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Fechando a conta

10 de setembro de 2010 0

Pessoal, encerro hoje uma trajetória de seis anos no Grupo RBS, dois e meio deles dedicados ao clicEsportes, e os outros três anos e meio à Zero Hora. Com isso, fecho a conta do meu querido blog Preleção.

Repito diariamente que sou um privilegiado por trabalhar com o que amo, reunindo futebol e jornalismo. Dá prazer em acordar todos os dias para mais uma jornada. E nada em toda minha carreira, iniciada em 1998 quando entrei na faculdade e comecei a estagiar, me deu tanto prazer profissional quanto o blog Preleção. Nada.

Esta é a minha escola de estudos da teoria tática. Debater com leitores, em alto nível, trazendo para mim novos conceitos, perspectivas diferentes, ensinando-me, corrigindo-me, apontando caminhos diferentes, discordando, concordando, agregando. Foi demais compartilhar minhas análises táticas com vocês, e receber de todos mais conhecimento.

Cometerei injustiças, eu sei, mas puxei de memória nomes de alguns amigos que contribuíram para um debate qualificado aqui no Preleção: Wilson Farina, Lucas Trindade, Cristiano Sarmento, Borrach, Ratofx, Filipe Nunes, Robert Sweney (Roberticus), Pedro Lampert, Lucas Gutierrez, Openglx, Augustoyoh, Minwer, Ryazantsev, Pedro Breier, Paulo Gallotti, Júnior Albuquerque. Em nome deles agradeço a todos que estiveram comigo durante estes quase dois anos de blog.

Continuarei intrometendo-me em análises táticas nas ditas “redes sociais”, quem ainda não faz parte dos meus contatos, procurem-me que estarei sempre disposto a debater e aprender mais com vocês.

Grande abraço!

PS: Pessoal, nem precisa deixar comentários aqui, pois o blog vai ficar parado e sou eu quem teria de liberar.

Cuca resgata o 4-4-2 em losango no Cruzeiro

09 de setembro de 2010 5

Antes de enfrentar o Inter – ontem, em Uberlândia – Cuca viu seu predileto 3-5-2 ruir com os desfalques na zaga. Sem três zagueiros para escalar, o treinador cruzeirense recorreu a um modelo tático bastante conhecido no histórico recente do clube. E o resgate do sistema utilizado durante praticamente três temporadas por Adilson Batista resultou na vitória de 1 a 0 sobre a equipe colorada.

Contra o Inter, o Cruzeiro se utilizou do 4-4-2 em losango. O desenho do meio-campo pode ser considerado “assimétrico”, como já fizeram Tite no Inter e Carlo Ancelotti no Chelsea. Conceito geométrico que se aplica em função do desalinhamento entre os dois apoiadores da segunda linha de meio-campo.

Marquinhos Paraná foi o primeiro vértice do losango, centralizado, na proteção à linha defensiva. Logo à frente vieram os dois apoiadores: Henrique, à direita, mais recuado; e Everton, pela esquerda, mais adiantado. Roger completou o setor como ponta-de-lança, aproximando-se dos atacantes, e com liberdade para se movimentar de lado a outro.

No ataque, não houve centroavante de referência. O argentino Farías jogou com a camisa 9, mas partindo do lado esquerdo. E Thiago Ribeiro fez o mesmo no setor oposto, ambos abrindo espaço para o ingresso de Roger entre eles. Os dois laterais, Jonathan e Diego Renan, obtiveram autorização para o apoio alternado, contando sempre com a cobertura de Marquinhos Paraná, e dos respectivos apoiadores. Uma reunião de posicionamentos, funções e características de jogadores que me agrada muito. Gosto deste 4-4-2 em losango.

Não sei sob qual orientação de Cuca – pode ter sido devido à característica do time escalado, ou então por identificar este setor como o mais frágil do Inter – o Cruzeiro atuou prioritariamente pela esquerda (direita defensiva colorada). Ali se formou uma bela triangulação, efetiva principalmente no primeiro tempo, com Diego Renan, Everton e Farías. Combinação que naturalmente imantou Roger para a faixa central ofensiva, aproximando-se deste trio, e deixou Thiago Ribeiro, Henrique e Jonathan como opções para a inversão de jogo.

