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Dunga esclarece: o critério é o desempenho na Seleção

A entrevista coletiva concedida no final da manhã de hoje pelo técnico Dunga evidenciou qual a hierarquia que rege o critério utilizado por ele nas convocações para a Seleção Brasileira. Está muito clara, ao menos para mim, a linha de raciocínio do treinador do Brasil. Pode-se discordar, mas tentando fazer uma análise alheia às paixões, o critério escolhido por Dunga segue uma lógica.

Dunga prioriza nas convocações jogadores que tiveram bom desempenho pela Seleção Brasileira desde que ele assumiu o cargo de treinador. Ponto. Este é o critério principal. Na hierarquia, o segundo critério é o comportamento deste jogador dentro da Seleção - conceituado por Dunga como “perfil de Seleção”. Só depois vêm o desempenho dos jogadores pelos clubes que defendem, e o comportamento deles fora de campo. O que ele realmente leva em consideração, reitero, são as atuações destes atletas pela Seleção com Dunga no comando, e como eles se comportam nos períodos de concentração para amistosos e jogos oficiais.

Isto ficou claro nas respostas de Dunga. Ele justificou a ausência de nomes com Fred, Vágner Love e outros citados pelos jornalistas dizendo que foram jogadores que não renderam o esperado na Seleção. O treinador reiterou este raciocínio quando justificou as convocações de nomes como Doni, Júlio Baptista e Kléberson - novamente, repetiu que estes jogadores tiveram bom desempenho na Seleção, treinados por Dunga, e ainda aliaram a estas atuações o bom comportamento que se encaixa no perfil de Seleção. Recomendo aos amigos que procurem vídeos da coletiva, encontrarão estes conceitos bem evidentes nas respostas do treinador.

Com isso, as novidades se excluem. Dunga não fará testes nem apresentará quaisquer surpresas para a Copa do Mundo, porque ele lida com uma base de dados referentes aos jogadores que ele treinou e aprovou na Seleção. São os casos de Doni e Júlio Baptista, reservas na Roma; Michel Bastos e Gilberto, laterais que atuam como meias; ou Kléberson. Pouco importa para Dunga se eles vão bem ou mal em seus clubes. Ao treinador, é relevante se foram bem na Seleção. Dá para enquadrar Nilmar nesta relação - apagado no Villarreal, muito bem na Seleção; ou Robinho.

Essa entrevista me faz deixar um pouco de lado esta crítica coletiva à “gratidão” de Dunga. Ele não convoca nomes em escancarada má fase nos clubes porque são jogadores que já “serviram à pátria” noutras vezes, e se dedicaram à causa. Mas sim por acreditar que estes nomes renderam, tiveram bom desempenho, quando convocados.

É o mesmo critério que exclui Ronaldinho e Alexandre Pato, por exemplo. Para Dunga, pouco importa se eles estão voando no Milan. Mas sim, ele leva em consideração as atuações desta dupla na Seleção Brasileira que comanda. E, com Dunga, nem Ronaldinho nem Pato foram bem.

Antes de me deparar com dezenas de comentários recheados de ódio e raiva contra mim, não estou aqui fazendo a defesa de Dunga. Eu não concordo com este critério. Mas este post se presta a debatar a análise da entrevista coletiva que o treinador da Seleção Brasileira concedeu. Nas respostas, ficou claro. Há um critério. E este critério obedece, pela ordem, à avaliação que Dunga faz do desempenho dos jogadores pela Seleção, não pelos clubes; e ao comportamento destes mesmos atletas quando convocados.

A partir daí, conclui-se que a lista dos 23 convocados para a Copa do Mundo está praticamente definida. Dunga vai chamar atletas com quem já trabalhou na Seleção, e sobre os quais lança boas avaliações de desempenho e de comportamento. Neste curto período até a divulgação da lista definitiva, acredito que os não-relacionados na convocação de hoje não conseguirão convencer Dunga do contrário pela simples boa fase nos clubes. O que importa, para Dunga, é o que ele viu destes jogadores na Seleção.

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Corinthians deve manter estrutura tática em 2010

O 4-5-1 (ou 4-2-3-1, para quem preferir) que levou o Corinthians ao título da Copa do Brasil em 2009 - variando para o 4-3-3 com Dentinho e Jorge Henrique adiantados pelos lados - deve se repetir neste ano. Esta é a projeção do amigo Dassler Marques, do Terra Esportes, que faz acompanhamento tático e compilação de bancos de dados para o jornalista Mauro Beting, referente aos ”quatro grandes” paulistas. Convidei o Dassler para falar sobre o Corinthians no terceiro post da série sobre os brasileiros na Copa Libertadores 2010 no blog Preleção. A palavra é dele:

“Apesar de o 4-2-3-1 ter sido o esquema de sucesso do segundo semestre de 2008 e em toda a temporada 2009, Mano Menezes iniciou 2010 indicando a possibilidade de alteração para o 4-4-2 (*com dois volantes e dois meias articuladores).

