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As duas versões do 4-4-2 de Renato no Grêmio

Assisti ontem à vitória do Grêmio sobre o Guarani, por 1 a 0, no Estádio Olímpico. Renato Portaluppi repetiu o sistema tático 4-4-2, com dois volantes e dois meias-ofensivos, e apresentou um princípio de modelo de jogo. Há um interessante balanço de posicionamentos, que envolve três jogadores, e oferece à equipe equilíbrio na transição ofensiva, ora utilizando-se de Fábio Santos na esquerda, ora chamando Gabriel ao jogo pela direita.

A formação inicial do Grêmio nos dois tempos da partida contra o Guarani teve o seguinte desenho no 4-4-2: Fábio Rochemback de primeiro volante, centralizado e pouco à esquerda; Adilson de segundo volante, mais à direita; Douglas centralizado na articulação ofensiva; Souza aberto pela esquerda; Jonas aberto pela direita, mais adiantado na comparação com Souza, configurando sua função de segundo atacante; e Borges no pivô central.

Esta distribuição de jogadores prioriza a saída pela esquerda, com as combinações de Souza e Fábio Santos. A contrapartida é o ingresso de Jonas na segunda trave, pela direita. Não por acaso, assim saiu o gol da vitória: Fábio Santos na linha de fundo, Jonas de cabeça na segunda trave.

Nos dois tempos, entretanto, Renato inverteu três jogadores: Souza passou para o lado direito (ao final, Leandro cumpriu esta função em seu lugar), enquanto Jonas e Adílson fizeram o movimento contrário, posicionando-se à esquerda na comparação com a formação original:

Desta forma, Gabriel entra no jogo. Fábio Santos fica mais preso à linha defensiva, enquanto Souza chama o lateral-direito ao apoio, apresentando-se às combinações. Jonas, do outro lado, segue ingressando na diagonal da faixa lateral à segunda trave, nas costas da defesa, movimentando-se nos espaços abertos pelo pivô de Borges.

É um balanço ofensivo que combina inversões sincronizadas de posicionamento entre três jogadores (Adilson, Souza e Jonas). É um modelo de jogo. Quem parte da premissa preconceituosa de que Renato “não é treinador” - seria apenas frasista, ou motivador - engana-se. Renato Portaluppi em poucos jogos desenha um modelo de jogo organizado, pensando ao mesmo  tempo na variação de jogadas ofensivas, e no sistema de coberturas durante a transição defensiva (contra-ataque adversário).

O certo, agora, é manter este sistema e esta estratégia. E aprimorá-la, com mais combinações, mais movimentos. Isto depende de repetição, insistência, e obviamente de resultados. Se os jogadores “comprarem a ideia”, aplicando-se no cumprimento das funções, o sucesso deste modelo de jogo servirá de argumento para sua adoção definitiva como a tática prioritária de Renato no Grêmio.

Pode-se, concordo, discutir se esta é a formação ideal, se alguns destes jogadores são os mais adequados para o cumprimento de determinadas funções. Isto faz parte do debate, porque envolve as predileções de cada um, seja jornalista ou torcedor. Mas seria injusto criticar Renato por falta de planejamento tático.

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Heat maps como ferramentas de auxílio à análise tática

Assisti ontem a trechos do empate entre Bologna e Inter de Milão - 0 a 0 - no complemento da rodada inaugural do Campeonato Italiano 2010/2011. Uma oportunidade para compartilhar com os leitores do blog Preleção meu interesse pelas ferramentas de auxílio à análise tática. Para mim, a principal é a consulta a heat map’s (”mapas de calor”), oferecidos por alguns sites esportivos.

Pela TV, com a restrição dos planos das imagens, a análise tática é mais difícil do que a realizada presencialmente nos estádios. Por isso, não me constranjo em recorrer - quando necessário - às informações dos heat map’s - mapas de calor que registram os espaços ocupados pelos jogadores enquanto eles tiveram a bola.

Ontem, a Inter de Milão repetiu o 4-5-1 com linha ofensiva de três meias (ou 4-2-3-1) da estreia de Rafa Benítez. Sistema que havia dado lugar ao 4-4-2 com meio-campo em losango na derrota para o Atlético de Madri, pela Supercopa Europeia. Qualquer dúvida sobre a configuração - seria 4-2-3-1 ou ainda o 4-3-3 legado por José Mourinho? - é desfeita com a análise dos heat map’s dos wingers Eto’o e Pandev, conforme reprodução dos mapas disponíveis no site da ESPN - vejam aqui.