Farías jogou sobre Bolívar, e Everton-Diego Renan dobraram sobre Nei. Esta supremacia numérica provocou muitas dificuldades ao Inter, que não teve cobertura suficiente – Wilson Matias ficou entre o combate a Roger e o auxílio ao lado direito de defesa, e Guiñazu preocupava-se com os jogadores do setor oposto. Giuliano foi obrigado a recuar demais para acompanhar o lateral cruzeirense, e com ele todo o Inter veio junto.

Com um posicionamento surpreendentemente defensivo, e com postura passiva, o Inter permitiu ao Cruzeiro atuar em seu campo. Digo surpreendente porque o Inter vinha assumindo o controle da posse de bola, com marcação agressiva no campo adversário, mesmo em partidas fora de casa. São dois os raciocínios possíveis: foi o Cruzeiro quem empurrou o Inter, ou foi o Inter quem atraiu o Cruzeiro para seu campo. De toda forma, independentemente do diagnóstico, o recuo excessivo tirou a velocidade da transição ofensiva, porque o Inter tinha muito campo a percorrer, e pouca gente para receber à frente da linha da bola.

Acredito que o desgaste desta sequência de jogos, posterior a uma exaustiva campanha vitoriosa na Libertadores, tenha contribuído para o comportamento da equipe de Celso Roth neste jogo. Esse aspecto pode ter sido determinante para que o Inter tenha abdicado da marcação agressiva e tenha perdido a velocidade do contra-ataque, sem controlar a posse, como vinha fazendo nos últimos jogos.

Argentina aplica o contra-ataque ao 4-1-4-1

07 de setembro de 2010 4

Depois do insucesso na Copa do Mundo 2010, Maradona deixou o comando técnico da seleção argentina criticado por desguarnecer a defesa. Na África do Sul, ele adotou inicialmente o 4-5-1 com três meias (ou 4-2-3-1 – leiam aqui) e o 4-4-2 também com trio ofensivo (ou 4-1-3-2 – leiam aqui), sempre priorizando a escolha de jogadores com características mais ofensivas. Com Maradona, a Argentina propôs o jogo, buscou a posse de bola, adiantou as linhas, mas também sobrecarregou Mascherano.

Hoje, o interino Sergio Batista fez o planejamento inverso. Distribuiu a equipe no 4-5-1, mas em outra variação. A Argentina goleou a Espanha em amistoso (4 a 1) jogando no desdobramento para o 4-1-4-1, com duas linhas de quatro jogadores, e Mascherano entre elas. Confiram no diagrama tático:

Logo à frente de Mascherano, posicionaram-se Cambiasso e Banega. Dois combatentes centralizados, de movimentação restrita a um curto espaço de campo, e com atribuições principalmente defensivas. Alinharam-se a eles Tevez e Messi, respectivamente à esquerda e à direita, como meias-extremos de “pés invertidos”. Higuaín foi o centroavante, de referência.

A estratégia aplicada a este 4-1-4-1 foi o contra-ataque. Mesmo jogando no Monumental de Nuñez, a Argentina ofereceu campo à Espanha, e permitiu aos campeões mundiais ter posse de bola e trocar passes entre as intermediárias. Sem a bola, as linhas argentinas recuavam, marcando por zona com pressão sobre a bola, sem nunca se desorganizar – os jogadores mantiveram-se fiéis aos posicionamentos e às funções.

Recuperada a bola, aparecia a rápida transição ofensiva. Com três jogadores protagonizando estes contra-ataques em velocidade: Messi, Tevez e Higuaín. Os dois primeiros, disparando em diagonais do lado para o meio; e o centroavante recuando para se oferecer às tabelas, e ao mesmo tempo para abrir espaço ao ingresso vertical dos extremos.

