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Posts na categoria "Teoria Tática"

Fechando a conta

10 de setembro de 2010 0

Pessoal, encerro hoje uma trajetória de seis anos no Grupo RBS, dois e meio deles dedicados ao clicEsportes, e os outros três anos e meio à Zero Hora. Com isso, fecho a conta do meu querido blog Preleção.

Repito diariamente que sou um privilegiado por trabalhar com o que amo, reunindo futebol e jornalismo. Dá prazer em acordar todos os dias para mais uma jornada. E nada em toda minha carreira, iniciada em 1998 quando entrei na faculdade e comecei a estagiar, me deu tanto prazer profissional quanto o blog Preleção. Nada.

Esta é a minha escola de estudos da teoria tática. Debater com leitores, em alto nível, trazendo para mim novos conceitos, perspectivas diferentes, ensinando-me, corrigindo-me, apontando caminhos diferentes, discordando, concordando, agregando. Foi demais compartilhar minhas análises táticas com vocês, e receber de todos mais conhecimento.

Cometerei injustiças, eu sei, mas puxei de memória nomes de alguns amigos que contribuíram para um debate qualificado aqui no Preleção: Wilson Farina, Lucas Trindade, Cristiano Sarmento, Borrach, Ratofx, Filipe Nunes, Robert Sweney (Roberticus), Pedro Lampert, Lucas Gutierrez, Openglx, Augustoyoh, Minwer, Ryazantsev, Pedro Breier, Paulo Gallotti, Júnior Albuquerque. Em nome deles agradeço a todos que estiveram comigo durante estes quase dois anos de blog.

Continuarei intrometendo-me em análises táticas nas ditas "redes sociais", quem ainda não faz parte dos meus contatos, procurem-me que estarei sempre disposto a debater e aprender mais com vocês.

Grande abraço!

PS: Pessoal, nem precisa deixar comentários aqui, pois o blog vai ficar parado e sou eu quem teria de liberar.

Heat maps como ferramentas de auxílio à análise tática

31 de agosto de 2010 2

Assisti ontem a trechos do empate entre Bologna e Inter de Milão - 0 a 0 - no complemento da rodada inaugural do Campeonato Italiano 2010/2011. Uma oportunidade para compartilhar com os leitores do blog Preleção meu interesse pelas ferramentas de auxílio à análise tática. Para mim, a principal é a consulta a heat map's ("mapas de calor"), oferecidos por alguns sites esportivos.

Pela TV, com a restrição dos planos das imagens, a análise tática é mais difícil do que a realizada presencialmente nos estádios. Por isso, não me constranjo em recorrer - quando necessário - às informações dos heat map's - mapas de calor que registram os espaços ocupados pelos jogadores enquanto eles tiveram a bola.

Ontem, a Inter de Milão repetiu o 4-5-1 com linha ofensiva de três meias (ou 4-2-3-1) da estreia de Rafa Benítez. Sistema que havia dado lugar ao 4-4-2 com meio-campo em losango na derrota para o Atlético de Madri, pela Supercopa Europeia. Qualquer dúvida sobre a configuração - seria 4-2-3-1 ou ainda o 4-3-3 legado por José Mourinho? - é desfeita com a análise dos heat map's dos wingers Eto'o e Pandev, conforme reprodução dos mapas disponíveis no site da ESPN - vejam aqui.

Tanto Pandev pela direita, como também Eto'o na faixa esquerda, jogaram abertos, na linha intermediária ofensiva, e pouco ingressaram na área:

Na comparação com a área de atuação de Sneijder, fica evidente o alinhamento dos três meias ofensivos, no 4-2-3-1:

Mas os heat map's nos permitem avançar nas conclusões, deixando o campo específico do posicionamento inicial e do diagrama tático, para uma análise de desempenho mais abrangente. Se o mapa registra em uma escala do amarelo ao vermelho (da menor para a maior intensidade) as regiões onde os jogadores tiveram posse de bola, o contraste entre as participações de Sneijder, Eto'o e Pandev é enorme.

Enquanto o ponta-de-lança holandês se desdobrou, movimentando-se em grande faixa central de campo, buscando os lados e voltando para receber o primeiro passe, Eto'o e Pandev praticamente não aprofundaram as jogadas, não ingressaram na área, e nem contribuíram com Sneijder na articulação ofensiva. Se uma das principais premissas do 4-2-3-1 é a aproximação dos meias da segunda linha, com rotação de posições, a Inter de Milão com Rafa Benítez facilita a marcação adversária sobrecarregando seu ponta-de-lança, abdicando da movimentação essencial, e tornando-se mais previsível ao adversário.

