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Posts na categoria "Seleção da Holanda"

Possibilidades táticas da decisão entre Holanda e Espanha

11 de julho de 2010 2

Prefiro sempre a análise à projeção, ou seja, a interpretação do que aconteceu acima da projeção - com margem maior ao equívoco, porque raros são os treinadores que divulgam escalações e estratégias com antecedência. Ainda assim, é obrigatório ao menos tentar prever o que Espanha e Holanda vão apresentar na decisão da Copa do Mundo 2010.

Baseado na semifinal contra a Alemanha, acredito que a Espanha vai manter o 4-1-4-1. Foi com este sistema tático que o técnico Vicente del Bosque conseguiu compensar os problemas físicos de Fernando Torres. O treinador abriu Pedro e Iniesta pelos lados, centralizou Villa no ataque, e recuou Busquets na comparação com Xabi Alonso.

Este desenho permite à Espanha expandir o repertório ofensivo. Se no 4-4-2 quase à brasileira a Fúria centraliza demais as tabelas curtas centrais, com o 4-1-4-1 ela agrega a profundidade das jogadas pelos lados. E estas projeções de Iniesta e Pedro podem até mesmo, abrindo a marcação, oferecer espaços aos meias nas tabelas centrais de predileção da Espanha. Ou seja: rodar a bola, bagunçar o posicionamento da linha defensiva, até encontrar o espaço para a infiltração e para o passe derradeiro.

A Holanda vai manter seu 4-3-3 característico. O meio-campo tem triângulo de base baixa, com dois volantes protegendo a linha defensiva, e um ponta-de-lança responsável pela aproximação e pela organização. Sneijder cumpre este papel. À frente, dois pontas de "pés invertidos" bem abertos pelos lados - o destro Kuyt na esquerda, o canhoto Robben na direita - e Van Persie como centroavante de referência.

O modelo tradicional de jogo holandês também leva à centralização das jogadas. Por motivos óbvios. Os pontas cortam para dentro, carregando a bola conforme o pé preferencial. Neste espaço deixado por eles, entretanto, os laterais pouco avançam. Sneijder permanece centralizado, e os volantes não passam por trás dos ponteiros. A movimentação volta-se quase que exclusivamente à aproximação dos pontas com Sneijder e Van Persie, pelo centro.

Será um embate tático muito acentuado. As duas equipes chegam à decisão com méritos sem depender do brilho de apenas um jogador. Ambas têm seus protagonistas - Villa e Sneijder são os maiores - mas suas campanhas baseiam-se nos conjutos. Boas equipes, com táticas elaboradas, estratégias adequadas a seus elencos, jogadores abnegados no cumprimento das funções, e muita aplicação no combate às virtudes adversárias. Aprofundei o debate, a respeito de toda a Copa do Mundo, neste link.

Neste cenário, a Espanha leva pequena vantagem. Enquanto a holanda conta com Sneijder e Robben para sacar, de improviso, uma jogada que desconstrua a organização adversária, a Espanha tem maior quantidade de jogadores mais técnicos e em melhor momento - Villa, Iniesta, Xavi - além de uma linha defensiva mais segura. Isso não é indicativo de vitória certa da Espanha, mas sim de uma tendência que precisará contar com a mesma organização demonstrada até aqui para se comprovar na prática.

VÍDEO: Projeção tática da final entre Espanha e Holanda

08 de julho de 2010 2

Confiram na janela abaixo mais uma análise tática especial do blog Preleção, na cobertura do clicEsportes sobre a Copa do Mundo 2010.

Em vídeo, com diagramas táticos animados, eu apresento uma projeção do confronto final entre Espanha e Holanda:

Uruguai equilibra o embate, além da garra, na estratégia

06 de julho de 2010 4

A eliminação custosa do Uruguai nas semifinais da Copa do Mundo 2010 - derrota de 3 a 2 para a Holanda, com um gol sofrido em lance de impedimento - não é apenas a celebração da garra gaucha, da raça, do empenho, da dedicação. É também a demonstração da importância do planejamento tático em um esporte coletivo. O jogador decide, sim, mas depende da organização para ter bom desempenho.

Ao Uruguai, do grande técnico Oscar Tabárez, coube a tentativa de amenizar o controle de bola holandês. E ele conseguiu. No 4-4-2 em duas linhas, o Uruguai adiantou a marcação, exercendo meia-pressão e muitas vezes até pressão alta, na saída de bola do adversário. Com isso, conseguiu "quebrar o passe", tirar espaços, e empurrar os atacantes holandeses para trás.