Deu tudo certo. A Espanha caiu na armadilha de Batista, posicionando seus jogadores no campo argentino, e vulnerabilizando-se para os contra-ataques. Messi e Tevez conseguiram sincronizar movimentos, com Tevez de “winger armador”, recebendo a bola, e Messi de “winger finalizador”, recebendo às costas da defesa. Em 13min, a Argentina vencia por 2 a 0 (Messi e Higuaín), depois Tevez marcou o terceiro em erro de Reina, e no 2º tempo Di Maria (entrou no lugar de Tevez) repetiu a mesma jogada, recebendo de Messi entre o zagueiro e o lateral, mas teve o gol anulado por impedimento.

Grande atuação da Argentina, com organização tática, estratégia adequada à partida – pela característica do adversário - e bom desempenho dos jogadores. Jogaço.

*P.S: Nas entrevistas, Batista diz ter jogado no 4-3-3. Uma diferença conceitual para descrever o mesmo modelo de jogo. Ele considera variação tática o avanço de Messi e Tevez, configurando 4-5-1 sem a bola, e 4-3-3 com ela. Para mim, Tevez e Messi tiveram como faixa principal de atuação o meio-campo extremo, pelos lados, e este avanço não configura variação.

Inter no 4-4-2, sem recorrer ao banco de reservas

06 de setembro de 2010 6

No segundo tempo da partida final da Copa Libertadores 2010, no Estádio Beira-Rio, a virada do Inter sobre o Chivas Guadalajara passou pela mudança no sistema tático. Celso Roth não se limitou à simples inversão dos meias-extremos – passando Taison para a direita, e D’Alessandro para a esquerda. O treinador colorado também adiantou o argentino camisa 10, transformando D’Alessandro em um segundo atacante, ao lado de Rafael Sobis – lembrem aqui.

E ontem, na vitória sobre o Grêmio Prudente, Celso Roth repetiu a variação tática para o 4-4-2. Consolidando este sistema como a mais forte alternativa ao preferencial 4-5-1 com três meias ofensivos (ou 4-2-3-1). A única mudança, na comparação com o jogo que valeu o bicampeonato da América, está nos nomes envolvidos.

Roth tentou a simples inversão dos extremos para furar o bloquei do Prudente. Giuliano passou para a esquerda, e Rafael Sobis para a direita. Mas esta mudança no posicionamento dos wingers não deu resultado. A equipe seguiu submissa à marcação adversária.

No segundo tempo, Roth manteve Giuliano na direita, e “espetou” Rafael Sobis à frente. Tinga saiu do meio mais para a esquerda. E configurou-se o 4-4-2. Modelo que pode até mesmo assumir o desenho do 4-4-2 britânico, caso Roth veja a necessidade de abrir seus meias e alinhá-los aos volantes. Ou então apenas reposiciona ambos, aproximando-os mais em um formato mais brasileiro, como me pareceu ontem.

Tudo isso sem recorrer ao banco de reservas. Mais uma vantagem da estratégia aplicada ao 4-2-3-1: adaptar atacantes à função extrema da segunda linha de meio-campo permite a variação tática sem queimar substituições.

Peñarol resgata o toque de bola uruguaio com o 4-2-3-1

03 de setembro de 2010 7

Abro hoje no blog Preleção espaço ao colega Lucas Rizzati, redator do site zerohora.com. Ele assistiu à vitória do Peñarol sobre o Barcelona de Guayaquil (1 a 0, no Equador, pela Copa Sul-Americana), e nos privilegia com uma análise do Peñarol. A boa notícia é o resgate do toque de bola – uma característica do futebol uruguaio - obtido através do 4-2-3-1. Confiram abaixo o texto do Lucas:

Em um 4-5-1 com dois volantes e três meias (ou 4-2-3-1), o Peñarol adotou uma postura equilibrada, e em nenhum momento se acanhou no campo de defesa. Entre as tantas  qualidades do time, começo pela que mais chamou a atenção: a velocidade na transição da defesa para o ataque.

Marcando em zona e pressionando a bola – não o  jogador – a coesa equipe uruguaia parecia não fazer esforço nenhum para desarmar os equatorianos. Enquanto o 4-3-3 do Barcelona apresentava pouca mobilidade, com trocas de passes laterais, os qualificados volantes Sosa e Arevalo roubavam a bola com perícia, começando o contragolpe (ou o ataque  simplesmente).
 
