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"Viúvas" ficará mais uma semana em cartaz

28 de janeiro de 2011 0

A procura é tanta que a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz prorrogou por mais uma semana a temporada de estreia da peça Viúvas, Performance sobre a Ausência – Trabalho em Andamento, na Ilha das Pedras Brancas (Ilha do Presídio), a 2,5 quilômetros de Porto Alegre.

> Leia como foi a apresentação de estreia

Haverá uma sessão extra neste domingo (30/01), com saída do município de Guaíba. De segunda-feira (31/01) a sexta-feira (04/02), diariamente, a saída será da Usina do Gasômetro, em Porto Alegre, como foi nos primeiros dias.

O grupo avisa que três horas antes da distribuição de senhas para o espetáculo (com entrada franca) a fila já costuma estar maior do que a lotação de cada apresentação. Confira abaixo como será a temporada prorrogada. Outras informações pelo fone (51) 9999-4570. Em caso de chuva, não haverá espetáculo.

Em Guaíba:

Plataforma de embarque da rodoviária (João Pessoa, 966, fone 51 3491-3821)

Hoje (28/01)
19h30: distribuição de senhas para a apresentação de sábado (29/01)

Sábado (29/01)

19h30: distribuição de senhas para a apresentação extra no domingo (30/01)
20h30min: saída para a Ilha do Presídio

Domingo (30/01)
20h30min: saída para a Ilha do Presídio

Em Porto Alegre:

De segunda-feira (31/01) a sexta-feira (04/02)
, diariamente, no saguão da Usina do Gasômetro (João Goulart, 551, fone 51 3289-8100)

19h: distribuição de senhas para a apresentação do dia
20h: saída de ônibus para o Sava Clube, no bairro Vila Assunção, onde o público toma o barco para a Ilha do Presídio


E o Açorianos vai para...

17 de dezembro de 2010 0


Wonderland... / Foto Patrícia Dyonisio, divulgação



Confira a lista completa dos ganhadores do Prêmio Açorianos de Teatro e Dança e do Troféu Tibicuera de Teatro Infantil 2010, revelados agora à noite em cerimônia no Teatro Renascença, em Porto Alegre.

TEATRO

Espetáculo
Wonderland e o que M. Jackson Encontrou por Lá

Direção
Daniel Colin (Wonderland e o que M. Jackson Encontrou por Lá)

Ator
Marcelo Bulgarelli (Dia Desmanchado)

Atriz
Vanise Carneiro por (9 Mentiras sobre a Verdade)

Ator coadjuvante
Eduardo Mendonça (Milkshakespeare)

Atriz coadjuvante
Renata de Lélis (Milkshakespeare)

Figurino
Daniel Lion (Wonderland e o que M. Jackson Encontrou por Lá)

Cenografia
Luiz Marasca (Hybris)

Iluminação
Bathista Freire (Sobre Saltos de Scarpin)

Trilha
Jackson Zambelli e Sérgio Olivé (Dia Desmanchado)

Dramaturgia
Patrícia Fagundes e grupo (Clube do Fracasso)

Produção
Rodrigo Marquez, Fernanda Marques e Palco Aberto (Wonderland e o que M. Jackson Encontrou por Lá)

Troféu RBS Cultura – Júri Popular
Clube do Fracasso

***

DANÇA

Espetáculo
Dar Carne à Memória II

Coreografia
Eva Schul (Dar Carne à Memória II)

Bailarino
Mariano Neto (Pessoas – As Memórias)

Bailarina
Didi Pedone (Pessoas – As Memórias)

Figurino
Ateliê Alfa (Pessoas – As Memórias)

Iuminação
Lucca Simas (Na Solidão)

Trilha sonora
Ivan Motta (Pessoas – As Memórias)

Produção
Jerri Dias (Dar Carne à Memória I e II)

Troféu RBS Cultura – Júri Popular
Pessoas – As Memórias

***

TEATRO INFANTIL

Espetáculo
O Menino que Aprendeu Cedo Demais

Direção
Adriane Mottola (Ópera Monstra)

Ator
Pablo Capalonga (O Menino que Aprendeu Cedo Demais)

Atriz

Fernanda Petit (Ópera Monstra)

Ator coadjuvante
Leonardo Barison (Criança Pensa)

Atriz coadjuvante
Janaina Pelizzon (Ópera Monstra)

Figurino
Cássio Brasil (Ópera Monstra)

Cenografia
Claudio Benevenga e Marcos Buffon (O Menino que Aprendeu Cedo Demais)

Iluminação
Nara Maia (O Menino que Aprendeu Cedo Demais)

Trilha
Arthur Barbosa (O Menino que Aprendeu Cedo Demais)

Dramaturgia
Roberto Oliveira (A Roupa Nova do Rei)

Produção
Airton de Oliveira e Maura Sobrosa (O Menino que Aprendeu Cedo Demais)

Troféu RBS Cultura – Júri Popular
Ópera Monstra


Os indicados ao Açorianos de artes cênicas

06 de dezembro de 2010 0


Foto Júlio Appel, divulgação


Foram divulgados, nesta segunda-feira (06/12) à noite, os indicados ao Prêmio Açorianos 2010 de teatro e dança e ao Troféu Tibicuera de teatro infantil. Os vencedores serão conhecidos no dia 17 de dezembro.

Entre os concorrentes de teatro, os mais bem cotados são Bodas de Sangue (foto acima), de Luciano Alabarse e Luiz Paulo Vasconcellos; Milkshakespeare, de Camilo de Lélis; e Wonderland e o que M. Jackson Encontrou por Lá, de Daniel Colin, cada um com nove indicações, incluindo melhor espetáculo e direção.

Na área da dança, destaque para Pessoas – As Memórias, de Ivan Motta, com oito indicações; Dar Carne à Memória II, de Eva Schul; e Na Solidão, de Giuli Lacorte, ambos com seis indicações. Os três títulos concorrem a melhor espetáculo e coreografia.

No Troféu Tibicuera de teatro infantil, os campeões de indicações são A Roupa Nova do Rei, de Gilberto Fonseca e João Pedro Madureira; Ópera Monstra, de Adriane Mottola, ambos com dez indicações; e O Menino que Aprendeu Cedo Demais, de Airton de Oliveira, com nove – os três também concorrendo a melhor espetáculo e direção.

Atualização (08/12, 20h44min): Para votar nos espetáculos que concorrem ao Troféu Júri Popular RBS Cultura, é só acessar esse link.

***

Confira a lista completa dos indicados:


PRÊMIO AÇORIANOS DE TEATRO 2010

Espetáculo
Bodas de Sangue
Clube do Fracasso
Dia Desmanchado
Milkshakespeare
Wonderland e o que M. Jackson Encontrou por Lá

Direção
Camilo de Lélis (Milkshakespeare)
Daniel Colin (Wonderland e o que M. Jackson Encontrou por Lá)
Luciano Alabarse e Luiz Paulo Vasconcellos (Bodas de Sangue)
Patrícia Fagundes (Clube do Fracasso)
Tainah Dadda (Sobre Saltos de Scarpin)

Ator
Felipe de Paula (Milkshakespeare)
Leonardo Barison (Fora do Ar)
Luiz Paulo Vasconcellos (O Animal Agonizante)
Marcelo Adams (A Lição)
Marcelo Bulgarelli (Dia Desmanchado)

Atriz
Áurea Batista (Stand Up Drama)
Gisele Habeyche (Cinco Tempos para a Morte)
Patrícia Soso (Fora do Ar)
Sandra Alencar (Adoração)
Vanise Carneiro (Nove Mentiras sobre a Verdade)

Ator coadjuvante
Daniel Colin (Wonderland e o que M. Jackson Encontrou por Lá)
Eduardo Mendonça (Milkshakespeare)
Fredericco Restori (Hybris)
Mauro Soares (Bodas de Sangue)
Willian Martins (Sobre Saltos de Scarpin)

Atriz coadjuvante
Luísa Herter (A Lição)
Patrícia Soso (Parasitas)
Renata de Lélis (Milkshakespeare)
Sandra Dani (Bodas de Sangue)
Vika Schabbach (Bodas de Sangue)

Figurino
Antônio Rabadan (A Caravana da Ilusão)
Daniel Lion (Sobre Saltos de Scarpin)
Daniel Lion (Wonderland e o que M. Jackson Encontrou por Lá)
Juliana Kussler e Renata de Lélis (Milkshakespeare)
Rô Cortinhas (Bodas de Sangue)

Cenografia
Elcio Rossini (Wonderland e o que M. Jackson Encontrou por Lá)
Jessé Oliveira e Grupo (O Osso de Mor Lam)
Luiz Marasca (Hybris)
Sylvia Moreira (Bodas de Sangue)
Zao Figueiredo (Sobre Saltos de Scarpin)

Iluminação

Bathista Freire (Sobre Saltos de Scarpin)
Carol Zimermman (Wonderland e o que M. Jackson Encontrou por Lá)
João Carlos Dadico (Dia Desmanchado)
Maurício Moura e Cláudia de Bem (Bodas de Sangue)
Maurício Moura (Milkshakespeare)

Trilha
4 Nazzo e Cláudio Bonder (Hybris)
Arthur de Faria e Adolfo Almeida Jr. (Solos Trágicos)
Arthur de Faria (Wonderland e o que M. Jackson Encontrou por lá)
Bebeto Alves (Milkshakespeare)
Jackson Zambelli e Sérgio Olivé (Dia Desmanchado)

