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Posts com a tag "Seleção Argentina"

Maradona escolheu uma tática, mas sem estratégia

15 de outubro de 2009 21

Diagrama tático da Argentina contra o Uruguai

Tenho assistido e lido a muitos comentários quase ofensivos ao trabalho de Maradona na seleção argentina. Palavras como "maçaroca" e "bagunça" foram utilizadas para descrever uma suposta ausência de organização. Respeitosamente me permito discordar desta análise. Esta divergência permite voltar a um assunto sempre relevante: a diferença entre tática e estratégia.

O sistema tático é a famosa tríade de números (4-4-2, 3-5-2, etc...). Ele define a disposição dos jogadores, o preenchimento dos espaços, a organização dos setores. Lida diretamente com o posicionamento inicial, o ponto de partida de cada atleta. Vulgarmente, é observado quando a equipe está sem a bola.

A estratégia leva em consideração um conjunto de ações vinculados ao sistema tático. As funções (táticas individuais) de cada jogador, as sincronias de movimentos (táticas de grupo), o sistema de marcação (zona, pressão por zona, pressão - alta, média, baixa - individual, individual por função, misto...), a proposta ofensiva (posse de bola, contra-ataque em velocidade, ligação direta...), a característica defensiva (linhas recuadas, linhas adiantadas).

A Argentina de Maradona sempre teve sistema tático. Mas não teve estratégia definida. Portanto, não foi uma equipe desorganizada, esteve longe de ser uma maçaroca, e ainda mais distante de ser uma bagunça. Em contrapartida, apesar da organização, prescindiu de planejamento, de sincronia de movimentos, não apresentou jogadas, variações durante jogos.

Maradona estreou no 4-4-2 em duas linhas. Bem britânico. Dois laterais-base, dois wingers, dois zagueiros, um volante marcador, um box-to-box, e dois atacantes de movimentação. Depois, na tentativa de acomodar os três atacantes - Messi, Agüero e Tevez - passou para o 3-4-3, ainda com meio-campo alinhad. Não deu certo. Tentou ainda um 4-3-3, mas não resistiu e retornou ao seu original, e predileto, 4-4-2 em duas linhas - e foi assim, conforme o diagrama tático que ilustra o post, que venceu o Uruguai fora de casa.

Faltou estratégia. Combinação entre jogadores - táticas de grupo. Maradona me passou a impressão que, definido o posicionamento inicial de cada jogador, caberia a eles jogar. O famoso "virem-se". Confiando no talendo dos comandados, o técnico escolhia o sistema, escalava os jogadores, mas não planejava os movimentos. E na base do virem-se, os talentos naufragaram - mais significativamente Messi.

Faltou, portanto, a "mão do treinador". Aquela capacidade de perceber as circunstâncias de cada jogo, os espaços vagos - e a melhor maneira de ocupá-los - e as virtudes a ser combatidas nos adversários. Faltou saber que o Brasil joga no contra-ataque, e é forte na bola aérea ofensiva. Faltou perceber que faltava à Argentina a figura do camisa 9 - que ele encontrou apenas na penúltima convocação, com Palermo e Higuaín. Faltaram muitas coisas. Faltou estratégia.

Faltou mecânica de jogo. Mas sistema tático e organização, isso a Argentina teve.

Postado por Eduardo Cecconi

Argentina, no 4-4-2 em duas linhas

04 de setembro de 2009 18

Diagrama tático da Argentina, no 4-4-2 em duas linhas

Maradona desde sua primeira partida na seleção argentina adotou o sistema 4-4-2 com duas linhas de quatro jogadores como o preferencial. É o "4-4-2 britânico", tática muito difundida entre os clubes argentinos - San Lorenzo, Estudiantes e River Plate, por exemplo. Passou pelo 3-4-3, e em função do novo sistema, quase perdeu o cargo. Voltou ao 4-4-2 em duas linhas, e é neste sistema que ele vai enfrentar o Brasil amanhã.

A equipe está desfalcada de seu winger esquerdo, Jonas Gutiérrez, jogador que dá um belo equilíbrio ao setor, defendendo e apoiando com o mesmo vigor. Mas Maradona já definiu o substituto: é o Dátolo, que eu há muito tempo pedi na seleção argentina, quando ele ainda jogava pelo Boca Juniors como apoiador do vértice esquerdo no losango.

