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Posts com a tag "Copa do Mundo de 2010"

Paraguai surpreende no 4-3-3

20 de junho de 2010 3

Depois de atuar durante praticamente todas as Eliminatórias Sul-Americanas no 3-5-2, e começar a Copa do Mundo no 4-4-2 em duas linhas, o Paraguai apresentou hoje mais uma novidade tática. Com sucesso, afinal, venceu bem a Eslováquia por 2 a 0, encaminhando sua classificação às oitavas de final do Mundial da África do Sul.

Contra a Eslováquia, o Paraguai jogou no 4-3-3. E com um triângulo de base alta no meio-campo - um volante centralizado, com dois meias à frente. A principal virtude da equipe foi a composição ofensiva, combinando Valdez e Lucas Barrios, atacantes de movimentação, com o centroavante Roque Santa Cruz.

A estrutura tática, entretanto, não desguarneceu a equipe paraguaia. A linha defensiva se manteve, com apoio alternado e cauteloso dos laterais. Cáceres protegeu e deu cobertura a ambos os lados. E os meias - Riveros e Vera - não foram pontas-de-lança demasiadamente ofensivos, trabalhando mais na troca de passes e na aproximação para a segunda bola, do que mais precisamente na infiltração - o que evitou a abertura de espaços.

Na frente, Barrios abriu na direita, e Valdez na esquerda. Mas o posicionamento não permaneceu lateralizado. Martino procurou manter o trio ofensivo bastante próximo. Quando Barrios recebia na direita, Valdez fechava na área junto com Santa Cruz. O mesmo acontecia do outro lado. O camisa 9 também recuava no pivô, trazendo a marcação e possibilitando aos dois atacantes ingressarem simultaneamente na área.

Foi interessante ver o Paraguai identificando, em seu planejamento, a Eslováquia como um adversário mais vulnerável. E, a partir daí, buscando no sistema tático as condições para tornar-se protagonista, controlar a partida, e jogar para vencer. Foi uma estratégia acertada, sem riscos iminentes.

VÍDEO: análise tática de Brasil x Costa do Marfim

18 de junho de 2010 9

Hoje entrou no ar a segunda edição das análises táticas em vídeo do blog Preleção, voltadas à cobertura especial da Copa do Mundo 2010 do clicEsportes. Como vocês percebem na imagem acima, o assunto é o confronto do 4-2-3-1 brasileiro com o 4-3-3 marfinense.

O resultado do vídeo ficou muito legal. Confiram:

Maradona entrega a batuta para Messi

17 de junho de 2010 4

Não é apenas a camisa 10 que identifica Messi como a referência de uma seleção que já viu Maradona orquestrar os companheiros. Agora como treinador, el Dios dos argentinos pela segunda vez entrega ao atacante do Barcelona a batuta para reger sua seleção da posição central do meio-campo. Havia sido assim no 4-2-3-1 da estreia contra a Nigéria, e repetiu-se hoje na vitória sobre a Coreia do Sul, em sistema tático diferente.

Sem Verón, poupado, Maradona distribuiu a Argentina no 4-4-2 com um volante e três meias - desdobrado em 4-1-3-2. Messi novamente foi o meia-ofensivo central, tendo como extremos Maxi Rodríguez à direita, e Di María à esquerda. Mascherano foi o volante, em posicionamento inicial profundo, à frente da dupla de zagueiros, cobrindo ambos os lados.

Dali, Messi foi desempenhou a função do clássico enganche argentino. Camisa 10 típico. A partir da saída de bola, o primeiro passe procurava por ele. Messi teve liberdade para se movimentar, aproximando-se de Maxi e Di María, e também de Tévez - atacante mais à esquerda - e Higuaín, o centroavante de referência.

A faixa de campo escolhida por Maradona para Messi reger a Argentina combina com a característica do jogador. Messi gosta de desenvolver velocidade, e para isso precisa de campo. Com toda a intermediária ofensiva pela frente, Messi conduz a bola de cabeça erguida, ganha terreno e pode sondar as melhores alternativas - tabelas curtas por qualquer lado, infiltrações pelo meio, convocação dos atacantes para o pivô, passes mais longos, e dribles em profusão.