Este bloqueio contou com Álvaro Pereira bem aberto pela esquerda, auxiliando Cáceres na marcação de Robben; Arevalo Rios de primeiro volante; Pérez mais à direita; e Gargano adiantando-se - formação que pode passar até mesmo a impressão de um losango, dependendo da movimentação. Forlán e Cavani foram os jogadores de frente.

A marcação adiantada equiparou a posse de bola - ao final, o Uruguai chegou a 47% do controle, contra 53% da Holanda. Os uruguaios, mesmo derrotados, também tiveram mais conclusões (12 contra 11). Um time de jogadores abnegados, cumpridores de inúmeras funções relacionadas à estratégia de Tabárez, bloqueando a Holanda sem se retrancar, sem abdicar do jogo - pelo contrário, adiantando o posicionamento para impedir a aproximação adversária.

Mas este encaixe nos remete a conceito reiterado recentemente aqui no blog Preleção: equilíbrio tático é desfeito pela qualidade técnica do jogador. E foi assim que a Holanda, inspirada na boa fase de seus protagonistas, conseguiu vencer - contando até mesmo com um golaço de Giovanni van Bronckhorst, algo improvável. Técnica individual driblando os empecilhos táticos do Uruguai.

Não pude assistir ao jogo com atenção. Baseio-me nos poucos momentos de assistência, nos muitos relatos de outros cronistas, e nos heat maps do site oficial da Fifa - reproduzidos na imagem que ilustra o post. Heat maps que lançam até mesmo uma observação dúbia sobre a Holanda: o diagrama alinha os pontas ao articulador central, mas a movimentação detalhada de Kuyt e Robben demonstra que eles jogaram à frente do meia - abrindo margem às interpretações voltadas ao 4-3-3, e também ao 4-2-3-1.

Conto com a contribuição dos amigos que assistiram ao confronto na íntegra, para receber mais informações sobre o duelo de hoje.

Holanda comprova: técnica desequilibra no encaixe tático

02 de julho de 2010 62

Este é um conceito da teoria tática que eu repito quase à exaustão no blog Preleção: quando há encaixe tático, quando há paridade e equilíbrio no planejamento e na organização, a vitória parte da qualidade técnica do jogador. É uma justificativa embasada para a obviedade da prática. Aconteceu hoje, na eliminação brasileira na Copa do Mundo 2010.

Holanda e Brasil fizeram um jogo eminentemente tático. Ambos os treinadores esmeraram-se em bloquear as virtudes adversárias, fechar espaços, combater protagonistas, e ingressar nas áreas descobertas do campo inimigo. Um verdadeiro encaixe.

Na descrição tática, sistemas praticamente idênticos. A Holanda no 4-3-3, com atacantes recuando na marcação aos laterais. O Brasil no 4-2-3-1, fazendo o mesmo com seus meias-extremos, embora os laterais adversários não apoiassem. Volantes perseguindo meias centrais, zagueiros formando sobra sobre atacantes.

O Brasil teve supremacia no primeiro tempo, controlando a posse de bola, acertando passes, e movimentando-se demais. Foi uma supremacia tática. O gol saiu em contribuição individual de Robinho, mas também em movimento coletivo sincronizado: ele fez a diagonal entre o lateral e o zagueiro, recebeu o passe vertical de Felipe Melo, e marcou. Resultado justo.

Do intervalo em diante, o predomínio se inverteu. Mesmo que com uma estratégia estranha - a Holanda afastou Sneijder e Robben - seus protagonistas decidiram o jogo. Ao invés de atuarem próximos, para a jogada curta, Sneijder abriu para a direita, apostando na bola longa até Robben, querendo quem sabe surpreender Michel Bastos e a cobertura brasileira.

Essa manobra tática da Holanda, entretanto, não foi responsável pela vitória. Foi a técnica individual. De um camisa 10, de nome Sneijder. Foi dos pés (e cabeça) dele que saíram os gols holandeses. Ambos em articulações individuais. Um cruzamento para o gol contra de Felipe Melo, uma cabeçada em novo erro defensivo brasileiro.

Mais uma vez, a técnica sobrepõe-se ao encaixe tático. A Holanda tinha jogadores para apostar no brilho individual. O Brasil, não. Como eu havia dito nas análises em vídeo postadas aqui no blog Preleção na quarta-feira.

*Atualização: tinha esquecido de citar. Robben desequilibrou tecnicamente sim, ao amarelar Michel Bastos e forçar o jogo sobre ele até sua substituição emergencial; e por expulsar Felipe Melo. A supremacia técnica dele é tão evidente que Robben desequilibrou ao atrair sempre três marcadores. Ou seja, ele inutilizou em diversas oportunidades três jogadores do Brasil, que tiveram de abdicar de seus posicionamentos para combatê-lo, dificultando a saída de bola rápida por empurrar estes três atletas para a área brasileira.