No outro extremo, joga o insosso Maxi Rodriguez, que não empolga na frente, e pouquíssima contribuição dá. Ainda assim, é titular indiscutível, e sabe desempenhar - mesmo que sem brilho - a função de winger pela direita. Por dentro desta linha de meio-campo, Maradona conta com uma dupla de volante com box-to-box de extrema qualidade: Mascherano e Verón. O primeiro, combativo e participativo, marcador implacável; o segundo, maestro da linha de meio-campo do Estudiantes na conquista da Copa Libertadores deste ano.

Na defesa, Maradona conta com dois laterais-base que privilegiam a defesa - até porque já atuaram como zagueiros: Zanetti na direita, Heinze na esquerda. Na teoria, o sistema tático e a estratégia estão bem planejados, com jogadores certos para cada tática individual, e com a mecânica proporcionada pela repetição do 4-4-2 em duas linhas.

O Brasil deve enfrentar um bloqueio pelos lados, impedindo as subidas de Maicon e André Santos. Mascherano deve colar em Kaká. Será fundamental ao Brasil, para fugir do brete, a passagem de Felipe Melo. Se as linhas argentinas estiverem compactas, com bloqueios sobre Elano-Maicon, e sobre Robinho-André Santos, e com vigia permanente sobre Kaká, Felipe Melo precisará avançar mais do que o habitual, para atrair um marcador e liberar outro companheiro, desarrumando as linhas argentinas.

Gosto da maneira como a Argentina joga. Dunga e Jorginho terão muito trabalho para encontrar alternativas táticas e vencer a partida. É um confronto que tem muitos elementos capazes de torná-lo um dos dez mais inesquecíveis da rivalidade entre Brasil e Argentina. Aguardemos.

Postado por Eduardo Cecconi

A pequena loucura de Maradona

08 de junho de 2009 12

Diagrama tático simula os dois posicionamentos da Argentina. O primeiro, sem um meia-extremo; e o segundo, com as alterações necessárias, que deram resultado

Na partida da Argentina contra a Colômbia, assisti a um posicionamento que presumo seja inédito no futebol, ou pelo menos no futebol recente. Maradona posicionou a equipe anfitriã em um sistema 3-4-3 que pode ser traduzido, para quem gosta de quatro algarismos na descrição tática, em um 3-3-1-3. Com um detalhe: enviesado para a esquerda.

Em comparação com seu 3-4-3 anterior, Maradona fez uma troca: Verón por Maxi Rodriguez. Mas não posicionou La Brujita do Estudiantes na extrema direita da linha de meio-campo, como fazia com Maxi. Sem alterar o posicionamento dos outros jogadores do setor, colocou Verón à frente desta linha - agora com três jogadores - fazendo a ligação do meio com o trio de atacantes.

Assim, Maradona abriu um buraco no lado direito da equipe. Gutiérrez permaneceu como meia-extremo pela esquerda, Mascherano como meia-marcador centralizado à esquerda, e Gago como meia-marcador centralizado à direita. Sem meia extremo. Retirado Maxi, Maradona não reposicionou os outros três jogadores do setor. Simplesmente colocou Verón mais adiantado, e pronto.

Logo ali, na clareira argentina, a Colômbia conta com seu apoio mais efetivo. É na esquerda de ataque que a Colômbia faz dobradinha entre Armero e Marín. Por ali, mais à frente, Rentería abre para receber e fazer a diagonal. E ali a Argentina não tinha ninguém para marcar. Maradona deixou os zagueiros Díaz e Demichelis absolutamente expostos ao apoio de Armero, Marín (dono do jogo no 1º tempo) e Rentería. Gago tentava fazer a cobertura, chegando sempre atrasado - justificadamente, pois precisava sair do meio campo até o lado.

No intervalo, Maradona consertou. Reconstituiu o 3-4-3 com uma troca simples: Gago por Zanetti. E o veterano argentino, que já foi zagueiro e lateral com Maradona na seleção, atuou como o meia-extremo. E Verón foi recuado para a posição onde estava Gago, como meia-marcador sem a bola, e apresentando-se para a articulação, distribuindo o jogo e organizando a Argentina.

O primeiro resultado foi este: Marín morreu na partida. Tanto que foi substituído logo em seguida. Zanetti parou o setor produtivo da Colômbia. A Argentina venceu com um gol de escanteio, sem relação com a troca, mas correu menos riscos e controlou melhor a partida.