Tanto Pandev pela direita, como também Eto’o na faixa esquerda, jogaram abertos, na linha intermediária ofensiva, e pouco ingressaram na área:

Na comparação com a área de atuação de Sneijder, fica evidente o alinhamento dos três meias ofensivos, no 4-2-3-1:

Mas os heat map’s nos permitem avançar nas conclusões, deixando o campo específico do posicionamento inicial e do diagrama tático, para uma análise de desempenho mais abrangente. Se o mapa registra em uma escala do amarelo ao vermelho (da menor para a maior intensidade) as regiões onde os jogadores tiveram posse de bola, o contraste entre as participações de Sneijder, Eto’o e Pandev é enorme.

Enquanto o ponta-de-lança holandês se desdobrou, movimentando-se em grande faixa central de campo, buscando os lados e voltando para receber o primeiro passe, Eto’o e Pandev praticamente não aprofundaram as jogadas, não ingressaram na área, e nem contribuíram com Sneijder na articulação ofensiva. Se uma das principais premissas do 4-2-3-1 é a aproximação dos meias da segunda linha, com rotação de posições, a Inter de Milão com Rafa Benítez facilita a marcação adversária sobrecarregando seu ponta-de-lança, abdicando da movimentação essencial, e tornando-se mais previsível ao adversário.

O heat map, ou qualquer outra ferramenta auxiliar, nunca vai substituir a análise das imagens - seja presencial, ou pela TV. Mas é um bom complemento para a ampliação da percepção do analista tático.

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Atribuir funções ao craque dá resultado

Duas entrevistas recentes oferecem ao blog Preleção bom material para debate sobre teoria tática aplicada à prática. Ignorem, portanto, os nomes envolvidos, porque o post de hoje não se trata de uma comparação. Confrontar jogadores em momentos tão distintos soaria até injusto. Estão em questão os conceitos envolvidos.

Assim que chegou ao Grêmio, Renato Portaluppi falou que Douglas e Souza não precisam marcar - lembrem aqui. A ideia do treinador gremista é desonerar os meias-articuladores da equipe, concedendo liberdade para que mantenham o posicionamento, sem desgaste, servindo de referência aos demais companheiros na transição ofensiva. A premissa é clara: craques precisam de liberdade para criar.

Mesmo com este privilégio, nenhum deles subiu de rendimento. Douglas e Souza seguem contribuindo pouco quando a equipe tem a posse de bola. E, na transição defensiva, abstêm-se do combate, sobrecarregando os volantes e vulnerabilizando a linha defensiva.

Celso Roth, no Inter, alterou o posicionamento de D’Alessandro. O meia argentino deixou de ser um enganche (articulador central) e desempenha agora a tática individual do meia-extremo (ou externo, como ele mesmo denomina) - leiam nesta entrevista. O treinador colorado retirou D’Alessandro da faixa central, onde ele era refém dos volantes, e levou-o a uma faixa mais incisiva do campo - o lado direito, onde pode trazer a bola para a preferencial canhota, e dali concluir ou armar jogadas. A contrapartida é a obrigação de acompanhar o lateral adversário, uma função muito mais complexa do que bloquear volantes centralizados.

D’Alessandro tem mais atribuições: ocupa uma faixa de campo mais extensa; com a bola precisa se movimentar com maior intensidade; e sem a bola precisa marcar um jogador de maior mobilidade. Vai da linha de fundo adversária à própria área, enquanto antes mantinha-se restrito a uma pequena região centralizada.

Resultado: D’Alessandro melhorou. E levou o Inter consigo. A mudança de posicionamento elaborada por Celso Roth elevou ao mesmo tempo os rendimentos do meia argentino e da equipe. D’Alessandro foi decisivo nos jogos pós-Mundial na conquista da Copa Libertadores 2010, e recebe a justa recompensa da convocação à seleção argentina.

