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Posts na categoria "Seleção do Uruguai"

Uruguai equilibra o embate, além da garra, na estratégia

06 de julho de 2010 4

A eliminação custosa do Uruguai nas semifinais da Copa do Mundo 2010 - derrota de 3 a 2 para a Holanda, com um gol sofrido em lance de impedimento - não é apenas a celebração da garra gaucha, da raça, do empenho, da dedicação. É também a demonstração da importância do planejamento tático em um esporte coletivo. O jogador decide, sim, mas depende da organização para ter bom desempenho.

Ao Uruguai, do grande técnico Oscar Tabárez, coube a tentativa de amenizar o controle de bola holandês. E ele conseguiu. No 4-4-2 em duas linhas, o Uruguai adiantou a marcação, exercendo meia-pressão e muitas vezes até pressão alta, na saída de bola do adversário. Com isso, conseguiu "quebrar o passe", tirar espaços, e empurrar os atacantes holandeses para trás.

Este bloqueio contou com Álvaro Pereira bem aberto pela esquerda, auxiliando Cáceres na marcação de Robben; Arevalo Rios de primeiro volante; Pérez mais à direita; e Gargano adiantando-se - formação que pode passar até mesmo a impressão de um losango, dependendo da movimentação. Forlán e Cavani foram os jogadores de frente.

A marcação adiantada equiparou a posse de bola - ao final, o Uruguai chegou a 47% do controle, contra 53% da Holanda. Os uruguaios, mesmo derrotados, também tiveram mais conclusões (12 contra 11). Um time de jogadores abnegados, cumpridores de inúmeras funções relacionadas à estratégia de Tabárez, bloqueando a Holanda sem se retrancar, sem abdicar do jogo - pelo contrário, adiantando o posicionamento para impedir a aproximação adversária.

Mas este encaixe nos remete a conceito reiterado recentemente aqui no blog Preleção: equilíbrio tático é desfeito pela qualidade técnica do jogador. E foi assim que a Holanda, inspirada na boa fase de seus protagonistas, conseguiu vencer - contando até mesmo com um golaço de Giovanni van Bronckhorst, algo improvável. Técnica individual driblando os empecilhos táticos do Uruguai.

Não pude assistir ao jogo com atenção. Baseio-me nos poucos momentos de assistência, nos muitos relatos de outros cronistas, e nos heat maps do site oficial da Fifa - reproduzidos na imagem que ilustra o post. Heat maps que lançam até mesmo uma observação dúbia sobre a Holanda: o diagrama alinha os pontas ao articulador central, mas a movimentação detalhada de Kuyt e Robben demonstra que eles jogaram à frente do meia - abrindo margem às interpretações voltadas ao 4-3-3, e também ao 4-2-3-1.

Conto com a contribuição dos amigos que assistiram ao confronto na íntegra, para receber mais informações sobre o duelo de hoje.

O primeiro losango da Copa é uruguaio

17 de junho de 2010 4

Fiz um scout tático das 32 seleções da Copa do Mundo na primeira rodada. O sistema mais utilizado foi o 4-5-1, somando treze equipes (dez no 4-2-3-1, e três no 4-1-4-1). O segundo preferido foi o 4-4-2 em duas linhas, com dez seleções. Bem abaixo aparece o 4-3-3, com quatro times. Três jogaram no 3-4-3. E duas no 3-5-2/3-6-1. Mas logo no início da 2ª rodada, uma variação ainda não utilizada apareceu.

O Uruguai venceu a África do Sul no 4-4-2 com meio-campo em losango - o primeiro desta Copa. Oscar Tabárez armou uma base de três volantes (Pérez centralizado, Arévalo - dir - e Alvaro Pereira - esq) na segunda linha, e posicionou Forlán de enganche clássico, no Brasil mais conhecido como ponta-de-lança. O meia-ofensivo que não apenas leva a bola ao ataque, como também apresenta-se para as jogadas ofensivas.

A movimentação na frente deu certo. Suárez jogou como centroavante, mas sem posicionamento fixo. Transitou ora pela esquerda, ora pela direita, abrindo espaços para as infiltrações de Forlán. O mesmo fez Cavani, embora com menor qualidade técnica, rodando posições e sincronizando-se com Suárez e Forlán.