Dramaturgia
Daniel Colin e Felipe Vieira de Galisteo (Wonderland e o que M. Jackson Encontrou por Lá)
Diones Camargo (Nove Mentiras sobre a Verdade)
Felipe Mônaco e grupo (Fora do Ar)
Júlio Zanotta Vieira (Milkshaspeare)
Patrícia Fagundes e grupo (Clube do Fracasso)

Produção

Cecília Daudt e Airton de Oliveira (Sobre Saltos de Scarpin)
Elenice Zaltron e Falos & Stercus (Hybris)
Fernando Zugno e Miguel Arcanjo Coronel (Bodas de Sangue)
Morgana Kretzmann e Patrícia Fagundes (Clube do Fracasso)
Rodrigo Márquez (Wonderland e o que M. Jackson Encontrou por Lá)

***


PRÊMIO AÇORIANOS DE DANÇA 2010

Espetáculo
Dar Carne à Memória II
Pessoas – As Memórias
Na Solidão

Coreografia
Eva Schul (Dar Carne à Memória II)
Giuli Lacorte (Na Solidão)
Ivan Motta (Pessoas – As Memórias)

Bailarino
Eduardo Severino (Dar Carne à Memória II)
Giuli Lacorte (Na Solidão)
Mariano Neto (Pessoas _ As Memórias)
Tom Nunes (A Primeira Entrega)

Bailarina
Cibele Sastre (Dar Carne à Memória II)
Didi Pedone (Pessoas – As Memórias)
Letícia Paranhos (Na Solidão)
Luciana Paludo (Dar Carne à Memória II)
Luiza Moraes (Dar Carne à Memória I)

Cenografia
[Não há indicações]

Figurino
Eva Schul e Luciane Soares (Dar Carne à Memória I)
Ateliê Alfa (Pessoas – As Memórias)

Iluminação
Arco Íris (Pessoas – As Memórias)
Lucca Simas (Na Solidão)
Fernando Ochôa (A Primeira Entrega)
Fabrício Simões (O Resto É Perfume)

Trilha Sonora
Arthur de Faria (A Primeira Entrega)
Carlinhos Hartlieb, Toneco Costa e Celau Moreira (Dar Carne à Memória I)
Ivan Motta (Pessoas – As Memórias)

Produção
Grupo Hybris e Luka Ibarra (Na Solidão)
Jerri Dias (Dar Carne à Memória I e II)
Luka Ibarra (Pessoas – As Memórias)

***


TROFÉU TIBICUERA DE TEATRO INFANTIL 2010

Espetáculo
A Roupa Nova do Rei
Chapeuzinho Vermelho de Ronald Radde
O Menino que Aprendeu Cedo Demais
Ópera Monstra

Direção
Adriane Mottola (Ópera Monstra)
Airton de Oliveira (O Menino que Aprendeu Cedo Demais)
Gilberto Fonseca e João Pedro Madureira (A Roupa Nova do Rei)

Ator
Marcos Chaves (A Roupa Nova do Rei)
Pablo Capalonga (O Menino que Aprendeu Cedo Demais)
Rodrigo Mello (Ópera Monstra)

Atriz
Aline Marques (A Almofada, o Castelo e o Dragão)
Daiane Oliveira (Chapeuzinho Vermelho de Ronald Radde)
Fernanda Petit (Ópera Monstra)
Letícia Paranhos (Chapeuzinho Vermelho de Ronald Radde)
Simone de Dordi (A Almofada, o Castelo e o Dragão)

Ator coadjuvante
Lauro Ramalho (Ópera Monstra)
Leonardo Barison (Criança Pensa)
Plínio Marcos Rodrigues (A Roupa Nova do Rei)
Vinícius Meneguzzi (A Roupa Nova do Rei)

Atriz coadjuvante
Ariane Guerra (A Roupa Nova do Rei)
Janaína Pelizzon (Ópera Monstra)
Lúcia Bendati (A Roupa Nova do Rei)

Figurino
Cássio Brasil (Ópera Monstra)
Claudio Benevenga (O Menino que Aprendeu Cedo Demais)
Daniel Lion (A Roupa Nova do Rei)

Cenografia
Claudio Benevenga e Marcos Buffon (O Menino que Aprendeu Cedo Demais)
Júlio Freitas (Chapeuzinho Vermelho de Ronald Radde)
Zoé Degani (Ópera Monstra)

Iluminação
João Acir (Chapeuzinho Vermelho de Ronald Radde)
João Acir (Criança Pensa)
João Acir (Ópera Monstra)
Nara Maia (O Menino que Aprendeu Cedo Demais)

Trilha
Álvaro RosaCosta (Chapeuzinho Vermelho de Ronald Radde)
André Trento (Criança Pensa)
Arthur Barbosa (O Menino que Aprendeu Cedo Demais)
Ricardo Severo (Ópera Monstra)

Dramaturgia
Miriam Benigna e Pablo Capalonga (O Menino que Aprendeu Cedo Demais)
Roberto Oliveira (A Roupa Nova do Rei)

Produção
Airton de Oliveira e Maura Sobrosa (O Menino que Aprendeu Cedo Demais)
André Oliveira e Grupo Farsa (A Roupa Nova do Rei)
Ellen D’avila (Chapeuzinho Vermelho de Ronald Radde)
Makki Produções (Pum – Histórias Mal Cheirosas)
Cia de Teatro Stravaganza (Ópera Monstra)*

* Indicação confirmada pela coordenação do Açorianos nesta terça-feira (07/12), às 10h16min, após a divulgação da lista na edição impressa de ZH.

Por um teatro mais político

30 de novembro de 2010 0


Foto Pedro Lucas, divulgação


O Ói Nóis Aqui Traveiz promove, de hoje (30/11) a sexta-feira (03/12), em Porto Alegre, um seminário sobre teatro, performance e política, em homenagem aos 10 anos da Escola de Teatro Popular da Terreira da Tribo (confira programação completa abaixo) – que apresentou uma montagem de Yerma, de Lorca, no início de novembro (foto).

Aqui vai, na íntegra, o artigo do jornalista e pesquisador Valmir Santos, que estará no evento, publicado hoje em ZH, sobre dois grupos representativos do cenário latino-americano: La Candelaria, da Colômbia, e Yuyachkani, do Peru (cujo diretor, Miguel Rubio Zapata, também estará em Porto Alegre).

Teatralidades performáticas e políticas

Por Valmir Santos*

Um dos aspectos interessantes do teatro contemporâneo são os núcleos artísticos despontados sob os signos da contracultura e das resistências social e política, nos anos 1960 e 1970, e depois desafiados a dizer a que vieram sem dissolver a estética no debate de ideias. Alguns estacionam suas práticas e discursos, outros evoluem para a construção de cenas que carregam no ventre múltiplas camadas de leituras e de linguagens. Ela mesma cumpridora de tal roteiro, a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz organiza em sua sede um seminário voltado à reflexão de experiências latino-americanas segundo a trinca Teatro, Performance e Política.

Lembramos de dois grupos longevos que, sincrônica ou casualmente, trouxeram à luz em 2008 espetáculos impregnados do ato performático: o Teatro La Candelaria, da Colômbia, com A Título Personal, dirigido por Santiago García, e o Grupo Cultural Yuyachkani, do Peru, com El Último Ensayo, por Miguel Rubio Zapata – este, inclusive, convidado para o encontro na Terreira.

Em comum, eles desenham uma relação frontal com o espectador em seus respectivos galpões, em Bogotá e Lima, dispensando as convenções do palco italiano. São atravessados por processos dramatúrgicos endógenos, reveem suas próprias biografias, acentuam o diálogo com o vídeo como textura documental e têm no território do corpo o seu principal veículo. Essas aproximações, de modo algum, querem simplificar as criações, suas cosmogonias ímpares, mas intentam colocá-las em perspectiva para o espectador e o leitor brasileiro perceber como as trajetórias se tocam e atravessam fronteiras da arte.

O princípio dramatúrgico de ambos apresenta um conjunto musical sob a regência de um maestro implícito no jogo. Desde largada, subjaz a metáfora para o caráter gregário da produção latino-americana em que atores, atrizes e demais integrantes vinculam-se a um “maestro”, na expressão espanhola para designar mestre. É assim que García é tratado dentro e fora do solo colombiano, um dos precursores da criação coletiva na região sul-americana, a fazer par com o conterrâneo Enrique Buenaventura (1924 – 2003).

É comovente ver o octogenário García em A Título Personal, na pele de um maestro e astrólogo regendo seus músicos tão intrépidos quanto ele, uma constelação de gags em autocitações corrosivas ao grupo. Em certas passagens, o roteiro aborda temas tabus na sociedade, como os militantes políticos desaparecidos durante os conflitos armados.

A cena-chave vem lá pela metade, quando o ator Cesar Badillo contracena com a sua projeção em vídeo como personagem e persona, variantes projetadas sobre uma folha de papel-jornal. O suporte em celulose, mais tarde rasgado, dá conta da precariedade em se instaurar o drama em nossa época de mediações mil, a começar pelas telas de algumas polegadas ou centímetros. O espetáculo fala das incertezas do presente, inclusive para o La Candelaria, que completou 44 anos sem jamais perder o fundo histórico. É sensacional a maneira como Badillo vem à boca de cena, cajado em mãos, e promove um embate verbal e gestual com o espelhamento que lhe é outro.