A conclusão - julgando possível aplicar estes dois exemplos ao contexto da teoria tática - é lógica: exigir o cumprimento de funções complexas faz bem para os craques. D’Alessandro admite que não gosta de marcar, e que é muito mais difícil ser winger do que enganche. Mas o próprio desafio de se mostrar capaz do cumprimento da nova tática individual o leva a se estacar. Ele foi retirado da confortável missão de apenas jogar com bola no pé, e cercar volantes que pouco se movimentam - região e função defendidas por Renato Portaluppi nos casos de Souza e Douglas.

Jogadores de exceção não deixam de ser jogadores. Contar com eles também não significa ignorar a essência coletiva do futebol. Craques são capazes de desempenhar funções complexas, com a bola ou sem ela. São capazes, e devem cumprir. O conceito liberal “a concorrência leva à excelência”, no futebol, pode ser adaptado facilmente para “a exigência leva à excelência”. Não há mais espaço para exclusivos solistas. Cada um precisa carregar o próprio piano para tocá-lo.

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Com Rafael Sobis, Inter no 4-2-3-1

O técnico Celso Roth cogitou, a partir da saída de Taison, abdicar do 4-5-1 com três meias ofensivos (ou 4-2-3-1) com o qual conquistou a Copa Libertadores 2010. Segundo o treinador colorado, após a vitória sobre o Avaí, não há no grupo do Inter um atacante destro com as características do agora jogador do ucraniano Metalista - velocidade, principalmente.

Mas no treino de ontem, que acompanhei no gramado suplementar do Estádio Beira-Rio, Roth manteve o 4-2-3-1. Para sorte do Inter. A foto abaixo ilustra o posicionamento alinhado dos meias ofensivos, com Rafael Sobis aberto pela esquerda:

Não haveria motivo, acredito, para se abrir mão de um modelo vencedor pela pura ausência de Taison. Mesmo sem contar com característica idêntica no elenco, é mais fácil para Roth adaptar outro jogador à função, do que reestruturar o sistema da equipe em um período de jogos às quartas/quintas e sábados/domingos. Sem tempo para treinar, portanto. Faz parte do trabalho do técnico levar em consideração estes aspectos no planejamento tático, vinculando qualquer mudança à possibilidade de lidar com a periodização dos treinos.

Rafael Sobis, assim como Taison, é um atacante. Não velocista, mas tão definidor quanto. Caracterizou-se em 2006 pelos gols de fora da área. Como winger pela esquerda, pode repetir esta fórmula, cortando para o meio e concluindo. Movimento que coloca Kleber no jogo, levando a marcação, abrindo o corredor para o apoio do lateral-esquerdo.

Roth acerta ao manter o 4-2-3-1. E se Rafael Sobis não se adaptar, ainda acredito que é possível testar outros jogadores na mesma função (Marquinhos, Giuliano, Oscar, Edu…), recorrendo à mudança tática em última instância.

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É um absurdo pensar o Grêmio no 4-5-1?

Sei que este debate pode provocar atrito com a imensa comunidade de fãs do atacante Jonas, por exemplo. Portanto, antes de introduzir o assunto, lembro que o blog Preleção é um fórum para se discutir teoria tática e que é muito importante a participação construtiva dos leitores. Quem discorda da ideia por favor faça isto com argumentação.

Sem entrar no mérito político, organizacional ou estrutural, o Grêmio tem muitos problemas em campo. O principal é a falta de um bom primeiro volante, de um camisa 5 que ofereça verdadeira proteção à linha defensiva, com posicionamento correto, combate qualificado, e bom passe; depois há a carência de laterais, que pode ser resolvida com Gabriel, e com Lúcio retornando à boa forma; mas eu acredito, ainda, que a insistência no 4-4-2 para dar espaço a Jonas também possa ser relacionada entre os problemas.

Contra o Santos o Grêmio jogou no 4-4-2 (conforme o diagrama tático que abre o post). Renato Portaluppi formou a defesa convencional de quatro jogadores, alinhou dois volantes à frente, abriu Souza pela esquerda, deixou Douglas flutando entre a direita e a articuação central, liberou Jonas para se movimentar à vontade, e centralizou Borges no pivô. Os laterais receberam autorização para o apoio. Com marcação agressiva no campo adversário, este modelo funcionou bem no primeiro tempo, mas se desorganizou na segunda etapa.

