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A preparação para as bodas de Lorca

27 de maio de 2010 0

Bodas de Sangue, de Federico García Lorca, estreia hoje no Theatro São Pedro, em Porto Alegre. A direção do espetáculo é de Luciano Alabarse e Luiz Paulo Vasconcellos.

O elenco de 15 atores e duas bailarinas é capitaneado pela atriz Sandra Dani, no papel da mãe do noivo (interpretado por Fabrizio Gorziza). Também estão no elenco Sissi Venturin (noiva), Marcelo Adams (Leonardo), Ida Celina (sogra de Leonardo/Morte) e Mauro Soares (pai da noiva).

Confira a íntegra das entrevistas feitas por e-mail com cada um dos diretores para a reportagem publicada hoje em ZH.

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Luciano Alabarse: "Que ninguém espere o que eu já fiz, porque gosto de desafios"

Zero Hora - O espetáculo é representativo da tua trajetória de encenar grandes textos. Depois de passar, nos últimos anos, por Shakespeare e pela tragédia grega, por que decidiste encenar Lorca? Como chegaste a ele nesse momento?

Luciano Alabarse - Há muitos anos, sem pressa, eu e Sandra Dani, ambos espanhóis até a medula, alimentamos a ideia de encenar Bodas de Sangue. Nesse percurso, me apaixonei pelos textos do Thomas Bernhard e pelas tragédias gregas. O meu caminho teatral passa pelos grandes textos, sim. Em algum momento, eu me ressentia de Porto Alegre ter pouco acesso a essas obras, realidade que mudou consideravelmente nos últimos anos. Lorca é um dos mais representativos autores do século 20, pouquíssimo montado no Brasil. O período de ensaios foi muito bom, sentir o grupo inteiro se apaixonando por essa obra tão intensa e bem construída. O próprio autor chama o texto de "tragédia". Uma tragédia andaluza, com muita música e bailado flamenco. Mas são essas histórias que ainda movem a história do próprio teatro. Eu apenas traduzo meu amor pelos dramaturgos realmente relevantes, ao encená-los e oferecê-los ao grande público.

ZH - Preferes que o público vá aos teus espetáculos sabendo o que esperar ou achas importante surpreender o público em algum aspecto?

Alabarse - Para mim, uma encenação é constituída de dois grandes componentes: o primeiro, de dentro para fora, tudo aquilo que o texto parece mostrar e exigir de um diretor; o segundo, de fora para dentro, a contribuição desse olhar singular de direção para o texto escolhido. Estudo sozinho, meses sem conta, antes de me reunir com o elenco de uma montagem. Quando começo meus estudos, procuro estar esvaziado da experiência anterior. Em princípio, eu mesmo gosto de me surpreender. Que ninguém espere o que eu já fiz, porque gosto de desafios, de autores novos. Mas é claro, há pressupostos dos quais não abro mão: uma produção impecável, um elenco talentoso, um teatro que chegue de forma intensa à plateia. Isso são metas comuns ao meu trabalho. Mas cada encenação tem sua linguagem e seu formato. Nesse sentido, deixo o texto me levar.

ZH - Como avalias a importância da peça no teatro moderno?

Alabarse - Imagino o impacto do texto de Lorca sobre o conservadorismo do teatro espanhol da década de 30. Ele queria experimentar linguagens através de sua obra, não se satisfazia com os modelos pré-estabelecidos. Bodas de Sangue foi um retumbante êxito teatral, catapultando seu autor à fama internacional. Ali estão misturadas cenas de um realismo seco, as primeiras da obra, com cenas de intensa alegoria. Tudo o que ele chamou de "terceiro ato" foge deliberamente desse realismo. Personagens como a Lua e a Morte não são somente metáforas. E, no que se refere à linguagem, misturou cenas em que os personagens se expressam através da prosa realista com outras de linguagem poética, ele mesmo um poeta de mão cheia.

ZH - Como foi o processo de tradução do texto e quais as dificuldades com que te deparaste? Por exemplo, como resolveste a transição entre trechos em prosa e poesia?

Alabarse - Eu mesmo assinei a tradução, porque o Caio Fernando Abreu me legou essa preocupação, que o teatro devia ser feito para atores falarem em voz alta. E muitas traduções são feitas para serem lidas em silêncio na sala de leitura. Não é a primeira vez que assino uma adaptação, nem será a última. E traduzir do espanhol pra mim foi muito tranquilo. Sempre que o texto foi escrito com rimas poéticas, isso está lá, com personagens mais humildes se expressando assim. A linguagem da Lua é "rebuscada", ou seja, mais bem construída. Mas isso está no texto original. Eu realmente quero que as pessoas tenham a sensação de estar (re)conhecendo um texto de Federico García Lorca.