Mesmo que a posição central da segunda linha de meio-campo - seja no 4-2-3-1, seja no 4-1-3-2 - coloque Messi em contato direto com os volantes adversários, nas duas primeiras partidas ele soube se desvencilhar da marcação. Não apenas pela qualidade no drible e pela velocidade, mas também pela agilidade em chamar os companheiros para as trocas de passes curtos e para a rotação de posições, o que desorganiza a defesa adversária, e abre espaços.

A vocação ofensiva desta Argentina torna a equipe instável. Nos dois primeiros jogos, Messi comandou ações ofensivas que proporcionaram muitas oportunidades claras, mas a seleção de Maradona também passou por momentos de apreensão. Contra a Nigéria houve muito desperdício, mas contra a Coreia do Sul tudo deu certo. A Argentina assume riscos porque aposta na ofensividade - combinando proposta tática e qualidade técnica - para vencer como protagonista.

O primeiro losango da Copa é uruguaio

17 de junho de 2010 4

Fiz um scout tático das 32 seleções da Copa do Mundo na primeira rodada. O sistema mais utilizado foi o 4-5-1, somando treze equipes (dez no 4-2-3-1, e três no 4-1-4-1). O segundo preferido foi o 4-4-2 em duas linhas, com dez seleções. Bem abaixo aparece o 4-3-3, com quatro times. Três jogaram no 3-4-3. E duas no 3-5-2/3-6-1. Mas logo no início da 2ª rodada, uma variação ainda não utilizada apareceu.

O Uruguai venceu a África do Sul no 4-4-2 com meio-campo em losango - o primeiro desta Copa. Oscar Tabárez armou uma base de três volantes (Pérez centralizado, Arévalo - dir - e Alvaro Pereira - esq) na segunda linha, e posicionou Forlán de enganche clássico, no Brasil mais conhecido como ponta-de-lança. O meia-ofensivo que não apenas leva a bola ao ataque, como também apresenta-se para as jogadas ofensivas.

A movimentação na frente deu certo. Suárez jogou como centroavante, mas sem posicionamento fixo. Transitou ora pela esquerda, ora pela direita, abrindo espaços para as infiltrações de Forlán. O mesmo fez Cavani, embora com menor qualidade técnica, rodando posições e sincronizando-se com Suárez e Forlán.

Sem a bola, o Uruguai adiantou a marcação dos laterais Maxi Pereira e Fucile. Tabárez espetou ambos no alto, batendo de frente com os meias-extremos do 4-2-3-1 sul-africano - Tshabalala e Modise. Bloqueando os lados, os uruguaios induziram a África do Sul a centralizar o jogo, levando o trio de meias (Pienaar completou a segunda linha) ao emaranhado de volantes. E assim, também devido à falta de criatividade dos seus jogadores, a equipe de Carlos Alberto Parreira sucumbiu facilmente à marcação.

A melhor notícia do 4-4-2 em losango não foi apenas a sua escolha, mas sim o seu bom desempenho. Talvez com a vitória justa de 3 a 0 Tabárez sepulte de vez o 3-5-2 com o qual a equipe foi pressionada, sem posse de bola ou organização ofensiva, pela França na estreia. Este 4-4-2, com Forlán de enganche, Suárez circulando, e muita marcação dos volantes e laterais, tem boas perspectivas. Honrou a camisa Celeste, uma das mais tradicionais escolas do futebol mundial.

Suíça ensina como se usa o 4-4-2 britânico defensivamente

16 de junho de 2010 13

Como analista tático apaixonado por conceitos teóricos e ferramentas de apoio à observação de campo, sou fã dos heat maps. Heat map é o "mapa de calor" que alguns sites especializados oferecem, mapeando o deslocamento de cada jogador em campo durante as partidas - o que facilita o reconhecimento, ao mesmo tempo, do posicionamento inicial e da função executada por eles. Durante a Copa do Mundo, tenho acompanhado bastante o heat map do site oficial da Fifa, que faz atualizações táticas a cada 15min de jogo.

A figura que ilustra o post é definitiva sobre o 4-4-2 em duas linhas aplicado pela Suíça na vitória de 1 a 0 sobre a Espanha, conquistada hoje. O heat map aponta com perfeição as linhas defensiva e de meio-campo, sucedidas por uma dupla de atacantes que tem um jogador de referência, mais adiantado, e um de movimentação, que recua sem a bola.