Nesse ano, ele começou com o 4-2-2-2, mas rapidamente percebeu que o time e o perfil do elenco são realmente propensos ao 4-2-3-1. Entre muitos fatores, Jorge Henrique rende mais pela faixa externa, e não pode ser meia ou segundo atacante no 4-2-2-2, pois isola o centroavante.

A defesa, por mais que Chicão e William não repitam o nível de outros tempos, deve permanecer assim, com Alessandro e Roberto Carlos nas laterais. Ao contrário de André Santos, RC é mais seguro na defesa. À direita no início do meio-campo, Elias é intocável. Seu parceiro está indefinido. Marcelo Mattos e Ralf, dois ótimos marcadores, disputam a posição. Hoje, a vantagem é do ex-Barueri, mas a história de Marcelo no Parque São Jorge pode pesar.

Na linha de três armadores, há dois nomes encaminhados. Jorge Henrique, provavelmente à direita, e Danilo, à esquerda. Tcheco seria o meia centralizado, mas isso pode mudar, com o trio mudando seu posicionamento: Tcheco na direita, Danilo por dentro e J.Henrique pela esquerda. Tudo depende do adversário e de como o time se encaixar melhor. Dentinho e Defederico são outras opções nesse setor, além de Iarley, que em tese é reserva de Ronaldo”.

Assisti no final de semana à goleada do Corinthians sobre o Sertãozinho, e percebi esta segunda alternativa tática explicada pelo Dassler Marques acima. Mas com outro desenho. Sem Ronaldo e Danilo, Mano Menezes jogou no 4-4-2 em duas linhas. No meio-campo, Elias e Marcelo Mattos jogaram por dentro; Tcheco posicionou-se aberto pela direita, e Jorge Henrique pela esquerda. Na frente, Iarley e Dentinho. Foi aberto pela direita que Tcheco fez a jogada do primeiro gol, e formou boa dupla com Alessandro. No outro lado, J.Henrique apoiava Roberto Carlos.

O treinador do Corinthians poderia ter mantido o 4-5-1 de sua predileção - aquele com cara de 4-3-3 do ano passado, recuando Dentinho e centralizando Tcheco (que cumpriria o papel de Douglas, hoje no Grêmio). Mas preferiu adiantar Dentinho, para jogar ao lado de Iarley na frente, e abrir Tcheco em um posicionamento semelhante ao que Paulo Autuori determinava a ele na temporada passada. São pelo menos três alternativas táticas proporcionadas pelo bom elenco do Corinthians. Isso que ficaram alijados, além de Defederico e Dentinho na projeção de time titular, nomes como Edno e Morais.

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Império do Amor indefine a tática flamenguista

Em 2009, o Flamengo conquistou o Brasileirão se utilizando do 4-5-1 com dois volantes e três meias ofensivos, também chamado de 4-2-3-1, no desdobramento em quatro faixas de campo. O principal movimento tático era o vai-vem de Zé Roberto como “winger” pela esquerda, avançando com a bola para assessorar Adriano no ataque, recuando sem ela para manter a linha de três meias.

Hoje dou sequência à série de posts sobre os clubes brasileiros na Copa Libertadores 2010 convidando o amigo e jornalista André Nunes Rocha a falar sobre o Flamengo. Acredito que este intercâmbio de informações, abrindo espaço para a análise de quem acompanha o dia-a-dia destes clubes, acrescenta muito para nosso debate aqui no Preleção. André comanda o blog Futebol e Arte, assina colunas nos sites Papo de Bola, Futnet e Jogo de Área (de Portugal). Ele também colabora com os jornalistas Mauro Beting e Lédio Carmona em seus blogs, escreve mensalmente para o site “Olheiros”, e participa do programa “Beting & Beting” do canal Bandsports. Com a palavra, André Nunes Rocha:

A saída de Zé Roberto, de volta ao Schalke 04, e a chegada de Vágner Love obrigaram o técnico Andrade a repaginar taticamente o Flamengo para a temporada 2010. O 4-2-3-1 que compactou os setores e deu liberdade a Petkovic e Adriano na arrancada que culminou no título brasileiro teve que ser desfeito. Apesar da aceitável disciplina tática do novo reforço, não há como o ex-Palmeiras e CSKA reproduzir o papel híbrido de Zé Roberto, que recompunha o setor esquerdo ou o central, revezando com o veterano meia sérvio, e virava um atacante com livre movimentação na retomada da bola.