Tampouco falta ironia em El Último Ensayo, com dramaturgia de Peter Elmore. Um conjunto musical passa a limpo seu repertório para homenagear uma cantora que triunfou na carreira internacional – clara referência à soprano Yma Sumac (1922 – 2008). A angústia da espera por essa personalidade idosa – ao contrário de Godot, ela vem – traz à tona os ruídos nas relações internas dos artistas e sua conflitante visão do Peru.

Aos 40 anos, a serem completados em 2011, o Yuyachkani prima por desbravar novos suportes e formas nutrindo-se de sua memória, ou seja, do próprio eixo constitutivo de sua linguagem e de sua convicção ideológica que o distingue profundamente na paisagem teatral da América do Sul. A expressão quéchua de batismo significa “estoy pensando, estoy recordando”. Assistir aos seus espetáculos é percorrer a história do país. El Último Ensayo exibe um arco de fatos nacionais do século 20 em torno da identidade, do exotismo estrangeiro por causa da ascendência inca, das relações de poder. Ao mesmo tempo em que são essas figuras, os sete atores e atrizes são eles mesmos em cena, em suas precariedades humanas.

De pouco valeria o esforço de concepção dos criadores do La Candelaria e do Yuyachkani se eles não levassem em conta o diálogo com o espectador – olhar para dentro traz o risco de ensimesmar-se. O pensamento político dos grupos tem a ver com esse papel destinado ao público, um ambiente de convivência que instaura o questionamento sobre tudo que a cena narra, um exercício permanente de distanciamento.

O paralelo La Candelaria/Yuyachkani é apenas um recorte de um panorama entretecido por várias linhas de pesquisa, inclusive entre as gerações mais recentes, como as dos encenadores e diretores Daniel Veronese (cofundador do Grupo El Periférico de Objetos), argentino, e Guillermo Calderón (Grupo Teatro en el Blanco), chileno, cujos trabalhos o Porto Alegre em Cena já teve o privilégio de acolhê-los. Assim, o seminário proposto pelo Ói Nóis atende às demandas do universo das artes em contaminação, um fluxo contínuo em dança, teatro, poesia, vídeo, música, artes plásticas e outras conjugações com atalhos para a performance, a intervenção, a instalação, a web e demais sintonias emergentes e urgentes.

* Jornalista e pesquisador, editor do site www.teatrojornal.com.br


SERVIÇO:

Seminário Teatro, Performance e Política

De hoje a sexta-feira, sempre às 20h, na Terreira da Tribo (Rua Santos Dumont, 1.186, fone 51 3286-5720), em Porto Alegre, com entrada franca

Hoje (30/11)
Palestra Panorama do Teatro Político na América Latina, com Silvana Garcia (pesquisadora e professora da USP) e Valmir Santos (jornalista e crítico teatral)

Quarta-feira (1º/12)
Palestra O Corpo Ausente (Performance Política), com Miguel Rubio Zapata (fundador e diretor do grupo Yuyachkani, do Peru) e mediação de Silvana Garcia

Quinta-feira (02/12)
Palestra Cenários Liminares – Teatralidades, Performance e Política, com Ileana Diéguez Caballero (pesquisadora e professora da Universidade Autônoma Metropolitana, do México) e mediação de Valmir Santos

Sexta-feira (03/12)
Lançamento da revista de teatro Cavalo Louco nº 9 (edição especial em comemoração aos 10 anos da Escola de Teatro Popular da Terreira da Tribo) e do livro Processo Colaborativo e Experiências de Companhias Teatrais Brasileiras (Hucitec), de Stela Fischer, com bate-papo com grupos de teatro de Porto Alegre (mediação de Maria Amélia Gimmler Netto)

Opinião: "Hybris", do Falos & Stercus

24 de novembro de 2010 1


Foto Tadeu Vilani


[Comentário publicado hoje em ZH sobre o novo espetáculo do Falos & Stercus. As fotos de cena que ilustram este post são do colega Tadeu Vilani.]

Teatro de sensações

Fábio Prikladnicki

Existem dois tipos de terapeutas: aqueles que pagamos para ouvir que estamos sempre certos e aqueles que não aceitariam nosso dinheiro se não fosse para dizer justamente o que não estamos dispostos a ouvir. O grupo Falos & Stercus faz pelo teatro algo parecido com esse segundo tipo de terapeuta. Enquanto alguns realizam pesquisa de satisfação de público na saída das peças, o Falos brinca de provocar. Convida o público para um prédio no Hipódromo do Cristal (de sábado a segunda, até 13 de dezembro), em Porto Alegre, com a única certeza do imprevisto.

Hybris é o primeiro espetáculo com o elenco completo desde Mithologias do Clã (1998, remontado outras vezes). Nesse meio-tempo, algumas coisas mudaram no panorama crítico. Se antes se poderia alegar que não havia elementos satisfatórios para analisar esse tipo de proposta, hoje temos rótulos aos quais nos apegamos de modo fácil demais. Em vez de abrir a discussão, ela é encerrada antes mesmo de começar.

Estreado no sábado (20), o espetáculo traz, de certa forma, um paradoxo. O pavilhão ocupado pelo grupo é um dos espaços mais amplos que eles já precisaram dominar, uma empreitada ousada. Por outro lado, depois de uma busca por uma síntese entre linguagens como teatro, dança, circo e técnicas de aventura (como escalada e rappel), o grupo realiza, em Hybris, uma espécie de análise, com os elementos mais distinguíveis: aos atores cabe, principalmente, atuar; às bailarinas convidadas (são quatro, incluindo a coreógrafa Aline Karpinski), dançar, mesmo que esta divisão não esteja clara o tempo todo.

Também há um enredo que pode ser mais ou menos identificado no texto do diretor Marcelo Restori, marcando um retorno ao diálogo, estrutura dramática por excelência. Logo no início, Caliban (reescrita do personagem de A Tempestade, de Shakespeare, interpretado por Fábio Cunha) estupra a filha (Bia Noy). O episódio gera desdobramentos em que aparecem um homem religioso que se oferece para vingar a menina (Fábio Rangel), a mãe com quem ela tem uma relação conflituosa (Carla Cassapo), um rapaz apaixonado (Jeremias Lopes), Caliban quando criança (Fredericco Restori, ator de 12 anos) e um personagem com ares de pastor (Alexandre Vargas) que, a certa altura, declama o célebre solilóquio de Hamlet. Em uma performance mais abstrata, Luciana Paz agrega, também, a tarefa de conduzir o público pelos espaços.

Mais do que portadores de uma psicologia, os personagens representam arquétipos, visões de mundo. Nesse aspecto, os melhores momentos são aqueles em que o texto deixa de aspirar a uma pretensa Grande Filosofia (“Cansei de ser um mero coadjuvante nessa sociedade do espetáculo”) e aposta na micropolítica do dia a dia (“Pessoas egoístas demais deveriam ser proibidas de terem filhos”).

Os episódios são pontuados por performances que se aproximam de um teatro ritual, como no momento em que os atores conduzem as bailarinas nuas para abraçar pessoas do público, em busca de reconforto. No dia da estreia, enquanto muitos ficavam imóveis, outros retribuíram o abraço.

Estes momentos são estimulados também pelo cenário de Luiz Marasca, com painéis móveis que jogam com o público. No terceiro andar, elásticos presos do teto ao chão criam um verdadeiro labirinto – mas, justamente pela riqueza de possibilidades, esta parece ser uma parte subaproveitada cenicamente. Em uma boa sacada na cena final, os painéis do piso térreo empurram as pessoas para o centro do espaço, ilustrando uma das grandes metáforas do espetáculo.

Ainda há desafios para o Falos & Stercus, como integrar de forma mais orgânica alguns dos elementos que, do ponto de vista técnico, já dominam: a sequência em que atores e bailarinas se penduram em uma corda de rappel, representação do gozo, demora a dar lugar à cena seguinte, perdendo aos poucos a função cênica e restando técnica pura. Além disso, a complexidade do espaço, domado pela cenografia e pela pertinente trilha sonora, não obtém efeito igualmente criativo no que diz respeito à iluminação. Mas são anotações periféricas. Em Hybris, o grupo apresenta um espetáculo do qual – assim como em seus melhores trabalhos – se sai com vontade de assistir de novo.


Foto Tadeu Vilani



Foto Tadeu Vilani



Foto Tadeu Vilani



Foto Tadeu Vilani


Antes da estreia de "Hybris"

23 de novembro de 2010 0


Foto Diego Vara


O fotógrafo de ZH, Diego Vara, fez um belo ensaio para a matéria de capa do Segundo Caderno do sábado passado (20/11) sobre Hybris, novo espetáculo do Falos & Stercus, que estreou naquele dia.

Além da foto publicada (abaixo), aqui vão outras imagens, feitas à luz do pôr do sol, no pavilhão do Hipódromo do Cristal, em Porto Alegre, onde a peça é encenada.

Novidades amanhã aqui no blog.


Foto Diego Vara



Foto Diego Vara



Foto Diego Vara


Encenando os sonetos de Shakespeare

04 de novembro de 2010 1


Shakespeares Sonette / Foto Lesley Leslie-Spinks


[Depois de uma pequena pausa para hibernação, o Quarta Parede está de volta. Boas-vindas mais uma vez e não reparem na bagunça.]