Sem a bola, o Uruguai adiantou a marcação dos laterais Maxi Pereira e Fucile. Tabárez espetou ambos no alto, batendo de frente com os meias-extremos do 4-2-3-1 sul-africano - Tshabalala e Modise. Bloqueando os lados, os uruguaios induziram a África do Sul a centralizar o jogo, levando o trio de meias (Pienaar completou a segunda linha) ao emaranhado de volantes. E assim, também devido à falta de criatividade dos seus jogadores, a equipe de Carlos Alberto Parreira sucumbiu facilmente à marcação.

A melhor notícia do 4-4-2 em losango não foi apenas a sua escolha, mas sim o seu bom desempenho. Talvez com a vitória justa de 3 a 0 Tabárez sepulte de vez o 3-5-2 com o qual a equipe foi pressionada, sem posse de bola ou organização ofensiva, pela França na estreia. Este 4-4-2, com Forlán de enganche, Suárez circulando, e muita marcação dos volantes e laterais, tem boas perspectivas. Honrou a camisa Celeste, uma das mais tradicionais escolas do futebol mundial.

O 3-5-2 do Uruguai espelhado no 4-3-3 da França

10 de junho de 2010 8

Acredito que o sistema adequado para ruir com o bloqueio defensivo do 3-5-2 é o 4-3-3. O raciocínio inverso, obviamente, também é verdadeiro: nada pior para um sistema com três zagueiros do que enfrentar um oponente com trio ofensivo. Assistiremos amanhã, na África do Sul, a este espelhamento tático no confronto entre Uruguai e França, pelo Grupo A da Copa do Mundo 2010.

O Uruguai joga no 3-5-2, com variação para o 3-6-1. São três zagueiros fixos, dois alas de predileção defensiva, dois volantes, um meia-articulador, um atacante que recua para a ponta-de-lança, e apenas um atacante nato. A escalação provável uruguaia tem Muslera; Lugano, Godín e Victorino; Maxi Pereira, Arévalo, Pérez, González e Álvaro Pereira; Forlán e Suárez. A França prefere o 4-3-3 com triângulo de base baixa no meio-campo. Linha defensiva de quatro jogadores, dois volantes fazendo a saída de bola e cobrindo o apoio dos laterais, um articulador, dois atacantes pelos lados, e um centroavante de referência. Os franceses devem jogar com Lloris; Sagna, Squillaci, Abidal e Evra; Gourcuff, Toulalan e Malouda; Govou, Anelka e Ribéry.

Para o Uruguai, este espelhamento é muito arriscado. Culpa do sistema de marcação aplicado ao 3-5-2 (individual por função). Os três zagueiros uruguaios devem perseguir homem-a-homem os três atacantes franceses: Lugano em Anelka, Godín em Ribéry, e Victorino em Govou. Da mesma forma, os alas Maxi e Álvaro Pereira vão bater com os laterais Sagna e Evra.

Na obsessão pela sobra, o Uruguai precisará recuar um dos volantes sem a bola - Pérez ou Arévalo - deixando o outro colado em Malouda, o articulador francês. Neste caso a teoria tática diz - e a prática comprova - que no encaixe tático, nas perseguições individuais, vence o lance quem tiver maior técnica. Qualquer vitória pessoal de um dos atacantes franceses sobre os zagueiros, qualquer passagem dos laterais pelos alas, qualquer movimento que desorganize a defesa uruguaia, vai oferecer muito perigo.

No 4-3-3, a França marca por zona. Esta diferença é fundamental nas faixas laterais. Sagna e Evra serão marcados pelos Pereiras, mas a recíproca não é verdadeira. Sem a bola, eles devem recuar para combater qualquer adversário que ingressar por ali. Eles serão auxiliados ainda pelo recuo dos atacantes Govou e Ribéry, que devem acompanhar os alas uruguaios.

De véspera, o único claro risco para os franceses, parece-me, é a movimentação de Forlán às costas dos volantes. Como o atacante uruguaio recua para buscar jogo, e da intermediária parte em diagonais imprevisíveis, deve indefinir o combate por zona da França. Se, neste desdobramento, Forlán conseguir retirar os zagueiros do lugar, poderá ele mesmo se aproveitar, ou então abrir espaços para Suárez.

A perspectiva é de um jogo com posse de bola e controle franceses; recuo das linhas e bloqueio defensivo uruguaios. Ataque da França, com trocas de passes e aproximações curtas; contra-ataque do Uruguai, com bola longa e velocidade. Na teoria, vantagem tática para a França. Mas vale lembrar que este 3-5-2 à brasileira - mesmo que pobre de recursos - quando obtém vantagem defensiva, e consegue eficiência na bola parada (aérea, principalmente), é competitivo.