Com a bola, a estratégia do Peñarol é clara. A equipe prioriza as aproximações, com passe curto e triangulações. A saída predileta é pela direita, nas combinações do meia-extremo Estoyanoff com o lateral Aguirregaray e com o volante Sosa.

Se não houvesse espaço na direita, o plano B era a inversão para a esquerda – sem ligação direta. Palacio, o único atacante, é baixo e de velocidade. Ele abre lateralmente na direção do meia-extremo da esquerda. No espaço deixado por ele, infiltra-se o enganche Pacheco, um condutor de bola que conclui bem a gol.

O Barcelona jogou no 4-3-3 com triângulo de base alta no meio-campo. Mas, com os meias distantes dos atacantes, a equipe se mostrou sem alternativas. Engessada. Para a bola chegar à frente, só com uma condução excessiva dos meias, ou pela ligação direta. Com isso, mesmo fora de casa, quem manteve a posse e propôs o jogo foi o Peñarol. jogo era o pró-ativo e equilibrado Peñarol”.

As duas versões do 4-4-2 de Renato no Grêmio

02 de setembro de 2010 13

Assisti ontem à vitória do Grêmio sobre o Guarani, por 1 a 0, no Estádio Olímpico. Renato Portaluppi repetiu o sistema tático 4-4-2, com dois volantes e dois meias-ofensivos, e apresentou um princípio de modelo de jogo. Há um interessante balanço de posicionamentos, que envolve três jogadores, e oferece à equipe equilíbrio na transição ofensiva, ora utilizando-se de Fábio Santos na esquerda, ora chamando Gabriel ao jogo pela direita.

A formação inicial do Grêmio nos dois tempos da partida contra o Guarani teve o seguinte desenho no 4-4-2: Fábio Rochemback de primeiro volante, centralizado e pouco à esquerda; Adilson de segundo volante, mais à direita; Douglas centralizado na articulação ofensiva; Souza aberto pela esquerda; Jonas aberto pela direita, mais adiantado na comparação com Souza, configurando sua função de segundo atacante; e Borges no pivô central.

Esta distribuição de jogadores prioriza a saída pela esquerda, com as combinações de Souza e Fábio Santos. A contrapartida é o ingresso de Jonas na segunda trave, pela direita. Não por acaso, assim saiu o gol da vitória: Fábio Santos na linha de fundo, Jonas de cabeça na segunda trave.

Nos dois tempos, entretanto, Renato inverteu três jogadores: Souza passou para o lado direito (ao final, Leandro cumpriu esta função em seu lugar), enquanto Jonas e Adílson fizeram o movimento contrário, posicionando-se à esquerda na comparação com a formação original:

Desta forma, Gabriel entra no jogo. Fábio Santos fica mais preso à linha defensiva, enquanto Souza chama o lateral-direito ao apoio, apresentando-se às combinações. Jonas, do outro lado, segue ingressando na diagonal da faixa lateral à segunda trave, nas costas da defesa, movimentando-se nos espaços abertos pelo pivô de Borges.

É um balanço ofensivo que combina inversões sincronizadas de posicionamento entre três jogadores (Adilson, Souza e Jonas). É um modelo de jogo. Quem parte da premissa preconceituosa de que Renato “não é treinador” - seria apenas frasista, ou motivador – engana-se. Renato Portaluppi em poucos jogos desenha um modelo de jogo organizado, pensando ao mesmo  tempo na variação de jogadas ofensivas, e no sistema de coberturas durante a transição defensiva (contra-ataque adversário).

O certo, agora, é manter este sistema e esta estratégia. E aprimorá-la, com mais combinações, mais movimentos. Isto depende de repetição, insistência, e obviamente de resultados. Se os jogadores “comprarem a ideia”, aplicando-se no cumprimento das funções, o sucesso deste modelo de jogo servirá de argumento para sua adoção definitiva como a tática prioritária de Renato no Grêmio.

Pode-se, concordo, discutir se esta é a formação ideal, se alguns destes jogadores são os mais adequados para o cumprimento de determinadas funções. Isto faz parte do debate, porque envolve as predileções de cada um, seja jornalista ou torcedor. Mas seria injusto criticar Renato por falta de planejamento tático.