Agora o campeão estadual e brasileiro tem uma dupla de atacantes de ofício que vem correspondendo em parceria e individualmente. Mesmo considerando o nível técnico indigente das equipes de menor investimento do Rio de Janeiro, os onze gols em apenas quatro partidas chamam a atenção. Mas se o rendimento ofensivo supera o de 2009, o time rubro-negro ainda não encaixou uma formação no meio-campo que dê segurança à retaguarda. A saída de Aírton para o Benfica, a contusão de Maldonado e a inconstância física de Willians, que só jogou o segundo tempo do clássico, contribuem para o cenário dramático de 12 gols sofridos em 6 jogos.

Como nas rodadas finais do Brasileiro, Toró herdou a posição do volante chileno e a ideia do técnico seria plantá-lo à frente da zaga, com Willians novamente ocupando o setor direito, mas com atribuições defensivas mais rígidas, e Kléberson, de volta ao time titular depois de se recuperar de lesão no ombro, pela esquerda. À frente deles, um Petkovic mais solto na ligação com o ataque. Na prática, um losango. Em números, um 4-3-1-2 (*ou, como convencionei no Preleção, o 4-4-2 com meio-campo em losango).

Com os seguidos problemas de Willians, Fernando, contratado ao Goiás, foi efetivado na equipe. Ele deveria ocupar o setor esquerdo, com Kléberson mudando de lado. Porém o novo reforço fica mais recuado e centralizado, quase ao lado de Toró, configurando um 4-2-2-2 (*ou um 4-4-2 com meio-campo quase em quadrado) que deixa a defesa vulnerável. Ainda mais com a lentidão do volante na cobertura a Juan, lateral que é frágil no confronto direto e concede generosos espaços pelo seu setor.

Outro problema é Pet, que se reapresentou em péssimas condições físicas e, embora tenha marcado um golaço na vitória por 3 a 1 sobre o Volta Redonda, partida que marcou o seu retorno à equipe, atrapalha pela morosidade na criação das jogadas e a participação incipiente no combate. A atuação constrangedora contra o Fluminense e a posterior indisciplina que causou seu afastamento abriram espaço para a entrada de Vinicius Pacheco, jogador irregular que vem tendo um bom início de ano. Também porque mostra sintonia fina com Love e o Imperador na frente, além de ajudar no combate aos volantes adversários.

As peças de reposição também deixam a desejar. Everton Silva não inspira tanta confiança, a ponto de Andrade ter preferido improvisar Fierro na vaga de Léo Moura contra o Flu. O próprio meia chileno, apesar da velocidade e disposição pela direita, não é um reserva à altura para Willians ou Kléberson. Michael, Rodrigo Alvim e Ramon são outras contratações  incapazes de empolgar e formar um grupo confiável para o desafio maior do clube em 2010: ultrapassar a “barreira” das oitavas-de-final na Taça Libertadores da América.

Andrade vai trabalhando para alcançar um mínimo de consistência visando às semifinais da Taça Guanabara e a estreia na competição continental. A meta é recuperar boa parte da solidez defensiva do ano passado e fazer a bola chegar com mais rapidez e facilidade à dupla de ataque que funciona e, por enquanto, é o único ponto positivo do campeão brasileiro na temporada“.

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Com Pandev, Mourinho se realiza

Algumas vezes já citei em análises da Inter de Milão o livro “Mourinho: o porquê de tantas vitórias“, no qual o técnico português se diz adepto de apenas dois sistemas táticos. Em qualquer equipe ele adota somente o 4-4-2 com meio-campo em losango, ou o 4-3-3. Segundo Mourinho - sempre é bom lembrar - o 4-3-3 é mais completo, proporcionando melhor ocupação de espaços; mas o 4-4-2 em losango, por ser “incompleto”, mantém seus jogadores em mais intenso estágio de concentração.

Conforme o elenco e as necessidades das equipes que dirige, Mourinho define o sistema predileto, e o alternativo. No Porto e no Chelsea, tinha o 4-3-3 como preferencial; na Inter, é o 4-4-2 em losango sua primeira escolha.

Pandev, recente reforço da Inter, permite a Mourinho usar seus dois sistemas táticos na mesma partida. O português deve estar realizado. O ex-jogador da Lazio concilia habilidades de articulador, e virtudes de centroavante. Compromete-se com o posicionamento, marca, compreende as funções que desempenha.

Hoje, contra o Cagliari, Pandev claramente transitou entre a ponta-de-lança do 4-4-2 em losango, e entre uma das três frentes de ataque do 4-3-3. Posso estar enganado - e abro o debate para quem também assistiu à vitória de 3 a 0 do time de Mourinho - mas esta troca de posicionamento e função de Pandev não me pareceu restrita a um dos sistemas apenas. Configurou, para mim, variação tática.