A linha defensiva contou com os excelentes laterais Lichtsteiner (dir) e Ziegler (esq), mais os zagueiros Grichting e Von Bergen (que substituiu Senderos, lesionado, logo cedo). O meio-campo teve como wingers Barnetta (dir) e Gelson Fernandes (esq), Inger de central marcador, e Huggel não menos marcador por dentro, mas com um posicionamento pouco mais adiantado. Na frente, Derdyok foi o atacante de movimentação, e Nkufo fez a referência.

A Suíça aplicou ao 4-4-2 britânico uma estratégia defensiva. Recuou ambas as linhas, compactou-as à frente da própria área, e estabeleceu desta forma dupla marcação por zona com pressão sobre a bola. Traduzindo: dividindo o campo em quatro faixas paralelas às linhas laterais, cada zona contou com um marcador, e uma cobertura imediatamente atrás. Os únicos liberados da zona foram os atacantes, com Nkufo prendendo um zagueiro, e Derdyok combatendo individualmente o volante que fizesse a saída de bola.

O mérito da Suíça foi seguir à risca a premissa desta marcação por zona com pressão sobre a bola. Que é exatamente esta: pressão sobre a bola. Sem perseguições individuais. O jogador só combate aquele que ingressar em sua respectiva zona de atribuição E com a bola. Sem ela, pode transitar no setor à vontade, que será observado apenas de longe.

Este sistema de marcação fundamental para o sucesso da estratégia mais defensiva deste 4-4-2 britânico/suíço evita a desorganização. A Espanha, no 4-2-3-1, dá liberade de movimentação para seus meias e atacante. Imaginem se os suíços marcassem Xavi, Silva, Iniesta, Xabi Alonso e Villa individualmente? A cada lance, esta rotação espanhola desorganizaria o sistema defensivo suíço. Quem perseguisse um jogador adversário abriria espaços, provocando um efeito dominó - bastante comum às táticas brasileiras de três zagueiros, que usam marcação individual no sistema defensivo.

O ideal, para a Espanha furar este bloqueio, seria apostar sempre na infiltração central, pelo chão, com dupla de atacantes jogando sobre a linha defensiva - o que elimina a cobertura da marcação dupla. Uso como exemplo o estilo de jogo de Nilmar, sempre no limite do impedimento, entre um zagueiro e o lateral. Apelar para o jogo pelos lados, como fez a Espanha no 2º tempo - na tentativa de abrir o jogo - é quase inócuo porque pelos lados há bloqueio de um winger, protegido por um lateral-base. Ou cria-se uma triangulação sobre eles, ou não se consegue ultrapassá-los.

Melhor é seguir rodando posições, e encaixar passes para a infiltração. Com a linha adiantada, pegar esta segunda bola e arriscar de média distância. E, em último caso, apelar para o cruzamento alto. A Espanha só tentou uma das três alternativas - o chute de longe - e do meio para o fim do jogo. Não quis modificar o próprio estilo, e acabou vitimada pela eficiência de uma estratégia que evita a desorganização defensiva.

As duas linhas da Suíça se posicionaram, e assim permaneceram até o final. Sem se desorganizar. Mostrando como aplicar uma estratégia defensiva a um sistema que pode ser ofensivo, dependendo do objetivo ao qual a equipe se propõe. Uma aula de tática. Foi bonito de ver.

*PS: aos muitos que perguntaram. É fácil de achar os heat maps. É só entrar no Match Cast de cada jogo, e procurar pelas formações táticas. Dá para ver ainda heat maps individuais clicando sobre o nome de cada jogador.

Holanda centraliza jogo e perde objetividade

14 de junho de 2010 1

Sem Robben, o técnico da seleção da Holanda decidiu hoje abrir mão do 4-3-3 usual, escalando a equipe no 4-2-3-1 contra a Dinamarca. Mas estratégia não rendeu bom desempenho - apesar da vitória de 2 a 0. Principalmente, devido ao nome escolhido para substituir Robben: Van der Vaart.

A segunda linha de meio-campo holandesa teve Van der Vaart pela esquerda, Sneijder centralizado, e Kuyt na direita. Na prática, entretanto, Vaart - um meia organizador - buscou um posicionamento mais central, concorrendo com Sneijder pelo mesmo espaço. Na direita, Kuyt atuou extremamente aberto, afastando-se desta dupla, como um típico winger do modelo britânico, a exemplo da função que cumpria no Liverpool de Rafa Benítez.

Afunilar o jogo com Vaart e Sneijder, e alijar Kuyt da participação ofensiva, desabasteceu Van Persie. E facilitou o sucesso defensivo do 4-1-4-1 da Dinamarca, que bloqueou a frente da área com um volante na cobertura - C.Poulsen - e dois jogadores de marcação e criação logo à frente. A Holanda, desta forma, perdeu velocidade e objetividade, resumindo-se a lentas trocas de passes laterais.

No 2º tempo, após receber de presente um gol contra aos 40seg, a Holanda encontrou a melhor forma de jogar sem Robben. Ainda no 4-2-3-1, Marwijk trocou Vaart por Elia. E a segunda linha de meio-campo organizou-se. Kuyt e Elia abriram pelos lados, Sneijder não teve concorrência na articulação central, e o jogo veloz característico da Holanda passou a acontecer.

Se Robben seguir de fora, por lesão, o técnico holandês deve ter percebido que - no 4-2-3-1 - não é possível ter Van der Vaart aberto pela esquerda. Isso porque ele naturalmente imanta-se à zona de articulação central, trazendo a marcação para perto de Sneijder, e obstruindo a própria transição ofensiva. Com Elia, a Holanda se aproximou da estrutura à qual está acostumada. Não acredito, porém, que Vaart e Sneijder não possam jogar juntos. Prefiro - e a Holanda foi bem noutras vezes desta forma - vê-lo formar com Sneijder a dupla de articulação no 4-3-3, tendo apenas um volante (sairia De Jong).

Outra boa troca foi a passagem de Kuyt para a área (Afellay substituiu Van Persie, e assumiu o lado direito da segunda linha de meio-campo). Mesmo com a insistência de Benitez em usá-lo como winger direito no Liverpool - e ele é abnegado para cumprir a função - Kuyt rende mais na área. Gostaria de ver sua permanência como o centroavante da Holanda mesmo quando Robben retornar.

Nas Eliminatórias, Marwijk já usou Robben e Van Persie abertos pelos lados, com Kuyt na área. Assim ele pode ao mesmo tempo aproveitar melhor o chute forte e a movimentação lateral de Van Persie, e também contar com o oportunismo e a combatividade de Kuyt entre os zagueiros adversários.

O 4-2-3-1 da Alemanha serve de referência

13 de junho de 2010 7

Apesar de todas as ressalvas que os mais cautelosos possam fazer (já li opiniões depreciando a qualidade geral do time da Austrália, atribuindo a goleada à defesa dos "Socceroos", etc, etc...) o desempenho da Alemanha no 4 a 0 de hoje é digno de almanaque sobre teoria tática. Vale a pena registrar o funcionamento do 4-2-3-1 organizado pelo técnico Joachim Löw na vitória sobre a Austrália.

A Alemanha de Löw aproximou-se do funcionamento ideal do 4-2-3-1. Partindo de algumas premissas estratégicas fundamentais para tal: adiantar as duas linhas do meio-campo, e compactá-las; permitir aos extremos a variação constante entre linha de fundo e diagonal do lado para o meio; dar liberdade ao meia-ofensivo central para transitar de lado a outro, avançar ou recuar conforme a circunstância exigir; autorizar o apoio de pelo menos um volante e um lateral.

Esta diversidade de movimentos, sincronizados, criou na articulação alemã aquilo que na Espanha (Paulo Autuori democratizou este conceito por aqui) chamam de "pequenas sociedades". Graças, principalmente, à circulação de Özil. O camisa 8 foi o meia-ofensivo central. E ditou a organização da seleção de Löw, aproximando-se do meia-extremo que tivesse a posse de bola. Nem Müller na direita, nem Podolski na esquerda ficaram abandonados. Quando um deles recebia a bola, logo recebia a aproximação de Özil.

A saída constante de Özil para os lados, além de beneficiar os wingers, abria um corredor interessante para o avanço do volante Khedira. O meia-central arrastava a marcação, já desorganizada por esta movimentação. Escancarava-se, com isso, o corredor para Khedira. O mesmo se dava pelo lado direito, quando Müller ingressava na área, permitindo a Lahm apoiar com qualidade. Na esquerda, Schweinsteiger mais se preocupou em guarnecer o setor para Podolski avançar, enquanto Badstuber assumiu a função do lateral-base, responsável pela basculação defensiva com os dois zagueiros.

Esta sincronia de movimentos do 4-2-3-1 da Alemanha é uma boa referência para os técnicos brasileiros. Raramente, alguns tentam importar este sistema. E quase nunca fazem da maneira correta. Recentemente Silas, por exemplo, aplicou o 4-2-3-1 ao Grêmio. Mas com estratégia defensiva e posicionamentos iniciais rígidos. Recuou a segunda linha do meio-campo, e não permitiu movimentação a nenhum deles. Foi previsivelmente marcado, e ainda isolou o único atacante, desabastecendo-o. O erro desta importação equivocada do 4-2-3-1 é enrijecer o posicionamento inicial dos meias ofensivos, e atrasar as linhas do meio-campo. É preciso adiantá-las, e criar mecanismos de aproximação constante entre estes jogadores, de onde nascem as combinações, e se abrem os espaços.

O sucesso de hoje do 4-2-3-1 alemão deve-se necessariamente à liberdade conferida a Özil. A movimentação do meia-central "colocou no jogo" os dois extremos - Müller e Podolski - mantendo a posse de bola sob controle, com passes curtos, e desorganizou o sistema defensivo adversário. A Austrália não encontrou Özil em campo. E na tentativa de capturá-lo, provocou um efeito dominó de problemas: quando enfim encontrava Özil, desmarcava Podolski, que pela movimentação desmarcava Müller...e assim sucessivamente. Sempre tinha um alemão livre. Uma aula de 4-2-3-1. Gostei muito do que vi hoje. Parabéns a Löw e a seus jogadores. Tomara que não tenha sido uma exceção, e que o desempenho da Alemanha siga em alto nível, nos privilegiando com belos jogos.

Confiram a análise de Gana x Sérvia, outro jogo do Grupo D

Gana vence com variações das duas linhas

13 de junho de 2010 1

Com mérito, Gana emplacou ao menos três marcas históricas para a Copa do Mundo de 2010, ao bater a Sérvia por 1 a 0 nesta manhã de domingo: a primeira vitória de uma seleção africana no Mundial da África do Sul; o primeiro pênalti marcado (e convertido); e o primeiro gol de atacante, com a cobrança de Gyan. Mas o resultado não passa apenas por estas coincidências estatísticas, contando com mérito tático.

Gana apresentou variações para as duas linhas de quatro jogadores. Durante todo o primeiro tempo, principalmente sem a bola, o sistema original dos africanos foi o 4-1-4-1. Defesa e meio-campo próximos, com o volante Annan entre eles, e o atacante Gyan mais isolado. Posicionamento aplicado a uma estratégia cautelosa, valorizando a eficiência do já reconhecido sistema defensivo de Gana.

No 2º tempo, entretanto, Gana se adiantou. Com a bola, Annan passou a integrar a segunda linha, formando a parelha central com Boateng, e empurrando Asamoah como um segundo atacante preferencialmente no lado direito. Os wingers também "espetaram" no alto do campo, empurrando os laterais adversários para trás. Formação que contribui para os africanos aumentarem o índice da posse de bola, afastar a Sérvia da própria área, e consequentemente controlar a partida.

A articulação se concentrou na direita, com o apoio do lateral Pantsil, e o avanço do winger Tagoe. Asamoah, no movimento de transição para o 4-4-2 em duas linhas, também imantava-se à mesma faixa de campo. Gana chegou a insistir demais pela direita, abandonando o lado esquerdo, e desequilibrando a saída de bola. A estatística oficial da Fifa comprova: Gana chegou à linha de fundo 16 vezes, somando 8 cruzamentos da dupla Pantsil e Tagoe, contra 5 da dupla Sarpei/Ayew.

O debate sobre Gana é válido para ressaltar a aplicação da equipe no cumprimento das típicas funções do 4-4-2 britânico (seja nesta formação, ou no 4-1-4-1). A linha defensiva foi competente, o primeiro volante soube fazer a transição de sistema, os wingers apoiaram de forma incisiva pelos lados, o meia-ofensivo central cumpriu a estratégia de avançar em auxílio a Gyan...e assim, sem correr riscos, Gana chegou à vitória sobre uma Sérvia (também no 4-4-2 em duas linhas) sem criatividade, refém dos lançamentos longos e dos erros de passe.

VÍDEO: Análise tática do primeiro final de semana da Copa

11 de junho de 2010 10

O blog Preleção, durante a Copa do Mundo, fará vídeos semanais com análise tática animada. Com o trabalho da equipe de arte e multimídia do clicEsportes, foi possível reproduzir movimentos e fazer projeções.

Quem costuma acessar o blog sabe que prefiro fazer análises posteriores aos jogos, porque as projeções se tornam reféns das escalações que os técnicos pretendem colocar em campo, e uma eventual surpresa na escalação pode comprometer o resultado.

Mas a proposta dos vídeos será sempre a projeção. Arrisquemos, portanto. E o primeiro é sobre o confronto Inglaterra x Estados Unidos. Confiram:

O 3-5-2 do Uruguai espelhado no 4-3-3 da França

10 de junho de 2010 8

Acredito que o sistema adequado para ruir com o bloqueio defensivo do 3-5-2 é o 4-3-3. O raciocínio inverso, obviamente, também é verdadeiro: nada pior para um sistema com três zagueiros do que enfrentar um oponente com trio ofensivo. Assistiremos amanhã, na África do Sul, a este espelhamento tático no confronto entre Uruguai e França, pelo Grupo A da Copa do Mundo 2010.

O Uruguai joga no 3-5-2, com variação para o 3-6-1. São três zagueiros fixos, dois alas de predileção defensiva, dois volantes, um meia-articulador, um atacante que recua para a ponta-de-lança, e apenas um atacante nato. A escalação provável uruguaia tem Muslera; Lugano, Godín e Victorino; Maxi Pereira, Arévalo, Pérez, González e Álvaro Pereira; Forlán e Suárez. A França prefere o 4-3-3 com triângulo de base baixa no meio-campo. Linha defensiva de quatro jogadores, dois volantes fazendo a saída de bola e cobrindo o apoio dos laterais, um articulador, dois atacantes pelos lados, e um centroavante de referência. Os franceses devem jogar com Lloris; Sagna, Squillaci, Abidal e Evra; Gourcuff, Toulalan e Malouda; Govou, Anelka e Ribéry.

Para o Uruguai, este espelhamento é muito arriscado. Culpa do sistema de marcação aplicado ao 3-5-2 (individual por função). Os três zagueiros uruguaios devem perseguir homem-a-homem os três atacantes franceses: Lugano em Anelka, Godín em Ribéry, e Victorino em Govou. Da mesma forma, os alas Maxi e Álvaro Pereira vão bater com os laterais Sagna e Evra.

Na obsessão pela sobra, o Uruguai precisará recuar um dos volantes sem a bola - Pérez ou Arévalo - deixando o outro colado em Malouda, o articulador francês. Neste caso a teoria tática diz - e a prática comprova - que no encaixe tático, nas perseguições individuais, vence o lance quem tiver maior técnica. Qualquer vitória pessoal de um dos atacantes franceses sobre os zagueiros, qualquer passagem dos laterais pelos alas, qualquer movimento que desorganize a defesa uruguaia, vai oferecer muito perigo.

No 4-3-3, a França marca por zona. Esta diferença é fundamental nas faixas laterais. Sagna e Evra serão marcados pelos Pereiras, mas a recíproca não é verdadeira. Sem a bola, eles devem recuar para combater qualquer adversário que ingressar por ali. Eles serão auxiliados ainda pelo recuo dos atacantes Govou e Ribéry, que devem acompanhar os alas uruguaios.

De véspera, o único claro risco para os franceses, parece-me, é a movimentação de Forlán às costas dos volantes. Como o atacante uruguaio recua para buscar jogo, e da intermediária parte em diagonais imprevisíveis, deve indefinir o combate por zona da França. Se, neste desdobramento, Forlán conseguir retirar os zagueiros do lugar, poderá ele mesmo se aproveitar, ou então abrir espaços para Suárez.

A perspectiva é de um jogo com posse de bola e controle franceses; recuo das linhas e bloqueio defensivo uruguaios. Ataque da França, com trocas de passes e aproximações curtas; contra-ataque do Uruguai, com bola longa e velocidade. Na teoria, vantagem tática para a França. Mas vale lembrar que este 3-5-2 à brasileira - mesmo que pobre de recursos - quando obtém vantagem defensiva, e consegue eficiência na bola parada (aérea, principalmente), é competitivo.