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Posts com a tag "São Paulo"

Inversão dos meias foi decisiva para classificação do Inter

07 de agosto de 2010 3

A correria da cobertura da partida, direto do Estádio Morumbi - confiram aqui como foi - impediu-me de ainda ontem postar no blog Preleção a análise da classificação colorada à final da Copa Libertadores 2010, e ao Mundial de Clubes da Fifa, com a derrota de 2 a 1 para o São Paulo. Ainda em tempo, hoje trago ao debate uma iniciativa do técnico Celso Roth, que consertou um problema de marcação no meio-campo, e proporcionou inclusive a jogada do gol de empate, com Alecsandro.

Como se previa, houve o confronto do 4-5-1 do Inter (ou 4-2-3-1) com o 4-4-2 com meio-campo em losango do São Paulo. Havia projetado (relembrem aqui) que, neste enfrentamento tático, o São Paulo poderia levar vantagem numérica na faixa central do campo em função do posicionamento aberto dos meias D'Alessandro e Taison, que atuam como wingers. Na prática, o São Paulo teve quatro jogadores no meio-campo, contra três do Inter.

Na entrevista coletiva pós-jogo, o técnico Celso Roth admitiu o problema. No primeiro tempo, o São Paulo encontrou no volante Rodrigo Souto a recuperação de boa parte dos rebotes ofensivos. Sandro vigiou Fernandão, Guiñazu cuidou de Hernanes, e Tinga se deslocou para a direita em perseguição a Cléber Santana. Com D'Alessandro e Taison marcando os laterais são-paulinos, faltou alguém para cuidar de Rodrigo Souto. Nenhum dos jogadores sem alvo fixo - Kleber, Bolívar e Alecsandro - podiam deixar seus posicionamentos para equilibrar a disputa no setor.

Do Morumbi, via Twitter (@eduardocecconi - sigam aqui), eu falei sobre este problema:

"No encaixe do 4-2-3-1 com o 4-4-2 em losango, Inter fica em três contra quatro por dentro. Rodrigo Souto sempre livre". (10:18 PM Aug 5th  via TweetDeck).

A participação de Rodrigo Souto era importante para o São Paulo. A principal estratégia do time de Ricardo Gomes consistia no lançamento longo, pelo alto, procurando Ricardo Oliveira - com bola rolando ou em faltas laterais e escanteios; o time avançava as linhas, empurrando os marcadores do Inter para trás, e abrindo espaço para Rodrigo Souto recuperar a bola quando a zaga afastava, redistribuindo a jogada no campo colorado.

Roth encontrou a solução no intervalo. Ao invés de centralizar algum dos meias-extremos, ele resolveu marcar Rodrigo Souto com a bola, invertendo Taison e D'Alessandro. Com Taison, velocista mais incisivo, jogando sobre Júnior César - o lateral-apoiador do São Paulo - Rodrigo Souto precisou abdicar do rebote ofensivo para cobrir o companheiro. Desta forma, foi desfeita a supremacia numérica são-paulina na faixa central.

Em jogada individual, Taison cavou falta de Júnior César, e na cobrança D'Alessandro encontrou o calcanhar de Alecsandro, no lance que levou o Inter a Abu Dhabi. Após a partida, Roth cobrou dos repórteres que ninguém havia falado sobre isso na coletiva. Mas já estava no Twitter:

"Inter volta com os meias-extremos invertidos. D'Alessandro está na canhota, Taison na direita". (quinta-feira, 5 de agosto de 2010 23:04:45  via TweetDeck).

O São Paulo vai de losango contra o Inter?

04 de agosto de 2010 5

Vou repetir um mantra do blog Preleção: é muito difícil se fazer uma análise tática de algo que não é certo. Melhor é analisar o que aconteceu, do que se projetar algo que pode não acontecer. Mas a circunstância exige, amanhã tem semifinal de Copa Libertadores 2010, o Inter enfrenta o São Paulo, e a escalação do time paulista é um segredo de Estado para Ricardo Gomes. Portanto, vou me basear nas informações transmitidas pela imprensa paulista.