Aproveitando o lançamento do livro Sonetos de Shakespeare – Faça Você Mesmo (ed. Objetiva), organizado por Jorge Furtado e Liziane Kuglang, que incentiva a tradução como forma de popularizar os versos do velho Will, vale a pena mencionar outra tradução — para o palco.

Robert Wilson (que assinou a montagem de Happy Days, de Bekett, no Porto Alegre Em Cena deste ano) estreou, em abril de 2009, em Berlim, o espetáculo Shakespeares Sonette. Foi uma parceria com o cantor e compositor Rufus Wainwright, que musicou 24 dos 154 sonetos do poeta.

A peça foi apresentada no Berliner Ensemble, o célebre teatro de Bertolt Brecht, com um elenco travestido: os atores interpretam personagens femininas e vice-versa. Inge Keller, uma das maiores atrizes alemãs, faz o papel de Shakespeare. A montagem terá novas apresentações na França, nos dias 22 e 23 deste mês, no Festival de Outono da Normandia.

Destaque não apenas para o espetáculo visual que Wilson cria, mas também para a música de Wainwright — às vezes minimalista e um tanto melancólica. Pelo despojamento e pela beleza, sua versão do Soneto 29 é minha preferida até agora. No disco All Days Are Nights – Songs For Lulu, lançado este ano, ele incluiu versões piano e voz para os Sonetos 43, 20 e 10.

Outra hora vale desenvolver uma reflexão sobre como o mundo anglófono aparentemente reinterpreta seus grandes textos com certa desenvoltura, enquanto nós, brasileiros (latino-americanos em geral?), muitas vezes ficamos presos às mesmas formas de ler os clássicos, como se fossem mais intocáveis do que… Shakespeare, por exemplo.

Assista a alguns trechos: apresentação dos personagens, Soneto 20 e Soneto 29.


Ute Lemper: "Penso que sempre gostei mais de cantar"

16 de agosto de 2010 0

Do caderno Cultura de ZH deste sábado (14/08), conversa do titular deste blog com a artista alemã.

Ute Lemper, 47 anos, é sinônimo de moderna música alemã no mundo inteiro. Nos anos 1970, enquanto a Alemanha ainda patinava no impasse da divisão do pós- guerra, na relação ambígua com o passado nazista e na busca de uma identidade no contexto europeu, Ute soube resgatar o que considerava mais significativo na arte do passado – a música dos cabarets berlinenses dos anos 1920 – e refundi-lo com os ventos da contracultura americana, da chanson francesa e do que hoje se chama world music.

Residente nos Estados Unidos, com o marido e três filhos, ela comentou por telefone com Zero Hora, em inglês, o show O Último Tango em Berlim, que fará em Porto Alegre em setembro como parte da programação do 17º Porto Alegre Em Cena. A seguir, uma síntese da entrevista:

Zero Hora – A senhora é uma artista completa, que atua, dança e canta em filmes e musicais, além de pintar. Planejou esse rumo para sua carreira ou foi uma casualidade?
Ute Lemper -
Não foi casualidade. A formação em dança, música e atuação dramática foi um traço muito precoce. Quando era adolescente, gostava de dançar, tinha aulas de dança todos os dias, tinha afinidade com balê e dança moderna. Ao mesmo tempo, cantava em bandas de rock e de jazz e interpretava pequenos papéis no teatro. Basicamente, eu era uma performer nessas três dimensões desde muito cedo. Ao longo de 25 anos de vida profissional, tive diferentes capítulos. Às vezes faço mais dança. Certamente, quando eu era mais nova, trabalhei com Maurice Béjart e outros coreógrafos clássicos, mas nunca quis realmente ser apenas uma bailarina. Penso que sempre gostei mais de cantar. Quero dizer que, para mim, a forma mais interessante de me expressar, a minha melhor qualidade, é cantar. Quando estou cantando, posso expressar histórias que são contadas, uso meu corpo como um instrumento. Não tenho três dimensões iguais. Sou, de fato, uma cantora.

ZH – Seu show em Porto Alegre se chama The Last Tango in Berlin (O Último Tango em Berlim). Poderia falar sobre o repertório?
Ute -
É um título muito simbólico. The Last Tango in Berlin também significa o último tango antes da ascensão dos nazistas. O repertório é o dos anos 1920, da República de Weimar, de compositores como Kurt Weill, Bertolt Brecht, como Tango Ballad (de Weill) e outras canções. Também explorarei o tango argentino, que reflete a história de muitos alemães que foram para a Argentina e depois voltaram para Berlim. Amo a música de Astor Piazzolla. Ou seja, vamos de Berlim a Paris, a Nova York, a Buenos Aires e voltamos a Berlim. Há também a chanson francesa de Jacques Brel e Édith Piaf.

ZH – Marlene Dietrich foi uma grande influência em seu estilo e em suas performances. Como a senhora lida com essa influência? Como a senhora evita ser uma segunda Marlene?
Ute –
Minha vida é muito diferente da dela. Ela era uma estrela de cinema, as épocas são diferentes. Ela não era uma cantora extraordinária, mas podia atuar através das canções. Eu sou uma profissional da música, e Marlene Dietrich não era, era mais uma diva. Essa é uma imagem sintomática. Eu sou uma pessoa muito de hoje, não interpreto apenas canções históricas, faço ligações com os acontecimentos contemporâneos e apresento músicas de minha própria autoria. Tenho uma dimensão muito contemporânea. Sou uma criatura privada, sou comum, não sou definitivamente uma estrela de cinema, levo uma vida bastante normal, sou muito ocupada. O que faço no palco é interpretar um papel. É uma missão para mim manter essa música (o repertório de The Last Tango in Berlin) viva e levá-la às novas gerações. Não é preciso ser um dinossauro para trazer essa música de volta à vida e dar-lhe uma dimensão contemporânea. (Pigarreia.) São canções muito dramáticas, de grandes cidades contemporâneas, de Berlim, de Paris ou de Buenos Aires, que falam de solidão, de violência, da impossibilidade de se fazer conexões, das pessoas isoladas nos grandes centros. Essas canções refletem tudo isso, inclusive em suas dimensões contemporâneas.

ZH – Em seu último show em Porto Alegre, há cinco anos, a senhora incluiu duas canções, uma em hebraico e outra em árabe. Há uma dimensão política na sua escolha de repertório?
Ute -
Sim, às vezes canto essas canções em shows especiais. Também canto música russa e do leste da Europa. Muitos dos compositores que canto são judeus alemães, da República de Weimar. Mas há também uma canção muito bela de prece islâmica, que fala de quebrar todas as barreiras, o sonho da religião de se conectar ao outro pelo amor. É um belo posicionamento político, não no sentido estrito, não é sobre a Palestina e Israel e o mundo. É especialmente um ponto de vista humanista.

ZH – A senhora acredita que a música pode, em algum sentido, mudar ou ajudar a mudar a realidade?
Ute -
Não, não acredito. Você pode mudar pessoas abrindo seus corações, abrindo suas mentes, fazendo-as prestar atenção em certas coisas. Num show, o que você pode fazer é envolver as pessoas emocionalmente e fazê-las apreciar a música.

ZH – A Alemanha, seu país natal, está muito presente em seu trabalho, considerando que a senhora vive em Nova York. Certa vez, a senhora disse que não gostava de ser alemã. O que a Alemanha significa para a senhora hoje?
Ute -
Não, não me importo em ser alemã, mas é complicado ser alemã, certo? É mais fácil hoje, mas quando eu amadureci, nos anos 1970, era muito complicado, em razão do passado, do Holocausto e do nazismo. A história da Alemanha é aterrorizante. É diferente hoje, o país está muito organizado, mostrando traços solidários, apoiando todos, de todas as religiões e raças. Politicamente, é um país muito correto. Mas não gosto de viver lá porque sou muito conhecida. Sou muito mais livre ao viver em Nova York, posso caminhar pelas ruas sem ser reconhecida. É mais relaxado aqui.

Zero Hora – A senhora tem três filhos. Tem tempo para ficar com eles?
Ute -
Sim, muito, todos os dias. Não vou a festas, não gosto de outras atividades sociais à noite, utilizo esse tempo para mim. Como Marcel Proust disse: à la recherche du temps perdu. Cuido de minha família, levo meus filhos à escola, apanho-os na escola, volto para trabalhar mais um pouco até as 18h, 19h, meu marido me ajuda muito. Estamos sempre em casa à noite. Sou meu próprio patrão. Planejo meus cronogramas, não tenho empresário. Decido onde vou estar. Não estou sempre viajando. Sempre faço minhas turnês durante o ano escolar, e, nas férias, viajo com toda a família para a Espanha, para a Alemanha, por três semanas. Vamos à praia, toda aquela programação de férias.

ZH – A senhora parou de atuar em 2003. Por quê?
Ute -
Não decidi parar de filmar. Parei em 2005 para ter meu filho, mas não surgiu outra oportunidade. Minha agenda está lotada por shows. Se você filma, fica fora por dois meses, longe da família.