Há muita instabilidade no meio-campo gremista. Boa parte dos jogadores oscilam demais em suas atuações. É um risco despovoar este setor. Quanto menos jogadores no meio-campo, maiores são as chances de perda da posse de bola, ou de vulnerabilidade defensiva. Acredito que o 4-5-1, qualquer que seja a variação, é uma boa alternativa para amenizar este desempenho desequilibrado dos volantes e meias.

Nesta projeção, é possível se cogitar a saída de Jonas, dando lugar a mais um volante, ou a mais um meio-campista ofensivo. Apesar dos muitos gols marcados - é um dos principais artilheiros do futebol brasileiro em 2010 - Jonas destaca-se pelo jogo para si. Ele é um atacante que não se integra ao coletivo. Quando recebe a bola, dribla até abrir espaço, e chuta. Faz poucas assistências, troca poucos passes, triangula pouco. Recebe e chuta. Assim fazia gols, mas quando não acerta o alvo, apenas devolve a bola para o adversário.

A primeira alternativa no 4-5-1 seria o desdobramento para o 4-2-3-1. Modelo que se tornou tendência após a Copa do Mundo. Com todos os bons jogadores à disposição, projetei o seguinte:

Gabriel e Lúcio apoiariam alternadamente, recebendo cobertura do respectivo volante do setor. No meio, Souza, Douglas e Maylson (ou Leandro) atuariam agrupados. Quando Souza recebesse na esquerda, atrairia Douglas para a triangulação, e Maylson ingressaria em diagonal para auxiliar Borges na área. Valeria o mesmo do lado contrário: Maylson (e Gabriel) com Douglas fechando o triângulo, Souza em diagonal na segunda trave. E um volante adiantando-se para o rebote ofensivo.

A outra possibilidade é o 4-3-2-1 “Árvore de Natal” - o sistema Christmas Tree de Carlo Ancelotti no Milan: tripé de volantes, dois meias centralizados e um atacante. Alternativa mais defensiva, concentrando ainda mais o posicionamento dos jogadores na faixa central, para proteger a defesa e manter a posse de bola com jogadas curtas.

Sei que é um tabu para os torcedores cogitar a troca de Jonas por um meia ou por um volante, principalmente porque as opções não empolgam: Maylson, Adilson, Leandro, Fernando, Magrão, Rochemback, Douglas, Souza…todos oscilam, todos alternam boas e más atuações. Mas o Grêmio está precisando de maior consistência no meio-campo. E a regularidade de atuações recentes de Jonas, dominando e chutando, tem sido baixa.

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Sandro precisará de adaptação ao 4-4-2 do Tottenham

O Tottenham Hotspurs goleou ontem o Young Boys, da Suíça (4 a 0), garantindo vaga na fase de grupos da Liga dos Campeões da Europa. O sistema tático, logicamente, foi preservado: é o convencional 4-4-2 britânico, em duas linhas de quatro jogadores. E com as principais premissas exigidas por ele.

No 4-4-2 em duas linhas, o Tottenham não abre mão de figuras clássicas: o meio-campo combina na área central um jogador mais combativo e marcador - ontem foi Palacios, mas invariavelmente é Huddlestone quem cumpre esta tática individual; e um box-to-box, meia que ao mesmo tempo protege a linha defensiva à frente da própria área (”box”, em inglês) e adianta o posicionamento quando o time tem a posse, aproximando-se da área adversária. Um apoiador, que vai de área-a-área. Ontem foi Huddlestone, mas será Modric o encarregado assim que se recuperar de lesão.

Pelos lados, outra característica ortodoxa do legítimo 4-4-2 britânico: por um lado o winger-organizador que, embora aberto, prioriza as inversões, aciona os atacantes nas infiltrações pelo chão, faz lançamentos e também joga curto (Bale, pela esquerda); pelo outro, o velocista que aprofunda as jogadas, que busca a linha de fundo com a bola ou então parte em diagonal na segunda trave quando o winger oposto tem a bola, para receber às costas dos zagueiros (Lennon, na direita).

