Assunto recorrente no blog Preleção: o mau aproveitamento de Gerrard no Liverpool há praticamente duas temporadas. Devido a convicções que levam a uma estratégia mais defensiva, o técnico espanhol Rafa Benítez abdicou do segundo atacante, desfez o 4-4-2 em duas linhas, adiantou o camisa 8, e passou a jogar no 4-4-1-1. Não é coincidência a má fase do clube, que desde então se viu mal na Champions League, na Premier League e nas copas nacionais.
No domingo, entretanto, o retorno de Aquilani ao Liverpool ajudou Gerrard. Na goleada de 4 a 0 sobre o Burnley, Benítez foi inteligente ao inverter os posicionamentos e funções do italiano e do inglês. Mantido o 4-5-1 em duas linhas de quatro jogadores (desdobrado em 4-4-1-1), ele recuou Gerrard para sua função original, e adiantou Aquilani para a ligação ofensiva.
Deu certo. Gerrard marcou dois gols e foi o melhor jogador em campo. Aquilani teve bom desempenho. A nova formação pode ser mantida, o que levaria Lucas a permanecer no banco de reservas. Nada contra o ex-jogador do Grêmio, excelente volante, mas em um meio-campo alinhado, ele deve concorrer com Mascherano, não com Gerrard ou Aquilani. Ter dois marcadores centralizados retira velocidade na transição ofensiva, e desqualifica a segunda bola. Com Gerrard de box-to-box, é diferente.
Alguém poderia se surpreender com a consequência do reposicionamento de Gerrard. "Mas como ele marcou dois gols em uma posição mais recuada, se antes atuava praticamente como um segundo atacante com liberdade de movimentação?". Explicações não faltam.
Como box-to-box, Gerrard precisa de espaço para oferecer ao time suas principais características: precisão no passe, eficiência nas inversões e lançamentos longos, potência nas conclusões de média distância, e aproximação ofensiva com bola dominada, ou em tabelas. Adiantado, ele não podia exercer praticamente nenhuma destas características, por estar embretado entre os volantes e os zagueiros.
Recuado, Gerrard parte detrás. Tem espaço para organizar a equipe, fazer a saída de bola, e adiantar-se para apanhá-la na intermediária ofensiva. Foi assim que nasceu o 4-4-2 em duas linhas, no próprio Liverpool, nos anos 70: um sistema criado para aproveitar a velocidade de jogadores pelos lados, acionados com a bola longa na transição ofensiva. Sem um box-to-box nato, o four-four-two não funciona.
O bom desempenho de Aquilani mais adiantado proporciona a Gerrard jogar novamente em alto nível, e permite ao Liverpool resgatar a característica histórica do 4-4-2 em duas linhas (mesmo na variação para o 4-4-1-1). Se for assim, o final de semana promete um confronto sensacional contra o Chelsea.