O heat map, ou qualquer outra ferramenta auxiliar, nunca vai substituir a análise das imagens - seja presencial, ou pela TV. Mas é um bom complemento para a ampliação da percepção do analista tático.

Atribuir funções ao craque dá resultado

30 de agosto de 2010 14

Duas entrevistas recentes oferecem ao blog Preleção bom material para debate sobre teoria tática aplicada à prática. Ignorem, portanto, os nomes envolvidos, porque o post de hoje não se trata de uma comparação. Confrontar jogadores em momentos tão distintos soaria até injusto. Estão em questão os conceitos envolvidos.

Assim que chegou ao Grêmio, Renato Portaluppi falou que Douglas e Souza não precisam marcar - lembrem aqui. A ideia do treinador gremista é desonerar os meias-articuladores da equipe, concedendo liberdade para que mantenham o posicionamento, sem desgaste, servindo de referência aos demais companheiros na transição ofensiva. A premissa é clara: craques precisam de liberdade para criar.

Mesmo com este privilégio, nenhum deles subiu de rendimento. Douglas e Souza seguem contribuindo pouco quando a equipe tem a posse de bola. E, na transição defensiva, abstêm-se do combate, sobrecarregando os volantes e vulnerabilizando a linha defensiva.

Celso Roth, no Inter, alterou o posicionamento de D'Alessandro. O meia argentino deixou de ser um enganche (articulador central) e desempenha agora a tática individual do meia-extremo (ou externo, como ele mesmo denomina) - leiam nesta entrevista. O treinador colorado retirou D'Alessandro da faixa central, onde ele era refém dos volantes, e levou-o a uma faixa mais incisiva do campo - o lado direito, onde pode trazer a bola para a preferencial canhota, e dali concluir ou armar jogadas. A contrapartida é a obrigação de acompanhar o lateral adversário, uma função muito mais complexa do que bloquear volantes centralizados.

D'Alessandro tem mais atribuições: ocupa uma faixa de campo mais extensa; com a bola precisa se movimentar com maior intensidade; e sem a bola precisa marcar um jogador de maior mobilidade. Vai da linha de fundo adversária à própria área, enquanto antes mantinha-se restrito a uma pequena região centralizada.

Resultado: D'Alessandro melhorou. E levou o Inter consigo. A mudança de posicionamento elaborada por Celso Roth elevou ao mesmo tempo os rendimentos do meia argentino e da equipe. D'Alessandro foi decisivo nos jogos pós-Mundial na conquista da Copa Libertadores 2010, e recebe a justa recompensa da convocação à seleção argentina.

A conclusão - julgando possível aplicar estes dois exemplos ao contexto da teoria tática - é lógica: exigir o cumprimento de funções complexas faz bem para os craques. D'Alessandro admite que não gosta de marcar, e que é muito mais difícil ser winger do que enganche. Mas o próprio desafio de se mostrar capaz do cumprimento da nova tática individual o leva a se estacar. Ele foi retirado da confortável missão de apenas jogar com bola no pé, e cercar volantes que pouco se movimentam - região e função defendidas por Renato Portaluppi nos casos de Souza e Douglas.

Jogadores de exceção não deixam de ser jogadores. Contar com eles também não significa ignorar a essência coletiva do futebol. Craques são capazes de desempenhar funções complexas, com a bola ou sem ela. São capazes, e devem cumprir. O conceito liberal "a concorrência leva à excelência", no futebol, pode ser adaptado facilmente para "a exigência leva à excelência". Não há mais espaço para exclusivos solistas. Cada um precisa carregar o próprio piano para tocá-lo.

Variações do 4-5-1 podem extinguir o centroavante de área?

25 de agosto de 2010 10

Não foram os contemporâneos da época que identificaram o ocaso da Idade Média. As modificações políticas, econômicas, sociais, catalisadoras da Idade Moderna tiveram diagnóstico anos depois. Nenhum cavaleiro saltou da montaria, agrupou seus homens, e disse: "voltem para suas casas, acabou a era medieval". Transições históricas são percebidas com o distanciamento.

