Do Segundo Caderno de ZH:
De atores boa-pinta o mundo está cheio. Thiago Lacerda agora quer mais. Garante que o espetáculo que traz à Capital a partir de amanhã, em curta temporada no Theatro São Pedro, é um dos projetos mais significativos de seus 11 anos de carreira - senão o mais. Uma experiência "única e fundamental":
- Calígula me levou a um lugar aonde nunca tinha ido. A pesquisa técnica me tornou um ator mais interessante do que eu era antes - afirma a ZH, por telefone.
Se resta alguma dúvida, ele adverte:
- Quem for assistir esperando o ator de novela não vai encontrar.
Thiago deixou momentaneamente de lado os papéis de mocinho para incorporar o personagem-título da peça de Albert Camus (1913 - 1960), escrita em 1938 e revista antes de sua estreia mundial em 1945. O escritor francês nascido na Argélia inspirou-se no clássico da historiografia A Vida dos 12 Césares, de Suetônio, biógrafo que viveu no primeiro século da Era Cristã.
Calígula é tido como o mais insano e perverso dos imperadores de Roma. A peça começa com a morte de sua irmã Drusilla, com quem mantinha uma relação incestuosa. Em busca de um sentido para a existência, à maneira de um Hamlet às avessas, é acometido pelas mais extravagantes obsessões - como a abertura de um bordel público com as esposas dos nobres, concedendo uma ordem do mérito para os frequentadores mais assíduos.
Finalizado no pós-guerra, o texto de Camus pode ser entendido, entre outras leituras possíveis, como uma crítica ao absurdo dos regimes autoritários.
A equipe da montagem paulista que estreou no final de 2008, dirigida por Gabriel Villela, está preocupada com a imagem deixada pelo filme Calígula (1979), de Tinto Brass - produção de alta voltagem erótica que não foi baseada na peça de Camus, mas se tornou a mais famigerada referência artística sobre o imperador romano. Em comum entre os dois - filme e peça -, apenas o título. O diretor afirma que a herança maldita dificultou a captação de recursos para o espetáculo. Segundo ele, muitas empresas não quiseram associar suas marcas ao tema:
- Tinto Brass filmou um cult pornográfico que, de certa maneira, maculou o nome da peça - diz Villela.
Mais conhecido por seus romances e ensaios, como O Estrangeiro (que teve adaptação teatral com Guilherme Leme e direção de Vera Holtz apresentada na Capital em março), Camus tem em Calígula, no entanto, uma obra de maturidade.
A encenação opta por uma concepção próxima do teatro épico de Brecht, que valoriza a palavra: segundo o diretor, os atores relatam o texto mais do que o interpretam. Um procedimento brechtiano também é utilizado na composição do protagonista. Villela afirma que buscou referência na figura histórica de Garibaldi, que o próprio Thiago Lacerda interpretou na minissérie A Casa das Sete Mulheres, em 2003.
- Thiago tem o physique du rôle (o tipo físico do papel) dos pampas. A tendência que se tem é associar Garibaldi a um herói romântico, mas ele também foi um mercenário. Propus que o Thiago trouxesse ao Calígula essa dialética - explica o diretor.
CALÍGULA
Texto de Albert Camus, direção de Gabriel Villela.
Com Thiago Lacerda e elenco.
De quinta a sábado, às 21h, e domingo, às 18h. Duração: 100 minutos. Classificação: 14 anos.
Theatro São Pedro (Praça Marechal Deodoro, s/nº), fone (51) 3227-5100.
Onde estacionar: no Estacionamento Multipalco (entrada pela Rua Riachuelo), a R$ 10.
Ingressos: R$ 40 (plateia), R$ 35 (camarote central e cadeiras extras), R$ 30 (camarote lateral) e R$ 25 (galerias). Desconto de 10% para titular do Clube do Assinante.