As maiores apostas recaem sobre um 4-4-2 com meio-campo em losango para o São Paulo amanhã. Seriam duas as substituições de jogadores, na comparação com a equipe que perdeu para o Inter por 1 a 0 na última quarta-feira: saem Richarlyson e Marlos, entrando respectivamente Ricardo Oliveira e Cléber Santana.

Essas trocas provocariam a alteração no sistema tático, que em Porto Alegre foi o 4-5-1 (com variações entre 4-3-2-1 e 4-1-4-1). Richarlyson e Rodrigo Souto se alternaram na primeira função. Agora, permanecendo apenas Souto, Ricardo Oliveira entra como centroavante, configurando o 4-4-2, e empurrando Fernandão para a ponta-de-lança. A outra mudança não implica em reformas estruturais. Especula-se que Cléber Santana entrará na mesma faixa de campo ocupada por Marlos, alinhando-se a Hernanes.

Mas também acompanhei várias outras versões. Há notícias projetando o São Paulo no 3-5-2 (com Xandão no lugar de Cléber Santana/Marlos), no 4-3-3 (com Fernandão mais adiantado, ou até com Fernandinho em seu lugar), no 4-4-2 com Marlos permanecendo, no 3-4-3 sem Rodrigo Souto e com Fernandinho...enfim, uma avalanche de especulações. A mais forte, entretanto, é este 4-4-2 em losango descrito no diagrama tático que ilustra o post.

Neste cenário, o Inter terá trabalhar para definir a marcação à frente da área. Como Taison e D'Alessandro jogam abertos pelos lados, é iminente um duelo dos trios Hernanes-Cléber Santana-Fernandão e Sandro-Tinga-Guiñazu. Mas o São Paulo teria ainda Rodrigo Souto, o que lhe ofereceria supremacia numérica entre as intermediárias.

Esta hipótese obrigaria Roth a planejar, como ele mesmo diz, algum contra-veneno: ou prendendo os dois laterais na base, para Kleber marcar Dagoberto, Bolívar monitorar Ricardo Oliveira, e Índio-Nei sobrarem caso algum meia são-paulino se beneficie da vantagem no combate central; ou então centralizando mais pelo menos um de seus meias-extremos, saindo da marcação do lateral e indefinindo o alvo de Rodrigo Souto, retirando-o da frente da área.

Com tantos bons jogadores, um duelo do 4-4-2 em losango com o 4-2-3-1, caso se confirme, será um belo espetáculo para quem gosta de sistemas táticos. Estarei no Morumbi para acompanhar e, se possível, trazer ao blog Preleção mais análises sobre fotos na sexta-feira.

O bloqueio são-paulino no 4-5-1

29 de julho de 2010 5

Na segunda-feira projetei uma escalação do São Paulo, baseado nas partidas recentes e nas informações da imprensa paulista, que abria margem a duas variações: ou o preferencial 3-5-2, ou o 4-4-2 - leiam aqui, a partir do avanço de Richarlyson para o meio-campo. Mas a proposta defensiva da equipe de Ricardo Gomes apresentou ontem, na derrota de 1 a 0 para o Inter, uma terceira via - ainda com a mesma escalação: o 4-5-1.

Na prática, o sistema prioritário do São Paulo ontem pode ser configurado como um 4-5-1 com três volantes, dois meias centralizados e um atacante de referência (ou 4-3-2-1). O desenho se aproxima bastante do que Carlo Ancelotti fazia no Milan, no "Christmas Tree" (árvore de Natal). Reparem na figura abaixo:

A foto apresenta uma variação de exceção na partida. Provavelmente Hernanes desceu ao primeiro posto para cobrir um eventual avanço de marcação de Rodrigo Souto, que retornou pela posição do camisa 10. No primeiro tempo Richarlyson foi o primeiro volante, com Rodrigo Souto à direita e Hernanes à esquerda na segunda linha. E no segundo tempo (quando fiz a foto acima) Richarlyson passou para a esquerda, marcando D'Alessandro de cima, enquanto Hernanes foi para a direita, e Rodrigo Souto recuou à primeira função.