Com Robben, Holanda recupera o 4-3-3

01 de julho de 2010 5

Nas minhas análises táticas, tento fugir aos modismos modernos que provocam distorções na interpretação dos sistemas e estratégias. Há um esforço muito grande em dificultar a observação, com desdobramentos em quatro, cinco, seis, ou mais faixas verticais de campo...e este escalonamento forçado prejudica a definição de conceitos fundamentais da teoria tática - principalmente o de "função". Pego a Holanda para exemplificar.

A Holanda, com Robben, mantém vivo seu histórico 4-3-3. O astro canhoto dos laranjas abre pela direita, o destro Kuyt atua pela esquerda, e Van Persie faz a referência central. No meio-campo, o triângulo é de base baixa, com dois volantes (De Jong e Van Bommel) e um ponta-de-lança central, o articulador Sneijder. A linha defensiva tem laterais pouco apoiadores (Van der Wiel e Van Bronckhorst) e dois zagueiros convencionais (Heitinga e Mathijsen). Simples assim. 4-3-3.

É um modelo diferente do utilizado pela própria Holanda na primeira fase. Sem Robben, entrou o meia Van der Vaart na equipe, pela esquerda. Kuyt foi recuado, pela direita, e alinhou-se ao novo companheiro, e a Sneijder. Configurou-se um 4-5-1 com três meias ofensivos, também conhecido por 4-2-3-1.

É forçoso impôr à Holanda do mata-mata a mesma interpretação. Com Robben, resgata-se o 4-3-3. Ele e Kuyt atuam em uma faixa mais adiantada do que faziam o próprio Kuyt e Van der Vaart na primeira fase. As diferenças são perceptíveis no posicionamento (partem de uma região mais próxima à área adversária, enquanto os meias no 4-2-3-1 partem de uma região intermediária) e na função (buscam diagonais e ingressam mais na área; articulam e também definem).

Evidentemente, tanto Kuyt como também Robben cumprem atribuições defensivas. Todo o atacante deve fazer isso. Acompanhar o lateral adversário é a principal. No 4-3-3, o atacante lateralizado precisa fazer isso, para não sobrecarregar os volantes no auxílio aos laterais. Se o lateral adversário não passar, não há motivo para ele recuar. Se passar, ele deve descer junto. Já no 4-2-3-1, os meias-extremos combatem por zona, acompanhando não apenas os laterais, mas qualquer jogador que ingressar na sua faixa de responsabilidade.

Para não acharem que estou teorizando demais, sugiro a observação da imagem que ilustra o post. São os heat maps de Kuyt em dois jogos. À esquerda, ele atuando como meia-extremo do 4-2-3-1 da Holanda contra o Japão, na primeira fase. Reparem que a área vermelha está na zona intermediária, e ele pouco avança, mantendo posicionamento mais rígido; e à direita está Kuyt atuando como ponta, no 4-3-3 da Holanda contra a Eslováquia. Notem que ele parte de uma região (em vermelho) mais próxima da área, é mais incisivo e também se movimenta mais.

Holanda centraliza jogo e perde objetividade

14 de junho de 2010 1

Sem Robben, o técnico da seleção da Holanda decidiu hoje abrir mão do 4-3-3 usual, escalando a equipe no 4-2-3-1 contra a Dinamarca. Mas estratégia não rendeu bom desempenho - apesar da vitória de 2 a 0. Principalmente, devido ao nome escolhido para substituir Robben: Van der Vaart.

A segunda linha de meio-campo holandesa teve Van der Vaart pela esquerda, Sneijder centralizado, e Kuyt na direita. Na prática, entretanto, Vaart - um meia organizador - buscou um posicionamento mais central, concorrendo com Sneijder pelo mesmo espaço. Na direita, Kuyt atuou extremamente aberto, afastando-se desta dupla, como um típico winger do modelo britânico, a exemplo da função que cumpria no Liverpool de Rafa Benítez.

Afunilar o jogo com Vaart e Sneijder, e alijar Kuyt da participação ofensiva, desabasteceu Van Persie. E facilitou o sucesso defensivo do 4-1-4-1 da Dinamarca, que bloqueou a frente da área com um volante na cobertura - C.Poulsen - e dois jogadores de marcação e criação logo à frente. A Holanda, desta forma, perdeu velocidade e objetividade, resumindo-se a lentas trocas de passes laterais.

No 2º tempo, após receber de presente um gol contra aos 40seg, a Holanda encontrou a melhor forma de jogar sem Robben. Ainda no 4-2-3-1, Marwijk trocou Vaart por Elia. E a segunda linha de meio-campo organizou-se. Kuyt e Elia abriram pelos lados, Sneijder não teve concorrência na articulação central, e o jogo veloz característico da Holanda passou a acontecer.

