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Posts na categoria "Inter de Milão"

Rafa Benítez faz mudanças na estrutura da Inter de Milão

22 de agosto de 2010 7

Na comparação com a herança deixada por José Mourinho, a Inter de Milão apresenta modificações na estrutura tática com a chegada de Rafa Benítez. O novo treinador não manteve o desenho utilizado pelo seu antecessor - na comparação possível com a observação do jogo de ontem, quando a Inter venceu a Roma de virada por 3 a 1, conquistando a Supercopa Italiana.

Com José Mourinho a Inter variava entre o 4-3-3 (prioritário) e o 4-4-2 em losango. Rafa Benítez, partindo da base principal, recuou os atacantes, transformou-os em meias-extremos, e configurou o 4-5-1 também chamado de 4-2-3-1. Eto'o e Pandev, que jogavam abertos e próximos a Diego Milito, agora atuam na mesma linha de Sneijder.

Outra mudança é estratégica. Benitez inverteu os lados dos agora meias-extremos. O destro Eto'o jogou pela esquerda, e o canhoto Pandev pela direita. Movimento bastante aplicado ao 4-2-3-1 - o Inter, provável adversário da Inter em Abu Dhabi pela final do Mundial de Clubes, faz isso com Taison e D'Alessandro. Embora a equipe perca a profundidade sem a busca pela linha de fundo, ganha agressividade com as diagonais destes extremos na direção de Diego Milito.

Sneijder segue como o ponta-de-lança central, função que desempenhava nos dois modelos táticos de Mourinho. A dupla de volantes é argentina, com Cambiasso mais à esquerda, e Zanetti à direita. Maicon é o lateral apoiador, explorando o corredor aberto nas diagonais de Pandev, enquanto Chivu sobe em menor escala do lado oposto.

É pequena, entretanto, a amostragem para se determinar que será esta a estrutura tática da Inter durante a temporada.

O paredão com o qual Mourinho contraria a própria teoria

28 de abril de 2010 49

José Mourinho ampara o desenvolvimento de uma teoria tática própria em algumas premissas fundamentais, duas entre elas: ocupação equilibrada de espaços, e valorização da posse de bola. Hoje, na derrota de 1 a 0 para o Barcelona fora de casa, Mourinho contrariou tudo o que ele mesmo defende. Ainda assim, conquistou a classificação para a final da Champions League.

Este é um daqueles momentos que o comentário de resultado se sobrepõe à análise teórica. O próprio Mourinho não levou em consideração os conceitos nos quais acredita. Ele formou um paredão que, a partir do meio do 2º tempo - com a troca de Sneijder por Muntari, e o recuo de Cambiasso para o centro da linha defensiva - configurou um sistema 5-4-0.

No total, a Inter ofereceu ao Barcelona 86% da posse de bola, e dois terços de campo para trabalhar. A primeira linha se posicionou sobre o limite da grande área. E a segunda linha logo após a meia-lua. A partir da expulsão de Thiago Motta (a Inter jogava no 4-4-1-1), Mourinho apenas montou um 4-4-1, mas depois retrocedeu a um 5-4-0. Abdicou da posse de bola e da ocupação de espaços. Logo ele.

A estratégia é arriscada, mas deu certo. A Inter bloqueou os lados e a entrada da área. Forçou o Barcelona a procurar centroavantes que inexistem, cruzando bolas altas para pequenos atacantes e meias como Messi, Pedro, Bojan, Jeffren, Xavi. A carência é tão grande neste aspecto que o zagueiro Piqué se transformou em centroavante, e marcou o gol do Barça.

A questão - a despeito do resultado, que favoreceu a Inter - é oportuna: era necessário recuar tanto? Era necessário formar um 5-4-0 com nove jogadores posicionados a partir da meia-lua da grande área? Era prudente abdicar do contra-ataque, da posse de bola e da ocupação equilibrada de espaços apenas porque a equipe jogava com um a menos, fora de casa, e podendo perder por um gol?

Mourinho assumiu riscos, e teve sucesso nesta estratégia em razão da grande qualidade de seus defensores. Confiou no talento de Lúcio, Samuel, Cambiasso, Zanetti e outros tantos para destruir. Confiou na abnegação de Eto'o e Milito, que se resumiram a marcadores dos laterais. E confiou em Júlio César, quando não pudesse confiar em mais ninguém. Apostou nos seus jogadores.

Mas, ainda sobre a questão: eu já vi equipes com um jogador a menos jogarem como se não houvesse nenhum expulso. Eu já vi Mourinho atacar fora de casa e, no 4-3-3, vencer equipes fortes. Hoje eu vi um Mourinho que se contradisse, e apesar do resultado, fez do futebol um esporte um pouco mais triste - que me perdoem os fãs de resultado. Na teoria - na teoria que ele defende - a Inter poderia ter se classificado sem se comportar de maneira tão passiva.