Mas em determinados momentos de pressão do Inter, Ricardo Gomes apresentou ainda uma variação. Mantendo o 4-5-1, com diferente desenho de meio-campo. Reparem na imagem a configuração de um 4-1-4-1, com a abertura dos meias pelos lados, alinhando-se aos volantes da segunda faixa:

Acredito que Ricardo Gomes tenha pensado em bloquear as jogadas preferenciais do Inter, que são as triangulações laterais com Taison, Guiñazu e Kleber na esquerda, ou D'Alessandro, Nei e Sandro na direita, tendo Andrezinho a liberdade para se aproximar de ambos os trios.

Com estas duas linhas - Richarlyson entre elas - havia marcação dupla pelos lados. Jean e Marlos encaixados em Taison e Kleber, Júnior César e Dagoberto em D'Alessandro e Nei, enquanto o trio Richarlyson, Hernanes e Rodrigo Souto batia com Andrezinho, Sandro e Guiñazu. O que permitia aos zagueiros Alex Silva e Miranda cuidar de Alecsandro.

Nunca é demais lembrar um conceito teórico relevante: quando há encaixe de marcação, quando uma proposta é apenas defensiva, cabe ao time proponente buscar jogadas individuais. A técnica precisa prevalescer para desorganizar a estrutura defensiva adversária. Afinal, se cada jogador cuida de um respectivo, driblá-lo provoca um efeito em cadeia de jogadores deixando seus postos para a cobertura. Outra boa alternativa é o chute à distância.

Taison foi o melhor em campo exatamente porque compreendeu as exigências da partida: driblar e concluir. Partiu para cima em todos os lances, arriscou a jogada individual, e sempre que possível chutou a gol. D'Alessandro fez o mesmo, não com tantos dribles, mas investindo contra a marcação e concluindo.

O Inter foi bem neste aspecto, não se desorganizou e conseguiu, sem abdicar de sua estrutura tática, chegar à quinta vitória em cinco jogos. Um justo aproveitamento de 100%, pelo bom desempenho da equipe treinada por Celso Roth.

Inter tem boa perspectiva pelos lados contra o São Paulo

27 de julho de 2010 11

Quem acompanha o blog Preleção com maior frequência sabe que não gosto de fazer projeções. São vários os empecilhos: treinos fechados, escalações sigilosas, estratégias diferentes. Qualquer surpresa no time, na estrutura tática ou na proposta de jogo lançam por terra a projeção. Melhor sempre é analisar o que aconteceu, buscar explicações, apresentar uma interpretação das estruturas táticas e estratégias. Mas a circunstância - uma semifinal de Copa Libertadores - pede uma projeção para Inter x São Paulo, mesmo sob risco de diferenças entre o debate de hoje, e a prática de amanhã.

Mesmo sem Tinga, Celso Roth deve manter o 4-5-1 com dois volantes e três meias ofensivos (ou 4-2-3-1). Para substituir o armador central, candidatam-se Giuliano e Andrezinho, jogadores de características diferentes - o primeiro mais ágil e dinâmico, o segundo mais cerebral e organizador. Saibam mais sobre este sistema clicando aqui.

A possibilidade de centralizar D'Alessandro, com Rafael Sobis entrando no lado direito, parece remota porque o próprio Roth não gosta de ver o argentino refém de volantes. Outra hipótese de menor chance é o retorno ao sistema com três volantes e dois meias (o 4-3-2-1), entrando Wilson Matias - estrutura utilizada pelo treinador colorado nos primeiros treinos táticos da intertemporada - leiam aqui.

O São Paulo tem duas variações possíveis, sem que seja necessário modificar a escalação. A polivalência de Richarlyson permite que ele seja zagueiro pela esquerda, no 3-5-2, ou volante no 4-4-2 - situação que empurraria Hernanes e Marlos para uma faixa mais ofensiva da intermediária do Inter. Pelo histórico recente do clube, apostar no 3-5-2 não é nenhum sacrilégio. Saibam mais sobre o 3-5-2 do São Paulo clicando aqui.

Neste cenário, confirmando-se o 3-5-2 são-paulino, a melhor alternativa para o Inter é o jogo incisivo pelos lados do campo. Os problemas de marcação do sistema com três zagueiros tornam-se ainda mais evidentes quando ele se depara com três atacantes, ou com um atacante e dois meias abertos pelos lados - caso do Inter.