Assim acontece na História, assim também acontece no acompanhamento da evolução tática. Desencadeou-se um período de transformação no futebol. Para nós, contemporâneos, não há como se precisar os fatos, as datas, os protagonistas, ou ainda definir o que está acontecendo. Presenciar esta mudança nos obriga a arriscar, apontar tendências, prever. Como pode ter feito o mesmo cavaleiro, acredito, ao observar-se no espelho, contemplando toda a parafernália bélica de metal: "acho que este escudo vai sair de moda".

A disseminação do 4-5-1 é o preâmbulo de um novo movimento tático. As equipes e seleções de melhor desempenho - seja no desdobramento para o 4-1-4-1, para o 4-3-2-1, ou principalmente para o 4-2-3-1 - prescindem do centroavante à moda antiga. Ao menos nas variações deste sistema percebe-se que o "homem de área" precisa se integrar à movimentação dos meias ofensivos, participando das combinações, das jogadas curtas, abrindo espaços, deixando a área para que os wingers possam se infiltrar, abrindo mão da referência.

Esta observação se ampara nas principais premissas ofensivas do 4-5-1 (reitero, principalmente no desdobramento para o 4-2-3-1): linhas adiantadas e movimentação do trio ofensivo de meio-campo. Para esta sincronia de jogadas curtas ter melhor resultado, a defesa adversária precisa se desorganizar. O centroavante de área facilita a marcação. O jogador que recua por dentro, abre pelos lados, troca de posição com qualquer dos jogadores da segunda linha, que entra na rotação das posições de frente, é mais útil. Sem perder a capacidade de conclusão dentro da área.

Exemplos: Chamakh, no Arsenal (4-2-3-1); Tevez, no City (4-1-4-1); Milito, na Inter (4-2-3-1); Van Persie, na Holanda (4-2-3-1). Combinam mobilidade para rodar posições com os meias e conclusão das jogadas para seguir conceituados como centroavantes, embora não presos na área.

Há, claro, exemplos contrários. Klose é centroavante à moda antiga e funcionou bem no 4-2-3-1 da Alemanha; Luís Fabiano teve bons momentos desta forma, na Seleção Brasileira. E também vale destacar: é uma projeção para o 4-5-1. E existem outros sistemas nos quais o "centroavantão" é imprescindível: o 3-5-2/3-6-1 à brasileira, que usa a ligação direta pelo alto buscando o rebote ofensivo.

Na Inglaterra, onde os cronistas esportivos são muito atentos à teoria tática, a participação do centroavante na rotação dos meias no 4-5-1 é conceituada por alguns como o embrião do 4-6-0. Não vejo desta forma porque o jogador de frente, apesar da movimentação, mantém seu posicionamento inicial ligado à frente da linha de meias, e quando recua para abrir espaços, a equipe sempre conta com o ingresso de outro jogador adiantado, mantendo a estrutura.

Para mim - posso estar enganado - exigem-se novas características do centroavante no 4-5-1 (mobilidade, agilidade, velocidade), mas a estrutura tática se mantém.

Mano, sobre o 3-5-2: "deixa o jogo maluco"

03 de agosto de 2010 21

Gosto quando vejo conceitos que eu defendo aqui no blog Preleção como premissas também do trabalho prático de bons treinadores. Ontem o novo comandante da Seleção Brasileira, Mano Menezes, concedeu entrevista ao programa Bem, Amigos! da Sportv, e falou sobre o 3-5-2. Descartou, de pronto, o uso deste sistema, apresentando diversas restrições.

Mano Menezes compartilha de um conceito trabalhado por José Mourinho em seus clubes: o 4-3-3 é o sistema que oferece maior equilíbrio na ocupação de espaços. Afinal, a que se resume toda a teoria tática do futebol? Ao estudo das melhores maneiras de ocupar os espaços do campo, e no tempo certo.

É por isso que Mano se utiliza do 4-5-1 com linha de três meias ofensivos (ou 4-2-3-1). Este sistema apresenta uma rápida variação ao 4-3-3, dependendo apenas de um avanço mínimo no posicionamento inicial dos meias-extremos, combinado à característica ofensiva destes jogadores - muitas vezes, atacantes atuando como wingers, como debatemos ontem. Portanto, propõe-se à melhor ocupação de espaços.