Se Robben seguir de fora, por lesão, o técnico holandês deve ter percebido que - no 4-2-3-1 - não é possível ter Van der Vaart aberto pela esquerda. Isso porque ele naturalmente imanta-se à zona de articulação central, trazendo a marcação para perto de Sneijder, e obstruindo a própria transição ofensiva. Com Elia, a Holanda se aproximou da estrutura à qual está acostumada. Não acredito, porém, que Vaart e Sneijder não possam jogar juntos. Prefiro - e a Holanda foi bem noutras vezes desta forma - vê-lo formar com Sneijder a dupla de articulação no 4-3-3, tendo apenas um volante (sairia De Jong).

Outra boa troca foi a passagem de Kuyt para a área (Afellay substituiu Van Persie, e assumiu o lado direito da segunda linha de meio-campo). Mesmo com a insistência de Benitez em usá-lo como winger direito no Liverpool - e ele é abnegado para cumprir a função - Kuyt rende mais na área. Gostaria de ver sua permanência como o centroavante da Holanda mesmo quando Robben retornar.

Nas Eliminatórias, Marwijk já usou Robben e Van Persie abertos pelos lados, com Kuyt na área. Assim ele pode ao mesmo tempo aproveitar melhor o chute forte e a movimentação lateral de Van Persie, e também contar com o oportunismo e a combatividade de Kuyt entre os zagueiros adversários.

Seleções da Copa de 2010: análise tática da Holanda

20 de maio de 2010 12

Favorita no Grupo E da Copa do Mundo de 2010, a Holanda é o assunto de hoje na série diária de posts sobre o Mundial da África do Sul no blog Preleção. E a seleção dos laranjas traz ao debate uma perspectiva praticamente exclusiva entre as 32 participantes da competição: o uso de três atacantes.

A Holanda do técnico Bert van Marwijk preserva a tradição tática do país, chegando à Copa no 4-3-3. Foi assim durante as Eliminatórias, e também nos amistosos disputados em 2010. O sistema tático conta com uma linha defensiva de quatro jogadores - laterais apoiando alternadamente; meio-campo em triângulo, que varia da base baixa (dois volantes) para a base alta (dois meias); e trio ofensivo com dois canhotos abertos pelos lados, e um centroavante que combina referência e movimentação.

No meio-campo, Sneijder pode contar com a companhia de Van der Vaart na articulação, ou então jogar sozinho na organização da equipe, protegido por Van Bommel e De Jong. À frente, ele abastece Van Persie, Robben e Kuyt. Geralmente, Van Persie atua com o "pé invertido", jogando na diagonal da direita para o meio, mas Robben - que costuma jogar aberto, buscando a linha de fundo pela esquerda - alterna este posicionamento com o companheiro.

Gosto dos zagueiros holandeses. Mathijsen e Heitinga são fortes fisicamente, bons na bola aérea, e não deixam a desejar no combate pelo chão. Torço para que Marwijk confirme o meio-campo com Sneijder e Van der Vaart na base ofensiva, tendo Van Bommel (ou De Jong) na proteção. Provavelmente, a Holanda será a única defensora do 4-3-3 no Mundial, em meio a tantas seleções utilizando-se do 4-4-2 britânico e suas variações.

Marwijk convocou 27 jogadores na pré-lista. Confiram os nomes:

Goleiros:
Maarten Stekelenburg - Ajax
Sander Boschker - FC Twente
Michel Vorm - FC Utrecht

Defensores:
Vurnon Anita - Ajax
Khalid Boulahrouz - Stuttgart (ALE)
Edson Braafheid - Celtic (ESC)
Giovanni van Bronckhorst - Feyenoord
John Heitinga - Everton (ING)
Joris Mathijsen - Hamburgo (ALE)
Ron Vlaar - Feyenoord
Gregory van der Wiel - Ajax
André Ooijer - PSV Eindhoven

Meio-campistas:
Mark van Bommel - Bayern de Munique (ALE)
Orlando Engelaar - PSV Eindhoven
Nigel de Jong Manchester City (ING)
Stijn Schaars - AZ Alkmaar
Wesley Sneijder - Inter de Milão (ITA)
Rafael van der Vaart - Real Madrid (ESP)
Demy de Zeeuw - Ajax
Ibrahim Afellay - PSV Eindhoven

Atacantes:
Dirk Kuyt - Liverpool (ING)
Jeremaine Lens - AZ Alkmaar
Eljero Elia - Hamburgo
Ryan Babel - Liverpool (ING)
Klaas-Jan Huntelaar - Milan (ITA)
Robin van Persie - Arsenal (ING)
Arjen Robben - Bayern de Munique (ALE)