Neste cenário, Sandro vai disputar posição com Huddlestone. Será o meia-central defensivo, um volante, mas com atribuições diferentes daquelas conhecidas pelos jogadores assim reconhecidos no Brasil. Com meias-extremos abertos pelos lados, o volante não é um simples entregador de passes curtos para os “camisas 10’s”. Sandro terá de distribuir o jogo, entregando curto para o box-to-box, mas também arriscando a bola longa para os wingers, ou o passe esticado pelo chão para os atacantes entre os zagueiros.

Além - muito importante - de adiantar o posicionamento para apanhar o rebote ofensivo, porque neste 4-4-2 as equipes costumam imprimir marcação em pressão-alta no campo adversário. O combate começa imediatamente à perda da bola, com uma transição defensiva agressiva, retirando espaços. Recuperada a bola, é a hora de arriscar os chutes de fora da área.

Ser meia-central defensivo no 4-4-2 em duas linhas é muito diferente de ser volante nos 4-4-2’s brasileiros. Sandro está consciente disso, e já deu belas entrevistas à imprensa inglesa, afirmando que chega para aprender com os companheiros. Está certo. A convivência com Huddlestone, um inglês que nasceu jogando nesta função, sempre neste sistema, será fundamental para que a adaptação do ex-jogador do Inter ao modelo britânico seja rápida e bem sucedida. Eu, daqui, ficarei na torcida. Bola ele tem para aprender e superar o professor.

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Variações do 4-5-1 podem extinguir o centroavante de área?

Não foram os contemporâneos da época que identificaram o ocaso da Idade Média. As modificações políticas, econômicas, sociais, catalisadoras da Idade Moderna tiveram diagnóstico anos depois. Nenhum cavaleiro saltou da montaria, agrupou seus homens, e disse: “voltem para suas casas, acabou a era medieval”. Transições históricas são percebidas com o distanciamento.

Assim acontece na História, assim também acontece no acompanhamento da evolução tática. Desencadeou-se um período de transformação no futebol. Para nós, contemporâneos, não há como se precisar os fatos, as datas, os protagonistas, ou ainda definir o que está acontecendo. Presenciar esta mudança nos obriga a arriscar, apontar tendências, prever. Como pode ter feito o mesmo cavaleiro, acredito, ao observar-se no espelho, contemplando toda a parafernália bélica de metal: “acho que este escudo vai sair de moda”.

A disseminação do 4-5-1 é o preâmbulo de um novo movimento tático. As equipes e seleções de melhor desempenho - seja no desdobramento para o 4-1-4-1, para o 4-3-2-1, ou principalmente para o 4-2-3-1 - prescindem do centroavante à moda antiga. Ao menos nas variações deste sistema percebe-se que o “homem de área” precisa se integrar à movimentação dos meias ofensivos, participando das combinações, das jogadas curtas, abrindo espaços, deixando a área para que os wingers possam se infiltrar, abrindo mão da referência.

Esta observação se ampara nas principais premissas ofensivas do 4-5-1 (reitero, principalmente no desdobramento para o 4-2-3-1): linhas adiantadas e movimentação do trio ofensivo de meio-campo. Para esta sincronia de jogadas curtas ter melhor resultado, a defesa adversária precisa se desorganizar. O centroavante de área facilita a marcação. O jogador que recua por dentro, abre pelos lados, troca de posição com qualquer dos jogadores da segunda linha, que entra na rotação das posições de frente, é mais útil. Sem perder a capacidade de conclusão dentro da área.

Exemplos: Chamakh, no Arsenal (4-2-3-1); Tevez, no City (4-1-4-1); Milito, na Inter (4-2-3-1); Van Persie, na Holanda (4-2-3-1). Combinam mobilidade para rodar posições com os meias e conclusão das jogadas para seguir conceituados como centroavantes, embora não presos na área.

Há, claro, exemplos contrários. Klose é centroavante à moda antiga e funcionou bem no 4-2-3-1 da Alemanha; Luís Fabiano teve bons momentos desta forma, na Seleção Brasileira. E também vale destacar: é uma projeção para o 4-5-1. E existem outros sistemas nos quais o “centroavantão” é imprescindível: o 3-5-2/3-6-1 à brasileira, que usa a ligação direta pelo alto buscando o rebote ofensivo.