E uma constatação a partir da escalação e da mudança, é esta: Verón ganha espaço com Maradona na Argentina. O técnico da seleção sempre disse que faria a equipe jogar em função de Riquelme. Após a briga com o camisa 10 do Boca Juniors, ficou sem articulador, mas nunca escondeu sua preferência pela presença de um organizador, do centralizador da articulação, em seu time. Verón começou a ser convocado para a reserva, aos poucos foi entrando, e contra o Colômbia viu Maradona arriscar uma variação tática toda voltada ao seu protagonismo. Não deu certo, mas quem saiu do time foi Gago.

Verón ficou. É titular. Será ele o camisa 10 pretendido por Maradona?

Postado por Eduardo Cecconi

A versão 3-4-3 de Maradona na Argentina

29 de março de 2009 8

No 3-4-3, a Argentina de Maradona atuou sem laterais ou alas. Na defesa, zagueiros versatéis combinaram a marcação em cobertura. E na frente, ele planejou atacantes com pés invertidos

Acompanhei os dois amistosos de estreia do técnico Maradona na Argentina, e em ambos (vitórias de 1 a 0 sobre a Escócia, e 2 a 0 sobre a França) o treinador se utilizou de um sistema tático pouco usual no país vizinho: o 4-4-2 britânico. Maradona distribuiu a equipe em duas linhas de quatro, tendo na primeira Zanetti, Demichelis, Heinze e Papa; e na segunda, Maxi, Mascherano, Gago e Gutierrez (sempre em ordem, da direita para  esquerda). Ele mudou apenas a frente, no primeiro jogo com Lavezzi e Agüero (se bem me lembro), e no segundo com Messi e Agüero.

Mas ontem, no 4 a 0 contra a Venezuela, Maradona adotou um sistema tático ainda mais raro: a Argentina jogou no 3-4-3. Segundo o treinador explicou a estratégia se baseou na presença de apenas um atacante na Venezuela. Pareceria um contra-senso - três zagueiros para um atacante adversário - mas a escalação, e principalmente a movimentação defensiva, justificaram a escolha.

Maradona formou a zaga com três jogadores versáteis. Angeleri, lateral-direito do Estudiantes, foi o homem da sobra; Zanetti, que atua como meio-campista em uma terceira linha da Inter de Milão, e havia jogado com Maradona na seleção pela lateral, foi o zagueiro da direita; e na esquerda, Maradona escalou Heinze, o "mais zagueiro" entre eles, mas que já atuou como lateral-base no Manchester United e no Real Madrid - onde ele vem jogando em um 3-4-3 semelhante.

A estratégia defensiva foi esta: com apenas um atacante, e uma linha de três meias, a Venezuela não encaixaria - na teoria - contra-ataques simultaneamente pelos dois lados. Desta forma, um dos zagueiros fechava, e outro saía, conforme o adversário. Se a Venezuela atacasse pela esquerda da Argentina, Heinze abria para cobrir a linha de meio-campo, como um lateral; Angeleri pegava o atacante; e Zanetti fechava para formar o segundo zagueiro. O mesmo movimento acontecia no lado contrário (Zanetti abre, Angeleri pega o atacante, Heinze fecha).

O problema, entretanto, foi a articulação. Como é de praxe em qualquer sistema com linha de meio-campo, não há um organizador. Maradona posicionou dois meias-extremos (wingers de qualidade) - Maxi na direita, Gutierrez na esquerda - e centralizou dois volantes combativos, mas pouco criativos - Mascherano e Gago. Com isso, abriu-se um latifúndio entre a linha de meio-campo e os três atacantes. Não havia aproximação pelo meio.

Com duas linhas de quatro - a exemplo dos times ingleses, e da própria Argentina dos primeiros dois amistosos - a articulação se dá pela troca constante de passes. O time "trabalha a bola", até encaixar um passe diagonal. Os wingers apoiam simultaneamente, e contam com o suporte dos laterais-base (Evra sobe muito no Manchester, Fábio Aurélio também se arrisca no Liverpool). Ontem a Argentina trabalhou a bola. Mas, sem laterais, Maradona sobrecarregou uma linha de meio-campo sem um articulador, tornando às vezes a equipe pouco objetiva, e afastada dos atacantes.