Mano justificou o uso do 4-2-3-1 comparando-o ao 3-5-2 brasileiríssimo. Separei algumas frases do treinador da Seleção Brasileira sobre este modelo tático. Perdoem-me se não trago aqui a transcrição literal, porque não anotei na hora da entrevista, mas o resumo é este, talvez com outras palavras:

"Prefiro a linha defensiva de quatro jogadores porque é mais equilibrado ocupar uma faixa de 60 ou 70 metros com quatro do que com três jogadores".

"O 4-2-3-1 ou o 4-3-3 oferecem uma ocupação melhor dos espaços".

"O 3-5-2 obriga os alas a jogarem lá em cima, e deixa o jogo muito maluco".

"O Brasil tem melhores alternativas para explorar sua característica de controle da posse de bola do que o 3-5-2".

Esta última é a principal ideia, que eu tanto defendo: além da ocupação equilibrada de espaços, a melhor estratégia sempre é buscar o controle da posse de bola. Jogar com a bola nos pés é a melhor maneira de marcar o adversário - pois evita que ele, obviamente, tenha a bola - e também (não menos óbvio) a melhor maneira de marcar gols. Isso não quer dizer que outras estratégias não sejam eficientes. Não estou aqui falando de resultados, mas sim de desempenho.

E o mais importante de tudo: jogar com a bola é a característica do futebol brasileiro. Transitar ao 3-5-2 na Seleção Brasileira seria abdicar do nosso tradicional estilo de jogo. O próprio Mano Menezes destacou na entrevista: "o Brasil tem que voltar ao protagonismo, a propor o jogo, a controlar a posse". Perfeito.

O 3-5-2 é um sistema planejado, no Brasil, para combater e especular. Sem linha de quatro jogadores, a marcação por zona é trocada pela marcação individual por função. Os zagueiros perseguem os atacantes adversários, os volantes marcam de cima os meias, os alas batem com os laterais, e sobra um jogador para as eventuais coberturas. Um planejamento de marcação que coloca em risco a organização da equipe, por obrigar seus atletas a deixar seus posicionamentos nestas perseguições. E ainda escancara áreas vulneráveis, no espaço entre o ala ofensivo e o zagueiro do lado.

Com a bola, o 3-5-2 abdica da posse e do controle, porque conta com poucos jogadores no meio-campo. A articulação se dá na bola longa, à moda antiga (kick and rush - ou "chutar e correr"), acionando os alas ou então procurando o centroavante de referência, que recua e tenta acionar o atacante na segunda bola.

A controvérsia, entretanto, torna o debate divertido. Afinal, este 3-5-2 que tanto me desagrada é tricampeão brasileiro com Muricy Ramalho, que novamente lidera o Brasileirão usando os três zagueiros à brasileira. Mau desempenho para quem gosta de futebol, mas resultados e efetividade para quem depende disso. Não poderia condenar um técnico por adotar o 3-5-2 brasileiro. Não gosto de ver estas equipes jogarem, os desempenhos me desagradam, mas os resultados obtidos se impõem.

É por isso que eu faço questão de ressaltar: dou-me ao direito de dirigir minhas análises ao desempenho, e não ao resultado. Trabalhar conceitos teóricos e suas aplicações práticas sem se preocupar com títulos. Afinal, quem precisa ser efetivo e campeão é o técnico, são os jogadores, e quem exige isso é a torcida. O jornalista não é campeão. O jornalista pode sim idealizar e propor conceitos que considera mais apropriados por não depender dos resultados, como dependem os técnicos que justificam desempenhos ruins com títulos. Um dilema, realmente.

Futebol brasileiro descobre o winger

02 de agosto de 2010 22

Em inglês, a denominação correta é winger. Convencionei, após muito debate com os leitores mais assíduos do blog Preleção, traduzir o estrangeirismo para meia-extremo. A função, entretanto, é a mesma em qualquer idioma. Comum nos clubes e seleções europeias, rara no futebol brasileiro. Cenário que se modifica, a partir de pequenas iniciativas de treinadores que se disseminam pelo sucesso obtido.

Na teoria tática, winger é um jogador ofensivo que atua aberto pelo lado (ou na "asa" - wing, em inglês - do campo). De início, eram considerados wingers os antigos pontas nos sistemas embrionários da organização tática do futebol. Agora, esta denominação pode ser também aplicada aos meias que atuam da mesma forma, mas em uma faixa de campo mais recuada, partindo da intermediária ofensiva.

