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Posts na categoria "Copa do Mundo de 2010"

Possibilidades táticas da decisão entre Holanda e Espanha

11 de julho de 2010 2

Prefiro sempre a análise à projeção, ou seja, a interpretação do que aconteceu acima da projeção - com margem maior ao equívoco, porque raros são os treinadores que divulgam escalações e estratégias com antecedência. Ainda assim, é obrigatório ao menos tentar prever o que Espanha e Holanda vão apresentar na decisão da Copa do Mundo 2010.

Baseado na semifinal contra a Alemanha, acredito que a Espanha vai manter o 4-1-4-1. Foi com este sistema tático que o técnico Vicente del Bosque conseguiu compensar os problemas físicos de Fernando Torres. O treinador abriu Pedro e Iniesta pelos lados, centralizou Villa no ataque, e recuou Busquets na comparação com Xabi Alonso.

Este desenho permite à Espanha expandir o repertório ofensivo. Se no 4-4-2 quase à brasileira a Fúria centraliza demais as tabelas curtas centrais, com o 4-1-4-1 ela agrega a profundidade das jogadas pelos lados. E estas projeções de Iniesta e Pedro podem até mesmo, abrindo a marcação, oferecer espaços aos meias nas tabelas centrais de predileção da Espanha. Ou seja: rodar a bola, bagunçar o posicionamento da linha defensiva, até encontrar o espaço para a infiltração e para o passe derradeiro.

A Holanda vai manter seu 4-3-3 característico. O meio-campo tem triângulo de base baixa, com dois volantes protegendo a linha defensiva, e um ponta-de-lança responsável pela aproximação e pela organização. Sneijder cumpre este papel. À frente, dois pontas de "pés invertidos" bem abertos pelos lados - o destro Kuyt na esquerda, o canhoto Robben na direita - e Van Persie como centroavante de referência.

O modelo tradicional de jogo holandês também leva à centralização das jogadas. Por motivos óbvios. Os pontas cortam para dentro, carregando a bola conforme o pé preferencial. Neste espaço deixado por eles, entretanto, os laterais pouco avançam. Sneijder permanece centralizado, e os volantes não passam por trás dos ponteiros. A movimentação volta-se quase que exclusivamente à aproximação dos pontas com Sneijder e Van Persie, pelo centro.

Será um embate tático muito acentuado. As duas equipes chegam à decisão com méritos sem depender do brilho de apenas um jogador. Ambas têm seus protagonistas - Villa e Sneijder são os maiores - mas suas campanhas baseiam-se nos conjutos. Boas equipes, com táticas elaboradas, estratégias adequadas a seus elencos, jogadores abnegados no cumprimento das funções, e muita aplicação no combate às virtudes adversárias. Aprofundei o debate, a respeito de toda a Copa do Mundo, neste link.

Neste cenário, a Espanha leva pequena vantagem. Enquanto a holanda conta com Sneijder e Robben para sacar, de improviso, uma jogada que desconstrua a organização adversária, a Espanha tem maior quantidade de jogadores mais técnicos e em melhor momento - Villa, Iniesta, Xavi - além de uma linha defensiva mais segura. Isso não é indicativo de vitória certa da Espanha, mas sim de uma tendência que precisará contar com a mesma organização demonstrada até aqui para se comprovar na prática.

O Mundial da organização tática

10 de julho de 2010 10

Períodos históricos sucedem-se pela necessidade de grandes mudanças, a partir de constatações ou descobertas. Foi pela agricultura e pela pecuária que os povos nômades passaram da Pré-História à Idade Antiga; os grandes impérios foram substituídos por pequenos feudos independentes; o comérico restabelecido provocou o início da Idade Moderna; o fim da teocracia e as reunificações nacionais marcaram a transição para a contemporaneidade.