Recuperando a teoria: o 3-5-2 brasileiro utiliza a marcação individual por função. Zagueiro persegue atacante, volante encaixa com meia, meia vigia volante, ala bate com lateral, atacante pressiona zagueiro. Ao invés das zonas de marcação dos sistemas com linha de quatro defensores, os treinadores brasileiros que adotam o 3-5-2 preferem ver seus atletas marcando individualmente os adversários.

Este problema conceitual do 3-5-2 torna-o vulnerável ao 4-2-3-1. Isso porque indefine-se a marcação do meia-extremo. Se Jean e Júnior César precisam "bater lá em cima" com Nei e Kleber, basta os laterais do Inter manterem ambos ocupados, que D'Alessandro e Taison terão muito espaço para desenvolver velocidade às costas dos mesmos. Cria-se um dilema para o zagueiro: ou ele deixa o seu posto original e aproxima a marcação do meia-extremo, o que abre espaço na área e elimina a sobra; ou ele mantém o posicionamento inicial, espera a chegada do meia-extremo, mas permite que ele calcule a melhor jogada com tempo de sobra.

Esta vantagem do 4-2-3-1 sobre o 3-5-2 já se fez clara na vitória do Inter sobre o Flamengo, domingo - leiam aqui. Taison atuou entre as costas de Léo Moura e o zagueiro Jean. Antes que o rubro-negro descobrisse quem deveria marcá-lo, ou de que forma ele deveria ser marcado, Taison já havia feito um gol, e seguiu levando vantagem até o final da partida - leiam aqui.

O 3-5-2 da derrota do São Paulo para o Avaí

15 de julho de 2010 3

Ontem o São Paulo voltou à disputa do Brasileirão 2010 com derrota em casa para o Avaí. E o técnico Ricardo Gomes contou com todos os titulares - menos, claro, com Cicinho, que voltou para a Roma. Procurei hoje vídeos e matérias sobre a partida para compartilhar com vocês uma análise do adversário do Inter na semifinal da Copa Libertadores.

O São Paulo manteve o 3-5-2 preferencial. Houve, na comparação com o time que fechou a parte inicial do Brasileirão antes da Copa do Mundo, apenas uma troca de posicionamento: Miranda passou para o lado direito do trio defensivo, e Alex Silva assumiu a "sobra". Richarlyson permaneceu como zagueiro pela esquerda, fazendo a saída de jogo.

O meio-campo tem triângulo de base alta, com Rodrigo Souto de primeiro volante, e a dupla Hernanes-Marlos na articulação. Os alas são Júnior César e Jean. Na frente, Dagoberto movimentando-se pelos lados, e Fernandão na referência, recuando no pivô e participando também da organização das transições ofensivas.

Contra o Avaí, o principal problema se deu na faixa esquerda defensiva. Richarlyson apoiou simultaneamente a Júnior César. Este avanço duplo do ala e do zagueiro abriu um grande espaço no setor - representado no diagrama tático que ilustra o post pela área vermelha. Por ali, o Avaí buscou os contra-ataques, obrigando Alex Silva a sair da sobra, e provocando um efeito cascata de zonas de marcação descobertas.

No segundo tempo, o São Paulo mudou para o 4-4-2, com meio-campo em quadrado. Rodrigo Souto deu lugar a Cléber Santana, que formou dupla de volantes com Richarlyson. Mas o Avaí já tinha conquistado uma segurança alheia a variações táticas, assegurando a vitória.

São Paulo no 4-4-2 sem Ricardo Gomes

26 de fevereiro de 2010 16

No primeiro jogo sem Ricardo Gomes, o auxiliar Milton Cruz abdicou dos três zagueiros e sistematizou o São Paulo no 4-4-2, ontem, pela Copa Libertadores. A equipe levou 2 a 1 do Once Caldas de virada, na Colômbia, mas teve uma boa atuação no primeiro tempo. Uma disposição tática diferente de tudo o que haviamos observado nesta temporada - leiam aqui.