ZH – Em 2003, a senhora gravou pela primeira vez canções de sua própria autoria. Por que a senhora decidiu compor a esta altura?
Ute –
Depois de 2000, há 10 anos, estava cantando com Elvis Costello e senti algo estranho sobre cantar músicas históricas. Senti vontade de cantar algo meu. Me senti muito confortável em sentar ao piano, compor música e sentir o mundo naturalmente reconectado a mim. É algo muito satisfatório.

ZH – Alguma decisão sobre novos projetos?
Ute -
Escolhi 20 poemas de vários livros do escritor Charles Bukowski e coloquei músicas neles. Não sei se vou fazer uma turnê. É preciso uma audiência muito intelectual para isso, certo? (Risos.) Tenho planos de gravar esse trabalho.

ZH – A senhora tem planos de cantar ou gravar repertório latino-americano?
Ute -
Além do tango? Tenho intimidade com o espanhol, mas o português… Eu adoraria gravar música brasileira, que é fantástica, mas o idioma é muito difícil para mim. Você não pode fazer tudo, você sabe. (Risos.) O tango é uma forma muito filosófica, muito profunda e torturada de música, parecido com a chanson française. Tenho mais relação com o tango. A música brasileira tem belas harmonias, mas, talvez, afinal… (Hesita.) Nunca se deve dizer nunca, comecei a cantar tangos há dois anos e talvez possa um dia gravar repertório brasileiro.

Soco na consciência

06 de agosto de 2010 0

Do Segundo Caderno de ZH de hoje:

Um dos dramaturgos americanos mais encenados das últimas décadas, Sam Shepard voltou de novo aos holofotes em seu país no início deste ano com o lançamento de um livro de contos e poemas, Day out of Days, e com três montagens de peças apenas em Nova York.

É um contraste com a modesta recepção de que desfruta no Brasil, onde é por vezes mais conhecido como ator de filmes como Os Eleitos (1983) ou roteirista (Paris, Texas, de 1984).

Mesmo o idealizador da montagem de Shepard que estreia em curta temporada hoje (06/08) em Porto Alegre, o ator Malvino Salvador (foto acima), desconhecia sua produção dramatúrgica até 2005, quando leu cinco peças por indicação de um amigo. Mente Mentira (A Lie of the Mind, no título original) foi a que mais o impressionou. Encenada pela primeira vez em 1985, com quatro horas de duração, foi reduzida a duas horas na versão que chega à Capital.

– Não quisemos adaptar as diversas referências à cultura americana para a realidade brasileira. Estamos acostumados a assistir a filmes de lá e sabemos o que uma bandeira dos EUA representa quando aparece em cena – afirma o ator.

Na peça, Jake (Malvino Salvador) e a esposa Beth (Fernanda Machado) se separam depois que ele a agride, voltando para as casas de suas famílias. Jake estreita laços com Lorraine (Malu Valle) – sua mãe viúva –, a irmã Sally (Keli Freitas) e o irmão Frankie (Augusto Zacchi), enquanto Beth reencontra seus pais – Baylor (José Carlos Machado) e Meg (Roza Grobman) – e o irmão Mike (Marcos Martins).

É uma viagem dramática e irônica por identidades que se despedaçam junto com as relações familiares. Beth é a única que de fato sofre de um problema mental, mas aí reside uma sutileza, diz o diretor Paulo de Moraes, da Armazém Cia. de Teatro (RJ), que esteve em maio na Capital com as excelentes Toda Nudez Será Castigada e Inveja dos Anjos:

– Beth não consegue distinguir verdade e mentira, mas no final é a pessoa mais sensata da família, enquanto os que são aparentemente estruturados vivem em um mundo particular.

Característica de Sam Shepard, a peça mantém a ação em um registro que desliza entre o realismo e a abstração, nas palavras do diretor, que comenta:

– Como os modelos tradicionais do masculino estão sendo esvaziados, Shepard propõe um novo homem, desvinculado da figura machista que conhecemos, que se tornou ícone da cultura americana na imagem do sujeito de chapéu, mantenedor.

Para a montagem, Moraes buscou uma dinâmica ágil, sem longas pausas, “como uma mente em ebulição constante”. A cenografia mistura intencionalmente o espaço das casas das duas famílias, reforçando o deslocamento das identidades dos personagens, enquanto a luz e as cores remetem à solidão das pinturas do também americano Edward Hopper (1882 – 1967). É a tradução do sentimento de quem capta o exato momento em que o mundo desmorona como um soco na consciência.

MENTE MENTIRA
Texto
de Sam Shepard, direção de Paulo de Moraes.
Com Malvino Salvador, Fernanda Machado, Malu Valle, Keli Freitas, Augusto Zacchi, José Carlos Machado, Roza Grobman e Marcos Martins.
Quando: hoje (06/08) e sábado (07/08), às 21h, e domingo (08/08), às 18h. Duração:120 minutos. Classificação: 14 anos.
Onde: Theatro São Pedro (Praça Marechal Deodoro, s/ nº), fone (51) 3227-5100.
Onde estacionar: no Estacionamento Multipalco, a R$ 10.
Ingressos: R$ 30 (galerias), R$ 50 (camarote lateral), R$ 60 (camarote central e cadeiras extras) e R$ 70 (plateia).
Desconto de 50% para titular do Clube do Assinante nos cem primeiros ingressos e de 10% nos demais.
À venda na bilheteria do teatro (seg. a sex. das 13h às 18h30min ou às 21h em noite de espetáculo, sáb. das 15h às 21h e dom. das 15h às 18h) ou por telentrega: (51) 8401-0555 e (51) 3299-0800 (seg. a sex. das 9h às 19h).

Saindo de cartaz

22 de julho de 2010 0

Este final de semana é a última oportunidade para conferir seis espetáculos que encerram temporada em Porto Alegre.

Dá pra começar a se programar a partir de hoje (quinta-feira), com Bodas de Sangue (de quinta a domingo no Teatro Renascença), de Federico García Lorca, com direção de Luciano Alabarse e Luiz Paulo Vasconcellos. Com grande elenco e trechos de dança flamenca, estreou este ano e foi uma das melhores peças apresentadas no primeiro semestre.

A partir de amanhã (sexta-feira) é a vez de Milkshakespeare (até domingo no Teatro de Arena), dirigido por Camilo de Lélis, fantasia do dramaturgo Júlio Zanotta Vieira sobre a figura de William Stanley, que teria sido o verdadeiro autor das peças de Shakespeare. A curiosidade é que o primeiro ato é encenado ao modo clássico, pomposo, e o segundo de forma “contemporânea”, ágil.

Também de sexta a domingo está em cartaz, no Instituto Goethe, Copelia.ponto.com (foto acima), espetáculo de dança contemporânea que é uma releitura do balé Coppélia, de Arthur Saint-Léon (de 1870), por sua vez inspirado no conto O Homem de Areia, do escritor alemão E.T.A. Hoffmann.

Sábado e domingo são os últimos dias de A Serpente (na sala 302 da Usina do Gasômetro), da Cia. Teatrofídico, montagem que estreou no ano passado da última peça de Nelson Rodrigues, escrita em 1978. Em um único ato, trata de um triângulo amoroso formado por duas irmãs e um homem, casado com uma delas. A direção é de Eduardo Kraemer.

Espetáculo que também estreou no ano passado, Larissa Não Mora mais Aqui (sábado e domingo no Teatro da Hebraica) tem direção e texto de Júlio Conte e mostra as histórias e os conflitos dos moradores de um prédio que veem as cercanias serem tomadas por favelas.

Por fim, a peça Dramen des Alltags (assim mesmo, com título em alemão, que significa “dramas do cotidiano”), do grupo Neelic, propõe reflexões sobre situações do dia a dia, valendo-se da interação com o público. A direção é de Desirée Pessoa, e a peça será apresentada na sala 504 da Usina do Gasômetro.

Confira os serviços dos espetáculos:

A SERPENTE
Sala 302 da Usina do Gasômetro (João Goulart, 551), fone: (51) 3289-8100.
Sábado e domingo, às 20h.
Ingressos a R$ 10. Desconto de 50% para estudantes, idosos e classe artística.

BODAS DE SANGUE
Teatro Renascença (Erico Verissimo, 307), fone: (51) 3221-6622.
De quinta a sábado, às 21h, e domingo, às 18h.
Ingressos a R$ 40. Desconto de 50% para idosos, classe artística e Clube do Assinante.

COPELIA.PONTO.COM
Instituto Goethe (24 de Outubro, 112), fone: (51) 2118-7800.
De sexta a domingo, às 20h.
Ingressos a R$ 10. Desconto de 50% para estudantes, idosos, classe artística e Clube do Assinante.

DRAMEN DES ALLTAGS
Sala 504 da Usina do Gasômetro (João Goulart, 551), fone: (51) 3289-8100.
Sábado e domingo, às 20h.
Ingressos a R$ 15. Desconto de 50% para estudantes, idosos e classe artística.

LARISSA NÃO MORA MAIS AQUI
Teatro Hebraica (Gen. João Telles, 508), fone: (51) 3012-3855.
Sábado, às 20h, e domingo, às 19h.
Ingressos a R$ 15. Desconto de 50% para estudantes, idosos, classe artística e Clube do Assinante.

MILKSHAKESPEARE
Teatro de Arena (Borges de Medeiros, 835), fone: (51) 3226-0242.
De sexta a domingo, às 20h.
Ingressos a R$ 20 (R$ 10 para estudantes, idosos, classe artística e Clube do Assinante).