O mesmo acontece na literatura. Novas escolas em contraposição às estabelecidas, como na objetividade parnasiana em sequência ao romantismo subjetivo. E em praticamente todas as demais áreas do conhecimento humano. Um novo pensamento modificando o padrão vigente, respondendo perguntas antes desconhecidas ou ignoradas, procurando soluções ao esgotamento dos modelos decadentes.

No futebol é diferente. As novas eras não contrapõem as anteriores. Agregam-se a elas, e as complementam. Ampliam a paleta de características com a qual o futebol se colore à observação pública.

Em sua gênese, o futebol prescindia da coletividade. Era um esporte individual, mesmo em equipes. Sua primeira Era foi técnica. Os jogadores foram desenvolvendo fundamentos, qualificando o passe, a conclusão, descobrindo o uso da cabeça no contato com a bola. O indivíduo acima do coletivo.

Depois veio a Era Física. Desenvolvimento da preparação, sem se contrapor à técnica. O futebol não abandonou a valorização da habilidade individual. Mas agregou ao talento natural o condicionamento físico. O importante, além de saber jogar, era ter força e fôlego para se impôr ao adversário.

Massificado, envolvido em interesses populares, o futebol viveu também uma Era Psicológica. Motivação, concentração, comprometimento, empenho, entrega, aguerrimento. Novamente, sem alijar os períodos anteriores do processo. Somou à técnica e ao condicionamento físico o preparo emocional.

O Mundial da África do Sul apresenta-se como o marco de uma nova fase. A Era Tática. O futebol enfim como um esporte coletivo, sobrepondo a organização e o planejamento às virtudes já adquiridas. Jogadores técnicos, em condicionamento físico de alto nível, motivados e equilibrados emocionalmente, mas profundamente ligados a aspectos como posicionamento e cumprimento de funções complexas.

Essa constatação, entretanto, não menospreza todo o desenvolvimento tático que aconteceu paralelamente às eras anteriores. A evolução analisada pelo jornalista britânico Jonathan Wilson no livro Inverting the Pyramid é oportuna, relevante, e justa. Os treinadores sempre buscaram aliar a organização coletiva às questões individuais. Desde o começo, com o 1-2-7, passando pelo 2-3-5, pelo W.M, pelo W.W, pelo 4-2-4, pelo 4-3-3, pelo 4-4-2, pelo 3-5-2, pelas duas linhas, pelo 4-5-1 e todas as suas variações...desenvolvendo à reboque estratégias diferentes, combinadas a sistemas de marcação.

Mas as grandes referências são isoladas. A revolução do 4-2-4 brasileiro no final da década de 50 influenciou toda uma geração de times e seleções, assim como aconteceu ao W.M de Herbert Chapman, ou ao 4-3-3, ou ao 3-5-2 das copas de 86 e 90. Padrões disseminados, comprados como verdades absolutas pelos demais. A exceção é o 1-3-3-3 do Carrosel Holandês, que conseguiu ser diferente em meio aos modelos rígidos compartilhados pela maioria.

Na África do Sul houve mais do que isso. Em um único Mundial, assistimos a variados sistemas táticos. Praticamente todas as seleções com uma característica própria. Não houve um padrão de comportamento, nem tático, nem estratégico.

As quatro semifinalistas são equipes organizadas. Holanda, Uruguai, Alemanha e Espanha têm craques, têm bons jogadores, mas sem nenhuma individualidade de supremacia absoluta sobre os demais mortais da Terra. Contaram com grandes atletas, técnicos e talentosos, bem condicionados e concentrados.

Mas quem é o craque indiscutível da Copa? O indivíduo absolutamente acima de todos. Não tivemos um Pelé. Um Maradona. Um Ronaldo. Um jogador que decidisse a Copa sozinho. Não. As melhores seleções da Copa chegaram a este patamar por serem as equipes mais organizadas, melhor planejadas taticamente.