Sem a bola, Pandev completava o losango. Tendo Zanetti à direita, Thiago Motta à esquerda, e Cambiasso no vértice central de proteção da linha defensiva. Recuperada a bola, Pandev algumas vezes se mantinha neste sistema, recebendo a bola para a transição ofensiva, articulando o ataque como faria o Sneijder se ali estivesse.

Mas noutras vezes, recuperada a posse, Pandev passava da linha de Eto’o e Milito. Ingressava na área, ou empurrava um deles para esta região, passando pelo lado. Pandev se transformava em centroavante nato, ou em atacante pelo lado. Não é um movimento natural do ponta-de-lança no 4-4-2 com meio-campo em losango. É uma variação, e muito interessante. Possível devido à característica de Pandev, à sua entrega e inteligência tática.

Com esta contribuição tática importante, que permite à Inter variar do 4-4-2 para o 4-3-3 no mesmo jogo, e em grande fase técnica, Sneijder deve procurar outro alvo para substituir quando retornar. Pandev não pode sair do time.

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Juventus reforça na Itália o renascimento do 3-5-2

Na temporada passada assistia a apenas duas equipes se utilizarem do 3-5-2 no Campeonato Italiano. Foram o Napoli e a Sampdoria, cada um com características bem próprias, e por pouco tempo. Neste ano, o número sobe para três, e em outros lugares: já falei aqui do Livorno e a marcação por zona aplicada ao 3-5-2, hoje o Cagliari também usou o mesmo sistema - e perdeu para a Inter - e ontem a Juventus deu início à nova formação, empatando em 1 a 1 com o Livorno, em confronto espelhado.

Zacheroni, novo técnico da Juventus, é o responsável pela adoção do 3-5-2. Após substituir Ciro Ferrara, ele manteve o 4-4-2 com meio-campo em losango herdado de seu antecessor por apenas uma rodada. Ontem, recorreu ao sistema com três zagueiros. Não sei com qual justificativa, não pude acompanhar o debate na imprensa local, nem as justificativas de Zacheroni.

Na primeira amostragem, o 3-5-2 da Juventus apresentou vários problemas, muitos deles reafirmados pelos clubes brasileiros que também atuam com três zagueiros. O principal defeito foi a total desarticulação da equipe. Diego atuou isolado em uma faixa de campo entre a linha divisória e a intermediária defensiva, de lateral a outra. Facilmente marcado, desapareceu. E, com ele, a articulação da Juventus.

A desarticulação do time de Zacheroni tem diagnóstico. O primeiro é a escolha de um triângulo com base baixa no meio-campo. A Juve entrou em campo com três zagueiros e dois volantes. Cinco defensores, portanto. Diego adiantou-se, para encostar nos atacantes Del Piero e Amauri, mas sozinho contra pelo menos dois marcadores, foi o Diego dos maus jogos - caindo demais, pedindo faltas, desarmando-se a toda hora.

O segundo diagnóstico é a incompatibilidade dos alas com o 3-5-2. Nem o uruguaio Cáceres nem o italiano Grosso são jogadores adequados aos sistemas com três zagueiros.  Cáceres apoia pouco, e sem qualidade. É muito mais um defensor do que um apoiador. Grosso também se sai melhor no combate do que na passagem.

Contra o Livorno, Legrottaglie não foi líbero. Atuou como zagueiro central. Com Cannavaro à direita, e Chiellini à esquerda. Felipe Melo e Candreva protegeram o trio, com os alas a eles alinhados. Sete jogadores no campo defensivo, e todos com muita dificuldade de avançar. Diego sucumbiu, Del Piero e Amauri não foram abastecidos, e a Juventus tornou-se dependente da bola parada. Fez gol de bola parada. Alguma semelhança com o 3-5-2 brasileiro?

Não sei se a Juventus de Zacheroni vai insistir no 3-5-2. Mas uma constatação é clara. Juventus no 3-5-2 é diferente de Napoli, Sampdoria, Livorno ou Cagliari. É um grande, é um enorme clube italiano. No Brasil, tudo o que é usado na Europa torna-se tendência anos depois. Tanto é que o 3-5-2 chegou aqui já aposentado no Velho Continente.

Agora, redivivo por Zacheroni na Juventus, o sistema com três zagueiros pode servir de referência por aqui. Ou justificando quem já se utilizada dele, ou influenciando os demais. Aguardemos os resultados desta Juventus para poder medir qual será a repercussão do 3-5-2 de Zacheroni por aqui.

