às funções.

Recuperada a bola, aparecia a rápida transição ofensiva. Com três jogadores protagonizando estes contra-ataques em velocidade: Messi, Tevez e Higuaín. Os dois primeiros, disparando em diagonais do lado para o meio; e o centroavante recuando para se oferecer às tabelas, e ao mesmo tempo para abrir espaço ao ingresso vertical dos extremos.

Deu tudo certo. A Espanha caiu na armadilha de Batista, posicionando seus jogadores no campo argentino, e vulnerabilizando-se para os contra-ataques. Messi e Tevez conseguiram sincronizar movimentos, com Tevez de "winger armador", recebendo a bola, e Messi de "winger finalizador", recebendo às costas da defesa. Em 13min, a Argentina vencia por 2 a 0 (Messi e Higuaín), depois Tevez marcou o terceiro em erro de Reina, e no 2º tempo Di Maria (entrou no lugar de Tevez) repetiu a mesma jogada, recebendo de Messi entre o zagueiro e o lateral, mas teve o gol anulado por impedimento.

Grande atuação da Argentina, com organização tática, estratégia adequada à partida - pela característica do adversário - e bom desempenho dos jogadores. Jogaço.

*P.S: Nas entrevistas, Batista diz ter jogado no 4-3-3. Uma diferença conceitual para descrever o mesmo modelo de jogo. Ele considera variação tática o avanço de Messi e Tevez, configurando 4-5-1 sem a bola, e 4-3-3 com ela. Para mim, Tevez e Messi tiveram como faixa principal de atuação o meio-campo extremo, pelos lados, e este avanço não configura variação.

Inter no 4-4-2, sem recorrer ao banco de reservas

06 de setembro de 2010 6

No segundo tempo da partida final da Copa Libertadores 2010, no Estádio Beira-Rio, a virada do Inter sobre o Chivas Guadalajara passou pela mudança no sistema tático. Celso Roth não se limitou à simples inversão dos meias-extremos - passando Taison para a direita, e D'Alessandro para a esquerda. O treinador colorado também adiantou o argentino camisa 10, transformando D'Alessandro em um segundo atacante, ao lado de Rafael Sobis - lembrem aqui.

E ontem, na vitória sobre o Grêmio Prudente, Celso Roth repetiu a variação tática para o 4-4-2. Consolidando este sistema como a mais forte alternativa ao preferencial 4-5-1 com três meias ofensivos (ou 4-2-3-1). A única mudança, na comparação com o jogo que valeu o bicampeonato da América, está nos nomes envolvidos.

Roth tentou a simples inversão dos extremos para furar o bloquei do Prudente. Giuliano passou para a esquerda, e Rafael Sobis para a direita. Mas esta mudança no posicionamento dos wingers não deu resultado. A equipe seguiu submissa à marcação adversária.

No segundo tempo, Roth manteve Giuliano na direita, e "espetou" Rafael Sobis à frente. Tinga saiu do meio mais para a esquerda. E configurou-se o 4-4-2. Modelo que pode até mesmo assumir o desenho do 4-4-2 britânico, caso Roth veja a necessidade de abrir seus meias e alinhá-los aos volantes. Ou então apenas reposiciona ambos, aproximando-os mais em um formato mais brasileiro, como me pareceu ontem.

Tudo isso sem recorrer ao banco de reservas. Mais uma vantagem da estratégia aplicada ao 4-2-3-1: adaptar atacantes à função extrema da segunda linha de meio-campo permite a variação tática sem queimar substituições.

Peñarol resgata o toque de bola uruguaio com o 4-2-3-1

03 de setembro de 2010 7

Abro hoje no blog Preleção espaço ao colega Lucas Rizzati, redator do site zerohora.com. Ele assistiu à vitória do Peñarol sobre o Barcelona de Guayaquil (1 a 0, no Equador, pela Copa Sul-Americana), e nos privilegia com uma análise do Peñarol. A boa notícia é o resgate do toque de bola - uma característica do futebol uruguaio - obtido através do 4-2-3-1. Confiram abaixo o texto do Lucas:

"Em um 4-5-1 com dois volantes e três meias (ou 4-2-3-1), o Peñarol adotou uma postura equilibrada, e em nenhum momento se acanhou no campo de defesa. Entre as tantas  qualidades do time, começo pela que mais chamou a atenção: a velocidade na transição da defesa para o ataque.