Os treinadores parecem agora estudar mais as características de seus elencos, partindo daí ao planejamento coletivo. Parecem também estudar mais as virtudes e defeitos dos adversários. Há pequenas e grandes variações, e dentro de um único jogo foi possível assistir de lado a lado verdadeiros embates entre estrategistas. Com técnica, com preparo físico, com equilíbrio emocional, mas acima de tudo com organização coletiva.

Este é o legado da Copa da África do Sul. Um futebol mais enxadrista. Um futebol como esporte eminentemente tático, estratégico, organizado. E coletivo.

A Seleção da Copa do Mundo

09 de julho de 2010 40

Este é o tipo de debate que precisa excluir todos os raivosos que saciam o prazer de disseminar agressividade nos espaços abertos à interatividade. Mas assumo o risco de escolher uma Seleção da Copa do Mundo - risco ainda maior porque a decisão do 3º lugar, e a finalíssima, ainda não foram disputadas. Vale destacar que essa eleição é uma brincadeira e, apesar de levar em consideração meus critérios de avaliação, esta sujeita a cometer pequenas injustiças, compreensíveis.

Sistema tático: optei pelo 4-5-1 com dois volantes e três meias, desdobrado em 4-2-3-1, por ser um dos sistemas mais utilizados na África do Sul. Quase metade das 32 seleções tiveram este modelo como o prioritário, ou como variação em algum momento.

Treinador: tomo a liberdade de eleger Oscar Tabárez, do Uruguai. Técnico que abdicou do sistema com três zagueiros, engessado, com o qual teve de sofrer para passar pela Costa Rica na repescagem das Eliminatórias. Na Copa, após empatar com a França, adotou o 4-4-2 com meio-campo em losango, encontrou no enganche a função ideal para Forlán, e fortaleceu o sistema defensivo com um belíssimo trio de volantes. Foi inteligente, sabendo capitalizar as virtudes de um grupo com limitações técnicas.

Goleiro: Casillas (Espanha). Eu estava convicto por Stekelenburg, da Holanda, mas Casillas brilhou mais em partidas nas quais a Espanha correu riscos. Pelo caráter decisivo de suas defesas, incluindo um pênalti contra o Paraguai, fico com ele. Mas essa é a posição mais arriscada de se escolher em véspera de final - Casillas pode falhar, por exemplo, ou então Stekelenburg fazer uma partida de exceção. Qualquer dos dois, entretanto, mereceria o título de melhor goleiro da Copa.

Lateral-direito: Lahm (Alemanha). Não seria errado pensar em Maicon, autor de um belo gol. Mas escolhi Lahm pela sua relevância técnica para a Alemanha. Lahm se traveste de organizador da equipe, e mesmo pelo lado do campo, consegue articular boas variações ofensivas.

Zagueiro central: Friedrich (Alemanha). Copa impecável. Sei que muitos preferem Piqué, quem sabe Lúcio. Mas Friedrich demonstrou uma regularidade impressionante.

Quarto zagueiro: Godín (Uruguai). Ele tem Lugano ao lado. Para se destacar com esta parceria, tem de estar em forma. E Godín foi preciso nos desarmes, vigoroso no combate físico, atento na bola aérea. Não seria injustiça escolher Juan, Piqué, Puyol, Mertesacker...mas eu vou de Godín, pelo mesmo motivo de Friedrich: regularidade.

Lateral-esquerdo: Capdevilla (Espanha). Esta foi a posição mais complicada. Coentrão, de Portugal, descatou-se mas saiu cedo demais para formar um conceito definitivo. Na falta de melhores alternativas, Capdevilla ao menos conseguiu articular boas jogadas com Iniesta e Villa na esquerda ofensiva.

Primeiro volante: Pérez (Uruguai). Soberano à frente da linha defensiva. Sem mais palavras. Sou voto vencido, frente à predileção geral por Busquets. Mas não vi Pérez perder jogada nesta Copa. Jogou demais.

Segundo volante: Schweinsteiger (Alemanha). Melhor meio-campista do primeiro passe no Mundial da África do Sul. Responsável pela distribuição de jogo, sempre em saídas rápidas e curtas, nos pés dos meias ofensivos. Brilhou.