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O 4-3-3 do Cruzeiro contra o Real Potosí

Hoje abro uma série de posts sobre os brasileiros na Copa Libertadores falando sobre o Cruzeiro. Fica até difícil se basear no diagrama tático que ilustra o post, apontando o posicionamento inicial dos jogadores do Cruzeiro na vitória de 7 a 0 sobre o Real Potosí, ontem, pela Libertadores. Houve muita movimentação, trocas e inversões de posicionamento, obedecendo a uma proposta ofensiva avassaladora.

Adilson Batista adotou o 4-3-3 para massacrar o frágil time boliviano. E acertou. Além dos sete gols, poderia ter marcado outros sete. Ou mais. Ao sistema tático naturalmente ofensivo, soma-se uma estratégia que reúne linhas adiantadas, apoio dos laterais, avanço dos meias, e incessantes trocas de posição do meio para a frente.

Originalmente, o meio-campo teve Elicarlos com vértice de um triângulo com base alta. Henrique - pela direita - e Marquinhos Paraná - na esquerda - foram os apoiadores, marcando sem a bola e articulando com ela. No ataque, Kleber começou pela esquerda, com Wellington Paulista centralizado, e Thiago Ribeiro na direita. Mas não foram poucas as vezes em que Kleber ingressou pelo meio, tendo T.Ribeiro na esquerda, e W.Paulista na direita. Assessorados por Elicarlos, recuando Henrique…um repertório extenso de variações e de movimentos sincronizados.

É evidente, entretanto, que este 4-3-3 com dois meias adiantados e laterais com liberdade para apoiar não será o usual do Cruzeiro em 2010. A circunstância pediu, Adilson Batista foi inteligente em perceber que seria viável. Acredito que o sistema tático preferencial permanecerá o 4-4-2 em losango no meio-campo, conforme diagrama abaixo:

Nesta formação, Fabrício assume o vértice primeiro, protegendo os zagueiros, e Gilberto substitui um dos atacantes, como ponta-de-lança. Também pode ser Roger, recém-contratado, o escolhido para desempenhar esta função. Na frente, suponho que Thiago Ribeiro deixe o time, mas Adilson deve ter apenas Kleber como titular absoluto, escolhendo entre o velocista T.Ribeiro, ou entre o centroavante W.Paulista, conforme as características do adversário.

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A gênese da catimba argentina nos anos 60

Depois de alguns dias de muita correria, consigo hoje retomar a série de posts sobre o livro Inverting the Pyramid, do jornalista inglês Jonathan Wilson, sobre a evolução tática do futebol. Não dissecarei o capítulo sobre o Catenaccio, porque recentemente falamos sobre este sistema aqui no Preleção. Hoje, o assunto é o surgimento de um estilo de jogo diferente na Argentina: a catimba.

Primeiro, a contextualização histórica de Jonathan Wilson, jornalista muito aplicado na recuperação de fatos, com pesquisas e entrevistas. Segundo o Inverting the Pyramid, tudo começou com a falsa impressão - entre os argentinos - de que eles praticavam um futebol de exceção, nos anos 50. Percepção que não se sustentava, pelo isolamento do futebol no país, distante dos confrontos com equipes estrangeiras e seleções. Não havia base de comparação.

Ainda no jurássico 2-3-5, a Argentina foi massacrada pela Checoslováquia na Copa de 58, por 6 a 1. Foram à Suécia acreditando-se os melhores, retornaram cheios de dúvidas. De imediato, importaram o 4-2-4 brasileiro, sem passar pelo estágio do W.M que já caía em desuso no Mundo. Abriam-se, portanto, às tendências táticas. Pretendiam evoluir.

Mas os reveses nas copas persistiram. Jogar bonito, ter técnica, procurar o gol, nada disto bastava. A Argentina buscava um padrão, uma característica, uma tradição. Como acontecera aos húngaros e austríacos da Danubian School, ou aos russos da desordem organizada, ou aos ingleses do W.M, ou até mesmo aos vizinhos brasileiros e seus virtuosos jogadores no 4-2-4.

Era preciso ter vontade de vencer. Ou melhor: vencer a qualquer custo. Aos poucos, os clubes argentinos começavam a aplicar ao 4-2-4 uma estratégia de jogo que para os perplexos olhos estrangeiros foi rotulado de anti-jogo, ou catimba. Ao invés de jogar bonito e tentar o gol, a meta passava a ser a marcação forte, o aguerrimento, e a fortaleza defensiva.

Essa característica tomou forma nas conquistas argentinas na Copa Libertadores, nos anos 60. Primeiro com o Racing, depois com o Estudiantes do técnico Zubeldia - equipe tricampeã continental, difusora de uma centena de folclores por eles negados, mas pelo mundo confirmados, de violência física (socos e chutes que até mesmo fraturas provocavam), intimidação psicológica (ameaças a adversários, uso de informações pessoais para desestabilizá-los), e a aplicação de agulhas (”pinchas”) para espetar adversários.