Na frente, também a exemplo do Real Madrid - acredito que tenha sido uma referência para Maradona - ele utilizou atacantes com pés invertidos: Messi na direita, Agüero na esquerda, e Tevez centralizado. O trio se movimentou constantemente, trocando posições e invertendo funções. Mas a predileção era pela formação original. Com pés invertidos, Messi e Agüero deveriam se infiltrar nas diagonais, abrindo espaços para as subidas lateralizadas de Maxi e Gutierrez (de preferência ao mesmo tempo), atacando assim com cinco jogadores, com diversas opções de jogadas (ambos os lados, e meio). Não funcionou exatamente assim, entretanto.

Não houve apoio simultâneo pelos lados. E a bola trablhada se transformou em troca de passes sem objetividade. A Argentina contou com o brilho pessoal de Messi, e com o esforço natural de Tevez, para marcar os primeiros dois gols. Apenas no terceiro surgiu uma variação tática - Messi, Maxi e Agüero trocaram de posições, Maxi infiltrou na diagonal, Agüero abriu na direita e cruzou para o Maxi marcar. Messi, em uma diagonal de pé invertido, Agüero (da mesma forma) e Tevez (em jogada pessoal de Messi) fecharam o placar.

Fiquei com a impressão de que Maradona fez a escolha tática correta, mas com a estratégia menos adequada. O divórcio entre meio e ataque levou Messi a ser o articulador. Quem sabe este sistema tivesse obtido mais facilidade se Verón começasse a partida no lugar de Gago. Nem vou citar Riquelme, que abandonou a seleção - outra alternativa plausível. Quem sabe até Dátolo, passando Mascherano para o lado direito. Haviam opções.

Outra conclusão ainda incipiente que formulei: este 3-4-3 não será adotado contra equipes que tenham apoio simultâneo pelos lados. O Brasil, por exemplo. Maxi e Gutierrez não foram alas, mas sim wingers típicos. Zanetti e Heinze foram zagueiros lateralizados. O time não contou com um lateral, ou ala, na cobertura da linha de meio-campo. Talvez jogar contra um adversário que abra a articulação (Robinho e Elano, com Kaká e Luís Fabiano pelo meio, por exemplo) elimine a sobra e force as jogadas às costas da linha de meio-campo, retirando os zagueiros da área. Mas, isso tudo na teoria. Acredito que contra o Brasil Maradona retorne ao 4-4-2 britânico ou apresente ainda uma terceira opção tática, mas com lados mais protegidos.

Em todo caso, é bom ver Maradona apresentando sistemas táticos bem definidos, com variações, estratégias diferenciadas e alternativas de jogo-a-jogo. Para quem duvidava de sua capacidade, Maradona tem se mostrado um treinador, não apenas um ídolo, ou um motivador. Ou um laranja de Billardo. Maradona - nem seria preciso dizer isso - conhece.

Postado por Eduardo Cecconi

Argentina aproveita a instabilidade francesa

12 de fevereiro de 2009 3

Numa comparação simplista, dá para dizer que a Argentina ontem fez no segundo tempo contra a França o que o Brasil fez no primeiro contra a Itália. Controlou o jogo, botou o adversário na "roda"e definiu o confronto sem correr grandes riscos. Mas o começo da partida não foi assim.

Armada num 4-3-3, a França tomou a iniciativa. Ribery, pela direita, contava com o auxílio de Sagna e envolvia a defesa argentina. Anelka, no meio, fazia o pivô e finalizava (mal!) as jogadas mais agudas. Henry, isolado na esquerda, tentava fugir da solidão ao ingressar pela meio. Sem sucesso. Gourcuff assumiu a posição de "engate", com a função de alimentar os homens da frente, com Diarra e Toulalan na proteção.

Apesar dos problemas, a França controlava o jogo e dava a impressão que abriria o marcador em pouco tempo. Só era ameaçada pelos contra-ataques de Messi.

A Argentina apostou num 4-4-2. Zanetti, Heinze, Demichelis e Papo na defesa. No meio, a dupla de volantes Gago e Mascherano. Gutiérrez e Maxí Rodriguez deveriam ser os responsáveis para alimentar a rápida dupla ofensiva, Messi e Aguero. Inicialmente, não funcionou. Tanto que a grande oportunidade da equipe de Maradona foi uma arrancada solitária de Messi pelo meio.

Quando Gutiérrez começou a abrir para os dois lados, cobrindo a apatia de Maxi Rodríguez, totalmente improdutivo pela direita, a Argentina abriu o placar. Ao receber um passe de Papa, Gutiérrez quase marcou aos 40. Um minuto depois, o meia fez o primeiro gol.