Meia-central: Sneijder (Holanda). Candidato a melhor da Copa, não poderia ficar de fora. Fez gols, coordenou os movimentos para acionar a jogada aguda com Robben, e se destacou pelos longos lançamentos invertendo o lado da jogada.

Meia-esquerda: Müller (Alemanha). Sei que ele jogou pela direita na África do Sul, mas pelo Bayern ele atua como extremo na esquerda. Não seria impossível improvisá-lo por ali na Seleção. Revelou diversas habilidades técnicas: velocidade, drible, passe curto e conclusão.

Meia-direita: Forlán (Uruguai). Também sei que ele atuou como enganche central pelo Uruguai. Mas, como reservei a posição central ao cerebral Sneijder, Forlán - que é atacante de origem - pode muito bem cumprir com as atribuições da extrema-direita. Jogou demais nesta Copa.

Atacante: David Villa (Espanha). Artilheiro e protagonista de uma seleção que chega à final da Copa sem ter a supremacia técnica indiscutível que se previa. Merece, portanto, a referência. Sem ele, talvez a Espanha tivesse ficado pelo caminho.

Deixo os comentários abertos ao debate e à participação de vocês.

VÍDEO: Projeção tática da final entre Espanha e Holanda

08 de julho de 2010 2

Confiram na janela abaixo mais uma análise tática especial do blog Preleção, na cobertura do clicEsportes sobre a Copa do Mundo 2010.

Em vídeo, com diagramas táticos animados, eu apresento uma projeção do confronto final entre Espanha e Holanda:

Espanha altera sistema tático para chegar à final

07 de julho de 2010 11

O 4-4-2 semelhante às equipes brasileiras dos anos 80 e 90 (Telê Santana é uma boa referência para a analogia) utilizado pela Espanha durante a Copa do Mundo não foi visto hoje. O técnico Vicente del Bosque alterou o sistema tático da seleção, e obteve a classificação à final do Mundial da África do Sul, vencendo a Alemanha por 1 a 0 - gol de bola parada.

A Espanha atuou no 4-5-1, que pode ser desdobrado em 4-1-4-1. Busquets atuou como primeiro volante à frente da linha defensiva; Xabi Alonso posicionou-se em uma segunda faixa do meio-campo, tendo Xavi ao lado, e Iniesta-Pedro como meias-extremos. Villa foi o atacante de referência, mais centralizado. Pedro substituiu Fernando Torres.

Iniesta pela esquerda chamou Capdevilla para o jogo. Pedro tentou o mesmo com Sérgio Ramos na direita. Xavi e Xabi Alonso adiantaram-se para a segunda bola, para a organização da troca de passes, e para a articulação incisiva e objetiva.

A formação em linha do meio-campo, com posicionamento adiantado, retirou a velocidade da Alemanha. Sem Muller na direita, e com o setor de Schweinsteiger ocupado por Xabi Alonso, a seleção de Joachim Löw não conseguiu espaços para a transição ofensiva rápida. Özil não conseguiu fugir de Busquets. Khedira, preocupado com Xavi, avançou menos do que o habitual.

Ainda assim, foi um confronto tático muito equilibrado. A supremacia da Espanha não se baseia apenas na variação tática de Del Bosque, mas também se associa à qualificação dos quatro meias da segunda linha, e à estratégia agressiva de marcação e posicionamento inicial. Uma combinação que costuma ser irresistível: organização tática + qualidade técnica.

Uruguai equilibra o embate, além da garra, na estratégia

06 de julho de 2010 4

A eliminação custosa do Uruguai nas semifinais da Copa do Mundo 2010 - derrota de 3 a 2 para a Holanda, com um gol sofrido em lance de impedimento - não é apenas a celebração da garra gaucha, da raça, do empenho, da dedicação. É também a demonstração da importância do planejamento tático em um esporte coletivo. O jogador decide, sim, mas depende da organização para ter bom desempenho.