Na Inglaterra, onde os cronistas esportivos são muito atentos à teoria tática, a participação do centroavante na rotação dos meias no 4-5-1 é conceituada por alguns como o embrião do 4-6-0. Não vejo desta forma porque o jogador de frente, apesar da movimentação, mantém seu posicionamento inicial ligado à frente da linha de meias, e quando recua para abrir espaços, a equipe sempre conta com o ingresso de outro jogador adiantado, mantendo a estrutura.

Para mim - posso estar enganado - exigem-se novas características do centroavante no 4-5-1 (mobilidade, agilidade, velocidade), mas a estrutura tática se mantém.

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Wenger, o mestre do 4-2-3-1

Se Arsene Wenger não é o criador do 4-5-1 com três meias ofensivos (4-2-3-1), é certamente a principal referência no desenvolvimento deste sistema tático. Muito antes de se tornar uma tendência na Europa, muito antes das seleções da Copa do Mundo 2010 influenciarem os treinadores brasileiros, Wenger transformara o 4-2-3-1 em padrão no Arsenal. Após uma temporada ruim, ele revitaliza a equipe londrina com a recuperação de jogadores, e com a chegada de Chamakh.

Assisti à goleada de 6 a 0 do Arsenal sobre o Blackpool no último sábado. Wenger deu uma aula prática sobre o 4-2-3-1. A equipe teve quase 60% de posse de bola, e criou no total 30 oportunidades, marcando seis gols. O adversário - obviamente muito inferior - chegou à área do time da casa apenas uma vez em todo o jogo.

São duas as principais virtudes deste 4-2-3-1 de Wenger no Arsenal: linhas adiantadas e movimentação dos meias ofensivos. O treinador posiciona a equipe no campo adversário, ao mesmo tempo retirando espaços com marcação em pressão alta na saída de bola (forçando o passe do adversário, induzindo-o ao erro) e proporcionando uma transição ofensiva imediata, pela redução do campo a se percorrer.

Adiantadas as linhas, encurralada a saída do adversário e recuperada a bola, o Arsenal aciona as engrenagens do quarteto ofensivo. No sábado, Arshavin (esq) e Walcott (dir) foram os wingers, com Rosicky na ponta-de-lança central. A eles soma-se o centroavante Chamakh, ex-Bordeaux, com boa mobilidade e velocidade sem perder a presença de área. E todos eles se movimentam sem parar, desorganizando o sistema defensivo.

Arshavin e Walcott dão preferência às diagonais. Foi nesta investida aguda em direção à área que Walcott marcou três gols. A diagonal também abre espaço ao apoio alternado dos laterais, incluindo no repertório as jogadas de linha de fundo. Rosicky mantém a posse de bola sob controle com passes curtos de lado a outro, e ganha o apoio dos volantes Diaby e Wilshere tanto na passagem de surpresa pela última linha, como também na recuperação do rebote ofensivo. Todos eles próximos, agrupados.

Uma característica deste Arsenal movediço e ágil é concluir as jogadas no setor oposto ao inicial. A equipe vai trocando passes e rodando posições até que a bola encontre um jogador desmarcado na faixa contrária de campo. Se Rosicky aciona Arshavin e Clichy na esquerda, aproxima-se da dupla para triangular, Chamakh pode recuar e levar consigo a marcação, chamando a diagonal de Walcott pela direita da área. É com toda esta sincronia de movimentos, com toda esta engrenagem ofensiva, que o Arsenal troca passes e abre espaços nas linhas adversárias.

Sei que o Blackpool é um time muito modesto - não testou, por exemplo, a competência do Arsenal na transição defensiva (jogar com linhas adiantadas abre o risco do contra-ataque rápido, e precisa de velocidade para evitá-lo) . E que a recuperação de todos estes jogadores do Arsenal, após temporadas de sucessivas lesões, ainda é uma incógnita.

Mas a amostragem inicial é promissora. Arsene Wenger ainda sabe como fazer um 4-2-3-1 funcionar. E, vale lembrar, Fábregas e Van Persie entraram apenas no segundo tempo.

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O 3-5-2 que levou o Fluminense à liderança do Brasileirão

Assisti ontem, na redação do clicEsportes, ao empate entre Fluminense e Vasco. Apesar das atribuições da pauta do dia, foi minha primeira oportunidade de conferir o 3-5-2 de Muricy Ramalho pós-Copa do Mundo. E a estrutura do Fluzão não difere em nada dos demais sistemas com três zagueiros elaborados pelo treinador em outros clubes - São Paulo, principalmente.

