José Mourinho ampara o desenvolvimento de uma teoria tática própria em algumas premissas fundamentais, duas entre elas: ocupação equilibrada de espaços, e valorização da posse de bola. Hoje, na derrota de 1 a 0 para o Barcelona fora de casa, Mourinho contrariou tudo o que ele mesmo defende. Ainda assim, conquistou a classificação para a final da Champions League.
Este é um daqueles momentos que o comentário de resultado se sobrepõe à análise teórica. O próprio Mourinho não levou em consideração os conceitos nos quais acredita. Ele formou um paredão que, a partir do meio do 2º tempo - com a troca de Sneijder por Muntari, e o recuo de Cambiasso para o centro da linha defensiva - configurou um sistema 5-4-0.
No total, a Inter ofereceu ao Barcelona 86% da posse de bola, e dois terços de campo para trabalhar. A primeira linha se posicionou sobre o limite da grande área. E a segunda linha logo após a meia-lua. A partir da expulsão de Thiago Motta (a Inter jogava no 4-4-1-1), Mourinho apenas montou um 4-4-1, mas depois retrocedeu a um 5-4-0. Abdicou da posse de bola e da ocupação de espaços. Logo ele.
A estratégia é arriscada, mas deu certo. A Inter bloqueou os lados e a entrada da área. Forçou o Barcelona a procurar centroavantes que inexistem, cruzando bolas altas para pequenos atacantes e meias como Messi, Pedro, Bojan, Jeffren, Xavi. A carência é tão grande neste aspecto que o zagueiro Piqué se transformou em centroavante, e marcou o gol do Barça.
A questão - a despeito do resultado, que favoreceu a Inter - é oportuna: era necessário recuar tanto? Era necessário formar um 5-4-0 com nove jogadores posicionados a partir da meia-lua da grande área? Era prudente abdicar do contra-ataque, da posse de bola e da ocupação equilibrada de espaços apenas porque a equipe jogava com um a menos, fora de casa, e podendo perder por um gol?
Mourinho assumiu riscos, e teve sucesso nesta estratégia em razão da grande qualidade de seus defensores. Confiou no talento de Lúcio, Samuel, Cambiasso, Zanetti e outros tantos para destruir. Confiou na abnegação de Eto'o e Milito, que se resumiram a marcadores dos laterais. E confiou em Júlio César, quando não pudesse confiar em mais ninguém. Apostou nos seus jogadores.
Mas, ainda sobre a questão: eu já vi equipes com um jogador a menos jogarem como se não houvesse nenhum expulso. Eu já vi Mourinho atacar fora de casa e, no 4-3-3, vencer equipes fortes. Hoje eu vi um Mourinho que se contradisse, e apesar do resultado, fez do futebol um esporte um pouco mais triste - que me perdoem os fãs de resultado. Na teoria - na teoria que ele defende - a Inter poderia ter se classificado sem se comportar de maneira tão passiva.
*ATUALIZAÇÃO: tomo a liberdade de prolongar o debate, respondendo aos comentários que dizem ser "impossível" enfrentar o Barcelona de outra forma que não seja formando paredões atrás da meia-lua da grande área, abdicando de qualquer saída de bola, posse de bola, ou algo parecido. Discordo.
Esse pensamento faz a Inter assumuir uma pequenez que não lhe pertence. Será mesmo "impossível" para esta Inter com Eto'o, Diego Milito, Maicon, Cambiasso, Sneijder...segurar o jogo de outra forma? Valorizar mais a posse, propôr saídas, gastar o tempo sem ser assediada integralmente na partida? É tão ruim e fraco tecnicamente este time? Acredito que não. Pelo contrário. É uma seleção estrangeira.
Reitero, entretanto, que o resultado se contrapõe a qualquer teoria ou opinião contrária. Deu certo. A Inter conseguiu a classificação com esta estratégia, mesmo sem ser um time pequeno, e mesmo tendo um elenco com sobra de condições para se comportar de maneira diferente.
Lembro ainda que estamos debatendo, alguns concordando, outros discordando, mas sempre com argumentos e opiniões consistentes. É isso que faz do Preleção um fórum sobre táticas. Agradeço a todos pela participação.