Ao Uruguai, do grande técnico Oscar Tabárez, coube a tentativa de amenizar o controle de bola holandês. E ele conseguiu. No 4-4-2 em duas linhas, o Uruguai adiantou a marcação, exercendo meia-pressão e muitas vezes até pressão alta, na saída de bola do adversário. Com isso, conseguiu "quebrar o passe", tirar espaços, e empurrar os atacantes holandeses para trás.

Este bloqueio contou com Álvaro Pereira bem aberto pela esquerda, auxiliando Cáceres na marcação de Robben; Arevalo Rios de primeiro volante; Pérez mais à direita; e Gargano adiantando-se - formação que pode passar até mesmo a impressão de um losango, dependendo da movimentação. Forlán e Cavani foram os jogadores de frente.

A marcação adiantada equiparou a posse de bola - ao final, o Uruguai chegou a 47% do controle, contra 53% da Holanda. Os uruguaios, mesmo derrotados, também tiveram mais conclusões (12 contra 11). Um time de jogadores abnegados, cumpridores de inúmeras funções relacionadas à estratégia de Tabárez, bloqueando a Holanda sem se retrancar, sem abdicar do jogo - pelo contrário, adiantando o posicionamento para impedir a aproximação adversária.

Mas este encaixe nos remete a conceito reiterado recentemente aqui no blog Preleção: equilíbrio tático é desfeito pela qualidade técnica do jogador. E foi assim que a Holanda, inspirada na boa fase de seus protagonistas, conseguiu vencer - contando até mesmo com um golaço de Giovanni van Bronckhorst, algo improvável. Técnica individual driblando os empecilhos táticos do Uruguai.

Não pude assistir ao jogo com atenção. Baseio-me nos poucos momentos de assistência, nos muitos relatos de outros cronistas, e nos heat maps do site oficial da Fifa - reproduzidos na imagem que ilustra o post. Heat maps que lançam até mesmo uma observação dúbia sobre a Holanda: o diagrama alinha os pontas ao articulador central, mas a movimentação detalhada de Kuyt e Robben demonstra que eles jogaram à frente do meia - abrindo margem às interpretações voltadas ao 4-3-3, e também ao 4-2-3-1.

Conto com a contribuição dos amigos que assistiram ao confronto na íntegra, para receber mais informações sobre o duelo de hoje.

Análise tática do chocolate alemão

04 de julho de 2010 11

Assisti ontem à goleada de 4 a 0 da Alemanha sobre a Argentina, um pouco surpreso com a carência de iniciativa de Maradona. O treinador argentino não apresentou nenhuma alternativa à supremacia alemã, enrijecendo a equipe em um modelo que se mostrou desde o início inferior ao sistema de Joachim Löw.

Na descrição tática, foi o confronto do 4-5-1 (ou 4-2-3-1) da Alemanha, contra o 4-4-2 (ou 4-1-3-2) da Argentina. Os alemães com uma linha defensiva de quatro jogadores, dois volantes, dois meias ofensivos abertos pelos lados, um ponta-de-lança, e um centroavante de referência; e os argentinos com uma linha defensiva de quatro jogadores, um volante, três meias ofensivos, um atacante de movimentação, e um centroavante de referência.

A sobreposição deste sistemas conferiu à Alemanha o domínio do meio-campo. Graças à eficiência da marcação por zona. Em um primeiro momento, poderia se pensar que a Argentina teria vantagem na faixa intermediária, com Maxi Rodriguez, Di Maria e Messi sobre Schweinsteiger e Khedira. Mas este enfrentamento nem aconteceu. Na marcação por zona, a Alemanha colocou seus laterais no combate a Di Maria e Maxi, liberando os dois volantes para cuidar de Messi e dos eventuais recuos de Tevez, proporcionando até mesmo a formação de uma sobra entre os dois zagueiros.

