Luciano Alabarse, coordenador do 15° Porto Alegre Em Cena, explica os bastidores das confusões que cercaram a vinda da montagem Fausto à capital gaúcha.
FAUSTO E SUA CARGA INFERNAL
(Uma explicação necessária)
"Há muitos anos acordo com o barulho da Zero Hora que o entregador atira pelo muro da minha casa. O barulho quase imperceptível é a minha senha para levantar da cama, antes do despertador, ler o jornal e começar o dia. Na madrugada do dia 10, eu já estava acordado, tratando de encontrar a melhor solução para realizar a ameaçada estréia do “Fausto” dentro do 15º Porto Alegre em Cena, uma das atrações mais aguardadas do festival.
Espetáculos internacionais exigem logística e organização com meses de antecedência, o que realmente aconteceu. Contratada uma das mais renomadas empresas de transporte de carga do mundo, a Waiver, a carga foi embarcada em 21 de junho da Lituânia. Esta empresa já havia prestado serviços ao Em Cena, e sempre cumpriu a contento suas obrigações, inclusive em megaoperações, como a responsabilidade de conduzir os quatorze containeres do cenário de “Les Éphémères”, de Ariane Mnouchkine, no ano passado.
Quem abre o material cenográfico é sempre o diretor técnico da companhia visitante e, por isso, o contrato de entrega coincide com a chegada do grupo à cidade visitada. No caso de Nekrosius, tudo estava previsto para o dia 10 de setembro, dois dias antes da estréia prevista, no Theatro São Pedro. Por isso, até esse dia, tudo corria sob um céu de brigadeiro.
Quando a carga não foi entregue e chegaram as notícias de que ainda estava parada em Buenos Aires, terceirizada sua entrega à uma companhia marítima, sem nosso conhecimento, acionamos todas as instituições e pessoas que poderiam ajudar a solucionar o problema: a própria empresa argentina, o navio encarregado, as Prefeituras de Porto Alegre e Rio Grande, a Receita Federal, a Alfândega portuária. A carga, na melhor hipótese, e com a solidariedade incomum de todos os possíveis agentes responsáveis por solucionar o caso (liberação da papelada correspondente, antes da confirmação da carga, e num sábado, dia sem expediente burocrático no porto), chegaria a Porto Alegre à meia-noite do dia 13.
Dona Eva Sopher, minha “ídala” máxima, ao saber da situação e que, na melhor hipótese, só conseguiríamos apresentar a função programada para domingo no Theatro São Pedro, me pegou pela mão e me aconselhou a cancelar inclusive essa, para não criar ainda mais frustração naqueles que, com ingresso para os dois outros dias cancelados, poderiam, com razão, reclamar. Sérgius Gonzaga, meu estimado Secretário de Cultura, me aconselhou a procurar uma outra solução: a de encontrar um teatro maior, acomodar todos os que tinham ingresso comprado, mesmo que isso demandasse uma força-tarefa gigantesca.
Foi o que, afinal, fizemos – para não privar Porto Alegre da chance de assistir a uma das principais atrações do 15º Porto Alegre em Cena. Acionados todos os grandes teatros da cidade, novamente uma solidariedade vibrante que esbarrou em agendas previamente ocupadas, menos o Salão de Atos da UFRGS, cujos funcionários encarregados se mobilizaram prontamente.
Foi uma corrida contra o tempo, uma gincana e tanto. Quando o caminhão com o container retido estacionou na porta da Reitoria, exatamente três minutos antes da meia-noite, uma legião de técnicos já trabalhava. Uns desmontando o equipamento do show de Mercedes Sosa, todas as equipes do Em Cena a postos, os técnicos do grupo lituano – que trabalharam incansavelmente para adequar o espetáculo ao novo espaço.
Relato publicamente um pouco dos bastidores do festival, para agradecer a todos que nos ajudaram a tornar possível a apresentação única do “Fausto” na programação do Em Cena e, principalmente, ao público porto-alegrense que, em maioria esmagadora, acompanhou sem stress todo o episódio, entendendo as mudanças e emprestando compreensão e civilidade ao transtorno coletivo.
Não é por nada que os artistas reconhecem os méritos da platéia gaúcha. Nesse episódio, com pouquíssimas exceções, comprovei eu mesmo, um santo da casa, a grandeza do público local. Muito obrigado a todos."
Postado por Renato Mendonça