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Domingo visto da janela

22 de março de 2010 0

Passei o domingo recarregando as energias e vivendo o que meu bairro tem de bom. Reconheço (e agradeço) o privilégio de acordar e poder assistir a um desfile de velas da janela da sala, saindo do Clube Jangadeiros, umas poucas quadras abaixo. Não sei se era uma regata oficial ou se eram habituais velejadores singrando o Guaíba num domingo de sol. O espetáculo, de qualquer forma, alegrou o início do meu dia, que seguiu com caminhada pela redondeza, DVDs e leitura (Julie&Julia).

Encerrei o domingo também nos arredores, na Leckerhaus, confeitaria que abriu há pouco tempo bem pertinho de casa e eu ainda não conhecia. É um lugar agradável, com atendimento atencioso e de onde saem as tradicionais tortas com cobertura de marzipã que eu adoro.

O domingo cheirou a poesia, mas eu não saberia traduzi-lo. Busquei referências, e a que mais se aproximou do meu domingo foi esta abaixo. Tudo para desejar um bom início de semana.

Poema de Domingo
Aos domingos as ruas estão desertas
e parecem mais largas.
Ausentaram-se os homens à procura
de outros novos cansaços que os descansem.
Seu livre arbítrio alegremente os força
a fazerem o mesmo que fizeram
os outros que foram fazer o que eles fazem.

E assim as ruas ficaram mais largas,
o ar mais limpo, o sol mais descoberto.
Ficaram os bêbados com mais espaço para trocarem as pernas
e espetarem o ventre e alargarem os braços
no amplexo de amor que só eles conhecem.
O olhar aberto às largas perspectivas
difunde-se e trespassa
os sucessivos, transparentes planos.

Um cão vadio sem pressas e sem medos
fareja o contentor tombado no passeio.


É domingo.
E aos domingos as árvores crescem na cidade,
e os pássaros, julgando-se no campo, desfazem-se a cantar empoleirados nelas.
Tudo volta ao princípio.
E ao princípio o lixo do contentor cheira ao estrume das vacas
e o asfalto da rua corre sem sobressaltos por entre as pedras
levando consigo a imagem das flores amarelas do tojo,
enquanto o transeunte,
no deslumbramento do encontro inesperado,
eleva a mão e acena
para o passeio fronteiro onde não vai ninguém.

António Gedeão, Novos Poemas Póstumos, 1990 (in Poesia Completa, Lisboa, Edições João Sá da Costa, 2a. Ed., 1997, p. 188).

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