As intimidações relatadas por Jonathan Wilson chegam a ser, de tão absurdas, engraçadas. Comandados por Bilardo, volante que representava em campo as orientações de Zubeldia, os jogadores do Estudiantes esmeravam-se em desestabilizar os oponentes. Em um jogo, descobriu-se que um adversário manteve relacionamento quase incestuoso com a mãe, recém-falecida. Um jogador do Estudiantes se aproximou dele e falou - segundo o Inverting the Pyramid: “parabéns, até que enfim você conseguiu matar a própria mãe”.

Mas o Estudiantes tricampeão da Libertadores não era apenas o precursor da catimba, representante de um futebol que ultrapassava a virilidade para chegar à violência. O time de Zubeldia trouxe à Argentina duas inovações estratégicas aplicadas ao 4-2-4: a marcação-pressão e a linha de impedimento. O Estudiantes se adiantava, mesmo sem a bola posicionava-se à frente da própria intermediária. Retirava espaço do adversário, e combatia quem recebia a bola com dois ou três jogadores. Os pontas - La Bruja Verón e Ribaudo - auxiliavam a preencher o meio-campo, como faziam os “tornantes” do catenaccio italiano (wingers avançados com a bola, recuados sem ela).

Os recursos de anti-jogo ficaram, entretanto, mais conhecidos do que a linha de impedimento e a marcação-pressão adiantada em função dos confrontos com os clubes europes, em dois jogos, nas finais dos Mundiais Interclubes.

LEIAM MAIS:

1) Primeira tática do futebol se inspirou no rugby

2) Novo impedimento provoca 1ª variação tática

3) As primeiras escolas clássicas de futebol

4) O revolucionário W.M de Herbert Chapman

5) Itália reúne dois sistemas e cria o W.W

6) Russos inauguram as trocas de posições

7) A interpretação dos húngaros para o W.M

8 ) O 4-2-4 do Brasil bicampeão Mundial

9) Zagallo disseminou as variações táticas

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Livorno inverte a pirâmide

A constatação mais interessante do livro Inverting the Piramyd, do jornalista inglês Jonathan Wilson, é exatamente o título da obra. Depois do 2-3-5, primeiro sistema tático nitidamente mais organizado da história, a evolução tática levou a uma inversão daquela pirâmide inicial. A base, que ficava no ataque, passou para a defesa.

E o italiano Livorno finaliza este processo, jogando em um 3-5-2 com cara de 5-3-2. A inversão total da pirâmide. Cinco defensores, três jogadores de meio-campo, e dois atacantes. Ao menos, foi assim no empate de domingo contra o Milan, por 1 a 1.

A diferença deste 3-5-2 do Livorno para os sistemas com três zagueiros utilizados no Brasil é o sistema de marcação. Não há perseguições individuais. Os zagueiros não marcam os atacantes, nem os volantes pegam os meias, muito menos os alas batem com os laterais adversários. O Livorno marca por zona. Nunca tinha visto marcação por zona no 3-5-2, acreditava que nem era possível, mas hoje assisti à integra da partida, e foi o que vi.

Com a marcação por zona, os alas não perseguiram individualmente os laterais do Milan. Alinharam-se aos zagueiros, sem a bola, bloqueando a entrada da área com cinco jogadores. Desta forma, o ala-direito Filippini cuidava de Ronaldinho, e o ala-esquerdo Pieri de Beckham. Sobravam três zagueiros para marcar Borriello, sem que nenhum tivesse esta incumbência clara. O centroavante do Milan era combatido pelo “dono” da zona onde ele ingressava. Este movimento permitia aos demais zagueiros adiantarem-se, marcando à frente, e tirando espaços da articulação rossonera.

Os três meias também marcaram por zona. Alinhados, assim como zagueiros e alas. E, como é comum às marcações por zona, realizavam a basculação para os lados. Quando o Milan subia pela esquerda, Raimondi combatia o lateral, para permitir a Filippini a marcação sobre Ronaldinho. Os outros meias se aproximavam para a cobertura. O mesmo acontecia na esquerda. Pulzetti no lateral, permitindo a Pieri pegar Beckham.

Quando Ronaldinho, por exemplo, buscava uma diagonal, não era Filippini quem o perseguia. Mas sim um dos zagueiros adiantava-se. Marcação por zona. Na essência, pressão exercida sobre a bola, não sobre o adversário. Um 3-5-2 diferente, com cara de 5-3-2, e com uma bela demonstração, aos treinadores brasileiros, de que é possível jogar defensivamente sem desorganizar a equipe.