Bom, aí a partida foi outra. Trocando passes com eficiência, os argentinos deixaram a França correr atrás do prejuízo (e da bola). O treinador Raymond Domenech inverteu Ribery para a esquerda e Henry para a direita. Depois, colocou Benzema no lugar de Anelka. Em seguida, trouxe novamente Ribery para direita. Nada funcionou.

Já Maradona tirou Aguero e colocou Tevez. Logo na primeira oportunidade, o atacante do Manchester United trocou passes com Messi e colocou o avante do Barça em condições de disparar em velocidade e marcar um golaço.

Jogando mais centralizado, e bem mais participativo, Tevez mostrou ser uma opção melhor do que Aguero para auxiliar Messi. Mas a Argentina ainda sente a falta de um jogador de articulação para o lugar de Riquelme. Maxi Rodríguez, de ótimo desempenho na Copa de 2006, fracassou. Gutiérrez não conseguirá fazer essa função sozinho.

A França, apesar da derrota, agradou. Especialmente até tomar o primeiro gol. Depois disso, a instabilidade de uma equipe que ainda vive uma crise pós-Eurocopa atrapalhou. As vaias e os gritos de Olé para a troca de passes argentina mostram que Domenech está pela bola oito.    

Postado por Márcio Gomes

Maradona, olha para o Dátolo!

25 de janeiro de 2009 6

Dátolo soube jogar às costas da segunda linha do River Plate, que se posicionou no 4-1-4-1

Ano passado, o camisa 23 do Boca Juniors se afirmou como um grande jogador: Dátolo. Fundamental para a equipe campeã do último torneio Apertura, ele já deixou de ser uma promessa. E começo a vê-lo brigando pela presença nas convocações futuras do técnico Maradona na Argentina, afinal, o craque do país vizinho chegou ao comando da seleção para dar início à renovação.

Dátolo é aquele jogador que na Inglaterra se convencionou chamar de box-to-box. A tradução mais ou menos literal é "jogador de área a área". Ou seja: atua em uma grande faixa de campo que vai da proteção aos zagueiros em frente à própria área, até a articulação e conclusão de jogadas ofensivas no campo adversário.

No Boca Juniors, Dátolo é imprescindível para Riquelme. Carlos Ischia, em seu sistema tático 4-4-2, adota como estratégia o meio-campo em losango. Neste desenho, Battaglia é o vértice central, um volante à antiga; Vargas pela direita e Dátolo na esquerda estão na segunda linha; e Riquelme é o vértice adiantado, ao estilo ponta-de-lança, aproximando-se dos atacantes.

Mas como Vargas tem características mais defensivas, naturalmente ele acaba centralizando seu posicionamento quando o time tem a posse de bola, sendo uma espécie de segundo volante. Este movimento permite que Dátolo atue como um "quase-winger" pelo lado esquerdo, fazendo parceria com o excelente lateral apoiador Morel Rodriguez, e atraindo Riquelme para a triangulação.

Mas ontem, no Torneio de Verão da Argentina, o Boca Juniors enfrentou o rival River Plate, no Superclássico, sem Riquelme - ainda recuperando a forma física. Jogou Gracián, que entrou e saiu sem ser percebido. Dátolo teve então personalidade para assumir o protagonismo da partida. E intensificou sua movimentação de área a área, em uma dobradinha qualificada com Morel pelo lado esquerdo.

Dátolo marcou o primeiro gol - o de empate - concluindo pela esquerda dentro da pequena área, devido à total inoperância do ataque do Boca. E no segundo tempo, ele organizou a jogada que terminou com o pênalti sofrido por Noir. Cobrou e fez o 2 a 1, sendo o craque da vitória no Superclássico. Uma atuação que se torna superlativa quando se contextualiza que o volante Battaglia foi expulso no primeiro tempo, ainda no 0 a 0, obrigando Dátolo a ser mais marcador, sem perder a chegada à frente. Aliou raça e qualidade. Nota 10 no Superclássico de ontem para Dátolo.

No lado esquerdo da seleção, em sua primeira partida - vitória de 1 a 0 sobre a Escócia - Maradona utilizou o veloz e competente Gutierrez em uma linha de quatro no meio-campo, ao estilo britânico. Ele já adiantou que, do Boca Juniors, deve convocar apenas Battaglia e Riquelme. Com o camisa 10, ele provavelmente modificará o desenho do meio-campo (Riquelme é mais lento e menos marcador para atuar em linha, precisa ser protegido por volantes).