O 4-4-2 do São Paulo teve dois desenhos. Sem a bola, Cléber Santana e Hernanes - pelos lados - alinhavam-se aos volantes Jean e Richarlyson. Mas com a bola eles não atuaram como "wingers" clássicos, não foram meias-extremos incisivos, ofensivos, de condução para a linha de fundo ou de diagonais para a conclusão dentro da área.

Com a posse, tanto Cléber Santana quanto Hernanes posicionavam-se mais centralizados, à frente dos volantes, em um 4-4-2 bem brasileiro: dois marcadores e dois armadores no meio-campo. Assim que o adversário recuperava a bola, ambos rapidamente retornavam à linha de meio-campo, bloqueando a frente da área, à frente da linha defensiva.

No 2º tempo, entretanto, Milton Cruz apresentou uma terceira alternativa tática. Ele recuou o atacante Marcelinho Paraíba, centralizou Cléber Santana, e inverteu Hernanes para a direita. O trio manteve-se à frente dos volantes com ou sem posse de bola. Configurando um 4-5-1 com dois volantes e três meias, também chamado de 4-2-3-1.

O mais interessante, apesar da derrota, é contrariar os defensivistas que atribuem os sistemas com três zagueiros à inviabilidade de se jogar com laterais ofensivos. Ou o lateral é base, ou é ala. Está errado. Milton Cruz armou o 4-4-2 com Cicinho e Jorge Wágner nas laterais. E eles respeitaram o posicionamento inicial na linha, alternaram o apoio, e sempre que o ataque do Once Caldas se dava pelo lado oposto, faziam a basculação defensiva, ingressando na área para formar uma sobra.

Pode se discutir não o 4-4-2, ou a escalação de dois laterais ofensivos - mesmo que eles tenham se dedicado ao cumprimento de todas as atribuições exigidas pela função. O que me desagradou foi o mau desempenho técnico de alguns atletas. Faltou a Milton Cruz, no intervalo, recorrer ao reservado. Ao invés de trocar jogadores que iam mal - Marcelinho Paraíba, Richarlyson e Cicinho não estavam inspirados - ele preferiu alterar o sistema tático. Não deu certo, e o time permitiu a virada.

Ainda assim, torço para que Milton Cruz não desista, e siga se utilizando deste 4-4-2 que varia da linha para o quadrado. E, acima de tudo, com laterais que apoiam e defendem, como deve fazer todo o jogador escalado para a função. Sem a ideia de que é preciso jogar com três zagueiros para proteger os lados do campo.

São Paulo, aferrado aos três zagueiros

10 de fevereiro de 2010 17

A fase vitoriosa e recente de Muricy Ramalho no São Paulo, amparada no 3-5-2, aferrou ao clube uma espécie de cultura tática que se impõe ao seu sucessor. Ricardo Gomes, por mais que se declare um apreciador do 4-4-2, não consegue fazer a equipe ter bom desempenho sem atuar com três zagueiros.

Em 2010, Ricardo Gomes apresenta duas versões da mesma base defensiva: o 3-5-2 e o 3-4-3. O primeiro está ilustrado no diagrama tático de abertura do post, já projetando o ingresso de Cicinho na ala-direita, e o desfalque de Dagoberto que, lesionado, deve ficar de fora por quase um mês. É um 3-5-2 com triângulo de base baixa no meio-campo - dois volantes e um ponta-de-lança; três zagueirões de vigor físico e bom aproveitamento na bola aérea; dois alas; um centroavante de referência; e um atacante de movimentação.

Mas, quando Cléber Santana ainda não havia desembarcado no Morumbi, e Dagoberto gozava de plena saúde, Ricardo Gomes apresentou uma variação para o 3-4-3, bem observada pelo Maurício Noriega na transmissão de uma partida pelo canal Sportv. Essa mudança de sistema acontecia a partir do vai-vem de Marcelinho Paraíba, ora partindo do meio para a ponta-esquerda, ora recuando para completar o triângulo de meio-campo - configurando o 3-4-3 ou o 3-5-2 conforme o adversário e as circunstâncias da partida. Simulação no diagrama abaixo:

É bom, entretanto, não esquecermos que Ricardo Gomes ainda prefere o 4-4-2, e suas variações de desenho do meio-campo. Mesmo influenciado pela cultura tática legada por Muricy Ramalho ao clube. E os reforços qualificados para articulação e ataque podem sustentar a transição para o modelo tático com linha defensiva de quatro jogadores. Ontem, no programa Linha de Passe da ESPN, o PVC - Paulo Vinícius Coelho, melhor comentarista tático do país - cogitou um São Paulo no 4-4-2 com meio-campo em losango (por ele conceituado como 4-3-1-2). Gostei muito:

Hoje o São Paulo já estreia na Copa Libertadores. Ainda sem Cicinho, sem Dagoberto, e com estas três possibilidades táticas para encaminhar. Ricardo Gomes precisa, o quanto antes, definir qual a formação prioritária, e a partir dela lançar mão das variações sempre que necessário.

Como joga o São Paulo de Ricardo Gomes

27 de outubro de 2009 15

Diagrama tático do São Paulo para o confronto com o Inter

Substituto de Muricy Ramalho, o técnico Ricardo Gomes tentou no início fazer uma transição para o 4-4-2 no São Paulo. Mas o piloto automático de três anos atuando no 3-5-2 venceu, e ele retornou ao modelo antigo. Será no 3-5-2, portanto, que o São Paulo vai receber o Inter amanhã, no Morumbi.

No 3-5-2, Ricardo Gomes desenha o meio-campo do São Paulo em triângulo alto. Richarlyson é o volante centralizado, no vértice da base, enquanto Hernanes - pela direita - e Jorge Wágner - na esquerda - completam o setor, alinhados, mais à frente. Ambos combinam combatividade na marcação, rígida disciplina no posicionamento, e apoio ao ataque assumindo as tarefas de articulação e aproximação.

Richarlyson é responsável pelas coberturas. Como já foi atualizado como zagueiro, ele recua e mantém a formação defensiva em trio quando algum dos companheiros sai para o jogo - invariavelmente, é André Dias quem faz esta passagem. Richarlyson também auxilia Miranda na cobertura de Júnior César, ala-apoiador do lado esquerdo. É um volante de muita mobilidade e capacidade física para se manter em ritmo intenso durante todo o jogo.

Na frente, segue a sincronia de movimentos entre "o grandalhão" e "o velocista", que Muricy utilizava desde a época em que contava com Aloísio. O São Paulo procura muito Washington em movimento de pivô. O camisa 9 recua para receber o lançamento - ligação direta - trazendo consigo um zagueiro. A intenção é "quebrar a bola", para que Dagoberto, em diagonal incisiva, aproveite a segunda bola e entre neste espaço aberto pelo deslocamento em recuo do centroavante.

Dagoberto também se movimenta pelos dois lados. Gosta de jogar no limite da linha de impedimento, aberto sobre a linha lateral, para investir do lado para o meio. Procura o contato com os zagueiros, em busca de faltas laterais ou escanteios, uma das principais armas ofensivas - combinando a qualidade de Jorge Wágner e Hernanes nas cobranças, com o tempo de bola e a envergadura dos zagueiros e do centroavante.

Acredito que Mário Sérgio adotará um sistema bastante parecido - para não dizer idêntico. Um Inter no 3-5-2 com triângulo alto no meio-campo (Sandro no primeiro vértice, Giuliano e D`Alessandro na linha de articulação), quem sabe segurando mais Giuliano pela direita e recuando Taison, na transição para o 3-6-1, tentando trazer a marcação de Renato Silva para fora da área, e aplicando ainda um 2-1 sobre Richarlyson.

Fato é que no 3-5-2 as marcações são por função. Individuais, portanto. Veremos nove perseguições mútuas. Duelos. Renato Silva-Taison; Índio-Dagoberto; Miranda-Alecsandro; Eller-Washington; Sandro-Hernanes; Giuliano-Jorge Wágner; Richarlyson-D`Alessandro; alas contra alas (Daniel-Júnior César, e Jean-Kleber).