Afinal, no 3-5-2 à brasileira, as marcações individuais por função “bagunçam” o posicionamento inicial da equipe. Quando a bola é recuperada, não há saída organizada. Marcando por zona, o Livorno mantém a estrutura da equipe, sem se emaranhar. Na transição ofensiva, os jogadores estão bem posicionados. Sem posse de bola - 34% apenas - mas com muita segurança ofensiva e agilidade no contra-ataque, o Livorno empatou em 1 a 1 fora de casa, saindo atrás no marcador.

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Silas tentou frear o Inter, mas parou o Grêmio

Volto ao velho clichê do blog Preleção: quem joga para empatar, perde; e quem joga para perder, geralmente consegue. Estive ontem no Estádio Colosso da Lagoa, acompanhando o Gre-Nal 379, e constatei que esta máxima se aplica ao planejamento de Silas para o clássico. O Inter teve méritos, conta com um elenco mais qualificado, mas a vitória colorada teve grande contribuição do treinador adversário.

Silas errou na escolha do sistema tático, na escalação, na estratégia aplicada a este sistema, e nas substituições. Antes do jogo, ele atribuiu o 3-5-2 com três zagueiros rígidos, dois volantes sem capacidade de criação e um lateral defensivo aos muitos gols sofridos nas partidas anteriores. Silas exaltou a boa fase de Jonas e Borges, e disse o seguinte - não é literal, mas foi mais ou menos assim: “precisamos consertar lá atrás, porque na frente o Jonas e o Borges estão fazendo gols”. Errado.

O resultado deste raciocínio é simples: na tentativa de ajustar a defesa e bloquear o Inter, Silas na verdade desabasteceu o ataque do Grêmio. Afinal, como Jonas e Borges poderiam continuar marcando gols, se o Grêmio posicionou-se defensivamente com até - muitas vezes - todos os seus jogadores da intermediária para trás? O 3-5-2 gremista não freou o Inter, mas sim parou o próprio Grêmio.

Na linha defensiva, Mário pegou Taison, e R.Marques/Maurício se alternaram entre Alecsandro e sobra. À frente deles, Adilson e Ferdinando praticamente alinhados. Adilson, com a bola, mais à esquerda. Mas, sem ela, perseguindo Giuliano. Joilson pouco apoiou, preocupado com Kleber. Jonas recuava para fechar o lado e acompanhar Eller. Lúcio, Souza e Borges, com isso, praticamente não conseguiam jogar, pela distância entre os jogadores, e pela vocação defensiva das perseguições individuais típicas do 3-5-2 brasileiro.

Não citei Ferdinando porque ele não teve função. Ele ficava transitanto na intermediária defensiva, ora cobrindo Mário Fernandes, ora auxiliando Adilson e o próprio zagueiro da direita no combate às triangulações de Taison, Giuliano e Kleber. Na prática, ele não tinha utilidade para a equipe. E, tecnicamente, Ferdinando novamente não justificou a sua indicação por Silas. Tampouco, tornou ainda mais incompreensível sua titularidade incontestável. Ferdinando joga em todas, mas sempre joga.

Para encerrar a série de erros, Silas fez uma troca incompreensível. Tirou Jonas e colocou Hugo, quando a partida estava empatada. Lançou o jogador mais ofensivo do banco de reservas - um meia- para retirar um atacante. Abriu mão da vitória, como já demonstrava ter feito antes da partida. Seria mais lógico retirar o zagueiro Maurício, colocar Hugo, e reconstituir o 4-4-2 com dois meias. Sigo acreditando que a melhor maneira de enfrentar o 3-5-2 - e era o caso do Inter - é ocupar os espaços do meio-campo, com superioridade numérica, e qualidade técnica. Silas poderia ter feito isso no 4-4-2, com Hugo em campo. Preferiu jogar para segurar o Inter.

O Inter de Jorge Fossati também atuou no 3-5-2. Mas com equilíbrio. Soube se defender, precavendo-se das virtudes adversárias, e também quis jogar. Jogou. O Inter venceu por 1 a 0 com merecimento, criou diversas oportunidades de gol, e poderia ter conquistado uma vitória por placar maior. Foi superior, controlou a partida, e não correu riscos.

Sem D’Alessandro, Fossati fez a troca simples por Giuliano, e manteve Taison no time, sem lançar mão de Andrezinho. Acertou. Com o Grêmio programado para fazer perseguições individuais sobre os jogadores colorados, a movimentação constante do meia e do atacante do Inter indefiniram a marcação na frente da área.