ZH - Gostarias de acrescentar outras considerações?

Alabarse - Gostaria de dizer que é muito prazeroso a parceria com Luiz Paulo. Ele costuma brincar que temos "idênticas diferenças" no método de dirigir e que, juntos, somos a fome e a vontade de comer. Eu gosto dessa imagem. E que já temos nosso próximo projeto juntos. Logo depois do (Porto Alegre) Em Cena (Alabarse é coordenador do festival), vou dirigi-lo, ele como ator somente, na minha adaptação para O Animal Agonizante, do Philip Roth. A dupla, já vista junta tantas vezes, continuará junta. E isso é uma grande alegria para mim.

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Luiz Paulo Vasconcellos: "Eu acredito numa dramaturgia que corresponda aos anseios do tempo em que está sendo representada"

Zero Hora - No elenco do espetáculo estão atores tarimbados e jovens talentos. Quais foram os desafios para tornar as atuações homogêneas?

Luiz Paulo Vasconcellos - O ator tarimbado resolve os problemas a partir da técnica que a experiência lhe dá. O jovem talento resolve a partir do entusiasmo. O negócio é propor a conciliação desses extremos, um pouquinho do que cada um possui, no outro. Às vezes, tenho que ensinar ao jovem talento a acentuar corretamente uma palavra dita no auge da empolgação. Às vezes, tenho que sugerir ao ator tarimbado que esqueça as regras e se entregue à cena com um pouquinho mais de empolgação. E assim, aplainando arestas, vamos compondo uma linguagem que junta alhos com bugalhos, técnica e espontaneidade, fome com vontade de comer.

ZH - Como defines o tom que vocês procuraram imprimir às atuações - por exemplo, tendo em vista a presença de personagens não realistas, como a Lua e a Morte?

Vasconcellos - O tom quem propôs foi o Lorca, esse andaluz incorrigível e verdadeiramente maravilhoso. Coube a nós - principalmente ao Luciano - captar esse tom, percebê-lo, defini-lo e repassá-lo aos atores e à equipe que participa da criação do espetáculo. Quanto aos personagens alegóricos - Lua e Morte -, o jeito é humanizá-los - mesmo que falem em tonalidades distintas, em verso, às vezes por metáforas. Em todo caso, não podemos esquecer a influência que outros artistas do grupo exerceram sobre Lorca - Dalí, Buñuel e outros loucos sublimes responsáveis pelo surrealismo. O resultado é essa simbiose do trágico, do onírico e do poético.

ZH - Um trabalho como Bodas de Sangue, que é um dos grandes textos do teatro moderno, reforça a crença de vocês na dramaturgia, especialmente em um tempo em que o texto está sendo colocado de lado por diversas iniciativas teatrais?

Vasconcellos - Eu acredito na dramaturgia. Não nesta ou naquela dramaturgia, mas numa dramaturgia que corresponda aos anseios do tempo em que está sendo representada. Por isso dirigi Beckett, Shakespeare, Eurípides, Ivo Bender, Tchekhov, Nelson Rodrigues e tantos outros autores tão diferentes entre si e tão necessários no momento em que foram encenados. Hoje, alguns pretendem substituir a representação do drama pelo exercício performático, a ficção pelo virtuosismo, a ação cênica pela presença física do ator. O que não deixa de ser um equívoco monumental. Alguém vai a um concerto para ver se o pianista é gordo, estrábico ou prognata? Não. Vai para ouvir música, que é uma organização arbitrária e rigorosa de sons. Portanto, continuo preferindo a música e o drama, independentemente de gêneros e estilos.

BODAS DE SANGUE
Texto de Federico García Lorca, direção de Luciano Alabarse e Luiz Paulo Vasconcellos.
De quinta a sábado, às 21h, e domingo, às 18h. Duração: 120 minutos. Temporada até 6 de junho.
Theatro São Pedro (Praça Marechal Deodoro, s/nº), fone (51) 3227-5100.
Onde estacionar: no Estacionamento Multipalco (Rua Riachuelo, 1.089), a R$ 10.
Ingressos: R$ 50 (plateia), R$ 30 (camarote central e cadeiras extras),
R$ 20 (camarote lateral) e R$ 10 (galerias). Desconto de 30% para titular e acompanhante do Clube do Assinante ZH e de 50% para a classe artística.

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