Segundo relata o jornalista inglês Jonathan Wilson, no livro Inverting the Pyramid, sobre o qual o blog Preleção publicou uma série de resenhas - leiam aqui, o futebol inglês durante muito tempo foi conhecido pelo estilo "wing play", em função da prioridade às ligações diretas para os wingers. Modelo de jogo também chamado de "kick and rush" (chutar e correr). Eram jogadores que precisavam de velocidade e habilidade, porque a estratégia ofensiva das equipes se resumia às vitórias destes wingers sobre os marcadores.

No Brasil a utilização de wingers não se popularizou. Quando os pontas entraram em hibernação, com a transição do 4-3-3 para o 4-4-2, o futebol brasileiro preferiu apostar em meias clássicos, organizadores centrais, ou então em pontas-de-lança ofensivos, não menos centralizados. Daí partiram todas as variações de desenho do meio-campo: o quadrado, o losango...sempre com meias centrais.

Na Inglaterra e também em boa parte da Europa o recuo dos pontas não significou o fim dos wingers. O 4-4-2 em duas linhas os manteve vivos. O 4-5-1 com linha de três meias ofensivos (ou 4-2-3-1) também. Estes meias-extremos apenas se adaptaram a uma faixa de campo pouco mais recuada, com atribuições defensivas claras na marcação por zona.

Esta função é muito apropriada a atacantes velozes. Jogadores que podem, com inteligência tática, cumprir as atribuições defensivas sem perder a agressividade ofensiva nas jogadas de linha de fundo e nas diagonais rumo à área adversária. Exemplos recentes não faltam: Kuyt no Liverpool, Cristiano Ronaldo no Manchester United, Bellamy e Wright-Phillips no Manchester City, Walcott no Arsenal. Outro estilo, de organização - com qualidade técnica para inversões e lançamentos longos - combina perfeitamente com a função: Beckham e Giggs no Manchester United são os exemplos que me ocorrem.

Agora os treinadores brasileiros se mostram mais receptivos à influência tática europeia. Demorou quase quatro décadas para o 4-4-2 em duas linhas ser utilizado, ainda que de forma incipiente; o 4-2-3-1 teve em Mano Menezes seu principal representante, ganhou na Seleção Brasileira de Dunga visibilidade, e após o bom desempenho de várias seleções na Copa do Mundo 2010, dissemina-se por aqui. Dois sistemas que exigem o uso de wingers. Que podem ser atacantes adaptados.

Mano Menezes fazia isso com Dentinho e Jorge Henrique no Corinthians - atacantes atuando como meias-extremos; Dunga escalou Robinho desta forma na Seleção; Celso Roth redescobre Taison como winger no Inter; Felipão faz o mesmo com Éverton no Palmeiras.

Sistemas europeus, importados pelos técnicos brasileiros, com o uso de atacantes em uma função antes rara por aqui. Muito bom para o futebol brasileiro.

Processos da análise tática no blog Preleção

12 de julho de 2010 19

Hoje resolvi compartilhar com vocês processos que desenvolvi para a análise tática. Sem muita bibliografia para servir de referência, criei uma série de processos que facilitam minha observação. Por ser naturalmente uma pessoa metódica, organizar uma linha de trabalho quando assisto aos jogos foi importante também para criar um padrão nas análises do blog Preleção.

Todas as análises postadas aqui partem dos mesmos processos, dos mesmos parâmetros. O que permite aos leitores se familiarizar com a linha de raciocínio, jogando o time analisado no 3-5-2, no 4-3-3, no 4-5-1, ou em qualquer sistema. O processo não muda.

Vale lembrar ainda que são processos empíricos, ou seja, baseados na experiência e na observação. Nunca li bibliografia voltada a análise tática na crônica esportiva, e nem tenho a pretensão de influenciar ninguém. Também destaco que estes processos, facilitadores e organizadores do meu trabalho, não são a verdade, não têm a pretensão de ser a verdade, e nem contrariam outros processos que existam. Vamos a eles.

1) Identificar o posicionamento inicial dos jogadores: é a constatação do "diagrama tático", da disposição dos jogadores. A própria expressão é esclarecedora. Posicionamento inicial, região de onde partem os jogadores. Na figura que ilustra o post, o posicionamento inicial é centralizado, na intermediária defensiva.

2) Identificar o sistema tático da equipe: encontrados os posicionamentos iniciais de cada jogador, é possível distribuí-los em um diagrama que descreva o sistema tático (numérico) da equipe - 4-3-3, 4-4-2, 3-5-2, 4-5-1, etc...