Heat maps como ferramentas de auxílio à análise tática

31 de agosto de 2010 2

Assisti ontem a trechos do empate entre Bologna e Inter de Milão – 0 a 0 – no complemento da rodada inaugural do Campeonato Italiano 2010/2011. Uma oportunidade para compartilhar com os leitores do blog Preleção meu interesse pelas ferramentas de auxílio à análise tática. Para mim, a principal é a consulta a heat map’s (“mapas de calor”), oferecidos por alguns sites esportivos.

Pela TV, com a restrição dos planos das imagens, a análise tática é mais difícil do que a realizada presencialmente nos estádios. Por isso, não me constranjo em recorrer – quando necessário – às informações dos heat map’s – mapas de calor que registram os espaços ocupados pelos jogadores enquanto eles tiveram a bola.

Ontem, a Inter de Milão repetiu o 4-5-1 com linha ofensiva de três meias (ou 4-2-3-1) da estreia de Rafa Benítez. Sistema que havia dado lugar ao 4-4-2 com meio-campo em losango na derrota para o Atlético de Madri, pela Supercopa Europeia. Qualquer dúvida sobre a configuração – seria 4-2-3-1 ou ainda o 4-3-3 legado por José Mourinho? – é desfeita com a análise dos heat map’s dos wingers Eto’o e Pandev, conforme reprodução dos mapas disponíveis no site da ESPNvejam aqui.

Tanto Pandev pela direita, como também Eto’o na faixa esquerda, jogaram abertos, na linha intermediária ofensiva, e pouco ingressaram na área:

Na comparação com a área de atuação de Sneijder, fica evidente o alinhamento dos três meias ofensivos, no 4-2-3-1:

Mas os heat map’s nos permitem avançar nas conclusões, deixando o campo específico do posicionamento inicial e do diagrama tático, para uma análise de desempenho mais abrangente. Se o mapa registra em uma escala do amarelo ao vermelho (da menor para a maior intensidade) as regiões onde os jogadores tiveram posse de bola, o contraste entre as participações de Sneijder, Eto’o e Pandev é enorme.

Enquanto o ponta-de-lança holandês se desdobrou, movimentando-se em grande faixa central de campo, buscando os lados e voltando para receber o primeiro passe, Eto’o e Pandev praticamente não aprofundaram as jogadas, não ingressaram na área, e nem contribuíram com Sneijder na articulação ofensiva. Se uma das principais premissas do 4-2-3-1 é a aproximação dos meias da segunda linha, com rotação de posições, a Inter de Milão com Rafa Benítez facilita a marcação adversária sobrecarregando seu ponta-de-lança, abdicando da movimentação essencial, e tornando-se mais previsível ao adversário.

O heat map, ou qualquer outra ferramenta auxiliar, nunca vai substituir a análise das imagens – seja presencial, ou pela TV. Mas é um bom complemento para a ampliação da percepção do analista tático.

Atribuir funções ao craque dá resultado

30 de agosto de 2010 14

Duas entrevistas recentes oferecem ao blog Preleção bom material para debate sobre teoria tática aplicada à prática. Ignorem, portanto, os nomes envolvidos, porque o post de hoje não se trata de uma comparação. Confrontar jogadores em momentos tão distintos soaria até injusto. Estão em questão os conceitos envolvidos.

Assim que chegou ao Grêmio, Renato Portaluppi falou que Douglas e Souza não precisam marcarlembrem aqui. A ideia do treinador gremista é desonerar os meias-articuladores da equipe, concedendo liberdade para que mantenham o posicionamento, sem desgaste, servindo de referência aos demais companheiros na transição ofensiva. A premissa é clara: craques precisam de liberdade para criar.

Mesmo com este privilégio, nenhum deles subiu de rendimento. Douglas e Souza seguem contribuindo pouco quando a equipe tem a posse de bola. E, na transição defensiva, abstêm-se do combate, sobrecarregando os volantes e vulnerabilizando a linha defensiva.

