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Viagem a Casca, ao passado, ao presente, ao futuro...

07 de março de 2014 10

Não ia escrever sobre isso, achei particular demais. Mas ao relatar meu domingo para um amigo, ele se entusiasmou com a ideia e me disse: “Tu precisa contar isso”.

Precisar, precisar, não precisa, mas lá vai:

Pela primeira vez, participei de um desses encontros de famílias que se tornaram tradicionais no Rio Grande do Sul, especialmente reunindo descendentes de imigrantes italianos e alemães.

Fotos arquivo pessoal

Fotos arquivo pessoal

Ainda que eu cultive muito interesse pelas raízes e as tenha buscado em arquivos históricos e de pesquisadores da imigração, confesso um certo preconceito. Temia que fossem como alguns encontros de antigas turmas, muitas vezes promovidos para reafirmar a superioridade de uns sobre outros, para exibir o sucesso profissional, para observações ainda menos nobres como as de que o colega, ele, sim, envelheceu, engordou…

Me despi dos preconceitos e fui. Facilitou o fato de o quarto encontro da família ter sido marcado para uma cidade relativamente próxima da minha, Casca, entre o norte e a serra gaúchos. E de ter encontrado parceria em dois de meus irmãos e de minha cunhada. E da mobilização de muitos primos queridos.

A programação lembrava a de um congresso, com horários definidos para cada parte do evento, iniciando com um café da manhãs às 7h (!).

Na chegada ao CTG local, que nos abrigou, uma mesa de recepção calorosa e organizada, com etiquetas (não eram crachás, mas etiquetas adesivas mesmo) nos identificando, com nome, a cidade de onde vínhamos e nossa ascendência (no meu caso, meu bisavô Antonio).

nonno

Na mesa seguinte, o café, que achávamos que já teria se acabado àquela altura… Nada. Havia ali biscoitos e grostolis feitos em casa, salames, queijos, pães, bolos, copas, frutas, café…

Na sequência, a recepção às ‘comitivas’ - eram cerca de 300 pessoas, vindas de todo o Rio Grande do Sul, de Santa Catarina, do Paraná, de Mato Grosso – por uma ‘prima’, nossa anfitriã, que tinha não só o dom da organização, mas o da palavra.

E então partimos, em carreata, até a bonita igreja local para uma missa, que seria rezada por nosso primo padre – toda família italiana tem um padre para chamar de seu -, dirigida por uma prima, cantada por outros primos… Uma igreja lotada por gente muito próxima e por gente que nem sabia da existência um do outro, apesar de compartilhar do mesmo sobrenome. E ainda que respeitando a liturgia, ela foi toda permeada pela história dos nossos antepassados, pela nossa própria história. Gente simples, muitos rostos e mãos marcados pelo trabalho na terra, emocionados ao ouvir falar dos seus e de si.

E voltamos de novo em carreata, depois de posar para a tradicional foto para a posteridade (alguém saberá um dia, quem é quem, naquelas cabeças de alfinete?!).

tremeas

Ao retornarmos para o salão onde seria o almoço, parecia que fadas e duendes haviam passado por ali, com as mesas postas – enfeitadas com flores, copos personalizados, mensagens impressas com capricho -, os aperitivos, o bufê… Tudo muito simples, mas elaborado com muito capricho.

Uma mistura de culturas e tradições, de hábitos e costumes, como o macarrão (que nós chamamos de bígoli) tal qual era feito por minha mãe, minha nonna e minha bisnonna, com o churrasco incorporado por quem um dia se abancou por aqui.

E, a cada volta no bufê, a descoberta de um parente distante do qual se tinha ouvido falar, alguém que havíamos adicionado no Facebook, outro que queria saber quem era só de olhar o nome, mais um que buscava desvendar de onde tinha vindo afinal, muitas semelhanças em rostos desconhecidos.

E para depois do almoço ainda estavam reservadas emoções como as homenagens ao descendente mais velho presente (meu querido tio Adolfo, irmão de meu pai, aos quase 86 anos) e ao mais novo (um bebê fofo de cinco meses, cujo nome, confesso, esqueci, naquela confusão de sentimentos) e como uma videoconferência com a porção italiana da família reunida, naquele momento, do outro lado do Atlântico.

No alto de uma montanha da pequena Lentiai, no norte da Itália, os Tremea de lá também se juntaram (pela diferença do fuso, nós para o almoço, eles para o jantar) e fizeram um encontro tão animado como o nosso.

italia

Estavam ali organizados, no restaurante de nossos queridos primos Angelo, Daniela e Massimo (com a participação fundamental da jovem guarda no comando das ferramentas tecnológicas para que tudo desse certo, Alessandro e Francesco), sentados em fileiras, com o coral ao fundo que cantou músicas do folclore repetidas pelos imigrantes na chegada à terra nova e que são entoadas até hoje.

Quando eles começaram a cantar, meu primo e afilhado Renan observou, com propriedade, que algo aconteceu na travessia do Atlântico: os Tremea de lá são afinadíssimos; nós, de cá, o máximo que fazemos é uma gritaria animada. E nesse encontro de vozes, afinadas ou não, houve risos e choro de genuína emoção. Encontros inimaginados por nossos bisavós, que nunca mais retornaram, alguns sequer cartas trocaram com quem deixaram para trás na Itália. Inimaginados também por nossos pais, que sequer conheceram a Itália, mas falavam de lá como se tivessem desembarcado havia pouco e nem desconfiavam que um dia fosse possível tal tipo de comunicação.

Me despi dos preconceitos dos encontros de família – e das festas de escola também! – e até já me incluí no próximo, daqui a dois anos, quando ficará ao encargo de meu irmão, eleito “presidente” do quinto evento, e de meus primos promover uma nova reunião.

Saímos dali felizes.

Comentários (10)

  • Marilia diz: 7 de março de 2014

    Que barato!
    Eu fiz a minha primeira comunhão nessa igreja da foto!!!!!
    Minha família também se reúne anualmente e é muiiiiita gente na foto oficial.
    Parabéns!

  • Bia Lopes diz: 8 de março de 2014

    Teu amigo tinha razão, Rosane, em te incentivar a escrever e compartilhar conosco as emoções de um encontro tão especial. Um texto maravilhoso e um presente pra quem te lê.

  • Renan Tremea diz: 8 de março de 2014

    Perdemos a afinação mas permanecemos com a organização para filas e pontualidade!

    Foi um encontro familiar excelente e espero encontrar mais “parentes” no próximo encontro.

  • Idione diz: 8 de março de 2014

    Lindo texto Rosane. Confesso que não pude conter as lágrimas. Emocionante. Lamentei muito não poder estar presente por motivos pessoais, mas me organizarei com bastante antecedência para participar do próximo.
    Bjos

  • Luciana diz: 9 de março de 2014

    Que linda viagem `a historia da tua familia, que é também a do nosso Rio Grande. Merece muito ser compartilhada. Bjs, Ro.

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