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Que vengan (los argentinos!)

09 de janeiro de 2016 0

Croniqueta publicada no ZH Noite e reproduzida aqui:

Naquele verão de 1985, tive meu primeiro contato com turistas argentinos.

Talvez tenha sido mesmo a primeira vez em que vi e falei com um argentino, considerando que até então não havia cruzado a fronteira com o país hermano e, na minha cidade, não morava nenhum deles.

Nem o Mercosul existia na época (ele só viraria algo que nunca viria a ser em 1991). Aquela, portanto, seria uma temporada de estreias. Acampar era novidade. E, naquele camping remoto de Florianópolis, nossa barraca era uma ilha cercada de argentinos por todos os lados.

Meu espanhol, como diria uma amiga, era um espanhol de final de semana. Na fila do banheiro, niñas e jovencitas tentavam falar comigo, e eu ficava lá, só sorrindo, fazendo de conta que tinha entendido. Me esforçava, mas não entendia.

Eles nos cercavam também com suas camisas xadrezes, suas bandanas, suas Coca-Colas com Fernet, seus alfajores e empanadas – adorei as empanadas, adoro até hoje (a melhor de todas, comi em um restaurante de Puerto Iguazú!).

O camping remoto não era propício às compras, mas eu sabia que, na passada por Porto Alegre, naquela temporada, eles haviam consagrado a expressão “dá-me dos”.

Anos mais tarde, no início do verão de 2001, me vi numa situação semelhante (o que não havia mais eram aquelas novidades todas: eu já conhecia Buenos Aires, já falava espanhol com alguma fluência, já tinha comido mais empanadas do que deveria): hospedada numa pousada de Canasvieiras, era de novo a única entre muitos argentinos.

Eles lotavam tudo, do café da manhã à praia semiprivada, e falavam e gesticulavam e jogavam frisbee na praia. Para quem buscava sossego, como eu, era um pouco de barulho demais. Até que num dia daquele dezembro a pousada amanheceu estranhamente silenciosa. Eu estava sozinha.

Custei a saber por quê (hoje, eu descobriria em segundos, com um smartphone à mão). A crise econômica fez o governo argentino instituir o “corralito”, congelando os depósitos dos poupadores e estabelecendo limites semanais para a retirada de fundos. Assustados diante da incerteza, os argentinos dormiram na pousada e não amanheceram.

Neste janeiro de 2015, não está nos meus planos nenhuma praia catarinense, portanto a chance de viver situação parecida com a desses dois cortes em 30 (!) anos é pequena.

Eu os vejo nas estradas aqui no Rio Grande do Sul, alguns perdidos nas nossas mal sinalizadas entradas da Capital, um que outro em bares e restaurantes da cidade.

Mas me alegra vê-los de volta. E fico pensando: é uma pena que, cá e lá, nossa livre circulação de pessoas, prevista em acordos comerciais e diplomáticos, dependa de nossas debilitadas economias.

Que bom se fôssemos apenas turistas indo de um lado para o outro em vez de parecermos especuladores das fraquezas alheias.

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