O 3-5-2 do Fluminense joga de acordo com a estratégia padrão deste sistema no Brasil. Três zagueiros legítimos, sem líbero; dois alas-lateralizados, espetados no alto do campo, e eminentemente abertos para jogadas de linha de fundo; dois volantes na base de um triângulo de meio-campo, combinando um mais combativo, e outro mais apoiador; um ponta-de-lança no vértice do triângulo, aproximando-se da área; um atacante de movimentação; e um centroavante de referência.

Neste Fluminense, Diogo é o volante-combativo, e Diguinho o apoiador, que faz a passagem pela direita, em suporte ao ala Mariano. O balanço se dá na esquerda com a aproximação preferencial de Emerson pelo setor, na parceria com Júlio César. Gum (dir) e André Luís (esq) abrem os posicionamentos quando a equipe tem a posse, empurrando os alas para frente, deixando Leandro Euzébio centralizado, protegido por Diogo.

Para quebrar um pouco o ritmo do “Muricybol”, termo empregado para ilustrar as ligações diretas do 3-5-2 à brasileira, o Fluminense conta com a qualidade de Conca. Ele evita que a equipe resuma sua articulação à ligação direta dos zagueiros procurando Washington, que dirige a segunda bola a Emerson. O meia argentino faz o time jogar também pelo chão.

A vitalidade de Diguinho também é essencial para que o meio-campo não seja uma seara despovoada, afinal, na prática, são apenas três homens no setor (três zagueiros recuados, dois alas abertos e dois atacantes adiantados formam um círculo ao redor do trio de meio-campo). Essa passagem do volante-apoiador desonera Conca, que pode se movimentar na intermediária ofensiva, recebendo de Diguinho a bola.

Faltando 15min Deco fez sua estreia pelo Flu. E entrou no lugar de Diguinho, como o apoiador. Belletti também vinha jogando nesta função. Como Conca é essencial, Muricy nunca abre mão dos três zagueiros, e nenhum dos citados é primeiro volante, na teoria todos eles - Deco, Belletti e Diguinho - brigam por uma posição no meio-campo.

A não ser - e não acompanho os treinos do Fluzão para saber - que Muricy cogite jogar com Belletti de primeiro volante (ele fez isso em algumas partidas do Chelsea), deixando Deco no apoio, e Conca no vértice adiantado do meio-campo. No papel, fica muito bonito.

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Rafa Benítez faz mudanças na estrutura da Inter de Milão

Na comparação com a herança deixada por José Mourinho, a Inter de Milão apresenta modificações na estrutura tática com a chegada de Rafa Benítez. O novo treinador não manteve o desenho utilizado pelo seu antecessor - na comparação possível com a observação do jogo de ontem, quando a Inter venceu a Roma de virada por 3 a 1, conquistando a Supercopa Italiana.

Com José Mourinho a Inter variava entre o 4-3-3 (prioritário) e o 4-4-2 em losango. Rafa Benítez, partindo da base principal, recuou os atacantes, transformou-os em meias-extremos, e configurou o 4-5-1 também chamado de 4-2-3-1. Eto’o e Pandev, que jogavam abertos e próximos a Diego Milito, agora atuam na mesma linha de Sneijder.

Outra mudança é estratégica. Benitez inverteu os lados dos agora meias-extremos. O destro Eto’o jogou pela esquerda, e o canhoto Pandev pela direita. Movimento bastante aplicado ao 4-2-3-1 - o Inter, provável adversário da Inter em Abu Dhabi pela final do Mundial de Clubes, faz isso com Taison e D’Alessandro. Embora a equipe perca a profundidade sem a busca pela linha de fundo, ganha agressividade com as diagonais destes extremos na direção de Diego Milito.

Sneijder segue como o ponta-de-lança central, função que desempenhava nos dois modelos táticos de Mourinho. A dupla de volantes é argentina, com Cambiasso mais à esquerda, e Zanetti à direita. Maicon é o lateral apoiador, explorando o corredor aberto nas diagonais de Pandev, enquanto Chivu sobe em menor escala do lado oposto.

É pequena, entretanto, a amostragem para se determinar que será esta a estrutura tática da Inter durante a temporada.

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