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Mais um "artigueto": Poesia para Tempos Difíceis

11 de março de 2015 0

Este foi publicado por mim na edição impressa do último domingo, e resolvi compartilhar por aqui também:

Tenho inveja de palavras e expressões, e uma das minhas preferidas é “poesia numa hora dessas!?”, do Verissimo, o Luis Fernando.

É que, sempre que as coisas estão difíceis, não consigo pensar em outra coisa que não nisso, em poesia, o que, no meu cartesianismo, não parece adequado.

Quando as coisas estão difíceis, não penso em poesia, assim, de uma forma genérica. Penso num pedaço de poema.

Ele me foi apresentado há muitos anos por um amigo querido que agora, quando pedi para recuperá- lo, declarou:

– Eu queria ter sido a Cora Coralina.

E quem não queria?

A poetisa goiana, preocupada mais com o conteúdo do que com a forma, somava sabedoria e simplicidade – talvez fosse simples por ser sábia (ou seria sábia por ser simples?!).

Antes de publicar seu primeiro livro, aos 76 anos, viveu muito.

Com as palavras, a doceira de profissão convivia desde cedo. Mas demorou para se dedicar de verdade a elas.

Foi aos 50, quando adotou esse pseudônimo que parecia ter nascido com ela, que desencantou.

Um tempo e uma transformação que definiu como “a perda do medo”. Amadureceu e viveu até os 95 anos produzindo pequenas joias.

É uma delas que me conforta quando as coisas estão difíceis.

Esse trecho de O Longínquo Cantar do Carro fala assim:

“Dizia meu avô:

Quando as coisas ficam ruins,

é sinal de que o bom está perto.

O ruim está sempre abrindo passagem para o bom.

O errado traz muita experiência

e o bom traz às vezes confusão:

“Nem sempre assim nem nunca pior”.

Meu avô conhecia todas as verdades e gastava filosofia de quem muito viveu e aprendeu.”

Se lhe soaram apenas conformistas as palavras, peço que volte e leia de novo.

Quando as coisas estão difíceis, eu acredito, como na poesia de Cora Coralina, que o errado traz muita experiência e que o ruim haverá de abrir uma passagem para o bom.

Pode me chamar de Poliana, a incorrigível otimista de Eleanor Porter.

Mas o que eu queria mesmo, como o meu amigo, era ser Cora Coralina, e achar poesia, assim, para uma hora dessas.

 

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