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As borboletas também amam

18 de fevereiro de 2008 1

Antes que o verão se vá de vez (o horário de verão já se foi), reproduzo aqui uma crônica que escrevi para o blog Histórias da Estação, da página de nossa Revista de Verão. Não é exatamente sobre um lugar, e não recomendo a ninguém fazer o mesmo. A história, de verdade, se passou em CAPÃO DA CANOA, praia que pode até não ser das mais bonitas, mas com certeza está na memória de boa parte dos gaúchos. Lá vai:


Como costuma acontecer, faria calor naquele verão de 1980. Eu, que raramente ia à praia, estava eufórica com o que estava por vir, além do tradicional calor: com uns 20 colegas da turma do colégio, um casal de pais e duas freiras nos acompanhando, passaria 10 dias numa casa alugada em Imbé. Vinte e poucas pessoas numa única casa! Dá para imaginar?! Melhor ainda: teríamos um ônibus à nossa disposição, para os passeios que quiséssemos fazer, de dia ou à noite. Um motorista à disposição! É claro que tudo exigiria muita democracia, votações e assembléias para cada nova incursão. E a aprovação dos pais e das freiras, é claro. Nada que um bando de adolescentes não conseguisse contornar.

Foram dias de muita praia, pescarias à beira-mar, sorvete no final da tarde, saídas para dançar e namoricos inocentes. E muita praia, pescarias à beira-mar, sorvete no final da tarde, saídas para dançar e namoricos inocentes… Ou seja, a coisa estava ficando monótona. Um dia, alguém teve a brilhante idéia: por que não ir ao cinema?! Boa idéia, aprovaram os pais e as freiras, um programa cultural em pleno veraneio.

Não sei se Capão da Canoa, que àquela altura sequer estava emancipada, tinha cinema – até hoje ir ao cinema no litoral para enfrentar dias de chuva não é coisa fácil. O certo é que alguém teve mais uma brilhante idéia: por que não irmos, todos juntos, pagando mais barato, ao drive-in de Capão, o único existente por aquelas bandas?

Bom, drive-in, como se sabe, é cinema que se assiste de dentro do carro, o som fica numa freqüência de FM ou há caixas de som espalhadas, ao ar livre. Um ônibus não é exatamente um carro, e até hoje não lembro como convencemos a bilheteria a liberar a entrada do ônibus no dito cujo. O certo é que entramos. Causando estranheza aos demais espectadores, que não eram muitos e pouco interessados no filme estavam.

Drive-in, afinal, sempre foi lugar para namorar, ainda mais naquele final de anos 70, quando os costumes não eram tão liberais. Era um lugar pra namorar e ainda dava para chegar em casa e inventar a desculpa de que se estava no cinema, com a vantagem de poder até contar algum trechinho do filme.

Lá estávamos nós, 20 e poucos adolescentes, um casal de pais e duas freiras, num drive-in, dentro de um ônibus. E começa o filme: As Borboletas Também Amam. Um drama erótico estrelado por Angelina Muniz (alguém lembra dela?), dirigido pelo croata J.B. Tanko, um diretor que filmou o bombardeio de Belgrado quando a antiga Iugoslávia foi invadida pela Alemanha, se instalou no Rio após a II Guerra Mundial e dirigiu, nos anos 70 e 80, 11 dos filmes de Os Trapalhões.

Os adolescentes, todos nós, disputávamos as janelas de um lado do ônibus – é claro, só um lado conseguia ficar virado para a tela – para assistir As Borboletas Também Amam. Os pais e as freiras, na outra fileira do ônibus, contavam os minutos para acabar a tortura do “programa cultural”. Ir embora àquela altura, nem pensar.

Talvez tenha sido a sessão de cinema mais inesquecível de minha vida, embora não lembre absolutamente nada do filme, a não ser o título e o nome da Angelina Muniz, que então fazia sucesso na TV.

Talvez tenha sido o verão mais inesquecível da minha vida. Provavelmente foi um dos mais inesquecíveis do dono daquele drive-in: à saída, como fugia aos padrões dos carros que freqüentavam o local, o ônibus arrancou o pórtico, deixando um rastro de letras pelo chão.

Postado por Rosane Tremea

Comentários (1)

  • Rafael Aiolfi diz: 19 de fevereiro de 2008

    Rosane…
    Já passou da meia-noite e continuo aqui mergulhado no teu blog. Eu só fiquei imaginando uma coisa: quando começa o momento Itália?????
    Um bju

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