
Tenho assistido e lido a muitos comentários quase ofensivos ao trabalho de Maradona na seleção argentina. Palavras como "maçaroca" e "bagunça" foram utilizadas para descrever uma suposta ausência de organização. Respeitosamente me permito discordar desta análise. Esta divergência permite voltar a um assunto sempre relevante: a diferença entre tática e estratégia.
O sistema tático é a famosa tríade de números (4-4-2, 3-5-2, etc...). Ele define a disposição dos jogadores, o preenchimento dos espaços, a organização dos setores. Lida diretamente com o posicionamento inicial, o ponto de partida de cada atleta. Vulgarmente, é observado quando a equipe está sem a bola.
A estratégia leva em consideração um conjunto de ações vinculados ao sistema tático. As funções (táticas individuais) de cada jogador, as sincronias de movimentos (táticas de grupo), o sistema de marcação (zona, pressão por zona, pressão - alta, média, baixa - individual, individual por função, misto...), a proposta ofensiva (posse de bola, contra-ataque em velocidade, ligação direta...), a característica defensiva (linhas recuadas, linhas adiantadas).
A Argentina de Maradona sempre teve sistema tático. Mas não teve estratégia definida. Portanto, não foi uma equipe desorganizada, esteve longe de ser uma maçaroca, e ainda mais distante de ser uma bagunça. Em contrapartida, apesar da organização, prescindiu de planejamento, de sincronia de movimentos, não apresentou jogadas, variações durante jogos.
Maradona estreou no 4-4-2 em duas linhas. Bem britânico. Dois laterais-base, dois wingers, dois zagueiros, um volante marcador, um box-to-box, e dois atacantes de movimentação. Depois, na tentativa de acomodar os três atacantes - Messi, Agüero e Tevez - passou para o 3-4-3, ainda com meio-campo alinhad. Não deu certo. Tentou ainda um 4-3-3, mas não resistiu e retornou ao seu original, e predileto, 4-4-2 em duas linhas - e foi assim, conforme o diagrama tático que ilustra o post, que venceu o Uruguai fora de casa.
Faltou estratégia. Combinação entre jogadores - táticas de grupo. Maradona me passou a impressão que, definido o posicionamento inicial de cada jogador, caberia a eles jogar. O famoso "virem-se". Confiando no talendo dos comandados, o técnico escolhia o sistema, escalava os jogadores, mas não planejava os movimentos. E na base do virem-se, os talentos naufragaram - mais significativamente Messi.
Faltou, portanto, a "mão do treinador". Aquela capacidade de perceber as circunstâncias de cada jogo, os espaços vagos - e a melhor maneira de ocupá-los - e as virtudes a ser combatidas nos adversários. Faltou saber que o Brasil joga no contra-ataque, e é forte na bola aérea ofensiva. Faltou perceber que faltava à Argentina a figura do camisa 9 - que ele encontrou apenas na penúltima convocação, com Palermo e Higuaín. Faltaram muitas coisas. Faltou estratégia.
Faltou mecânica de jogo. Mas sistema tático e organização, isso a Argentina teve.
Postado por Eduardo Cecconi