Ensaio sobre a crueldade

23 de junho de 2010 0

Do Segundo Caderno de ZH:

De atores boa-pinta o mundo está cheio. Thiago Lacerda agora quer mais. Garante que o espetáculo que traz à Capital a partir de amanhã, em curta temporada no Theatro São Pedro, é um dos projetos mais significativos de seus 11 anos de carreira – senão o mais. Uma experiência “única e fundamental”:

– Calígula me levou a um lugar aonde nunca tinha ido. A pesquisa técnica me tornou um ator mais interessante do que eu era antes – afirma a ZH, por telefone.

Se resta alguma dúvida, ele adverte:

– Quem for assistir esperando o ator de novela não vai encontrar.

Thiago deixou momentaneamente de lado os papéis de mocinho para incorporar o personagem-título da peça de Albert Camus (1913 – 1960), escrita em 1938 e revista antes de sua estreia mundial em 1945. O escritor francês nascido na Argélia inspirou-se no clássico da historiografia A Vida dos 12 Césares, de Suetônio, biógrafo que viveu no primeiro século da Era Cristã.

Calígula é tido como o mais insano e perverso dos imperadores de Roma. A peça começa com a morte de sua irmã Drusilla, com quem mantinha uma relação incestuosa. Em busca de um sentido para a existência, à maneira de um Hamlet às avessas, é acometido pelas mais extravagantes obsessões – como a abertura de um bordel público com as esposas dos nobres, concedendo uma ordem do mérito para os frequentadores mais assíduos.

Finalizado no pós-guerra, o texto de Camus pode ser entendido, entre outras leituras possíveis, como uma crítica ao absurdo dos regimes autoritários.

A equipe da montagem paulista que estreou no final de 2008, dirigida por Gabriel Villela, está preocupada com a imagem deixada pelo filme Calígula (1979), de Tinto Brass – produção de alta voltagem erótica que não foi baseada na peça de Camus, mas se tornou a mais famigerada referência artística sobre o imperador romano. Em comum entre os dois – filme e peça -, apenas o título. O diretor afirma que a herança maldita dificultou a captação de recursos para o espetáculo. Segundo ele, muitas empresas não quiseram associar suas marcas ao tema:

– Tinto Brass filmou um cult pornográfico que, de certa maneira, maculou o nome da peça – diz Villela.

Mais conhecido por seus romances e ensaios, como O Estrangeiro (que teve adaptação teatral com Guilherme Leme e direção de Vera Holtz apresentada na Capital em março), Camus tem em Calígula, no entanto, uma obra de maturidade.

A encenação opta por uma concepção próxima do teatro épico de Brecht, que valoriza a palavra: segundo o diretor, os atores relatam o texto mais do que o interpretam. Um procedimento brechtiano também é utilizado na composição do protagonista. Villela afirma que buscou referência na figura histórica de Garibaldi, que o próprio Thiago Lacerda interpretou na minissérie A Casa das Sete Mulheres, em 2003.

– Thiago tem o physique du rôle (o tipo físico do papel) dos pampas. A tendência que se tem é associar Garibaldi a um herói romântico, mas ele também foi um mercenário. Propus que o Thiago trouxesse ao Calígula essa dialética – explica o diretor.

CALÍGULA
Texto de Albert Camus, direção de Gabriel Villela.
Com Thiago Lacerda e elenco.
De quinta a sábado, às 21h, e domingo, às 18h. Duração: 100 minutos. Classificação: 14 anos.
Theatro São Pedro (Praça Marechal Deodoro, s/nº), fone (51) 3227-5100.
Onde estacionar: no Estacionamento Multipalco (entrada pela Rua Riachuelo), a R$ 10.
Ingressos: R$ 40 (plateia), R$ 35 (camarote central e cadeiras extras), R$ 30 (camarote lateral) e R$ 25 (galerias). Desconto de 10% para titular do Clube do Assinante.

O novo começo de Eva Schul

20 de junho de 2010 0

Neste fim de semana foi encerrada a temporada de Dar Carne à Memória II, segundo espetáculo do projeto de mesmo nome em homenagem à trajetória da coreógrafa e professora Eva Schul, uma das pioneiras da dança moderna no Rio Grande do Sul. A primeira realização do projeto (foto acima, com a coreografia Catch ou Como Segurar um Instante) esteve em cartaz no final de maio.

Mesmo com o fim da temporada, as atividades continuam. Uma equipe está encarregada de resgatar e digitalizar materiais que documentam a carreira de Eva. Na entrevista abaixo, concedida na ocasião desta matéria publicada em ZH, a coreógrafa fala sobre o projeto e avalia a situação da dança no Rio Grande do Sul.


Zero Hora – Quais foram as motivações do projeto Dar Carne à Memória?
Eva Schul -
Em 2008, coreografei um solo para a (bailarina) Mônica Dantas e ela me convidou para entrar em cena junto. Transformamos o solo em um duo e fizemos o espetáculo Tatuagens. Aí veio a ideia de fazer um projeto de memória, já que eu tenho um trabalho coreográfico há tanto tempo. Inscrevemos no Klauss Vianna (prêmio de dança da Funarte) e foi aprovado. Algumas dessas memórias, como a coreografia Um Berro Gaúcho, dos anos 1970, tiveram que ser recriadas. Eu tinha o roteiro, a trilha, mas não tinha registro das apresentações. Então, as coreografias foram recriadas sob um olhar atual. Um Berro Gaúcho foi um marco não só da minha carreira. Foi uma grande revolução na dança gaúcha.

ZH – Como foi tua volta para Porto Alegre, na dédada de 1990?
Eva –
Eu tinha sido uma das criadoras do Curso Superior de Dança da Faculdade de Artes do Paraná. Certa vez encontrei o pessoal do Ieacen (Instituto Estadual de Artes Cênicas do RS) em Salvador. Me convidaram para fazer uma assessoria em um projeto semelhante em Porto Alegre. Era 1991. Voltei para cá e montamos o Centro de Formatividade em Dança. Quando o projeto acabou, os alunos ficaram perdidos, então vieram para minha mão. Assim surgiu a Ânima Cia de Dança. O primeiro elenco contou com gente madura, que já tinha dançado comigo nos anos 1970 no grupo Mudança, onde surgiu muita gente de talento no panorama gaúcho.

ZH – Como estão as atividades do Ânima?
Eva –
Quando formo bailarinos, formo criadores. Eles começam a desenvolver sua própria linguagem. Então, também exportei muitos talentos. Alguns foram embora para grandes companhias. Muitos foram para o exterior e outros para companhias estáveis do país, como a Cena 11 (SC) ou o Tápias (RJ). O grupo estava parado há três anos, talvez mais. Então, era hora de criar um novo elenco. Agora, no primeiro espetáculo do projeto Dar Carne à Memória, tivemos bailarinos muito jovens com os quais pretendo retomar as atividades do Ânima a partir de agora. São bailarinos que estão mais ou menos começando sua vida profissional.

ZH – No segundo espetáculo do projeto (que esteve em cartaz até este domingo, 20/6, na Capital), o elenco é de bailarinos experientes, que já trabalharam contigo.
Eva -
Nesta segunda etapa é diferente. Não são obras completas, mas trechos extraídos de obras grandes. O elenco tem bailarinos que fizeram o primeiro Ânima, ao longo dos 20 anos da companhia. Todos também são criadores. O espetáculo pode ser definido como uma apropriação das obras em novos corpos.

ZH – Podes comentar a terceira e última parte do projeto?
Eva -
É uma grande documentação da minha trajetória que talvez mais tarde seja transformada em livro, exposição ou DVD. Por enquanto, estamos reunindo todo material que podemos: depoimentos, gravações, matérias. Tem um pessoal encarregado de digitalizar tudo. Conseguimos inclusive mobilizar pessoas que participaram do Mudança. O Nico Nicolaiewsky, que foi bailarino do grupo, deu um depoimento. Sempre privilegiei trilhas de compositores gaúchos. No primeiro espetáculo – Dar Carne à Memória I – , duas das três obras eram com trilha original. Teve Antonio Villeroy, Ricardo Severo, Celau Moreira, Toneco da Costa, Carlinhos Hartlieb, Nico Fagundes, Gunther Andreas.

ZH – Olhando retrospectivamente, tu separas a tua trajetória em fases?
Eva -
Com certeza. Quando comecei, nos anos 1960 e 70, era um trabalho experimental, laboratorial, em cima de ideias. Depois tive uma fase de dança moderna, em que usávamos muito mais a linguagem corporal do que o trabalho conceitual. Mais tarde, foi virando dança contemporânea, com influência da minha experiência no exterior (aos 16 anos, ela se formou em balé e foi morar nos EUA). Fui aprimorando o estilo e o conteúdo. Quando voltei dos Estados Unidos, reorganizei meu trabalho de uma maneira adequada à cultura e aos corpos brasileiros. Aí já estava experimentando com o pós-modernismo e a dança contemporânea.

ZH – Essa mudança estava retratada no espetáculo Dar Carne à Memória I?
Eva -
Sim. As obras dos anos 1980, 90 e 2000 são muito diferentes. A primeira é dança-teatro, mais naturalista. A segunda tem um pouco de pop art, uma linguagem mais midiática. Nos anos 2000, já se enxerga que é o corpo que está falando. O que me interessa é o corpo como linguagem, e não como narrativa. Ele é conceito, não está a serviço de nenhuma história. Hoje trabalho muito em cima de Adorno (Theodor Adorno, filósofo alemão).

