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Princesas e batucada: Carnaval? Não, um funeral! Em Bali...

02 de setembro de 2013 0

Alex Anton, pela primeira vez, enviou uma colaboração para o blog.

Vieram texto, fotos e um recado, com um currículo resumido deste que parece ser um viajante inveterado.

Confira:

 

“Olá Rosane, tudo bem?

Curto muito o Recortes de Viagens e também sou apaixonado pela estrada! Sou de Florianópolis, mas moro no Exterior há mais de 8 anos. No caminho, fiz mestrado no Canadá, trabalhei na Suíça, na Indonésia, fiz MBA em Harvard, nos EUA, e já rodei por mais de 50 países! 

Retornarei ao Brasil em breve, e adoraria compartilhar algumas das minhas mais recentes experiências. Escrevo para o blog da Harvard Business Review Brasil e no meu próprio, o transforME. 

Uma sugestão de publicação no Recortes de Viagens é sobre uma recente experiência em Ubud, no coração de Bali, na Indonésia. Veja o texto e fotos abaixo – o que você acha? 

Se curtir, te mando mais detalhes depois.

Alex”

 

Alex A. Anton, arquivo pessoal

Alex A. Anton, arquivo pessoal

Princesas e batucada: Carnaval? Não, um funeral!

 

Batuque, sorrisos, mulheres bem vestidas, a impressão de que a cidade inteira parou e se concentrou no mesmo lugar para festejar alguma coisa importante. Muita organização e infraestrutura construída especialmente para o evento: plataformas decoradas com flores e enfeites locais, uma estátua gigantesca de um boi enfeitado e um ritual que começou pela manhã cedinho. Foi sorte, pura sorte, estar em Ubud, região central de Bali, durante um funeral de um membro da família real local.

 

O evento é um espetáculo de tradição, misticismo e cultura balinesa. É uma jornada de purificação e renovação da alma do falecido, a qual será liberada durante a cerimônia e voltará em breve, habitando o corpo de um novo membro da mesma família – geralmente um neto ou neta, segundo a tradição balinesa. Para os balineses, ninguém é 100% novo, todos carregamos elementos dos nossos antepassados em nossas almas, e por isso a morte por causas naturais é aceita sem dor ou sofrimento visíveis a nós, ocidentais.

 

A energia em frente ao templo onde o evento começou era incrível. Agora fiquei sabendo que o dia da cremação é o ápice de um ritual que se inicia às vezes meses antes. Como o falecido era um importante membro da sociedade local, seu corpo foi embalsamado e mantido no palácio real por boas semanas antes da cerimônia. Durante esse período, preces, visitas e oferendas ao corpo ocorriam com frequência. Até chá e café eram servidos diariamente (ao falecido), sendo que um pente, uma escova de dentes e um espelho também ficavam próximos ao corpo embalsamado.

 

Alex A. Anton, arquivo pessoal

Alex A. Anton, arquivo pessoal

Oficialmente, o evento público começou às 13h daquele sábado de sol. Chegamos antes, lá pelas 10 da manhã, e uma senhora elegantemente vestida chamou minha atenção. Fui perguntar se podia fotografá-la e uma boa conversa se iniciou. Ela falava um pouco de português e já havia visitado o Brasil, que dizia adorar. Depois de alguma troca de elogios aos nossos lugares natais, ela me confessa: “não diga pra ninguém, mas eu sou uma princesa por aqui”. Ah, o prazer de encontros inesperados, e a “festa” estava apenas começando.

Alex A. Anton, arquivo pessoal

Alex A. Anton, arquivo pessoal

Às 13h, mulheres vestidas com túnicas azuis abriam a procissão com oferendas diversas equilibradas na cabeça, homens com a vestimenta típica local as seguiam carregando oferendas maiores, como leitões inteiros assados; em seguida, vinha a banda, que tocava uma batucada contagiante, lembrando uma escola de samba. Por fim, membros da família e amigos íntimos carregavam o caixão. Detalhe: todos riam e festejavam, gritando algo inteligível de vez em quando. O caixão parou em frente à plataforma maior e foi levado até seu topo, onde foi amarrado com fitas e laços junto de mais oferendas. A estátua de boi que estava ali parada já começava a se mexer, sendo carregada por dezenas de homens da região. Rapidamente aquela plataforma gigantesca onde estava o caixão também se ergueu e passou a desfilar pela cidade, levada por aproximadamente 100 homens. Quem a guiava eram mulheres e familiares do falecido, que controlavam a procissão puxando as centenas de pessoas atrás por fitas de cetim amarradas na plataforma principal.

 

Alex A. Anton, arquivo pessoal

Alex A. Anton, arquivo pessoal

Alex A. Anton, arquivo pessoal

Alex A. Anton, arquivo pessoal

Alex A. Anton, arquivo pessoal

Alex A. Anton, arquivo pessoal

Nessa altura o trânsito havia parado e a cidade inteira acompanhava o ritual. O mais interessante foi correr junto àquela plaforma enorme: de vez em quando a equipe que puxava a procissão acelerava e saía correndo, trazendo todos atrás no mesmo ritmo. Fascinante. Divertido. Contagiante. A banda, sempre presente, corria logo atrás da plataforma. Deu pra suar bastante, e paramos em outro templo, onde mais gente e a estátua de boi aguardavam. Era o templo da cremação, e ali o corpo foi retirado do caixão que estava no alto da plataforma principal e levado até a estátua de boi que aguardava na parte central do templo. Com cuidado, o corpo foi deitado no “meio” do boi e mais oferendas e rituais se seguiram, sempre ao ritmo de muita batucada.

 

Alex A. Anton, arquivo pessoal

Alex A. Anton, arquivo pessoal

Alex A. Anton, arquivo pessoal

Alex A. Anton, arquivo pessoal

Finalmente, lá pelas 16h, com um ramo de mais de 200 varas de incenso em chama, a viúva inicia a cremação, acendendo o “boi” por baixo. A partir daí o fogo se espalhou rapidamente e, em segundos, o “boi” já se tornava irreconhecível. O corpo ficava numa estrutura protegida por metal, e seria cremado por mais três horas. O mais bonito, no entanto, era, por alguns segundos, enxergar como o povo local: ver o corpo queimando, e a alma voando, se libertando, para em breve retornar num corpo novo e são.

 

Alex A. Anton, arquivo pessoal

Alex A. Anton, arquivo pessoal