Isso indica que, além de todos os aspectos táticos deste enfrentamento, a vitória pessoal de algum jogador sobre seu perseguidor pode definir a partida. Um drible, uma indefinição na marcação, uma falha, uma desatenção, uma ousadia. Ninguém poderá sequer piscar.

Postado por Eduardo Cecconi

Um Jorge Wágner diferente

16 de setembro de 2009 19

Diagrama tático do São Paulo contra o Avaí

Assisti no final de semana ao jogo entre São Paulo e Avaí, pelo Brasileirão. E gostei de uma alteração proposta pelo técnico Ricardo Gomes. Com desfalques imporantes - Hernanes e Richarlyson - ele recuou Jorge Wágner.

Na vitória de 2 a 0, Ricardo Gomes sistematizou o São Paulo em um 3-5-2 com triângulo baixo no meio-campo. À frente dos três zagueiros, ele alinhou dois jogadores - Arouca pela esquerda, Jorge Wágner pela direita - com Marlos na ponta-de-lança, fazendo a ligação com o ataque e também entrando na área.

E Jorge Wágner teve uma bela atuação. Qualificou a saída de bola, posicionado em uma linha entre as intermediárias defensiva e ofensiva. Foi o responsável pelo primeiro passe da articulação, recebendo dos zagueiros e distribuindo para atacantes, alas ou Marlos.

Sem a bola, Jorge Wágner demonstrou que muitos confundem "marcação" com "combate". Certamente, alguém que viu o jogo pode ter dito que o São Paulo estava "faceiro", "aberto". Que Jorge Wágner "não sabe marcar". Que ele não cometeu faltas, não deu carrinho, não tentou matar ninguém, e saiu com a roupa limpa. Marcador, neste conceito equivocado, tem que se sujar de barro.

Mas marcação também pode ser feita de duas maneiras: com posse de bola, e com posicionamento. Jorge Wágner primeiro marcou com a bola. Mantendo a posse para o Tricolor, ele fazia o Avaí correr. É como eu insisto em repetir: quem tem a bola não sofre gol, a não ser que chute contra o próprio goleiro.

A posse de bola não precisa necessariamente ser objetiva durante 100% do jogo. Mantê-la consigo é uma maneira de desorganizar o adversário, fazê-lo cansar, e também de evitar o desgaste. E Jorge Wagner fez isso muito bem. Permitiu ao São Paulo descansar com a bola, rodar, virar o jogo, trocar passes, enquanto o Avaí corria. O Inter fez isso contra o mesmo Avaí, fora de casa, e também venceu. Objetividade no momento certo, da definição. Posse de bola acima de tudo, mesmo que aparente ser inócua. Não é possível ser intenso o jogo inteiro.

Sem a bola, posicionamento. Jorge Wágner não trombou, não deu carrinho, nem agrediu ninguém. Ocupou um espaço, taticamente dedicado. E, com Jorge Wágner ali posicionado, o Avaí precisava procurar outra alternativa para avançar. Aquela região do campo contava com ele.

Este é um aspecto importante dos sistemas de marcação: quando o time consegue manter a organização e os jogadores obedecem à determinação de posicionamento, não é preciso combater a todo momento. Caçar, muitas vezes, significa que o jogador está mal posicionado, e com a falta ou o carrinho compensa ter largado atrás. Mas, no lugar certo, ele força o adversário a procurar outro caminho, que não aquele.

Quando Hernanes e Richarlyson retornarem, Ricardo Gomes já anunciou que saem Arouca e Marlos. E Jorge Wágner vai recuperar a função de articulador mais avançado, com Hernanes e Richarlyson na base do triângulo de meio-campo. Mas foi bom ver este jogo para comprovar na prática diversos conceitos com os quais concordo plenamente.

Postado por Eduardo Cecconi

São Paulo e o ocaso do 3-5-2 brasileiro

20 de junho de 2009 12

No diagrama tático do jogo contra o Cruzeiro, a simulação da jogada principal do São Paulo: a sincronia de movimentos entre Washington e Borges, na ligação direta que aciona a dupla de ataque. Washington disputa no alto, e Borges fica com a sobra.