Celso Roth, no Inter, alterou o posicionamento de D’Alessandro. O meia argentino deixou de ser um enganche (articulador central) e desempenha agora a tática individual do meia-extremo (ou externo, como ele mesmo denomina) – leiam nesta entrevista. O treinador colorado retirou D’Alessandro da faixa central, onde ele era refém dos volantes, e levou-o a uma faixa mais incisiva do campo – o lado direito, onde pode trazer a bola para a preferencial canhota, e dali concluir ou armar jogadas. A contrapartida é a obrigação de acompanhar o lateral adversário, uma função muito mais complexa do que bloquear volantes centralizados.

D’Alessandro tem mais atribuições: ocupa uma faixa de campo mais extensa; com a bola precisa se movimentar com maior intensidade; e sem a bola precisa marcar um jogador de maior mobilidade. Vai da linha de fundo adversária à própria área, enquanto antes mantinha-se restrito a uma pequena região centralizada.

Resultado: D’Alessandro melhorou. E levou o Inter consigo. A mudança de posicionamento elaborada por Celso Roth elevou ao mesmo tempo os rendimentos do meia argentino e da equipe. D’Alessandro foi decisivo nos jogos pós-Mundial na conquista da Copa Libertadores 2010, e recebe a justa recompensa da convocação à seleção argentina.

A conclusão – julgando possível aplicar estes dois exemplos ao contexto da teoria tática – é lógica: exigir o cumprimento de funções complexas faz bem para os craques. D’Alessandro admite que não gosta de marcar, e que é muito mais difícil ser winger do que enganche. Mas o próprio desafio de se mostrar capaz do cumprimento da nova tática individual o leva a se estacar. Ele foi retirado da confortável missão de apenas jogar com bola no pé, e cercar volantes que pouco se movimentam – região e função defendidas por Renato Portaluppi nos casos de Souza e Douglas.

Jogadores de exceção não deixam de ser jogadores. Contar com eles também não significa ignorar a essência coletiva do futebol. Craques são capazes de desempenhar funções complexas, com a bola ou sem ela. São capazes, e devem cumprir. O conceito liberal “a concorrência leva à excelência”, no futebol, pode ser adaptado facilmente para “a exigência leva à excelência”. Não há mais espaço para exclusivos solistas. Cada um precisa carregar o próprio piano para tocá-lo.

Com Rafael Sobis, Inter no 4-2-3-1

28 de agosto de 2010 9

O técnico Celso Roth cogitou, a partir da saída de Taison, abdicar do 4-5-1 com três meias ofensivos (ou 4-2-3-1) com o qual conquistou a Copa Libertadores 2010. Segundo o treinador colorado, após a vitória sobre o Avaí, não há no grupo do Inter um atacante destro com as características do agora jogador do ucraniano Metalista – velocidade, principalmente.

Mas no treino de ontem, que acompanhei no gramado suplementar do Estádio Beira-Rio, Roth manteve o 4-2-3-1. Para sorte do Inter. A foto abaixo ilustra o posicionamento alinhado dos meias ofensivos, com Rafael Sobis aberto pela esquerda:

Não haveria motivo, acredito, para se abrir mão de um modelo vencedor pela pura ausência de Taison. Mesmo sem contar com característica idêntica no elenco, é mais fácil para Roth adaptar outro jogador à função, do que reestruturar o sistema da equipe em um período de jogos às quartas/quintas e sábados/domingos. Sem tempo para treinar, portanto. Faz parte do trabalho do técnico levar em consideração estes aspectos no planejamento tático, vinculando qualquer mudança à possibilidade de lidar com a periodização dos treinos.

Rafael Sobis, assim como Taison, é um atacante. Não velocista, mas tão definidor quanto. Caracterizou-se em 2006 pelos gols de fora da área. Como winger pela esquerda, pode repetir esta fórmula, cortando para o meio e concluindo. Movimento que coloca Kleber no jogo, levando a marcação, abrindo o corredor para o apoio do lateral-esquerdo.

Roth acerta ao manter o 4-2-3-1. E se Rafael Sobis não se adaptar, ainda acredito que é possível testar outros jogadores na mesma função (Marquinhos, Giuliano, Oscar, Edu…), recorrendo à mudança tática em última instância.