Se esta projeção se concretizar - a Argentina com meio-campo em quadrado ou losango - Dátolo poderia brigar pela posição com Gago para ser o segundo volante, aprimorando a saída de bola pela esquerda, e reproduzindo a dobradinha com Riquelme.

Talvez no futuro poderemos ver se Dátolo vai continuar atuando de maneira tão qualificada no Boca Juniors a ponto de ser convocado por Maradona.

Postado por Eduardo Cecconi

Maradona adota o 4-4-2 (quase) britânico

19 de novembro de 2008 4

Maradona optou pelas convencionais duas linhas de quatro, bem britânicas, com Mascherano um pouco mais recuado, mas Wingers legítimos pelos lados

Na estréia de Maradona - vitória de 1 a 0 sobre a Escócia em partida amistosa - a Argentina reprisou o sistema tático utilizado pelos próprios clubes argentinos nesta temporada: o 4-4-2 britânico, reconhecido pelas duas linhas de quatro jogadores. Aqui mesmo no blog Preleção já foram analisadas táticas similares no San Lorenzo e no River Plate.

Na primeira linha - a defensiva - Maradona posicionou dois zagueiros (Demichelis pela direita, Heinze pela esquerda) e dois laterais com baixíssima produção ofensiva (Zanetti na direita, Papa na esquerda). E na segunda linha - a de meio-campo - Maradona fez o mesmo que os clubes argentinos têm promovido: um quase alinhamento.

A Argentina jogou com legítimos Wingers. Maxi Rodriguez na direita, e Gutierrez na esquerda se posicionaram exatamente como exige a função no Four-Four-Two (o 4-4-2 britânico). Permaneceram abertos pelos lados, somando-se aos laterais na marcação dupla, e investindo nas diagonais. Em uma destas diagonais combinadas, por exemplo, surgiu o gol da vitória. Gutierrez recebeu de Tevez na área, e encostou para Maxi - ambos os Wingers, portanto, dentro da grande área após rápidas diagonais.

O quase alinhamento se deve aos posicionamentos dos meio-campistas Mascherano e Gago. Mascherano foi mais volante, um pouco recuado, atuando na cobertura de toda a segunda linha. Gago ficou um pouco à frente, também marcando no setor, mas participando mais do jogo e sendo acionado para fazer a bola andar.

Este 4-4-2 britânico, com Wingers e meio-campo em linha, contraria a tradição do camisa 10 da Argentina. O próprio Maradona era o centralizador genial da seleção. Riquelme, que poderia cumprir este papel, não foi convocado em acordo com o Boca Juniors. Sem o camisa 10 articulador nato, a Argentina recorreu às trocas de passes curtos, virando o jogo de pé em pé pela linha de meio-campo, até encontrar espaços para as diagonais dos Wingers ou da dupla Tevez-Lavezzi no ataque.

Os problemas virão a seguir, quando Riquelme for convocado. Maradona não poderá utilizá-lo como Winger, pela lentidão de movimentos e displicência na marcação. Onde entraria Riquelme? Terá de desfazer, portanto, este 4-4-2 à moda Four-Four-Two. Eu vejo como alternativa a saída de Maxi, a centralização de Mascherano como um primeiro volante, e a passagem de Gago para a direita, aproximando ele e Gutierrez do pensador Riquelme. Gutierrez também só deve estar guardando o lugar de Messi. E na frente Lavezzi não fez nem sombra para Agüero. Ficariam Mascherano e Gago nas funções ofensivas, Riquelme e Messi na articulação - quase um quadrado.

Outros problemas, mais urgentes, estão na primeira linha: Heinze e Demichelis são zagueiros que jogam no limite entre a competência e o erro infantil. Não são confiáveis. E os laterais, até mesmo pela presença de Wingers às suas frentes, apoiaram pouco. Pareciam os laterais da Seleção Brasileira.

Maradona optou por um sistema tático bem definido, com o qual os jogadores poderiam se adaptar rapidamente. Foi bem sucedido. Sem ser brilhante, a Argentina controlou a partida. Criou pouco, mas não foi pressionada, e pôde testar este 4-4-2 quase britânico com belíssimas participações de Gago, Mascherano e Gutierrez.

Postado por Eduardo Cecconi