*ATUALIZAÇÃO: tomo a liberdade de prolongar o debate, respondendo aos comentários que dizem ser "impossível" enfrentar o Barcelona de outra forma que não seja formando paredões atrás da meia-lua da grande área, abdicando de qualquer saída de bola, posse de bola, ou algo parecido. Discordo.

Esse pensamento faz a Inter assumuir uma pequenez que não lhe pertence. Será mesmo "impossível" para esta Inter com Eto'o, Diego Milito, Maicon, Cambiasso, Sneijder...segurar o jogo de outra forma? Valorizar mais a posse, propôr saídas, gastar o tempo sem ser assediada integralmente na partida? É tão ruim e fraco tecnicamente este time? Acredito que não. Pelo contrário. É uma seleção estrangeira.

Reitero, entretanto, que o resultado se contrapõe a qualquer teoria ou opinião contrária. Deu certo. A Inter conseguiu a classificação com esta estratégia, mesmo sem ser um time pequeno, e mesmo tendo um elenco com sobra de condições para se comportar de maneira diferente.

Lembro ainda que estamos debatendo, alguns concordando, outros discordando, mas sempre com argumentos e opiniões consistentes. É isso que faz do Preleção um fórum sobre táticas. Agradeço a todos pela participação.

Confronto dos 4-3-3's espelha o meio-campo

20 de abril de 2010 30

Eu ainda ontem utilizei a palavra "espelhamento" com alguma restrição, em post sobre o Inter de Fossati. Para mim, a palavra é empregada equivocadamente, porque o espelho configura a imagem invertida, não a exata. Quando se fala que dois sistemas iguais jogam espelhados, eu discordo. Mas hoje aconteceu um espelhamento que atende ao significado da palavra. Foi no meio-campo, na partida entre Inter de Milão e Barcelona.

As duas equipes optaram pelo 4-3-3. José Mourinho, na Inter, organizou o meio-campo com dois volantes e um meia-articulador - desenho que pode ser descrito como "triângulo de base baixa". Thiago Motta e Cambiasso foram os volantes, muito atentos à marcação dos meias adversários, e também à cobertura dos laterais. Eles contaram ainda com o auxílio de Pandev, que recuava pela esquerda - sem deixar de ser atacante - para fazer o primeiro combate a Daniel Alves. Confiram no diagrama tático abaixo:

Já no Barcelona, Guardiola - também no 4-3-3 - desenhou seu meio-campo em triângulo de base alta. Um volante (Busquets) e dois meias ofensivos (Xavi e Keita). A compensação, para a basculação da linha defensiva, se dá - na teoria, pois hoje não funcionou como o planejado - com a permanência de um lateral na base. Busquets, quando preciso, também pode recuar por dentro, empurrando um dos zagueiros para a cobertura da faixa direita ou esquerda. Também em diagrama tático, abaixo:

Isto sim configura um espelhamento. O triângulo de base alta do Barça se encaixa perfeitamente ao triângulo de base baixa da Inter. Dois volantes italianos pegando dois meias espanhois, um volante catalão marcando um meia milanês.

E, quando há encaixe na marcação espelhada, os técnicos sempre destacam: é hora da individualidade. O debate foge às limitações táticas, e passa para a avaliação do desempenho de cada jogador envolvido na trama. Afinal, para qualquer das duas equipes funcionar, deveria haver vitória de alguém - ou do marcador, ou do armador.

Neste aspecto, os jogadores da Inter saíram-se melhor. Principalmente os dois volantes, que forçaram Keita a abrir mais lateralmente, e Xavi a buscar o corredor central. Perderam poucas batalhas. Messi também centralizou, talvez na tentativa de jogar às costas dos dois volantes. Zanetti, entretanto, não saiu da base.

O confronto destaca diversos aspectos que fazem de José Mourinho um técnico acima da média. Apesar de discordar de algumas decisões dele - sempre quando recorre a um defensivismo injustificável - hoje Mourinho conseguiu anular as muitas virtudes de uma equipe quase imbatível. Cada peça do diagrama tático da Inter foi meticulosamente movimentada no sentido de combater, anular, bloquear, impedir de jogar, para daí em diante buscar os contra-ataques.

O reflexo deste espelhamento do meio-campo de duas equipes no 4-3-3 - uma vocacionada ao ataque, outra tradicionalmente cautelosa - está na estatística: uma posse de bola assustadora para o Barcelona (71% contra apenas 29%), mas total equilíbrio no número de oportunidades de gol - 9 da Inter, 10 do Barça. E vitória dos donos da casa, por 3 a 1.