Não ia de avião nem de trem, não precisava de passagem e muito menos passaporte. A bagagem era reduzidíssima, o período, curto. Para viver minhas primeiras férias, percorria 11 quilômetros. Era a distância que separava a casa de meus pais da casa de meu avô, onde moravam meus tios Adélia e Adolfo (ela, irmã de minha mãe, ele, irmão de meu pai). Mas era uma viagem e tanto.
Olha o cenário! Essa é a segunda fase da casa de meus tios. Foto: Rosane Tremea
Minha tia Adélia morreu há 16 anos. Meu tio Adolfo completa 80 neste sábado, dia 26. E continua morando na casa da minha infância, das minhas primeiras férias.
É um patrimônio sentimental da família. Repare, na foto abaixo, no PORÃO DE PEDRA, típico das construções da colônia italiana. Cada uma das pedras foi carregada das terras de um vizinho até as do meu avô, em 1942, ano em que ele ergueu sobre o porão a casa de dois andares, em madeira. Meu tio Adolfo tinha 14 anos então.
Eu contava seis anos quando aconteceram minhas primeiras “viagens” de férias. Nesse mesmo ano, a parte de madeira da casa era substituída por outra de alvenaria, agora em um piso só. Em 2002, uma espécie de tornado derrubou a construção. A parte de cima, eu quero dizer, que o porão resistiu bravamente.
Repare no porão de pedra. Ele segue firme 66 anos depois. Foto: Rosane Tremea
Naquele tempo, o piso do porão ainda era de chão batido, para que ao caminhar ninguém atrapalhasse o repouso do vinho, explicava meu pai. Os barris de vinho (e os de grapa, uma tradição de meu avô Martin — ou Giuseppe, como descobrimos que se chamava muitos anos depois de morto – mantida por tio Adolfo) ficavam apoiados sobre estrados de madeira, salames e queijos vinham pendentes do teto.
Eu não agüentava mais de três dias na casa de meus tios, que eu sempre chorava e queria voltar para casa (hoje não choro mais, mas sempre quero voltar para casa!). Eu adorava, mas sentia muita saudade.
Não adiantava o que meus primos inventassem para me distrair. Nem nossos pequenos passeios entre a casa de tia Adélia e de tia Regina, cuja fronteira era marcada pelo capitel (a pequena capela de madeira da foto abaixo, também típica dos imigrantes), me consolavam.
Três dias eram o limite das minhas férias. Do tempo curto, conseguia milhares de histórias para contar. E lembranças que não se apagam.
Por isso reservo esse post, que não é sobre nenhuma atração turística nem contém dicas de viagem, para homenagear os 80 anos do tio Adolfo. Sua fortaleza. Sua coragem para manter de pé a família de seis filhos, mesmo sem tia Adélia, e a casa de minha infância, o lugar de minhas primeiras férias.
O capitel de Santo Antônio, marco entre as casas das tias Adélia e Regina. Foto: Rosane Tremea
O texto abaixo foi publicado numa das edições dos Contos de Oficina, resultado da Oficina de Criação Literária de Luiz Antonio de Assis Brasil. Misturando realidade e ficção, fala um pouco mais sobre a casa de meus tios e de minhas lembranças.
Tia Adélia
O carro vence a estradinha de chão com valentia. É o Ford ano 1949 que pertencia ao meu avô, agora dirigido com orgulho por meu tio. É ultrapassado por qualquer outro, mas tia Adélia vai de queixo bem erguido na carona. No banco de trás vou eu, tentando me equilibrar nas curvas. Do vidro traseiro, observo as nuvens de poeira e enxergo nelas formas de gente, de bichos, de objetos.
Todo ano, no verão, tia Adélia cumpre o ritual: entre os tantos sobrinhos, ela me escolhe para passar uns dias no casarão de pedra. Foi ali que meu avô começou a família, recém-chegado da Itália. Mesmo mais nova, tia Adélia parece gêmea de minha mãe. Posso matar minha saudade olhando para seus complacentes olhos azuis.
As pernas curtas são ágeis ao descer do carro, outro gesto incrivelmente parecido. O riso compassado, o jeito de falar, o cabelo curto. É tudo igual, observo.
Há uma diferença, porém. Minha mãe é rígida. Hora de comer, hora
de dormir, hora do banho. Com tia Adélia posso qualquer coisa. Durante anos até acreditei ser filha dela, como um de meus irmãos sempre insinuava. Eu e um dos primos nascemos com horas de diferença, minha mãe e minha tia ocupavam quartos lado a lado no hospital. Ela me trata melhor do que a seus filhos. Muito melhor do que minha mãe me trata, juro.
Tia Adélia fica comigo no quarto quando o gerador encerra nossas
brincadeiras e só a luz de velas ilumina meu medo do escuro. Ela também levanta no meio da noite quando o relógio trazido da Itália pelo avô bate as horas, me despertando de sonhos e pesadelos. Sempre choro, e em instantes ela está ao meu lado, compreensiva. Seus braços curtos e gordos me envolvem.
Pronto, bicho-papão não existe.
Quando acordo, tia Adélia já pôs a cozinha toda em movimento. Os primos mais velhos e o tio, alimentados com o café forte preparado por ela, estão no trabalho. Os pequenos ainda tomam o desjejum, as panelas fumegantes revelam o cardápio do almoço, mas mesmo assim ela tem tempo para me dar colo e me contar histórias.
Ela também não deixa que eu me afaste o dia inteiro, inventa brincadeiras no tanque enquanto lava roupa, improvisa jogos enquanto estende os lençóis brancos no varal, faz com que eu me divirta com as galinhas no pátio. A volta da casa é um parque de diversões criado por tia Adélia e por sua imaginação.
Ela me protege dos perigos e leva os braços curtos e gordos à cabeça, apavorada, quando me vê enfiada sob um forno, entre ninhos, ovos e
pintos recém-nascidos. Tia Adélia me tira dali à força. Minha pele e meus cabelos estão cobertos de quase invisíveis piolhos de galinha.
— Tua mãe me mata se sabe de uma coisa dessas — quase grita.
Nessa hora, minha tia diminui de tamanho. Como eu, ela também tem medo de minha mãe.
Postado por Rosane Tremea