Essa estratégia teve resultado pela abnegação dos meias-extremos alemães. Sem a bola, Podolski e Müller se dispuseram a acompanhar os laterais adversários, o que manteve Lahm e Boateng atentos aos meias argentinos. Se Otamendi apoiasse, Podolski descia com ele; se Heinze passasse, Müller ia junto - alinhando-se, ambos os wingers, aos volantes.

O único meio-campista que não recuava era Özil, o ponta-de-lança "puxador de contra-ataque" da Alemanha. Assim que a equipe recuperava a bola, o primeiro passe (geralmente de Schweinsteiger) busca Özil, responsável pela distribuição do jogo. A partir daí, a variação de movimentos ofensivos é grandes, com as combinações de Müller e Lahm na direita, Podolski e Boateng na direita, ingressos centrais de Schweinsteiger ou Khedira, aproximações de Klose...tudo isto combatido por um abandonado Mascherano, vítima de uma (falta de) organização das zonas defensivas da Argentina, bem diferente do que fez a Alemanha.

Holanda comprova: técnica desequilibra no encaixe tático

02 de julho de 2010 62

Este é um conceito da teoria tática que eu repito quase à exaustão no blog Preleção: quando há encaixe tático, quando há paridade e equilíbrio no planejamento e na organização, a vitória parte da qualidade técnica do jogador. É uma justificativa embasada para a obviedade da prática. Aconteceu hoje, na eliminação brasileira na Copa do Mundo 2010.

Holanda e Brasil fizeram um jogo eminentemente tático. Ambos os treinadores esmeraram-se em bloquear as virtudes adversárias, fechar espaços, combater protagonistas, e ingressar nas áreas descobertas do campo inimigo. Um verdadeiro encaixe.

Na descrição tática, sistemas praticamente idênticos. A Holanda no 4-3-3, com atacantes recuando na marcação aos laterais. O Brasil no 4-2-3-1, fazendo o mesmo com seus meias-extremos, embora os laterais adversários não apoiassem. Volantes perseguindo meias centrais, zagueiros formando sobra sobre atacantes.

O Brasil teve supremacia no primeiro tempo, controlando a posse de bola, acertando passes, e movimentando-se demais. Foi uma supremacia tática. O gol saiu em contribuição individual de Robinho, mas também em movimento coletivo sincronizado: ele fez a diagonal entre o lateral e o zagueiro, recebeu o passe vertical de Felipe Melo, e marcou. Resultado justo.

Do intervalo em diante, o predomínio se inverteu. Mesmo que com uma estratégia estranha - a Holanda afastou Sneijder e Robben - seus protagonistas decidiram o jogo. Ao invés de atuarem próximos, para a jogada curta, Sneijder abriu para a direita, apostando na bola longa até Robben, querendo quem sabe surpreender Michel Bastos e a cobertura brasileira.

Essa manobra tática da Holanda, entretanto, não foi responsável pela vitória. Foi a técnica individual. De um camisa 10, de nome Sneijder. Foi dos pés (e cabeça) dele que saíram os gols holandeses. Ambos em articulações individuais. Um cruzamento para o gol contra de Felipe Melo, uma cabeçada em novo erro defensivo brasileiro.

Mais uma vez, a técnica sobrepõe-se ao encaixe tático. A Holanda tinha jogadores para apostar no brilho individual. O Brasil, não. Como eu havia dito nas análises em vídeo postadas aqui no blog Preleção na quarta-feira.

*Atualização: tinha esquecido de citar. Robben desequilibrou tecnicamente sim, ao amarelar Michel Bastos e forçar o jogo sobre ele até sua substituição emergencial; e por expulsar Felipe Melo. A supremacia técnica dele é tão evidente que Robben desequilibrou ao atrair sempre três marcadores. Ou seja, ele inutilizou em diversas oportunidades três jogadores do Brasil, que tiveram de abdicar de seus posicionamentos para combatê-lo, dificultando a saída de bola rápida por empurrar estes três atletas para a área brasileira.