Giuliano, na teoria, deveria ocupar a faixa direita, chamando Nei para o apoio. Seria acompanhado por Adilson, volante da esquerda do Grêmio. Mas Giuliano muitas vezes procurou Taison pela esquerda, trazendo Kleber consigo, e criando uma triangulação que desorganizava o Grêmio. Afinal, Adilson acompanhava Giuliano e se sobrepunha a Ferdinando. Retomada a bola, o Grêmio estava todo emaranhado, sem conseguir a saída rápida.

Também pela esquerda, Eller auxiliou Kleber, empurrando o lateral para a diagonal e ocupando a faixa lateral. Esta é a maior virtude do Inter, mas também um movimento que precisa ser reproduzido no outro lado. O Inter joga muito bem pela esquerda. Entretanto, só pela esquerda. Taison, Kleber, Eller, Guiñazu e por vezes Giuliano atuaram neste setor no Gre-Nal. Na direita, Nei contou apenas com o assessoramento de Sandro, e por vezes de Giuliano.

Falando em Sandro, para encerrar a análise do Gre-Nal de ontem, considero o camisa 8 colorado o melhor do clássico 379. Marcou com grande vigor, proporcionou uma saída de bola qualificada, combateu e jogou, e mostrou como deve jogar um volante.

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O Wolfsburg que Réver vai encontrar

Hoje o Wolfsburg, futuro time do ex-zagueiro gremista Réver, empatou com o Hamburgo - 1 a 1, pelo Campeonato Alemão. Excelente oportunidade para falarmos sobre esta equipe que no ano passado conquistou seu primeiro título da Bundesliga, mas que nesta temporada enfileira maus resultados.

O Wolfsburg atua no 4-4-2, com meio-campo em losango. A estratégia aplicada a este sistema tático, entretanto, é bastante defensiva. Josué, primeiro vértice da figura geométrica, joga poucos metros adiante da linha defensiva. Ele se posiciona centralizado na intermediária, movimenta-se pouco, atendo-se exclusivamente à proteção dos zagueiros, e à cobertura das diagonais ofensivas dos adversários. Na linha defensiva, os laterais também apoiam pouco.

Com cinco jogadores prioritariamente defensivos, o Wolfsburg sobrecarrega os meias criativos. Na segunda linha do losango, Gentner e Hasebe abrem pelos lados. Eles reprisam os carrilleros argentinos, ou os box-to-box ingleses, como é comum nos 4-4-2’s em losango: sem a bola, marcam e combatem no auxílio ao volante central; com a bola, apoiam pelos lados e tentam chegar na área adversária.

Misimovic é o cérebro da equipe, praticamente abandonado na tarefa de distribuir as jogadas. Na frente do articulador do Wolfsburg, há uma dupla que beirou a genialidade na temporada passada: o brasileiro Grafite à direita, e o bósnio Dzeko à esquerda. Sou grande fã de Dzeko. Ele e Grafite aliam força física e tempo de bola para as disputas pelo alto - como centroavantes, e velocidade, explosão e técnica para as jogadas que partem de fora da área para dentro - como atacantes de movimentação.

Réver deve rivalizar por posição com o italiano Barzagli, que atua pelo lado esquerdo - assim como Réver e, portanto, é quarto zagueiro. Barzagli é considerado o herdeiro de Cannavaro na seleção Azzurra. Faz 29 anos em maio, e além do Wolfsburg - onde atua desde 2008 - já passou por Chievo e Palermo. É um jogador técnico, assim como o ex-gremista: em 19 jogos na Bundesliga 2009/2010, levou apenas dois amarelos, e nenhum vermelho. Mede 1,86m e pesa 79kg. Estava no grupo campeão mundial da Itália na Copa de 2006.

Além de se preparar para a disputa com um jogador de certo prestígio na Europa, Réver precisa estar atento para algo ainda mais importante: ele será muito exigido. O posicionamento inicial dos jogadores, e a estratégia aplicada ao 4-4-2 em losango, fazem do Wolfsburg uma equipe muito recuada e defensiva. Desta forma, é natural que o adversário tenha mais posse de bola, e consequentemente crie muitas chances de gol.

No empate de hoje, o Wolfsburg teve apenas 30% de posse de bola. Passou 70% do jogo sendo atacado. A bola passa muito tempo no campo do atual campeão alemão. Réver precisará, caso ganhe a disputa com Barzagli, atuar em estado de alerta constante. A bola vem por cima, por baixo, por todos os lados. Talvez esta estratégia explique a má fase da equipe na Bundesliga: quem atrai o adversário e abre mão da posse de bola corre o risco de perder pela insistência.

Afinal, a melhor maneira de frear um adversário é manter a posse de bola, e não esperar por ele.

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