ZH – Já chegaste aonde querias em tua carreira?
Eva -
Acho que a gente nunca termina. Quando o artista acha que já fez tudo é porque não fez nada. Sou uma eterna insatisfeita. Aos 62 anos, só sei que não sei nada. É justamente essa ânsia pela busca de algo mais, de estar sempre tentando atingir o outro com as tuas ideias, que faz a obra ser mais do que simplesmente diversão ou lazer. Estou sempre indo além, nunca me acomodo. Fora isso, aprendi que ninguém tem uma única verdade. Utilizo o que os outros têm a me dar. Os bailarinos que trabalham comigo sempre se colocam dentro da obra.

ZH – Como tu avalias a evolução da dança no RS desde que começaste?
Eva -
Quando comecei, eu era a única. Estava no meio do deserto. Hoje, tenho meus pares e digo com muito orgulho que os bailarinos que saíram do Ânima têm trabalhos de grande valor. A dança gaúcha sempre teve altos e baixos, sempre dependeu de ter espaço e alguma verba. Sem isso, a dança não se sustenta. O bailarino precisa estar o tempo todo se aprimorando. Uma montagem é muito cara. É difícil se manter sem subsídios. E tem que pesquisar por muito tempo.

ZH – Essa situação tem mudado?
Eva -
Não estamos mal. Mas infelizmente não temos qualquer política cultural que facilite a vida dessa gente. Fiquei 20 anos fora do Brasil. Aqui é muito sacrificado. A gente volta por amor. O que me surpreendeu foi principalmente a falta de políticas culturais. É impossível chegarmos algum dia ao nível da França, por exemplo. Os dançarinos de lá conseguem viver razoavelmente só fazendo pesquisa.

Sandra Dani volta às origens

08 de junho de 2010 0

Na peça, a personagem não tem nome, é apenas a Mãe do Noivo. Nos créditos do elenco, ela é Sandra Dani, 62 anos, que completará 40 décadas de teatro no ano que vem. Uma das atrizes mais experientes em atividade no Rio Grande do Sul, esteve em cartaz recentemente em Bodas de Sangue, no Theatro São Pedro, em Porto Alegre. Com texto de Federico García Lorca e direção conjunta de Luciano Alabarse e Luiz Paulo Vasconcellos, a peça voltará no dia 15 de julho, no Teatro Renascença, também na Capital.

Em entrevista ao blog Quarta Parede por telefone, esta descendente de espanhóis relembra memórias pessoais envolvendo a cultura daquele país (presente no espetáculo do início ao fim), explica como é seu trabalho de composição de personagem e critica produções teatrais que flertam com a linguagem da televisão. “É um equívoco tremendo”, afirma.

***

Zero Hora – De que maneira Bodas de Sangue te remete a memórias familiares?
Sandra Dani -
Minha mãe era filha de espanhóis e eu tive influência dessa cultura desde cedo, principalmente da língua. Em casa, minha mãe costumava falar em espanhol conosco. Quando pequena, eu  lia Pato Donald em espanhol, por exemplo. Uma prima minha com mais idade recebia as revistas da Argentina e depois mandava para a gente, que morava em Osório (RS), onde meu pai era médico.

ZH – As referências que aparecem na peça – a dança, a música – te remetem a determinados episódios pessoais?
Sandra -
Remetem aos Natais, aos aniversários, encontros de família. Os espanhóis são pessoas muito musicais, que falam alto, como os italianos. Meu pai era filho de italianos, mas a Itália nunca esteve presente na minha vida. O contato com a familia da minha mãe sempre foi mais intenso. Para se ter uma ideia, até os nove anos eu só conhecia música espanhola – canções folclóricas que minha avó ensinava, por exemplo. Como eu gostava muito de cantar – e me incentivavam muito – minha mãe me levou ao Clube do Guri (programa da rádio Farroupilha veiculado nas décadas de 1950 e 60) . Lá, o pianista me disse: “Tens a voz muito bonita. Quem sabe cantas uma canção brasileira?”. Tive um choque, fiquei envergonhada por não saber. Mas nunca me senti espanhola. Nasci aqui, tenho orgulho de ser brasileira.

ZH – Que características procuraste ressaltar na personagem, a mãe do noivo?
Sandra -
Acho que o perfil dessa mãe é heróico. Trágico e heróico. Ela lembra grandes figuras femininas da história, a exemplo de La Pasionaria, uma figura política espanhola, e Rosa Luxemburgo. São mulheres que têm uma retidão de caráter e que foram endurecidas pela vida. A minha personagem explode de paixão internamente, mas externamente é fria, porque a vida provocou isso. Ela teve que lidar com a morte do marido e de um dos filhos, criando o outro filho sozinha e enfrentando uma sociedade que era muito preconceituosa com a mulher – e muito religiosa, cheia de tabus.

ZH – O que pesquisaste para compor a personagem?
Sandra -
Li muito a respeito disso. Tenho em casa a primeira adaptação cinematográfica da peça, de 1938. Também tenho o filme do (diretor Carlos) Saura, mas nele não existe a figura da mãe. O drama é centrado na relação da noiva com o noivo e o Leonardo. O que não gosto é de ver montagens recentes. Para mim, isso interfere um pouco na composição da personagem. Cada um tem sua maneira de trabalhar, e eu gosto de ficar mais livre na minha concepção. Às vezes, tu encontras em outra montagem uma interpretação tão boa, tão poderosa, que depois fica difícil de se desligar daquela imagem.

ZH – Depois de tantos anos de trabalho com Luciano Alabarse e Luiz Paulo Vasconcellos, o ambiente de trabalho adquire um clima familiar?
Sandra -
Eu me formei em teatro com o Luiz Paulo, fui aluna dele (hoje são casados). O que se cria é uma situação de confiança. Quanto ao Luciano, ele sabe como me pedir as coisas, e eu sei o que ele pretende. Ele me dá espaço para criar, porque gosto de mostrar minha concepção da personagem – afinada com o diretor, obviamente. Nessa montagem ocorre também outro aspecto enriquecedor. Alguns são atores há muito tempo, como eu, que completarei 40 anos de teatro no ano que vem, ou a Lurdes (Eloy). E tem uma parte do elenco que é muito jovem. Há um crescimento de parte a parte, uma troca de energia, como o que ocorre com o Fabrizio (Gorziza), que faz o meu filho na peça. A cena com ele teve uma sincronia muito boa.

ZH – Como avalias a presença do público no teatro no Rio Grande do Sul?
Sandra -
O pessoal se queixa que tem diminuído, mas eu não sei. O que acho é que o povo do Rio Grande do Sul, e o porto-alegrense especificamente, precisa valorizar mais o trabalho de teatro feito aqui. Temos excelentes diretores, atores, músicos, técnicos, iluminadores, cenógrafos, figurinistas. Trabalhos belíssimos. E as pessoas às vezes preferem ver um trabalho que vem de fora simplesmente porque é feito por atores da Globo – que às vezes pode ser um bom espetáculo, mas na maioria das vezes não é assim. Não preciso nem dizer os nomes daqui que estão trabalhando no Rio e em São Paulo, pessoas que foram em busca de um mercado maior. Se o público se voltasse também para o teatro local, estaria favorecendo esse aspecto de mercado.

ZH – O teatro está perdendo espaço para outras formas de arte e entretenimento?
Sandra -
Cada segmento tem seu espaço. Mas as pessoas levam uma vida cada vez mais atribulada, às vezes têm dois, três empregos. Muitas vezes preferem tirar um DVD na locadora ou assistir a peças de teatro mais leves. Existem grupos que buscam trazer a linguagem da televisão para o teatro, achando que assim podem atrair um número maior de pessoas. É um equívoco tremendo, porque cada veículo tem sua linguagem.  Penso o contrário: que é justamente valorizando a linguagem do teatro que vamos fazer com que nosso trabalho se imponha.

ZH – Quais papéis da dramaturgia que ainda queres interpretar?
Sandra -
São vários, mas gostaria muitíssimo de fazer Esperando Godot, do Beckett. Está na minha perspectiva. Outra personagem que amaria interpretar é a Mãe Coragem (da peça Mãe Coragem e Seus Filhos) do Brecht.

Adeus a Kazuo Ohno (1906 - 2010)

03 de junho de 2010 0

Kazuo Ohno foi um dos principais nomes do butô, gênero que une dança e teatro criado no Japão na década de 1950, sob influência (entre outras referências) da dança de vanguarda europeia.

O dançarino e coreógrafo, que morreu nesta terça-feira (1º/06) aos 103 anos, estreou nos palcos aos 43. Teve influência de Tatsumi Hijikata, outro nome fundador do butô, responsável pelo espetáculo Cores Proibidas (baseado no romance de Yukio Mishima), de 1959, um marco do gênero.

Ohno obteve repercussão em 1977, com Admirando La Argentina, homenagem à dançarina espanhola Antonia Mercé (que tinha esse apelido), cujo trabalho o inspirou a se iniciar no mundo da arte. Foi a partir da década de 1980 que ele ficou célebre, dançando sempre caracterizado como mulher e maquiado com pó-de-arroz.