Marcando em zona e pressionando a bola - não o  jogador - a coesa equipe uruguaia parecia não fazer esforço nenhum para desarmar os equatorianos. Enquanto o 4-3-3 do Barcelona apresentava pouca mobilidade, com trocas de passes laterais, os qualificados volantes Sosa e Arevalo roubavam a bola com perícia, começando o contragolpe (ou o ataque  simplesmente).
 
Com a bola, a estratégia do Peñarol é clara. A equipe prioriza as aproximações, com passe curto e triangulações. A saída predileta é pela direita, nas combinações do meia-extremo Estoyanoff com o lateral Aguirregaray e com o volante Sosa.

Se não houvesse espaço na direita, o plano B era a inversão para a esquerda - sem ligação direta. Palacio, o único atacante, é baixo e de velocidade. Ele abre lateralmente na direção do meia-extremo da esquerda. No espaço deixado por ele, infiltra-se o enganche Pacheco, um condutor de bola que conclui bem a gol.

O Barcelona jogou no 4-3-3 com triângulo de base alta no meio-campo. Mas, com os meias distantes dos atacantes, a equipe se mostrou sem alternativas. Engessada. Para a bola chegar à frente, só com uma condução excessiva dos meias, ou pela ligação direta. Com isso, mesmo fora de casa, quem manteve a posse e propôs o jogo foi o Peñarol. jogo era o pró-ativo e equilibrado Peñarol".

As duas versões do 4-4-2 de Renato no Grêmio

02 de setembro de 2010 13

Assisti ontem à vitória do Grêmio sobre o Guarani, por 1 a 0, no Estádio Olímpico. Renato Portaluppi repetiu o sistema tático 4-4-2, com dois volantes e dois meias-ofensivos, e apresentou um princípio de modelo de jogo. Há um interessante balanço de posicionamentos, que envolve três jogadores, e oferece à equipe equilíbrio na transição ofensiva, ora utilizando-se de Fábio Santos na esquerda, ora chamando Gabriel ao jogo pela direita.

A formação inicial do Grêmio nos dois tempos da partida contra o Guarani teve o seguinte desenho no 4-4-2: Fábio Rochemback de primeiro volante, centralizado e pouco à esquerda; Adilson de segundo volante, mais à direita; Douglas centralizado na articulação ofensiva; Souza aberto pela esquerda; Jonas aberto pela direita, mais adiantado na comparação com Souza, configurando sua função de segundo atacante; e Borges no pivô central.

Esta distribuição de jogadores prioriza a saída pela esquerda, com as combinações de Souza e Fábio Santos. A contrapartida é o ingresso de Jonas na segunda trave, pela direita. Não por acaso, assim saiu o gol da vitória: Fábio Santos na linha de fundo, Jonas de cabeça na segunda trave.

Nos dois tempos, entretanto, Renato inverteu três jogadores: Souza passou para o lado direito (ao final, Leandro cumpriu esta função em seu lugar), enquanto Jonas e Adílson fizeram o movimento contrário, posicionando-se à esquerda na comparação com a formação original:

Desta forma, Gabriel entra no jogo. Fábio Santos fica mais preso à linha defensiva, enquanto Souza chama o lateral-direito ao apoio, apresentando-se às combinações. Jonas, do outro lado, segue ingressando na diagonal da faixa lateral à segunda trave, nas costas da defesa, movimentando-se nos espaços abertos pelo pivô de Borges.

É um balanço ofensivo que combina inversões sincronizadas de posicionamento entre três jogadores (Adilson, Souza e Jonas). É um modelo de jogo. Quem parte da premissa preconceituosa de que Renato "não é treinador" - seria apenas frasista, ou motivador - engana-se. Renato Portaluppi em poucos jogos desenha um modelo de jogo organizado, pensando ao mesmo  tempo na variação de jogadas ofensivas, e no sistema de coberturas durante a transição defensiva (contra-ataque adversário).

O certo, agora, é manter este sistema e esta estratégia. E aprimorá-la, com mais combinações, mais movimentos. Isto depende de repetição, insistência, e obviamente de resultados. Se os jogadores "comprarem a ideia", aplicando-se no cumprimento das funções, o sucesso deste modelo de jogo servirá de argumento para sua adoção definitiva como a tática prioritária de Renato no Grêmio.

Pode-se, concordo, discutir se esta é a formação ideal, se alguns destes jogadores são os mais adequados para o cumprimento de determinadas funções. Isto faz parte do debate, porque envolve as predileções de cada um, seja jornalista ou torcedor. Mas seria injusto criticar Renato por falta de planejamento tático.