Com Robben, Holanda recupera o 4-3-3

01 de julho de 2010 5

Nas minhas análises táticas, tento fugir aos modismos modernos que provocam distorções na interpretação dos sistemas e estratégias. Há um esforço muito grande em dificultar a observação, com desdobramentos em quatro, cinco, seis, ou mais faixas verticais de campo...e este escalonamento forçado prejudica a definição de conceitos fundamentais da teoria tática - principalmente o de "função". Pego a Holanda para exemplificar.

A Holanda, com Robben, mantém vivo seu histórico 4-3-3. O astro canhoto dos laranjas abre pela direita, o destro Kuyt atua pela esquerda, e Van Persie faz a referência central. No meio-campo, o triângulo é de base baixa, com dois volantes (De Jong e Van Bommel) e um ponta-de-lança central, o articulador Sneijder. A linha defensiva tem laterais pouco apoiadores (Van der Wiel e Van Bronckhorst) e dois zagueiros convencionais (Heitinga e Mathijsen). Simples assim. 4-3-3.

É um modelo diferente do utilizado pela própria Holanda na primeira fase. Sem Robben, entrou o meia Van der Vaart na equipe, pela esquerda. Kuyt foi recuado, pela direita, e alinhou-se ao novo companheiro, e a Sneijder. Configurou-se um 4-5-1 com três meias ofensivos, também conhecido por 4-2-3-1.

É forçoso impôr à Holanda do mata-mata a mesma interpretação. Com Robben, resgata-se o 4-3-3. Ele e Kuyt atuam em uma faixa mais adiantada do que faziam o próprio Kuyt e Van der Vaart na primeira fase. As diferenças são perceptíveis no posicionamento (partem de uma região mais próxima à área adversária, enquanto os meias no 4-2-3-1 partem de uma região intermediária) e na função (buscam diagonais e ingressam mais na área; articulam e também definem).

Evidentemente, tanto Kuyt como também Robben cumprem atribuições defensivas. Todo o atacante deve fazer isso. Acompanhar o lateral adversário é a principal. No 4-3-3, o atacante lateralizado precisa fazer isso, para não sobrecarregar os volantes no auxílio aos laterais. Se o lateral adversário não passar, não há motivo para ele recuar. Se passar, ele deve descer junto. Já no 4-2-3-1, os meias-extremos combatem por zona, acompanhando não apenas os laterais, mas qualquer jogador que ingressar na sua faixa de responsabilidade.

Para não acharem que estou teorizando demais, sugiro a observação da imagem que ilustra o post. São os heat maps de Kuyt em dois jogos. À esquerda, ele atuando como meia-extremo do 4-2-3-1 da Holanda contra o Japão, na primeira fase. Reparem que a área vermelha está na zona intermediária, e ele pouco avança, mantendo posicionamento mais rígido; e à direita está Kuyt atuando como ponta, no 4-3-3 da Holanda contra a Eslováquia. Notem que ele parte de uma região (em vermelho) mais próxima da área, é mais incisivo e também se movimenta mais.

VÍDEO: Análise tática das quartas de final da Copa

30 de junho de 2010 1

Gurizada, hoje entraram no ar dois vídeos com minha participação, na cobertura especial de Copa do Mundo do clicEsportes. O primeiro é o foco do blog, afinal, consiste na "análise do Preleção" sobre os confrontos das quartas de final.

Nele, eu coloco em debate o embate entre seleções que se mantêm fiéis ao seus estilos tradicionais de jogo, e seleções que subvertem seus históricos táticos adotando novos modelos. Confiram:

O segundo vídeo é do programa "Copa e Cozinha", apresentado pelo Luiz Zini Pires (colunista de Zero Hora e blogueiro do clicEsportes). O debate, também sobre as quartas de final - com enfoque no jogo Brasil x Holanda - conta ainda com a participação do jornalista André Silva, da Rádio Gaúcha. Taí: