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Posts com a tag "Inter de Milão"

Rafa Benítez faz mudanças na estrutura da Inter de Milão

22 de agosto de 2010 7

Na comparação com a herança deixada por José Mourinho, a Inter de Milão apresenta modificações na estrutura tática com a chegada de Rafa Benítez. O novo treinador não manteve o desenho utilizado pelo seu antecessor - na comparação possível com a observação do jogo de ontem, quando a Inter venceu a Roma de virada por 3 a 1, conquistando a Supercopa Italiana.

Com José Mourinho a Inter variava entre o 4-3-3 (prioritário) e o 4-4-2 em losango. Rafa Benítez, partindo da base principal, recuou os atacantes, transformou-os em meias-extremos, e configurou o 4-5-1 também chamado de 4-2-3-1. Eto'o e Pandev, que jogavam abertos e próximos a Diego Milito, agora atuam na mesma linha de Sneijder.

Outra mudança é estratégica. Benitez inverteu os lados dos agora meias-extremos. O destro Eto'o jogou pela esquerda, e o canhoto Pandev pela direita. Movimento bastante aplicado ao 4-2-3-1 - o Inter, provável adversário da Inter em Abu Dhabi pela final do Mundial de Clubes, faz isso com Taison e D'Alessandro. Embora a equipe perca a profundidade sem a busca pela linha de fundo, ganha agressividade com as diagonais destes extremos na direção de Diego Milito.

Sneijder segue como o ponta-de-lança central, função que desempenhava nos dois modelos táticos de Mourinho. A dupla de volantes é argentina, com Cambiasso mais à esquerda, e Zanetti à direita. Maicon é o lateral apoiador, explorando o corredor aberto nas diagonais de Pandev, enquanto Chivu sobe em menor escala do lado oposto.

É pequena, entretanto, a amostragem para se determinar que será esta a estrutura tática da Inter durante a temporada.

O paredão com o qual Mourinho contraria a própria teoria

28 de abril de 2010 49

José Mourinho ampara o desenvolvimento de uma teoria tática própria em algumas premissas fundamentais, duas entre elas: ocupação equilibrada de espaços, e valorização da posse de bola. Hoje, na derrota de 1 a 0 para o Barcelona fora de casa, Mourinho contrariou tudo o que ele mesmo defende. Ainda assim, conquistou a classificação para a final da Champions League.

Este é um daqueles momentos que o comentário de resultado se sobrepõe à análise teórica. O próprio Mourinho não levou em consideração os conceitos nos quais acredita. Ele formou um paredão que, a partir do meio do 2º tempo - com a troca de Sneijder por Muntari, e o recuo de Cambiasso para o centro da linha defensiva - configurou um sistema 5-4-0.

No total, a Inter ofereceu ao Barcelona 86% da posse de bola, e dois terços de campo para trabalhar. A primeira linha se posicionou sobre o limite da grande área. E a segunda linha logo após a meia-lua. A partir da expulsão de Thiago Motta (a Inter jogava no 4-4-1-1), Mourinho apenas montou um 4-4-1, mas depois retrocedeu a um 5-4-0. Abdicou da posse de bola e da ocupação de espaços. Logo ele.

A estratégia é arriscada, mas deu certo. A Inter bloqueou os lados e a entrada da área. Forçou o Barcelona a procurar centroavantes que inexistem, cruzando bolas altas para pequenos atacantes e meias como Messi, Pedro, Bojan, Jeffren, Xavi. A carência é tão grande neste aspecto que o zagueiro Piqué se transformou em centroavante, e marcou o gol do Barça.

A questão - a despeito do resultado, que favoreceu a Inter - é oportuna: era necessário recuar tanto? Era necessário formar um 5-4-0 com nove jogadores posicionados a partir da meia-lua da grande área? Era prudente abdicar do contra-ataque, da posse de bola e da ocupação equilibrada de espaços apenas porque a equipe jogava com um a menos, fora de casa, e podendo perder por um gol?

Mourinho assumiu riscos, e teve sucesso nesta estratégia em razão da grande qualidade de seus defensores. Confiou no talento de Lúcio, Samuel, Cambiasso, Zanetti e outros tantos para destruir. Confiou na abnegação de Eto'o e Milito, que se resumiram a marcadores dos laterais. E confiou em Júlio César, quando não pudesse confiar em mais ninguém. Apostou nos seus jogadores.

Mas, ainda sobre a questão: eu já vi equipes com um jogador a menos jogarem como se não houvesse nenhum expulso. Eu já vi Mourinho atacar fora de casa e, no 4-3-3, vencer equipes fortes. Hoje eu vi um Mourinho que se contradisse, e apesar do resultado, fez do futebol um esporte um pouco mais triste - que me perdoem os fãs de resultado. Na teoria - na teoria que ele defende - a Inter poderia ter se classificado sem se comportar de maneira tão passiva.

*ATUALIZAÇÃO: tomo a liberdade de prolongar o debate, respondendo aos comentários que dizem ser "impossível" enfrentar o Barcelona de outra forma que não seja formando paredões atrás da meia-lua da grande área, abdicando de qualquer saída de bola, posse de bola, ou algo parecido. Discordo.

Esse pensamento faz a Inter assumuir uma pequenez que não lhe pertence. Será mesmo "impossível" para esta Inter com Eto'o, Diego Milito, Maicon, Cambiasso, Sneijder...segurar o jogo de outra forma? Valorizar mais a posse, propôr saídas, gastar o tempo sem ser assediada integralmente na partida? É tão ruim e fraco tecnicamente este time? Acredito que não. Pelo contrário. É uma seleção estrangeira.

Reitero, entretanto, que o resultado se contrapõe a qualquer teoria ou opinião contrária. Deu certo. A Inter conseguiu a classificação com esta estratégia, mesmo sem ser um time pequeno, e mesmo tendo um elenco com sobra de condições para se comportar de maneira diferente.

Lembro ainda que estamos debatendo, alguns concordando, outros discordando, mas sempre com argumentos e opiniões consistentes. É isso que faz do Preleção um fórum sobre táticas. Agradeço a todos pela participação.

Confronto dos 4-3-3's espelha o meio-campo

20 de abril de 2010 30

Eu ainda ontem utilizei a palavra "espelhamento" com alguma restrição, em post sobre o Inter de Fossati. Para mim, a palavra é empregada equivocadamente, porque o espelho configura a imagem invertida, não a exata. Quando se fala que dois sistemas iguais jogam espelhados, eu discordo. Mas hoje aconteceu um espelhamento que atende ao significado da palavra. Foi no meio-campo, na partida entre Inter de Milão e Barcelona.

As duas equipes optaram pelo 4-3-3. José Mourinho, na Inter, organizou o meio-campo com dois volantes e um meia-articulador - desenho que pode ser descrito como "triângulo de base baixa". Thiago Motta e Cambiasso foram os volantes, muito atentos à marcação dos meias adversários, e também à cobertura dos laterais. Eles contaram ainda com o auxílio de Pandev, que recuava pela esquerda - sem deixar de ser atacante - para fazer o primeiro combate a Daniel Alves. Confiram no diagrama tático abaixo:

Já no Barcelona, Guardiola - também no 4-3-3 - desenhou seu meio-campo em triângulo de base alta. Um volante (Busquets) e dois meias ofensivos (Xavi e Keita). A compensação, para a basculação da linha defensiva, se dá - na teoria, pois hoje não funcionou como o planejado - com a permanência de um lateral na base. Busquets, quando preciso, também pode recuar por dentro, empurrando um dos zagueiros para a cobertura da faixa direita ou esquerda. Também em diagrama tático, abaixo:

Isto sim configura um espelhamento. O triângulo de base alta do Barça se encaixa perfeitamente ao triângulo de base baixa da Inter. Dois volantes italianos pegando dois meias espanhois, um volante catalão marcando um meia milanês.

E, quando há encaixe na marcação espelhada, os técnicos sempre destacam: é hora da individualidade. O debate foge às limitações táticas, e passa para a avaliação do desempenho de cada jogador envolvido na trama. Afinal, para qualquer das duas equipes funcionar, deveria haver vitória de alguém - ou do marcador, ou do armador.

Neste aspecto, os jogadores da Inter saíram-se melhor. Principalmente os dois volantes, que forçaram Keita a abrir mais lateralmente, e Xavi a buscar o corredor central. Perderam poucas batalhas. Messi também centralizou, talvez na tentativa de jogar às costas dos dois volantes. Zanetti, entretanto, não saiu da base.

O confronto destaca diversos aspectos que fazem de José Mourinho um técnico acima da média. Apesar de discordar de algumas decisões dele - sempre quando recorre a um defensivismo injustificável - hoje Mourinho conseguiu anular as muitas virtudes de uma equipe quase imbatível. Cada peça do diagrama tático da Inter foi meticulosamente movimentada no sentido de combater, anular, bloquear, impedir de jogar, para daí em diante buscar os contra-ataques.

O reflexo deste espelhamento do meio-campo de duas equipes no 4-3-3 - uma vocacionada ao ataque, outra tradicionalmente cautelosa - está na estatística: uma posse de bola assustadora para o Barcelona (71% contra apenas 29%), mas total equilíbrio no número de oportunidades de gol - 9 da Inter, 10 do Barça. E vitória dos donos da casa, por 3 a 1.

Roma bloqueia zona de articulação da Inter

28 de março de 2010 8

Vencer a Inter, ontem à tarde, fez da Roma uma candidata ao título do Campeonato Italiano nesta temporada. E a conquista do 2 a 1, em casa, teve grande contribuição tática no bloqueio da zona de articulação principal do time de José Mourinho.

No 4-4-2 com meio-campo em losango - ou 4-3-1-2, se assim preferirem - a Inter concentra no ponta-de-lança Sneijder sua organização. Ele se posiciona próximo da dupla de ataque, centralizado, na intermediária ofensiva. Por ali, atrai atacantes, aproxima-se de laterais, e conta com a passagem dos apoiadores (ontem, Stankovic e Thiago Motta).

Como a Roma estancou esta movimentação? Com um bloqueio de três volantes centralizados. Pizarro por dentro, Perrota à direita, e De Rossi na esquerda formaram um trio de marcadores que retirou mobilidade e velocidade da transição ofensiva da Inter. Estrategicamente ocupando espaços, a Roma permitiu à Inter manter uma posse de bola alta (quase 70%), porém pouco objetiva. Arriscado, mas efetivo ontem.

Este bloqueio subia para uma quase linha de cinco jogadores com a participação de Ménez e Vucinic pelos lados. Com a bola, ambos avançavam - principalmente Vucinic, que transitava da meia-extrema para a "punta", como um segundo atacante - abrindo o corredor para Riise sobre Maicon. Na direita, Ménez e Cassetti armaram outra dobradinha. Para a descrição tática, a Roma atuou no 4-5-1 com variação para 4-4-2 a partir do movimento de Vucinic.

Na frente, Luca Toni teve a responsabilidade de segurar a bola nas transições, até que Vucinic, Ménez, e ao menos um dos volantes pudesse chegar nos contra-ataques. Centroavante de exceção, marcou o gol da vitória e foi importantíssimo no embate físico com a defesa não menos corpulenta da Inter.

Nem sempre oferecer posse de bola a um time qualificado como a Inter dá certo. Corre-se o risco de permitir aos talentosos jogadores adversários criar oportunidades de gol com improviso. Mas a Roma assumiu este risco, bloqueou espaços com até nove jogadores na frente da própria área, apostou no contra-ataque, nas diagonais de Vucinic, nos corredores pelos lados, e na estrela de Luca Toni. E ateou fogo no Calcio.

O 4-3-3 completo de José Mourinho

17 de março de 2010 61

Eu não sei se acho graça ou me entristeço com os internautas que se declaram aqui no blog Preleção ferrenhos opositores do Santos de Dorival Júnior apenas porque a equipe paulista escolheu o 4-3-3 como sistema tático predileto. Cheguei a ler a seguinte definição: "futebol é barro no calção". Não, rugby é barro no calção. Futebol é bola na rede. Infelizmente, a disseminação do 3-5-2 à Muricy no Brasil enrijeceu a crítica dos brasileiros. Associamos futebol à capacidade de dar carrinhos e morder as traves. Uma pena.

Ontem, José Mourinho ofereceu uma aula gratuita de 4-3-3. Foi espetacular na vitória de 1 a 0 da Inter de Milão sobre o Chelsea, quebrando um estigma recente, e passando às quartas de final da Champions League. Jogou com três atacantes e um meia ofensivo sem abdicar da segurança defensiva. Foi 4-3-3, mas não foi "faceiro" (sic). Não precisou aderir ao rugby com os pés para se classificar. Eto'o, Pandev e Diego Milito deixaram o campo com os calções limpinhos, sem barro algum. E classificados.

Reitero um argumento de José Mourinho, esclarecido no livro “O porquê de tantas vitórias”, escrito por quatro portugueses que dissecam a metodologia do técnico português. Mourinho adota, em qualquer clube, apenas dois sistemas: ou o 4-3-3, ou o 4-4-2 com meio-campo em losango - assim ele mesmo chama, e conta com meu apoio, mas podemos desdobrar para 4-3-1-2 a quem prefere as quatro faixas de campo.

Mourinho defende que o 4-3-3 é o sistema tático mais completo, por oferecer a mais equilibrada ocupação de espaços. Mas ele também se utiliza do 4-4-2 em losango por considerá-lo menos eficiente, o que obriga seus jogadores a manterem a concentração alta, compensando as falhas do sistema com aplicação e inteligência. Assim fala o treinador da Inter de Milão, conforme trecho do livro citado:

"O 4-3-3 é o sistema mais simples, e ao mesmo tempo mais completo, por apresentar a mais equilibrada ocupação de espaços no campo. Mas eu prefiro o 4-4-2 em losango porque ele gera certo desequilíbrio na ocupação dos espaços em comparação com o 4-3-3, o que exige mais concentração dos meus jogadores”.

A Inter jogou no 4-3-3 contra o Chelsea, em Londres. Teve 49% da posse de bola, e criou 13 oportunidades. O Chelsea de Carlo Ancelotti também começou no 4-3-3, com 51% de posse, e 14 oportunidades criadas. Foi uma partida muito equilibrada, e em alto nível. Ao contrário dos espelhamentos de 3-5-2, que abdicam da transição pelo chão, buscando a ligação direta, assistimos ontem a uma partida de futebol clássico. Jogado, pelo chão, com bola no pé, buscando a vitória. Sem abdicar da marcação.

Mourinho armou um triângulo de base baixa no meio-campo. Os volantes Cambiasso e Thiago Mattos guarneceram a linha defensiva, e tiveram à frente Sneijder como ponta-de-lança - ou trequartista, como dizem os italianos. À frente, o tridente ofensivo, com Eto'o pouco à direita, Milito centralizado, e Pandev na esquerda. Trio que se movimentou, variando os posicionamentos iniciais - tanto que Eto'o marcou o gol da vitória partindo da esquerda (*quando Stankovic já estava em campo, variando para o 4-4-2, o que levou Eto'o para a esquerda, conforme bem apontam os amigos nos comentários).

O balanço ofensivo se deu com Maicon e Pandev. Zanetti atuou como lateral-base pela esquerda, e Maicon teve mais liberdade para apoiar. Eto'o, saindo do lado para o meio, abria o corredor para Maicon. Na esquerda, Pandev podia ser ofensivo com a garantia da cobertura de Zanetti no setor. E a dupla de volantes protegia a frente da área, permitindo a Sneijder protagonizar uma atuação de gala na articulação.

Mas a Inter de Milão, com três atacantes, um meia ofensivo e um lateral apoiador, foi absolutamente segura na defesa. Não sofreu gol. Contou com a aplicação tática e a abnegação de todos os jogadores. Maicon, um lateral considerado ofensivo, marcou como nunca. Sneijder deu combate. O trio ofensivo recuava sem a bola, ocupando espaços. Esta é a chave: ocupando espaços.

Não existe sistema tático ofensivo demais, "faceiro" (sic). Não é preciso ter zagueiros demais, ou volantes demais, para se obter segurança. Ninguém precisa sujar o calção dando carrinho, como o tackle do rugby. Basta ocupar espaços. Os jogadores de Mourinho, bem distribuídos no 4-3-3, compactavam as três linhas e ocupavam todos os espaços possíveis entre as duas intermediárias. Assim, o Chelsea não encontrava espaços. Marcação que respeita o rigoroso posicionamento inicial de cada um.

Mourinho fala muito sobre isso no livro "O porquê de tantas vitórias". Na transição defensiva (perda da posse de bola) a equipe precisa de uma rápida organização. Contando com a agilidade na retomada dos posicionamentos iniciais sem a bola, o sistema tático 4-3-3 não se torna vulnerável. Perdeu a bola? Compacta a equipe, rapidamente, ocupando espaços e bloqueando a passagem dos atletas adversários.

Aproveito para reiterar minha incompreensão com este ódio coletivo contra o Santos. Parece uma oposição à exposição na mídia, aos apelidos, aos "Meninos da Vila", ao Robinho, às dancinhas. Isso não pode entrar em consideração em uma análise séria e criteriosa. O sistema tático precisa ser avaliado a despeito da simpatia por este ou aquele jogador. Não é proibido usar 4-3-3 no Brasil. A crítica não deve ser dirigida à inteligência e à coragem de Dorival Júnior, que se insurge contra a rugbyzação do futebol brasileiro. Mas sim ao comportamento dos jogadores que esquecem da aplicação tática em nome da soberba.

No clássico, não foi taticamente que o Palmeiras venceu o Santos. Foi na raiva. Em 40min de futebol, o Santos venceu por 2 a 0 e comprovou a competitividade do 4-3-3. Mas quando seus jogadores esqueceram do comprometimento na ocupação de espaços, e com as provocações quase inconsequentes mexeram com o brio dos palmeirenses, perderam a partida. Provavelmente, se o Santos mantivesse a intensidade de seu 4-3-3, com posicionamento adiantado, posse de bola, movimentação, e compactação sem a bola, teria vencido. Os jogadores do Palmeiras sentiram-se humilhados, e ganharam na raiva. E raiva, raramente, vence o futebol inteligente. Faltou ao Santos jogar com a aplicação da Inter de Mourinho por 90min.

Mourinho, Ancelotti e Guardiola usam o 4-3-3 respectivamente na Inter de Milão, no Chelsea e no Barcelona. Sabem fazer, sabem exigir de seus jogadores concentração, disciplina tática, e ocupação inteligente de espaços. Ninguém suja calção, e as equipes são bem sucedidas. Serve de exemplo ao futebol brasileiro, certamente, e principalmente à crítica. O Santos pode sim jogar no 4-3-3, desde que siga estes preceitos táticos. Comprometimento é importante no bom desempenho de uma equipe, qualquer que seja o sistema escolhido. E futebol, definitivamente, não é rugby.

Com Pandev, Mourinho se realiza

07 de fevereiro de 2010 14

Algumas vezes já citei em análises da Inter de Milão o livro "Mourinho: o porquê de tantas vitórias", no qual o técnico português se diz adepto de apenas dois sistemas táticos. Em qualquer equipe ele adota somente o 4-4-2 com meio-campo em losango, ou o 4-3-3. Segundo Mourinho - sempre é bom lembrar - o 4-3-3 é mais completo, proporcionando melhor ocupação de espaços; mas o 4-4-2 em losango, por ser "incompleto", mantém seus jogadores em mais intenso estágio de concentração.

Conforme o elenco e as necessidades das equipes que dirige, Mourinho define o sistema predileto, e o alternativo. No Porto e no Chelsea, tinha o 4-3-3 como preferencial; na Inter, é o 4-4-2 em losango sua primeira escolha.

Pandev, recente reforço da Inter, permite a Mourinho usar seus dois sistemas táticos na mesma partida. O português deve estar realizado. O ex-jogador da Lazio concilia habilidades de articulador, e virtudes de centroavante. Compromete-se com o posicionamento, marca, compreende as funções que desempenha.

Hoje, contra o Cagliari, Pandev claramente transitou entre a ponta-de-lança do 4-4-2 em losango, e entre uma das três frentes de ataque do 4-3-3. Posso estar enganado - e abro o debate para quem também assistiu à vitória de 3 a 0 do time de Mourinho - mas esta troca de posicionamento e função de Pandev não me pareceu restrita a um dos sistemas apenas. Configurou, para mim, variação tática.

Sem a bola, Pandev completava o losango. Tendo Zanetti à direita, Thiago Motta à esquerda, e Cambiasso no vértice central de proteção da linha defensiva. Recuperada a bola, Pandev algumas vezes se mantinha neste sistema, recebendo a bola para a transição ofensiva, articulando o ataque como faria o Sneijder se ali estivesse.

Mas noutras vezes, recuperada a posse, Pandev passava da linha de Eto'o e Milito. Ingressava na área, ou empurrava um deles para esta região, passando pelo lado. Pandev se transformava em centroavante nato, ou em atacante pelo lado. Não é um movimento natural do ponta-de-lança no 4-4-2 com meio-campo em losango. É uma variação, e muito interessante. Possível devido à característica de Pandev, à sua entrega e inteligência tática.

Com esta contribuição tática importante, que permite à Inter variar do 4-4-2 para o 4-3-3 no mesmo jogo, e em grande fase técnica, Sneijder deve procurar outro alvo para substituir quando retornar. Pandev não pode sair do time.

Mourinho do Italiano x Mourinho da Champions

29 de novembro de 2009 8

Diagrama tático da Inter de Milão que venceu a Fiorentina por 1 a 0, neste domingo

Já falei aqui no blog Preleção várias vezes sobre o livro "Mourinho: o porquê de tantas vitórias" escrito por quatro jornalistas portugueses, que dissecam o método de trabalho do hoje técnico da Inter de Milão. Nele, Mourinho afirma que trabalha apenas com dois sistemas táticos: o 4-3-3 - seu predileto, por considerá-lo o que faz a melhor ocupação de espaços - e o 4-4-2 com meio-campo em losango.

Na Inter, Mourinho adotou o 4-4-2 em losango. Recorre ao 4-3-3 apenas em circunstâncias de exceção. Como hoje, vencendo a Fiorentina em casa por 1 a 0 com um interessante equilíbrio de ações na escolha dos jogadores. A Inter, com a mudança para os três atacantes, voltou a jogar futebol.

No 4-3-3, Mourinho desenhou um triângulo de base alta no meio-campo. Cambiasso foi o vértice defensivo, com Stankovic na direita e Muntari na esquerda, de armadores. E na frente, ele optou por um ataque de dois centroavantes - Eto`o pouco à esquerda, e Diego Milito centralizado (às vezes, ambos trocavam de posição). E Quaresma muito aberto pela direita.

O equilíbrio se deu da seguinte forma: Mourinho "segurou" Stankovic, atribuindo a ele a distribuição das jogadas. E "soltou" Muntari para o apoio pela esquerda. Essa estratégia compensou a utilização de um atacante aberto pela direita. Quaresma foi quase um ponta, municiando os dois centroavantes. E Muntari fazia a passagem pela esquerda, aproximando-se de Eto`o quando o camaronês abria pelo lado.

Para não perder a segurança sem a posse de bola, Zanetti e Chivu foram laterais marcadores. Muito presos à base da linha defensiva. Somados a Cambiasso e aos zagueiros, eram cinco jogadores de bloqueio constante, com outros cinco apoiando.

Essa mudança, para um jogo em casa pelo Campeonato Italiano, explica um pouco o grande sucesso de Mourinho à frente do Inter no Nacional, e os recentes fracassos na Liga dos Campeões. Existem dois Mourinhos. O treinador português adota uma postura no Italiano - ofensiva, de "time grande", requerendo o protagonismo de cada partida, com posse de bola e objetividade; e outra postura na Champions - cauteloso em excesso, quase defensivista, burocrático e pragmático.

Contra o Barcelona, fora de casa - pela Champions - a Inter perdeu por 2 a 0 jogando no 4-4-2 com três volantes no losango: Cambiasso, Zanetti e Thiago Motta. A Inter não teve nenhuma posse de bola, nem velocidade na transição ofensiva. Simplesmente, deixou o Barça bater, aceitou o domínio, e foi a nocaute. E hoje, no Italiano, escalou a equipe no 4-3-3 com apenas um volante. Uma mudança radical de estrutura tática e de estratégia.

Talvez se o Mourinho do Italiano começar a treinar a Inter na Champions, a multicampeã nacional possa enfim, sob o comando do técnico português, vencer também no continente.

Postado por Eduardo Cecconi

Mourinho e o 4-3-3

26 de setembro de 2009 4

O 4-3-3 considerado completo na ocupação de espaços por Mourinho, com Eto`o recuando na variação para o 4-4-2

No livro "O porquê de tantas vitórias", o técnico José Mourinho afirma que trabalha sempre - independentemente do clube onde esteja - com dois sistemas táticos. Conforme a característica do elenco, um é eleito o prioritário, o outro se transforma na alternativa imediata. São eles o 4-3-3 e o 4-4-2 com meio-campo em losango.

Foram estas as duas opções que ele apresentou no Porto e no Chelsea, e agora também na Inter de Milão. No clube italiano, o 4-4-2 em losango é o sistema número um. Mas hoje, contra a Sampdoria, Mourinho recorreu ao 4-3-3.

A Inter jogou no 4-3-3 com triângulo alto no meio-campo. Na prática, ele trocou a figura do ponta-de-lança no losango (o vértice mais adiantado) por um terceiro atacante. Saiu Stankovic (Sneijder está lesionado) e entrou Balotelli. Os três demais jogadores do meio mantiveram o posicionamento comum das duas primeiras linhas do 4-4-2: Cambiasso centralizado; Zanetti e Vieira lado-a-lado, um pela direita e outro pela esquerda.

Na frente, Mourinho abriu Eto`o pela direita e Balotelli na esquerda. Ambos trocaram bastante de posição. Diego Milito jogou centralizado, como centroavante. E em algumas oportunidades Eto`o recuou por dentro, como o ponta-de-lança do losango, retornando para armar as jogadas e reconstituindo o 4-4-2, em uma variação bastante simples mas eficaz - como a Sampdoria também atuou no 4-3-3, Eto`o buscava a bola às costas do volante, abrindo espaço para outros jogarem ao trazer a marcação com ele.

A partida estava empatada em 0 a 0 quando, acredito, Mourinho admitiu que empatar fora de casa era bom resultado. Aí ele sacou Balotelli e Vieira, colocou o meia Stankovic e o zagueiro Chivu, e refez o 4-4-2 original. Até então, a Inter mantinha mais de 60% da posse de bola, e controlava a partida. Poucos minutos depois, Santon errou na saída de bola e Pazzini fez o gol da vitória da Samp, por enquanto líder isolada do Italiano.

Foi um erro individual do Santon. Claro que a derrota não se explica pela mudança de sistema, saindo do 4-3-3 para o 4-4-2. Uso mais o exemplo de hoje da Inter para recuperar um conceito bastante interessante de Mourinho sobre essa escolha de trabalhar apenas com essas duas variações: ou três atacantes, ou losango no meio. Ele disse mais ou menos assim no livro:

"O 4-3-3 é o sistema mais simples, e ao mesmo tempo mais completo, por apresentar a mais equilibrada ocupação de espaços no campo. Mas eu prefiro o 4-4-2 em losango porque ele gera certo desequilíbrio na ocupação dos espaços em comparação com o 4-3-3, o que exige mais concentração dos meus jogadores".

Postado por Eduardo Cecconi

Mourinho mantém losango na Inter de Milão

21 de julho de 2009 12

Diagrama tático da Inter de Milão que inicia a pré-temporada

Com vendas e contratações, fiquei curioso sobre a remontagem da Inter de Milão neste início de pré-temporada. Mas José Mourinho, no amistoso disputado com o América-MEX nos Estados Unidos, novamente dispôs o time italiano da mesma forma com a qual conquistou o título do Campeonato Italiano.

A Inter de Milão começa a temporada no 4-4-2 em losango. É o mesmo sistema tático utilizado por várias equipes, entre elas o Benfica e o Inter do Tite, mas obviamente com estratégia diversa. Afinal, cada técnico aplica às características que reconhece em seu elenco a mais adequada sincronia de movimentos.

O losango da Inter de Milão não é central. Pelo contrário. A articulação se dá pelos lados do campo. A estratégia do time de Mourinho, ainda que sobre o mesmo sistema tático e o mesmo desenho de meio-campo colorado, é abrir o jogo. Os laterais apoiam. Ao invés das infiltrações pelo chão, o time italiano prefere a busca pela linha de fundo, acionando os atacantes em cruzamentos por cima ou pelo alto.

Vale ressaltar, entretanto, que a pré-temporada apenas inicia. Mourinho faz testes. Deixou, por exemplo, Maicon, Zanetti e Muntari no banco. Lúcio ainda não tem previsão de estreia. Ibrahimovic, que vai embora, também ficou na reserva. Eto`o, que deve chegar, não está confirmado ainda. São jogadores que podem modificar algum conceito mostrado nesta partida contra os mexicanos - empate em  0 a 0.

A Inter de Milão ultrapassou os 60% de posse de bola. Joga de lado a outro, portanto, procurando espaços. Não quer ceder campo nem oferecer posse de bola para o contra-ataque. Procura, do contrário, marcar com a bola, trocando passes, invertendo os lados. Vai pela direita: não deu? Recua, faz a transição, leva para a esquerda. Tenta o lance agudo: não deu de novo? Tenta manter a posse, traz de volta, vai cercando o adversário.

No meio-campo, este amistoso apresentou um teste interessante. Mourinho retirou os homens da segunda linha - Zanetti na direita, Muntari na esquerda - escalando respectivamente Thiago Motta e Vieira. São dois jogadores de características mais defensivas. Mais volantes, menos apoiadores, embora com muita qualidade de passe para a saída de bola - principalmente Vieira, enquanto Muntari e Zanetti (um ex-lateral) são jogadores que fazem mais a transição conduzindo a bola pelo lado.

No ataque, mudança total. Milito e Quaresma. Eto`o certamente será titular, provável que acompanhado de Milito. E Quaresma poderia buscar um lugar onde no domingo atuou o Thiago Motta, em uma formação mais ofensiva. Na articulação, como D`Alessandro no Inter e Aimar no Benfica, joga Stankovic, também centralizado. Ele tem uma qualidade interessante para a posição, que é o chute de média distância, sempre bem posicionado para a segunda bola.

Postado por Eduardo Cecconi

A Inter de Milão joga no mesmo 4-4-2 do Inter

18 de maio de 2009 14

Como joga a Inter de Milão campeã (tetra) na Itália: 4-4-2 em losango, variando apoio pelos dois lados, e com muita bola na área para os atacantes

A Inter de Milão tetracampeão italiana sob comando de José Mourinho conquistou o título nacional atuando com um sistema tático bastante semelhante ao adotado por Tite no Inter: o 4-4-2 com meio-campo em losango. Vale ressaltar, antes do início do debate, que as comparações são táticas e impessoais, e não técnicas e pontuais.

As diferenças da Inter de Milão e do Inter no 4-4-2 com meio em losango são proporcionadas pelas estratégias de cada treinador. Claramente, Mourinho e Tite seguem caminhos diferentes nas táticas de grupo e individuais em função das características de seus jogadores - ou melhor, do elenco.

Na Inter de Milão, a linha defensiva sai pela direita, com Maicon. Maxwel (ou Santon) são os laterais-base pela esquerda, enquanto o brasileiro é quem apoia, e com muito vigor. Na comparação com o Inter, há uma inversão. Na linha defensiva colorada, Kléber apoia pela esquerda, e Bolívar faz a base na direita.

O meio-campo segue o mesmo princípio - desenho idêntico, estratégias diferentes. A Inter de Milão joga com um vértice centralizado como primeiro volante (Cambiasso), dois apoiadores lateralizados (Muntari na esquerda, Zanetti na direita) e Stankovic como ponta-de-lança, centralizado e próximo dos atacantes Ibrahimovic e Balotelli.

Mourinho, para equilibrar as ações pelos dois lados, segura Zanetti - que já foi lateral - para a cobertura de Maicon, adiantando o meia argentino à segunda bola. O apoiador ofensivo é Muntari, que faz o vai-vém (box-to-box inglês) com muito vigor, ocupando o espaço não explorado por Maxwel, e aproximando-se de Ibrahimovic para as tabelas. Stankovic é um ponta-de-lança, que marca a saída de bola adversária, e atua com grande poder de conclusão à média distância. Ele também retorna para abrir espaço às infiltrações de Cambiasso.

Com isso, apesar do desenho em losango, a estratégia difere bastante da colorada. O Inter de Tite tem em Sandro um volante mais fixo que Cambiasso, jogador que passa da linha constantemente, e retorna para a cobertura, principalmente pela esquerda. Magrão e Guiñazu são jogadores que combinam apoio e marcação, podendo até mesmo subir simultaneamente, enquanto no italiano, Zanetti restringe-se mais à marcação, e Muntari empurra o time para frente. E a maior diferença se dá entre Stankovic e D`Alessandro: o primeiro é ponta-de-lança, conclui as jogadas; já o argentino é um pensador - ele quem prepara as jogadas, organiza o time, distribui a bola para os lados e para o ataque.

Na frente, mais semelhanças de posicionamento, e diferenças de função. A Inter de Milão conta com jogadores fortes fisicamente - Ibrahimovic e Balotelli, que gostam do combate físico. Ambos variam as diagonais, sempre tendo um deles no pivô, e outro na saída pelo lado. E o time, com Maicon, Stankovic e Muntari, cruza bastante na área para as jogadas pelo alto, já que Ibra (principalmente) é muito bom cabeceador. Já o Inter de Tite, apesar do posicionamento igual (Nilmar aberto na direita, Taison na esquerda), tem como estratégia ofensiva as infiltrações pelo chão, com diagonais incisivas nos passes de D`Alessandro para encontrar os atacantes de velocidade às costas da defesa.

Essa comparação entre Inter de Milão e Inter se presta para facilitar uma bela compreensão conceitual aqui no blog Preleção: as diferenças entre tática e estratégia, e entre posicionamento e função. O sistema tático do time italiano e do time gaúcho é igual (4-4-2 com meio-campo em losango), mas as estratégias encontram diversas peculiaridades (um joga pelos lados, outro pelo meio; um prefere a bola aérea, outro a infiltração pelo chão); vale o mesmo para o posicionamento dos jogadores, muito semelhante na Inter e no Inter, mas cada um cumprindo funções muito diferentes.

Postado por Eduardo Cecconi