Após três temporadas e meia, ruiu a fortaleza que sustentava o 3-5-2 à brasileira. O São Paulo deixou a Libertadores; ontem Muricy Ramalho saiu do clube. E assim, com a derrocada do refúgio derradeiro de apoio aos três zagueiros, alas abertos e ligação direta, assistimos ao ocaso deste sistema tático. Os alicerces já haviam trincado quando o mesmo 3-5-2, siamês, deixou de existir no Grêmio. Acabou-se no Sport Recife. No Palmeiras, o fim dele também se aproxima - os resultados devem pressionar uma troca.

Assisti ao jogo de quinta entre São Paulo e Cruzeiro. O São Paulo foi o mesmo time de sempre, repetindo o sistema tático e a estratégia das últimas três temporadas. A derrota, e mais uma eliminação para brasileiros na Libertadores, não foi exclusivamente provocada pelo esgotamento do sistema tático. Contribuiu - e muito - a crise técnica de jogadores importantes, como Jorge Wágner, Hernanes, Washington...a ausência de Miranda, e a lesão de Rogério Ceni. É uma combinação destes dois fatores.

O time se desconfigurou, e sem a base de jogadores, as deficiências do 3-5-2 à brasileira são-paulino emergiram. Antes, os problemas deste sistema tático eram mascarados pelas precisas cobranças de faltas e escanteios do Jorge Wágner, pelas cabeçadas certeiras de Miranda e Aloísio, pelo oportunismo do Borges, ou pela qualidade de Hernanes nos chutes de média distância. Apagadas as estrelas, apareceram os defeitos táticos.

O São Paulo joga (ou jogava) apostando tudo na bola pelo alto. Com jogo em andamento, a estratégia principal de articulação baseava-se em um movimento sincronizado dos atacantes: Washington (antes Aloísio) recua para a intermediária, puxando a marcação; e Borges avança na diagonal às costas deste zagueiro.

E de longe, os próprios zagueiros do São Paulo se incumbiam de lançar Washington. A intenção não era fazer o centroavante dominar, mas apenas disputar a bola, para que ela sobrasse limpa nos pés de Borges. No Grêmio, a mesma estratégia foi utilizada ano passado: Pereira lança de longe, Marcel disputa no alto, Perea pega a segunda bola. Sem meio-campo nem posse de bola, Pereira era o camisa 10. O armador do time.

Reparem nos gols mais recentes do São Paulo. Contra o Santo André, por exemplo. Ou contra o Defensor. Independiente Medellin. Time encaixotado, poucas alternativas, sem controle da partida ou posse de bola. Sem variações, sem infiltrações, sem bola no chão. O que fazer? Bola longa no Washington, trombada, rebote de Borges: gol. Quase um movimento de quarter-back para wide receiver.

A segunda estratégia era jogar pelos lados com os alas abertos, para buscar cruzamentos que originassem ou jogadas aéreas, ou escanteios para as jogadas aéreas; ou então conquistar faltas laterais, com o mesmo propósito.

Sem a bola, o São Paulo sempre apostou na marcação por função, e no bloqueio da área, com força física e muita consistência. O sucesso do São Paulo em três temporadas de grandes títulos fiou-se na solidez defensiva, na competitividade, na disciplina tática, no talento de grupos qualificados, e na eficiência ofensiva, aproveitando as poucas chances criadas. Defesas menos vazadas, ataques suficientemente positivos.

Mas esta estratégia se esgotou. A bola lançada para Washington não respingava mais nos pés de Borges; a jogada pelos lados foi bloqueada; as faltas laterais e escanteios e cruzamentos passaram a ser bem marcados, ou evitados na origem. Aliada à previsibilidade do sistema tático, houve a citada crise técnica dos jogadores que antes decidiam, e se sobrepunham às decisões táticas.

O São Paulo do Muricy lançou moda, e será durante muito tempo uma referência tática histórica no futebol brasileiro: o 3-5-2 competitivo e eficiente. Vencedor. Fez escola, encontrou seguidores, e é reproduzido fielmente em todo o país, por clubes pequenos ou grandes. Mas o ciclo acabou. Qual será o próximo 3-5-2 sem meio-campo que vai ruir?

Postado por Eduardo Cecconi