3) Identificar as funções defensivas e ofensivas dos jogadores: partindo do posicionamento inicial, verificar que função o jogador desempenha. Levo em conta não apenas as características de cada atleta, mas também a área de atuação/movimentação dele, e as suas atribuições - tarefas defensivas e ofensivas desempenhadas. Na figura que ilustra o post, o jogador representa um volante.

4) Identificar o sistema de marcação: localizar onde se posicionam as linhas defensivas quando não há posse de bola, e de que maneira os jogadores obedecem a elas - por zona com pressão sobre a bola, individual por função, marcação mista - e também a intensidade desta marcação coletiva, a partir do posicionamento das linhas - meia-pressão, pressão, pressão-alta...

5) Identificar a estratégia da equipe: são os movimentos coletivos, com e sem a bola. Pode-se usar como exemplo a Espanha na final do Mundial ontem. A estratégia da Fúria, aplicada ao sistema tático 4-5-1 (ou 4-1-4-1) foi controlar a posse de bola, adiantar as linhas, marcar no campo adversário, exercer pressão na saída de bola, articular-se pelo chão à frente da área...a estratégia da Holanda, pelo contrário, foi defensiva: recuar linhas, marcar por zona sem pressão, abdicar da posse de bola, fazer a transição ofensiva em velocidade com bola longa na direção dos pontas, principalmente na direita com Robben...

6) Confrontar informações de posicionamento e função: esta é a parte mais importante deste processo. Como a análise tática não é uma ciência exata, como a bibliografia é escassa, as referências teóricas são raras, e não há conceitos padronizados, é bastante comum confundir posicionamento com função, função com posição, comprometendo a análise.

A grande questão neste confronto de informações é identificar que tarefas cada jogador desempenha de acordo com suas funções e posicionamentos. Exemplos não faltam, mas vou usar um lateral-direito para ficar mais claro. O posicionamento inicial de um lateral-direito costuma ser uma linha à frente dos zagueiros, aberto pelo lado. Ele tem como atribuições defensivas bascular a linha quando o lateral oposto apoia, marcar por zona quando há adversário no seu setor...e como atribuição ofensiva principal a passagem para o apoio, pelo lado ou em diagonal.

Se eu identifico o posicionamento inicial deste jogador (uma linha à frente dos zagueiros), e a função desempenhada na partida (lateral-direito) fica fácil concluir que seu apoio não o torna um atacante. Se este lateral chegar à linha de fundo ofensiva para cruzar não terá proporcionado variação tática, não terá se transformado em atacante. Estará apenas cumprindo uma atribuição da função.

Este confronto de informações, para verificar com maior precisão o que é da função de cada jogador, é muito importante para evitar erros bastante comuns na análise tática voltada à mídia. Sem diferenciar posicionamento de função, e principalmente sem ter um critério que baseie todas as análises sem distinção, começa-se a ver variações e novas configurações onde elas não existem.

7) Recorrer a ferramentas de auxílio: parte final do processo, e não menos importante. Quando é possível -poucas transmissões online contam com esta tecnologia - é necessário conferir os heat map's das partidas, os average position's, ler matérias e análises de outras pessoas, debater e compartilhar todas estas informações para se diminuir as chances de erro.

Conclusão: cumprir os seis primeiros passos deste processo demora bastante. É preciso atenção para identificar os posicionamentos iniciais e as funções de cada jogador, partindo destes específicos para o todo (sistema tático, estratégia, sistema de marcação). Há jogos em que as conclusões surgem após os 20min do 1º tempo. Depois disso, é preciso manter a atenção para identificar eventuais variações - mudanças táticas dos técnicos com as partidas em andamento.

Eu não vejo jogo de futebol sem bloquinho e caneta na mão, desenhando o campo e identificando os posicionamentos, desenhando as setas e identificando as funções, desenhando as linhas e identificando a marcação. Sempre, e vocês devem estar tão carecas quanto eu de ler isso, desdobrando o campo em três faixas perpendiculares às laterais - defesa, meio-campo e ataque.

E reitero a justificativa: desdobrar uma equipe em três faixas, e outra em quatro, é falta de critério, comprometendo a análise porque os dois modelos diferem em vários aspectos - principalmente na identificação da função de cada jogador.