Kazuo Ohno esteve três vezes no Brasil, em 1986, 1992 e 1997. Sua influência nas artes cênicas por aqui pode ser vista, por exemplo, no histórico espetáculo Macunaíma (1978), de Antunes Filho. O Lume Teatro, de Campinas, é uma das companhias que têm no butô uma referência constante.

Confira nos vídeos abaixo por que Kazuo Ohno fará falta.


A preparação para as bodas de Lorca

27 de maio de 2010 0

Bodas de Sangue, de Federico García Lorca, estreia hoje no Theatro São Pedro, em Porto Alegre. A direção do espetáculo é de Luciano Alabarse e Luiz Paulo Vasconcellos.

O elenco de 15 atores e duas bailarinas é capitaneado pela atriz Sandra Dani, no papel da mãe do noivo (interpretado por Fabrizio Gorziza). Também estão no elenco Sissi Venturin (noiva), Marcelo Adams (Leonardo), Ida Celina (sogra de Leonardo/Morte) e Mauro Soares (pai da noiva).

Confira a íntegra das entrevistas feitas por e-mail com cada um dos diretores para a reportagem publicada hoje em ZH.

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Luciano Alabarse: “Que ninguém espere o que eu já fiz, porque gosto de desafios”

Zero Hora – O espetáculo é representativo da tua trajetória de encenar grandes textos. Depois de passar, nos últimos anos, por Shakespeare e pela tragédia grega, por que decidiste encenar Lorca? Como chegaste a ele nesse momento?

Luciano Alabarse - Há muitos anos, sem pressa, eu e Sandra Dani, ambos espanhóis até a medula, alimentamos a ideia de encenar Bodas de Sangue. Nesse percurso, me apaixonei pelos textos do Thomas Bernhard e pelas tragédias gregas. O meu caminho teatral passa pelos grandes textos, sim. Em algum momento, eu me ressentia de Porto Alegre ter pouco acesso a essas obras, realidade que mudou consideravelmente nos últimos anos. Lorca é um dos mais representativos autores do século 20, pouquíssimo montado no Brasil. O período de ensaios foi muito bom, sentir o grupo inteiro se apaixonando por essa obra tão intensa e bem construída. O próprio autor chama o texto de “tragédia”. Uma tragédia andaluza, com muita música e bailado flamenco. Mas são essas histórias que ainda movem a história do próprio teatro. Eu apenas traduzo meu amor pelos dramaturgos realmente relevantes, ao encená-los e oferecê-los ao grande público.

ZH – Preferes que o público vá aos teus espetáculos sabendo o que esperar ou achas importante surpreender o público em algum aspecto?

Alabarse – Para mim, uma encenação é constituída de dois grandes componentes: o primeiro, de dentro para fora, tudo aquilo que o texto parece mostrar e exigir de um diretor; o segundo, de fora para dentro, a contribuição desse olhar singular de direção para o texto escolhido. Estudo sozinho, meses sem conta, antes de me reunir com o elenco de uma montagem. Quando começo meus estudos, procuro estar esvaziado da experiência anterior. Em princípio, eu mesmo gosto de me surpreender. Que ninguém espere o que eu já fiz, porque gosto de desafios, de autores novos. Mas é claro, há pressupostos dos quais não abro mão: uma produção impecável, um elenco talentoso, um teatro que chegue de forma intensa à plateia. Isso são metas comuns ao meu trabalho. Mas cada encenação tem sua linguagem e seu formato. Nesse sentido, deixo o texto me levar.

ZH – Como avalias a importância da peça no teatro moderno?

Alabarse – Imagino o impacto do texto de Lorca sobre o conservadorismo do teatro espanhol da década de 30. Ele queria experimentar linguagens através de sua obra, não se satisfazia com os modelos pré-estabelecidos. Bodas de Sangue foi um retumbante êxito teatral, catapultando seu autor à fama internacional. Ali estão misturadas cenas de um realismo seco, as primeiras da obra, com cenas de intensa alegoria. Tudo o que ele chamou de “terceiro ato” foge deliberamente desse realismo. Personagens como a Lua e a Morte não são somente metáforas. E, no que se refere à linguagem, misturou cenas em que os personagens se expressam através da prosa realista com outras de linguagem poética, ele mesmo um poeta de mão cheia.

ZH – Como foi o processo de tradução do texto e quais as dificuldades com que te deparaste? Por exemplo, como resolveste a transição entre trechos em prosa e poesia?

Alabarse - Eu mesmo assinei a tradução, porque o Caio Fernando Abreu me legou essa preocupação, que o teatro devia ser feito para atores falarem em voz alta. E muitas traduções são feitas para serem lidas em silêncio na sala de leitura. Não é a primeira vez que assino uma adaptação, nem será a última. E traduzir do espanhol pra mim foi muito tranquilo. Sempre que o texto foi escrito com rimas poéticas, isso está lá, com personagens mais humildes se expressando assim. A linguagem da Lua é “rebuscada”, ou seja, mais bem construída. Mas isso está no texto original. Eu realmente quero que as pessoas tenham a sensação de estar (re)conhecendo um texto de Federico García Lorca.

ZH – Gostarias de acrescentar outras considerações?

Alabarse – Gostaria de dizer que é muito prazeroso a parceria com Luiz Paulo. Ele costuma brincar que temos “idênticas diferenças” no método de dirigir e que, juntos, somos a fome e a vontade de comer. Eu gosto dessa imagem. E que já temos nosso próximo projeto juntos. Logo depois do (Porto Alegre) Em Cena (Alabarse é coordenador do festival), vou dirigi-lo, ele como ator somente, na minha adaptação para O Animal Agonizante, do Philip Roth. A dupla, já vista junta tantas vezes, continuará junta. E isso é uma grande alegria para mim.

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Luiz Paulo Vasconcellos: “Eu acredito numa dramaturgia que corresponda aos anseios do tempo em que está sendo representada”

Zero Hora – No elenco do espetáculo estão atores tarimbados e jovens talentos. Quais foram os desafios para tornar as atuações homogêneas?

Luiz Paulo Vasconcellos - O ator tarimbado resolve os problemas a partir da técnica que a experiência lhe dá. O jovem talento resolve a partir do entusiasmo. O negócio é propor a conciliação desses extremos, um pouquinho do que cada um possui, no outro. Às vezes, tenho que ensinar ao jovem talento a acentuar corretamente uma palavra dita no auge da empolgação. Às vezes, tenho que sugerir ao ator tarimbado que esqueça as regras e se entregue à cena com um pouquinho mais de empolgação. E assim, aplainando arestas, vamos compondo uma linguagem que junta alhos com bugalhos, técnica e espontaneidade, fome com vontade de comer.

ZH – Como defines o tom que vocês procuraram imprimir às atuações – por exemplo, tendo em vista a presença de personagens não realistas, como a Lua e a Morte?

Vasconcellos – O tom quem propôs foi o Lorca, esse andaluz incorrigível e verdadeiramente maravilhoso. Coube a nós – principalmente ao Luciano – captar esse tom, percebê-lo, defini-lo e repassá-lo aos atores e à equipe que participa da criação do espetáculo. Quanto aos personagens alegóricos – Lua e Morte -, o jeito é humanizá-los – mesmo que falem em tonalidades distintas, em verso, às vezes por metáforas. Em todo caso, não podemos esquecer a influência que outros artistas do grupo exerceram sobre Lorca – Dalí, Buñuel e outros loucos sublimes responsáveis pelo surrealismo. O resultado é essa simbiose do trágico, do onírico e do poético.

ZH – Um trabalho como Bodas de Sangue, que é um dos grandes textos do teatro moderno, reforça a crença de vocês na dramaturgia, especialmente em um tempo em que o texto está sendo colocado de lado por diversas iniciativas teatrais?

Vasconcellos – Eu acredito na dramaturgia. Não nesta ou naquela dramaturgia, mas numa dramaturgia que corresponda aos anseios do tempo em que está sendo representada. Por isso dirigi Beckett, Shakespeare, Eurípides, Ivo Bender, Tchekhov, Nelson Rodrigues e tantos outros autores tão diferentes entre si e tão necessários no momento em que foram encenados. Hoje, alguns pretendem substituir a representação do drama pelo exercício performático, a ficção pelo virtuosismo, a ação cênica pela presença física do ator. O que não deixa de ser um equívoco monumental. Alguém vai a um concerto para ver se o pianista é gordo, estrábico ou prognata? Não. Vai para ouvir música, que é uma organização arbitrária e rigorosa de sons. Portanto, continuo preferindo a música e o drama, independentemente de gêneros e estilos.

BODAS DE SANGUE
Texto de Federico García Lorca, direção de Luciano Alabarse e Luiz Paulo Vasconcellos.
De quinta a sábado, às 21h, e domingo, às 18h. Duração: 120 minutos. Temporada até 6 de junho.
Theatro São Pedro (Praça Marechal Deodoro, s/nº), fone (51) 3227-5100.
Onde estacionar: no Estacionamento Multipalco (Rua Riachuelo, 1.089), a R$ 10.
Ingressos: R$ 50 (plateia), R$ 30 (camarote central e cadeiras extras),
R$ 20 (camarote lateral) e R$ 10 (galerias). Desconto de 30% para titular e acompanhante do Clube do Assinante ZH e de 50% para a classe artística.