É um absurdo pensar o Grêmio no 4-5-1?

27 de agosto de 2010 125

Sei que este debate pode provocar atrito com a imensa comunidade de fãs do atacante Jonas, por exemplo. Portanto, antes de introduzir o assunto, lembro que o blog Preleção é um fórum para se discutir teoria tática e que é muito importante a participação construtiva dos leitores. Quem discorda da ideia por favor faça isto com argumentação.

Sem entrar no mérito político, organizacional ou estrutural, o Grêmio tem muitos problemas em campo. O principal é a falta de um bom primeiro volante, de um camisa 5 que ofereça verdadeira proteção à linha defensiva, com posicionamento correto, combate qualificado, e bom passe; depois há a carência de laterais, que pode ser resolvida com Gabriel, e com Lúcio retornando à boa forma; mas eu acredito, ainda, que a insistência no 4-4-2 para dar espaço a Jonas também possa ser relacionada entre os problemas.

Contra o Santos o Grêmio jogou no 4-4-2 (conforme o diagrama tático que abre o post). Renato Portaluppi formou a defesa convencional de quatro jogadores, alinhou dois volantes à frente, abriu Souza pela esquerda, deixou Douglas flutando entre a direita e a articuação central, liberou Jonas para se movimentar à vontade, e centralizou Borges no pivô. Os laterais receberam autorização para o apoio. Com marcação agressiva no campo adversário, este modelo funcionou bem no primeiro tempo, mas se desorganizou na segunda etapa.

Há muita instabilidade no meio-campo gremista. Boa parte dos jogadores oscilam demais em suas atuações. É um risco despovoar este setor. Quanto menos jogadores no meio-campo, maiores são as chances de perda da posse de bola, ou de vulnerabilidade defensiva. Acredito que o 4-5-1, qualquer que seja a variação, é uma boa alternativa para amenizar este desempenho desequilibrado dos volantes e meias.

Nesta projeção, é possível se cogitar a saída de Jonas, dando lugar a mais um volante, ou a mais um meio-campista ofensivo. Apesar dos muitos gols marcados – é um dos principais artilheiros do futebol brasileiro em 2010 – Jonas destaca-se pelo jogo para si. Ele é um atacante que não se integra ao coletivo. Quando recebe a bola, dribla até abrir espaço, e chuta. Faz poucas assistências, troca poucos passes, triangula pouco. Recebe e chuta. Assim fazia gols, mas quando não acerta o alvo, apenas devolve a bola para o adversário.

A primeira alternativa no 4-5-1 seria o desdobramento para o 4-2-3-1. Modelo que se tornou tendência após a Copa do Mundo. Com todos os bons jogadores à disposição, projetei o seguinte:

Gabriel e Lúcio apoiariam alternadamente, recebendo cobertura do respectivo volante do setor. No meio, Souza, Douglas e Maylson (ou Leandro) atuariam agrupados. Quando Souza recebesse na esquerda, atrairia Douglas para a triangulação, e Maylson ingressaria em diagonal para auxiliar Borges na área. Valeria o mesmo do lado contrário: Maylson (e Gabriel) com Douglas fechando o triângulo, Souza em diagonal na segunda trave. E um volante adiantando-se para o rebote ofensivo.

A outra possibilidade é o 4-3-2-1 “Árvore de Natal” – o sistema Christmas Tree de Carlo Ancelotti no Milan: tripé de volantes, dois meias centralizados e um atacante. Alternativa mais defensiva, concentrando ainda mais o posicionamento dos jogadores na faixa central, para proteger a defesa e manter a posse de bola com jogadas curtas.

Sei que é um tabu para os torcedores cogitar a troca de Jonas por um meia ou por um volante, principalmente porque as opções não empolgam: Maylson, Adilson, Leandro, Fernando, Magrão, Rochemback, Douglas, Souza…todos oscilam, todos alternam boas e más atuações. Mas o Grêmio está precisando de maior consistência no meio-campo. E a regularidade de atuações recentes de Jonas, dominando e chutando, tem sido baixa.