O Mundial da organização tática

10 de julho de 2010 10

Períodos históricos sucedem-se pela necessidade de grandes mudanças, a partir de constatações ou descobertas. Foi pela agricultura e pela pecuária que os povos nômades passaram da Pré-História à Idade Antiga; os grandes impérios foram substituídos por pequenos feudos independentes; o comérico restabelecido provocou o início da Idade Moderna; o fim da teocracia e as reunificações nacionais marcaram a transição para a contemporaneidade.

O mesmo acontece na literatura. Novas escolas em contraposição às estabelecidas, como na objetividade parnasiana em sequência ao romantismo subjetivo. E em praticamente todas as demais áreas do conhecimento humano. Um novo pensamento modificando o padrão vigente, respondendo perguntas antes desconhecidas ou ignoradas, procurando soluções ao esgotamento dos modelos decadentes.

No futebol é diferente. As novas eras não contrapõem as anteriores. Agregam-se a elas, e as complementam. Ampliam a paleta de características com a qual o futebol se colore à observação pública.

Em sua gênese, o futebol prescindia da coletividade. Era um esporte individual, mesmo em equipes. Sua primeira Era foi técnica. Os jogadores foram desenvolvendo fundamentos, qualificando o passe, a conclusão, descobrindo o uso da cabeça no contato com a bola. O indivíduo acima do coletivo.

Depois veio a Era Física. Desenvolvimento da preparação, sem se contrapor à técnica. O futebol não abandonou a valorização da habilidade individual. Mas agregou ao talento natural o condicionamento físico. O importante, além de saber jogar, era ter força e fôlego para se impôr ao adversário.

Massificado, envolvido em interesses populares, o futebol viveu também uma Era Psicológica. Motivação, concentração, comprometimento, empenho, entrega, aguerrimento. Novamente, sem alijar os períodos anteriores do processo. Somou à técnica e ao condicionamento físico o preparo emocional.

O Mundial da África do Sul apresenta-se como o marco de uma nova fase. A Era Tática. O futebol enfim como um esporte coletivo, sobrepondo a organização e o planejamento às virtudes já adquiridas. Jogadores técnicos, em condicionamento físico de alto nível, motivados e equilibrados emocionalmente, mas profundamente ligados a aspectos como posicionamento e cumprimento de funções complexas.

Essa constatação, entretanto, não menospreza todo o desenvolvimento tático que aconteceu paralelamente às eras anteriores. A evolução analisada pelo jornalista britânico Jonathan Wilson no livro Inverting the Pyramid é oportuna, relevante, e justa. Os treinadores sempre buscaram aliar a organização coletiva às questões individuais. Desde o começo, com o 1-2-7, passando pelo 2-3-5, pelo W.M, pelo W.W, pelo 4-2-4, pelo 4-3-3, pelo 4-4-2, pelo 3-5-2, pelas duas linhas, pelo 4-5-1 e todas as suas variações...desenvolvendo à reboque estratégias diferentes, combinadas a sistemas de marcação.

Mas as grandes referências são isoladas. A revolução do 4-2-4 brasileiro no final da década de 50 influenciou toda uma geração de times e seleções, assim como aconteceu ao W.M de Herbert Chapman, ou ao 4-3-3, ou ao 3-5-2 das copas de 86 e 90. Padrões disseminados, comprados como verdades absolutas pelos demais. A exceção é o 1-3-3-3 do Carrosel Holandês, que conseguiu ser diferente em meio aos modelos rígidos compartilhados pela maioria.

Na África do Sul houve mais do que isso. Em um único Mundial, assistimos a variados sistemas táticos. Praticamente todas as seleções com uma característica própria. Não houve um padrão de comportamento, nem tático, nem estratégico.

As quatro semifinalistas são equipes organizadas. Holanda, Uruguai, Alemanha e Espanha têm craques, têm bons jogadores, mas sem nenhuma individualidade de supremacia absoluta sobre os demais mortais da Terra. Contaram com grandes atletas, técnicos e talentosos, bem condicionados e concentrados.

Mas quem é o craque indiscutível da Copa? O indivíduo absolutamente acima de todos. Não tivemos um Pelé. Um Maradona. Um Ronaldo. Um jogador que decidisse a Copa sozinho. Não. As melhores seleções da Copa chegaram a este patamar por serem as equipes mais organizadas, melhor planejadas taticamente.

Os treinadores parecem agora estudar mais as características de seus elencos, partindo daí ao planejamento coletivo. Parecem também estudar mais as virtudes e defeitos dos adversários. Há pequenas e grandes variações, e dentro de um único jogo foi possível assistir de lado a lado verdadeiros embates entre estrategistas. Com técnica, com preparo físico, com equilíbrio emocional, mas acima de tudo com organização coletiva.

Este é o legado da Copa da África do Sul. Um futebol mais enxadrista. Um futebol como esporte eminentemente tático, estratégico, organizado. E coletivo.

Holanda comprova: técnica desequilibra no encaixe tático

02 de julho de 2010 62

Este é um conceito da teoria tática que eu repito quase à exaustão no blog Preleção: quando há encaixe tático, quando há paridade e equilíbrio no planejamento e na organização, a vitória parte da qualidade técnica do jogador. É uma justificativa embasada para a obviedade da prática. Aconteceu hoje, na eliminação brasileira na Copa do Mundo 2010.

Holanda e Brasil fizeram um jogo eminentemente tático. Ambos os treinadores esmeraram-se em bloquear as virtudes adversárias, fechar espaços, combater protagonistas, e ingressar nas áreas descobertas do campo inimigo. Um verdadeiro encaixe.

Na descrição tática, sistemas praticamente idênticos. A Holanda no 4-3-3, com atacantes recuando na marcação aos laterais. O Brasil no 4-2-3-1, fazendo o mesmo com seus meias-extremos, embora os laterais adversários não apoiassem. Volantes perseguindo meias centrais, zagueiros formando sobra sobre atacantes.

O Brasil teve supremacia no primeiro tempo, controlando a posse de bola, acertando passes, e movimentando-se demais. Foi uma supremacia tática. O gol saiu em contribuição individual de Robinho, mas também em movimento coletivo sincronizado: ele fez a diagonal entre o lateral e o zagueiro, recebeu o passe vertical de Felipe Melo, e marcou. Resultado justo.

Do intervalo em diante, o predomínio se inverteu. Mesmo que com uma estratégia estranha - a Holanda afastou Sneijder e Robben - seus protagonistas decidiram o jogo. Ao invés de atuarem próximos, para a jogada curta, Sneijder abriu para a direita, apostando na bola longa até Robben, querendo quem sabe surpreender Michel Bastos e a cobertura brasileira.

Essa manobra tática da Holanda, entretanto, não foi responsável pela vitória. Foi a técnica individual. De um camisa 10, de nome Sneijder. Foi dos pés (e cabeça) dele que saíram os gols holandeses. Ambos em articulações individuais. Um cruzamento para o gol contra de Felipe Melo, uma cabeçada em novo erro defensivo brasileiro.

Mais uma vez, a técnica sobrepõe-se ao encaixe tático. A Holanda tinha jogadores para apostar no brilho individual. O Brasil, não. Como eu havia dito nas análises em vídeo postadas aqui no blog Preleção na quarta-feira.

*Atualização: tinha esquecido de citar. Robben desequilibrou tecnicamente sim, ao amarelar Michel Bastos e forçar o jogo sobre ele até sua substituição emergencial; e por expulsar Felipe Melo. A supremacia técnica dele é tão evidente que Robben desequilibrou ao atrair sempre três marcadores. Ou seja, ele inutilizou em diversas oportunidades três jogadores do Brasil, que tiveram de abdicar de seus posicionamentos para combatê-lo, dificultando a saída de bola rápida por empurrar estes três atletas para a área brasileira.

Guia tático da Copa do Mundo de 2010

04 de junho de 2010 10

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Este post centraliza todas as 32 análises publicadas em série, diariamente, sobre as seleções da Copa do Mundo de 2010. Para ir ao texto de cada país, basta clicar sobre a respectiva figura.

Assim que possível, todos os posts serão atualizados com as listas definitivas dos 23 convocados. Também vale lembrar que as análises têm como base a observação que fiz de jogos, vídeos com trechos de partidas encontrados na Internet, leitura de artigos das imprensas locais ou brasileira, e notícias recentes de cada seleção.

Não são, portanto, análises definitivas ou isentas de eventuais superficialidades ou incorreções. Cada post é, na verdade, uma proposta de debate para que os leitores participem, agregando também suas opiniões e informações baseadas em pesquisa e observação próprias.

Muito obrigado a todos que participaram e colaboraram.